LOGINAiyraUm ano depoisLevanto de minha cadeira no escritório, a partitura em minhas mãos soando como um sino em minha cabeça. Pego meu violão com um pouco mais de avidez que o necessário, minhas chaves e saio do escritório com pressa.Passo pela cozinha, vendo as crianças brincarem com Isobell e deixo um beijo em cada um, saindo logo em seguida.Nem Isobell ou Heiko nunca mais tocaram no assunto do fim de Farrey e isso foi uma gentileza sem limites da parte deles. Existem noites em que eu sinto a culpa me corroer como ácido, mas logo Ethan está lá por mim, me enjaulando eu seu abraço e eu me aconchego na única prisão da qual eu nunca quero sair.Não importa o quanto machuque ou o que eu tenha que pagar por isso, sempre valerá a pena saber que minha família está bem.Heiko tem voltado com cada vez menos frequência aos Estados Unidos e Isobell tem ficado mais por aqui. Sinto que algo aconteceu entre eles e isso me preocupa, mas enquanto ela não estiver disposta em dividir, não serei eu a
AiyraO silêncio da casa quando retorno é total. Ethan me disse que levaria as crianças para ficar com meu pai mais cedo e isso talvez seja o motivo para tanta calma.Caminho pelos corredores, indo direto para o quarto. Abro a porta, vendo Ethan lá sentado, as duas mãos juntas na frente do corpo e olhar perdido.Ele me vê e se levanta. Me envolvo em seus braços antes de sequer dizer qualquer coisa. Há uma parte em mim aliviada por ter me livrado da minha maior ameaça, mas há também um gosto ruim, como se uma parte boa de mim, estivesse faltando.— Acabou. — Digo e ele me aperta em seus braços.— Eu sinto muito por isso. Quem deveria ter estado lá era eu. Você merecia paz e eu não pude te proporcionar isso. — Ethan confessa. Esfrego meu rosto em seu peito, seu cheiro me enviando uma onda de puro prazer.— Você me proporciona muito mais do que imagina. Não deixe seus pensamentos irem por esse caminho, querido. Farrey era meu dilema e é algo que agora está definitivamente no passado. —
AiyraSinto as palmas de minhas mãos suarem um pouco, sentindo o conhecido sabor do medo em minha boca.O carro que Ethan me deu tem um motor potente e acelero sem pena, a estrada parcialmente deserta a minha frente me disponibilizando isso. Já estou a duas horas nessa viagem e por todo esse tempo o veículo cinza, um conversível simples, não sai da minha cola. No início ele tentava ser mais discreto, se mantendo a algumas quadras de distância, mas à medida que deixamos a cidade movimentada e entramos em áreas mais isoladas, ele ficou mais ousado e eu diria até que se diverte cada vez que eu acelero para me manter mais distante.É ele. Tenho certeza.Nenhum outro, iria ser tão idiota ao ponto de arriscar ser revelado.Farrey quer me caçar, como o grande filho da puta que ele é.Respiro fundo e firmo bem minhas coxas, impedindo que elas tremam ainda mais.Foi arriscado pegar o carro e vir até o interior, mas era preciso.Faz menos de uma semana que enterramos Kiler. Não foi um enterro
Aiyra — O que mudou, Klaus? — Pergunto, minha voz tremendo com o panorama que se ilumina a minha frente.Eu posso morrer agora. Nunca mais verei os rostos dos meus filhos ou poderei dizer a Ethan o quanto eu o amo.Nós poderíamos ter nos entregado ao desejo mais cedo, ter nos envolvido nos braços um do outro ... Por Deus, como eu queria ter o feito.Eu não estaria aqui agora, temendo pela própria vida e me arrependendo de não ter aproveitado o contato do homem que amo.Klaus parece hesitar, algo em seu olhar se torna muito perturbador de se ver.— Eu realmente não a odeio Aiyra, mesmo que tenha ficado muito irritado por você ter levado Isobell de mim. Por sua causa ela voltou pra aquele lugar maldito e isso nem é o pior nessa bagunça toda. — Ele abaixa um pouco a mão com a pistola — Quando soubemos da sua morte, eu estava pronto para deixar para lá e seguir com merda que se tornou minha vida, eu imaginava que Isobell teria fugido e que em algum momento ela me procuraria, mas não. Ela
AiyraAperto meus olhos na direção do endereço que Kiler me enviou, minha moto parada no acostamento. No geral parece ser só um estacionamento. Não sei o motivo de tanta cautela com relação ao que Kiler quer de mim, mas sinto como se eu estivesse prestes a entrar em um vespeiro.A sensação só piora conforme me aproximo.Decidida a acabar com tudo isso eu ligo a minha moto novamente e paro no estacionamento, ao lado do de um carro que se assemelha muito ao de Kiler.Desço da minha moto, retiro meu capacete e ando até a janela do carro. Dou uma breve batida no vidro e me encosto no carro, vendo Kiler sair dele. Sua altura, postura rígida e cabelos escuros são os mesmos, mas há algo em seu olhar que não estava lá antes. É doloroso, primitivo e carregado de culpa.Kiler olha para mim, não da forma fria que ele sempre fazia, mas de verdade. Ele também se deixa mostrar e isso me confunde, pois eu já estava me habituando a ideia de ficar enojada por ele.— Você realmente veio. — Ele diz, um
AiyraA animação dentro do carro é contagiante. Yana fica dando pequenos pulinhos no acento as minhas costas ao ritmo da música alegre que toca nos autofalantes. Ben se contenta em balançar a cabeça algumas vezes, mais concentrado em prestar atenção no que a letra se refere.Tento não ficar eufórica ao imaginar que um deles pode acabar optando pela carreira musical, até mesmo porque eles são muito novos para estar os pressionando com isso agora, mas que seria interessante ter um de meus filhos seguindo os mesmos passos que eu, seria.Enquanto eles ainda podem eu vou preservar suas infâncias, deixa-los serem inocentes e despreocupados o quanto puderem.A música termina e outra começa, uma que eu conheço muito bem, pois ajudei a compor com Vangory.Olho para Ethan, que dirige, seus olhos capturando os meus com um sorriso no canto dos lábios.— É a voz da tia Van! — Yana diz, a animação em pessoa.— É sim filha e advinha quem escreveu essa música? — Ethan a pergunta, seus olhos fixos na







