LOGINSaio do gabinete do detetive com a sensação de que o meu mundo pode desabar a qualquer momento.Assim que desço as escadas, sinto novamente os olhares. Não são discretos, são diretos, avaliadores, julgadores.Caminho com a postura erguida, mas por dentro estou a desmoronar.As palavras do detetive ecoam na minha mente.Arthur William Carter.William…O nome que conheci primeiro, o estranho que me encantou.Continuo a andar até ao ponto onde a carruagem me deixou. Cada passo parece aproximar-me cada vez mais da verdade.Sinto-me tola, impulsiva, ingénua.Casei-me sem perguntar quem ele era, deixei que o coração falasse mais alto do que a prudência.Como pude?Quando tiver todas as informações, falarei abertamente com o meu marido… será que ainda o devo chamar assim?Só lhe direi a verdade quando tiver provas concretas.Fecho os olhos por um instante.Peço a Deus que ele não esteja a enganar-me.Não suportaria a sua traição, não depois de tudo o que vivemos, de todos os momentos. De tud
Acordo sentindo a preocupação pesar, sufocar-me. Arthur ainda dorme quando me levanto. Observo-o por alguns segundos, calmo, alheio ao peso que começa a instalar-se no meu peito. Não o acordo. Não quero justificar a minha saída. Se lhe disser que vou à cidade sozinha, tentará impedir-me. E eu preciso de respostas. Visto-me com simplicidade, o suficiente para não levantar suspeitas. Não peço ajuda a Lucy, para não a alarmar. Já faz muito tempo que não vou à cidade. Prefiro a calmaria dos meus campos, os meus jardins floridos, sem comentários desnecessários nem olhares constrangedores. Antes de sair da casa do capataz, olho uma última vez para Arthur. O cocheiro deixa-me na praça principal, e eu ordeno que volte dentro de uma hora. Assim que desço da carruagem, sinto os olhares sobre mim. Primeiro, apenas observam. Depois, cochicham. Por fim, afastam-se. Murmúrios. E a sensação de mal-estar que provoco quando passo. Caminho devagar, mantendo a postura erguida. Não darei a nin
O crepúsculo sempre foi o meu momento favorito do dia. A transição. O instante em que a luz é envolta na obscuridade da noite. Arthur está atrás de mim, deitado na relva, com os braços atrás da cabeça, a observar-me como se eu fosse parte da paisagem. — Estás silenciosa — diz ele, por fim. Sorrio, mas não me viro. — Só estou a apreciar o momento. Ele levanta-se, aproxima-se e envolve-me pela cintura, encostando o queixo ao meu ombro. — Quando ficas assim pensativa, parece que estás longe de mim. Fecho os olhos por um instante. Não quero mentir-lhe. Mas também não quero destruir o nosso matrimônio. — Não estou longe… — murmuro. — Só tenho medo que esta felicidade seja frágil. Ele roda-me suavemente para que eu fique frente a frente com ele. — Olha para mim, Léonor. Obedeço. — Nada do que vivemos é frágil. Eu escolhi-te. Tu escolheste-me. O resto… não me importa. O resto? Será que o nosso casamento irá suportar as expectativas, os olhares da sociedade e, sob
Os dias da nossa lua de mel passam num piscar de olhos.Sem horários, sem obrigações, sem olhares curiosos. Apenas nós dois e a liberdade de viver o nosso amor.Numa tarde quente, entro na biblioteca da mansão para procurar um livro. O cheiro a papel antigo e madeira polida envolve-me, trazendo uma sensação de calma.Passo os dedos pelas lombadas dos livros, distraída, até sentir duas mãos firmes pousarem na minha cintura.O meu coração dispara antes mesmo de me virar.— Arthur… — murmuro, sorrindo.— Ando à tua procura pela casa inteira — diz ele, aproximando-se do meu ouvido. — E encontro-te aqui… escondida entre livros.— Não estava escondida… só queria ler um pouco.Ele ri baixinho.— Prefiro escrever a nossa própria história.Arthur puxa-me suavemente para si. As minhas costas encostam-se a uma das estantes, e os seus lábios encontram os meus. O beijo começa lento, mas rapidamente se torna mais profundo, mais urgente.O silêncio da biblioteca torna o momento ainda mais intenso. C
Acordo e, de rompante, olho para ele, para ter a certeza de que é real, de que está ao meu lado. O seu rosto está sereno e lindo. Como não vi a sua beleza antes? Falo da beleza interior, do homem maravilhoso que Arthur é, da sua índole. Não podia ter escolhido melhor marido. Observo-o durante alguns minutos, até que Arthur começa a despertar pouco a pouco. — Bom dia, meu amor… — digo, num sorriso cheio de emoção. — Bom dia, minha esposa… — responde também em tom baixo. Aconchego-me ao seu corpo. — Dormiste bem? — pergunta o meu marido. — Dormi tão bem… — digo com um sorriso que, mesmo Arthur não podendo ver, ele sente na minha voz. — O que a minha esposa gostaria de fazer hoje? Estamos em lua de mel, quero satisfazer todos os seus caprichos — diz, beijando a minha cabeça. — Em primeiro lugar, quero… tomar um banho com o meu marido… — É uma boa ideia… Arthur pega-me no colo e leva-me até à banheira. De seguida, enche-a de água quente e começa a despir-me. O
Saímos da tenda ainda de mãos dadas, como se tivéssemos medo de que o mundo nos separe a qualquer momento.O jardim parece diferente.O sol atravessa as folhas húmidas, fazendo-as brilhar como pequenas joias. O cheiro a terra molhada sobe do chão e mistura-se com o perfume das flores. Tudo parece mais vivo, mais intenso… como se o mundo tivesse mudado juntamente connosco.Ou talvez sejamos nós que mudamos.Arthur olha para mim, ainda com aquele brilho nos olhos.— Então, minha esposa… — diz ele, num tom baixo, quase divertido. — Para onde vamos agora?A palavra esposa faz o meu coração acelerar. Ainda soa estranho… e ao mesmo tempo, encaixa-se perfeitamente.Sorrio.— Para casa.Ele levanta uma sobrancelha.— Para a mansão?Abano a cabeça devagar.— Não. Para a tua casa… para a casa do capataz.Quero ficar lá contigo. Sem criados, sem regras, sem olhares… só nós.Arthur fica em silêncio por um instante, como se queira ter a certeza de que ouviu bem.— Tens a certeza, Dona Léonor?Eu p







