INICIAR SESIÓNAcordo com o corpo cansado e a alma mais pesada do que as horas que dormi.
O bar fechou tarde como sempre e, mesmo exausta, o despertador não perdoa. Tenho entrevista logo cedo. Mais uma. Respiro fundo. É frustrante, sim. Mas não sou de desistir fácil. Nunca fui. Desde que me formei, parece que o mundo decidiu me testar. Enviei currículos, bati em portas, fiz estágio... mas nada. A verdade é que, no papel, o meu sobrenome não abre portas ele carrega dívidas, não influência. E no mundo em que aparência fala mais alto que esforço, ninguém quis saber o quanto eu lutei pra chegar até aqui. Ninguém quis olhar meus projetos, nem o brilho nos olhos de quem ainda acredita que pode fazer diferença. O bar… ah, o bar. Foi o meu primeiro emprego e, ironicamente, o único que nunca me rejeitou. Foi entre o som dos copos e o cheiro de bebida derramada que paguei a faculdade. Agora, é o que mantém as contas da casa, as mesmas que parecem se multiplicar desde que a empresa onde minha mãe trabalhava faliu. Ela tenta disfarçar a tristeza, mas eu vejo nos olhos dela a culpa de quem se sente um peso. Só que ela não é. Nunca será. O peso é o mundo, e eu só estou tentando carregá-lo do meu jeito. Sigo pro banheiro. A água cai gelada, cortando minha pele e, de alguma forma, me trazendo de volta à realidade. Fecho os olhos por um instante, tentando não chorar. — Será que é pedir demais ter um pouco de água quente? — murmuro, com um sorriso cansado. Talvez a água fria seja um lembrete: a vida nem sempre vem na temperatura certa. E, mesmo assim, eu continuo. Porque, lá no fundo, ainda existe algo uma voz pequena, insistente dizendo que as coisas vão mudar. Que, em algum lugar entre um turno e outro, entre um currículo ignorado e um a gente entra em contato, existe um destino esperando para me notar. E talvez... talvez, quando eu menos esperar, ele apareça. Mesmo que seja atrás de um balcão, entre risadas e copos. O sol ainda nem tinha se decidido entre nascer ou se esconder de vez, e eu já estava de pé, tentando parecer menos cansada do que realmente estava. Prendi o cabelo num coque apressado, vesti minha calça social que já pedia descanso e uma blusa que um dia foi branca, mas agora só carrega o tom de quem sobreviveu a muitas lutas. Mal consegui tomar café, a ansiedade não me deixa e saio de casa com esperança. Peguei o ônibus com o portfólio no colo, abraçado contra o peito como se fosse uma armadura. Dentro dele estavam meus sonhos impressos: projetos, croquis, ideias que ainda não tiveram chance de existir fora do papel. Olhei pela janela enquanto a cidade acordava, e, por um instante, imaginei o que seria acordar com a sensação de que tudo estava no lugar. Mas não era o meu caso. Quando cheguei ao prédio da empresa, respirei fundo. Era linda. Moderna. Vidros espelhados, recepcionistas elegantes, cheiro de café caro. E ali estava eu com o coração disparado e as mãos suando. — Bom dia, vim para a entrevista de arquitetura — falei com a recepcionista, tentando soar confiante. Ela me olhou de cima a baixo, como se avaliasse se eu realmente pertencia àquele lugar. — Seu nome, por favor? — ela me perguntou com desdém. — Audislane Viera.— Falo confiante. Mesmo que seja por fora. Digitou algo no computador e me mandou esperar. Foram quarenta e cinco minutos. Quarenta e cinco longos minutos observando pessoas de ternos bem cortados passarem por mim como se eu fosse invisível. Quando finalmente chamaram meu nome, um homem alto, de sorriso ensaiado e olhar analítico, apareceu na porta. — Audislane Vieira, certo? — ele confirmou, folheando um papel. — Vamos ser breves, estou com a agenda cheia. Claro, pensei. Você sempre está. A sala era ampla, cheia de maquetes perfeitas tão perfeitas que pareciam zombar das minhas maquetes tortas de faculdade. — Vejo que se formou há cinco meses. Trabalhou em algum projeto grande desde então? — perguntou, sem levantar os olhos do papel. — Ainda não, mas trabalhei num bar enquanto concluía a faculdade e… — comecei, tentando explicar. Ele ergueu uma sobrancelha, impaciente. — Um bar? — repetiu, como se a palavra tivesse gosto ruim. — Entendo… e, desculpe, você não tem nenhuma experiência significativa registrada. — Eu… tenho projetos independentes. Posso mostrar — insisti, abrindo o portfólio, o coração acelerado. Ele olhou por dois segundos, apenas o suficiente para manter a educação. Fechou o portfólio com um sorriso vazio. — Olha, o seu trabalho é bom, mas estamos procurando alguém com mais vivência de mercado. — Eu só preciso de uma chance — respondi num fio de voz. — Todos precisam, senhorita Vieira — disse ele, já se levantando. — A diferença é que nem todos podemos oferecer. Sorri, por educação. Agradeci, por orgulho. Mas por dentro, desabei.Eu sabia que a senhora Cristina havia contado alguma coisa. No fundo, eu sempre soube que nossa chegada não tinha sido exatamente uma surpresa. O cardápio pensado nos mínimos detalhes, a forma como tudo parecia preparado… e agora aquele quarto. Só podia ter sido obra dela.E, sinceramente, isso só tornava tudo ainda mais especial.Foi maravilhoso viver esse momento ao lado da família do Bruno. Sentir-me acolhida daquela forma, ver o carinho com que receberam a mim e ao Théo… foi algo que tocou profundamente o meu coração. Mas, acima de tudo, eu sentia falta dele. Uma saudade intensa, quase dolorosa, como se cada minuto longe do Bruno tivesse sido longo demais.E, quando finalmente ficamos a sós, foi ainda melhor do que eu havia imaginado.Perfeito.Eu estava tomada por tanto desejo, por tanta entrega, que adormeci completamente exausta. Ainda assim, dormir nos braços dele foi uma das sensações mais reconfortantes que já experimentei. Com Bruno, eu me sinto segura. Protegida. Como se,
- Sim... - diz, ofegante.Sem lhe dar tempo para pensar, eu a viro, deixando-a de costas para mim. Suas mãos se apoiam na parede, enquanto eu me aproximo e começo a espalhar beijos por sua nuca, saboreando cada reação. Seguro sua cintura com firmeza, guiando seus movimentos, sentindo-a se arquear contra mim.Faço questão de deixá-la sentir o quanto me afeta, o quanto me desarma. E, ao menor toque, seus gemidos escapam abafados, quase como um segredo compartilhado apenas entre nós.Ela se move, provocando, deixando claro o quanto está envolvida. Então seguro delicadamente seu pescoço, trazendo seu rosto até o meu para roubar um beijo profundo, daqueles que tiram o fôlego e embaralham qualquer pensamento. E eu continuo, explorando cada limite, cada reação, cada suspiro.Até que, quando percebo que ela está completamente entregue ao momento, eu paro.O protesto vem imediato.- Se você parar agora, será um homem morto... - ela ameaça, ainda sem fôlego.Dou um
Antes que eu diga qualquer coisa, decido agir. - Está bom, agora vou levar minha baixinha para descansar. Puxo Amanda de volta para os meus braços, encaixando-a junto a mim como se aquele fosse o lugar mais natural do mundo. - É tão lindo ver essa cara de apaixonado! - Andreia provoca, arrancando risadas de todos. Amanda levanta o rosto para me olhar, e aquele sorriso... ah, aquele sorriso é capaz de desmontar qualquer defesa que eu ainda tenha. Então ela responde, sem hesitar: - Ele é lindo de qualquer jeito. E, naquele instante, cercado pela minha família e com Amanda nos meus braços, eu tenho a absoluta certeza de que nunca quis tanto que algo durasse para sempre. - Sabia que o seu momento chegaria, meu filho. E estou orgulhoso de você. Agora vamos descansar. Amanhã teremos um dia e tanto pela frente. - meu pai diz, com um sorriso satisfeito. Nos despedimos, e eu conduzo Amanda até o nosso q
Já quase pegando no sono, ele olha para mim e diz, com a sinceridade que só uma criança é capaz de ter:- Tio Bruno... hoje foi um dos melhores dias da minha vida.Meu coração aperta.Porque, de alguma forma, ele não faz ideia do quanto essas palavras significam para mim.Sorrio, acaricio seus cabelos e respondo com toda a verdade que existe em mim:- Pode ter certeza... que foi um dos melhores dias da minha também.Não demora muito, e Théo adormece. Fico alguns segundos observando seu rosto sereno antes de me levantar. Então, saio em silêncio, fecho a porta com cuidado e vou em busca de Amanda.Mas, antes mesmo de alcançá-la, escuto sua voz.Ela está contando à minha família como nos conhecemos.E, sinceramente, ouvir Amanda narrar a nossa história tem um efeito inesperado em mim. Então, sem perder a oportunidade, acabo revelando para todos que, no começo, ela achou que eu era gay.As risadas surgem imediatamente.E eu também rio, porque
Ter Amanda aqui, cercada pela minha família, só reforça o que eu já sabia desde o início: fiz a escolha certa. Ainda assim, preciso agir com cuidado. Quero preservar a imagem dela, proteger Amanda e Théo de qualquer comentário, de qualquer olhar maldoso. Assim, não teremos problemas. Logo meus pais começam a se despedir dos convidados, mas, quando percebo, Amanda e Théo já não estão mais por perto. Procuro por Andreia com o olhar e, no mesmo instante, deduzo onde eles devem estar. Minha irmã certamente os levou para algum lugar da casa, provavelmente para a sala de cinema. Era a cara dela. E, honestamente, isso me faz sorrir. Foi bom demais ver o Théo tão animado, tão à vontade. E ver minha família acolhendo Amanda e o garoto daquela forma... eu realmente não tenho palavras para descrever o quanto isso significa para mim. Quando minha mãe fez o convite para ficarmos o fim de semana, eu já sabia que isso aconteceria. E, para ser sincero, não ne
- Eu sei que sim... - respondo, ainda um pouco tensa. - Só fiquei séria por um instante, pensando que meu pequeno me chamaria... - Você precisa entender que o Bruno é assim - ela continua, com um leve sorriso orgulhoso. - Quando ele gosta de alguém, ele quer cuidar. E, só de ver o brilho nos olhos do meu filho, eu sei que vocês fazem bem a ele. - Seus olhos então se voltam para mim, curiosos. - Agora, confesso que estou curiosa, como vocês se conheceram? Ele nem mencionou que tinha alguém! Sinto meu coração acelerar, mas sorrio, lembrando. - Eu sei, ele é incrível. - Solto um pequeno suspiro. - Digamos que nosso primeiro encontro foi um pouco turbulento, mas, ao mesmo tempo, mais incrível do que eu poderia imaginar. - Fala logo, eu também estou curiosa! - Andreia insiste, cruzando os braços, com um sorriso travesso. - Até agora não saiu da minha cabeça que você é uma feiticeira! Eu rio, negando com a cab







