FAZER LOGINMelissa despertou lentamente, os olhos ainda pesados de tanto chorar. A claridade alaranjada do pôr do sol atravessava a janela, atingindo seu quarto com uma melancolia suave. Respirou fundo, tentando afastar a dor que a consumia desde a manhã. Estava mais calma agora, como se o pranto tivesse lavado um pouco do peso em seu peito.
Pegou o celular da mesinha ao lado da cama e, com mãos trêmulas, procurou o nome que sempre lhe trazia conforto: Dom. Conhecia-o desde os treze anos, cresceu ao lado dele. Aos quinze, dera-lhe seu primeiro beijo, e aos dezessete, entregara-lhe o que tinha de mais íntimo. Dom não era apenas seu namorado, era seu porto seguro, o homem com quem sonhava se casar. O telefone chamou apenas uma vez antes que ele atendesse. — Melissa? — a voz de Dom, firme e preocupada, soou como um alívio. Entre soluços contidos, ela resumiu o pesadelo que vivia dentro de casa. Do outro lado, ele não pensou duas vezes: — Espera por mim. Já estou indo. Com o coração aquecido pela promessa, Melissa desligou o celular, mas a sensação de alívio durou pouco. A porta do quarto se abriu com força. Sônia, sua madrasta, entrou com o semblante carregado, acompanhada de Amélia, a meia-irmã que sempre encontrava prazer em vê-la sofrer. — Não adianta nada você tentar fugir, Melissa — disse Sônia, cruzando os braços com frieza. — Esse casamento vai acontecer, querendo ou não. Amélia ergueu o queixo com aquele sorriso cruel que tanto a irritava. — Aceita logo, vai ser melhor pra você. Esse homem pode até ser um velho fracassado, mas é poderoso. Ninguém sabe quem ele é de verdade, já que nunca aparece em fotos nem entrevistas. Melissa sentiu o coração se contrair. Observou a irmã com incredulidade e dor. Como podia ser tão cruel? Como poderia tratar aquilo como se fosse apenas um jogo? — Se você o acha tão interessante, então que se case com ele você mesma — respondeu, a voz trêmula, mas firme. — Eu não posso me casar duas vezes. Vou me casar com Dom, e isso vai estragar o plano de vocês. O silêncio pesado foi quebrado pelo estalo da voz de Sônia: — Cala a boca! — ordenou, saindo do quarto em passos duros. Amélia permaneceu, seus olhos claros percorrendo o quarto de Melissa com desdém. Caminhou até a cômoda, abriu uma gaveta sem permissão e puxou algumas roupas, atirando-as de volta com desprezo. — Olha só pra isso. Calças largas, moletons sem graça, nada de vestidos colados, nada de salto. Nem maquiagem você usa, Melissa. Como espera que alguém olhe pra você desse jeito? — riu com ironia. — Despenteada, apagada… parece até uma sombra andando pela casa. Melissa apertou os punhos, tentando conter a raiva. — Eu não preciso de roupas caras ou maquiagem para ser amada, Amélia. O que eu tenho com Dom não depende de aparência. — Ingênua! — retrucou a irmã, dando um passo mais perto. — Você acha que homens querem santinhas de moletom? Acorda, Melissa. O mundo real não é esse conto de fadas que você inventa. Dom vai perceber isso logo, logo… e quando perceber, vai te deixar. Melissa a encarou de frente, mesmo com o coração disparado. — Melhor ser quem eu sou do que viver de máscaras como você. Se precisa se esconder atrás de roupas e maquiagem para ser notada, então é você quem deve ter medo de ser deixada. O olhar de Amélia escureceu por um instante, antes dela disfarçar com um sorriso venenoso. — Vamos ver se o Dom vai mesmo querer casar com uma sem graça como você. — E, antes de bater a porta com força, lançou-lhe aquele olhar que misturava ódio e inveja. Sozinha novamente, Melissa respirou fundo, tentando segurar as lágrimas. O peito doía, mas havia algo que a mantinha de pé: Dom estava a caminho, e com ele, talvez, uma chance de escapar daquele pesadelo. Melissa se deitou por um instante, exausta, mas o coração batia rápido demais para descansar. Do lado de fora, a noite caía sobre a cidade, e cada minuto parecia arrastar o tempo até o reencontro. Ela acreditava que Dom estava vindo para salvá-la. Mal sabia que o nome que ecoava em sua casa — e o nome que ela sussurrava ao telefone — pertenciam a homens diferentes. E o verdadeiro Dom… já a esperava. ---✨ Epílogo Os anos passaram leves para Melissa e Dominic, como se cada dia na nova casa fosse um presente que a vida insistia em entregar de novo e de novo.Lili e Luke cresceram rápido demais — treze, depois catorze, quinze… sempre unidos, sempre brigando, sempre se amando do jeito deles. Quando o pequeno Arthur chegou, os dois se transformaram: viraram irmãos mais velhos de verdade. Ajudavam Melissa nos banhos, nas mamadeiras, nos choros da madrugada. Dominic assistia aquilo com o peito cheio, sabendo que a família que um dia ele achou que perderia… agora transbordava.Ana e Bruno continuaram vivendo aquele amor sereno que sempre os guiou. Criaram a pequena Isa com carinho, paciência e muitos risos. A menina era sapeca, curiosa, dona de um brilho nos olhos que lembrava a mãe. Com o tempo, mudaram-se para uma casa maior, um lar cheio de calma e felicidade — daquelas felicidades silenciosas, construídas no cotidiano.Jade e Gustavo… ah, Jade e Gustavo eram um capítulo à parte. Um casa
A tarde ainda dourava o céu quando a família Salvatore entrou pela porta da nova casa. Melissa observava tudo com o coração acelerado: o jardim florido, a sala iluminada, os risos dos gêmeos ecoando pelas paredes ainda vazias. Dominic estava radiante, quase menino, enquanto guiava todos pelos quartos, orgulhoso, como se mostrasse ao mundo seu maior sonho realizado.— Vou pedir para trazerem nossas coisas ainda hoje — disse ele, abraçando Melissa pela cintura, respirando fundo como quem sente o futuro finalmente chegar.Mas Melissa sorriu daquele jeito que ele conhecia tão bem, o sorriso que sempre escondia algo a mais.— Não precisa. Eu quero buscar pessoalmente — respondeu. — Também preparei uma surpresa para vocês três… e quero entregar no apartamento.Lili e Luke trocaram olhares, já quase pulando de curiosidade.— Então vamos logo, pai! — disse Luke, empurrando Dominic pela porta.— Anda, anda! — completou Lili, rindo.Dominic ergueu as mãos, rendido.— Meu Deus… o que vocês estão
Capítulo 181Três Anos Depois...O jardim da mansão Salvatore estava todo decorado com tons de azul e dourado. Balões por todos os lados, mesas cheias de doces e um grande painel escrito:“Henrique – 1 aninho”.O pequeno Henrique, gordinho e sorridente, estava no colo de Jade, que equilibrava a barriga já arredondada da pequena Lua. O bebê de um ano ria de tudo — especialmente quando Gustavo fazia caretas exageradas.Jade acariciou a própria barriga e sorriu.— Essa aqui já começou a chutar, viu? A Lua é apressadinha igual ao pai.— Ei, eu sou calmo! — Gustavo reclamou rindo. — Quem é apressada é você.Melissa assistia à cena com ternura. Henrique era seu afilhado — dela e de Dominic — e ela o amava como se fosse um sobrinho de sangue. Dominic estava perto, segurando o garotinho enquanto Henrique puxava seus cabelos.— Esse menino tem força, viu! — Dominic riu.Bruno chegou com Ana, carregando a pequena Isa, de apenas seis meses, de olhos enormes e fascinada com tudo ao redor.Ana sor
Capítulo 180A igreja estava iluminada pelo pôr do sol. Raios dourados atravessavam os vitrais coloridos e se espalhavam pelo chão, criando um tapete de luz que parecia ter sido feito especialmente para aquele momento.A música suave começou.E então Jade entrou.Todos se levantaram, silenciosos, como se a respiração coletiva tivesse sido suspensa. O vestido dela cintilava com o brilho sutil das pedrarias, e o véu longo se arrastava atrás dela como um rastro de estrelas. Cada passo era leve, cheio de emoção, cheio de promessa.Ao fundo do altar, Gustavo a esperava.Ele não tentou esconder a lágrima que caiu quando a viu.Para ele, Jade não estava apenas linda — ela era o começo de uma nova vida.Melissa observava tudo ao lado de Dominic. Sentiu os olhos se encherem de emoção. Dominic segurou sua mão e apertou de leve.— Eles nasceram um para o outro — murmurou Melissa.— Como a gente — respondeu Dominic, beijando os dedos dela com carinho.Bruno, sentado mais à frente, também assistia
Capítulo 179A semana passou tão rápido que, quando Melissa percebeu, já era domingo. Ela acordou com uma leve euforia no peito — aquela sensação boa de estar viva, bem, inteira outra vez. Nenhuma dor. Nenhuma sombra. Só um novo começo.Ergueu-se devagar para não acordar Dominic, que ainda dormia profundamente, o rosto relaxado como há muito ela não via.Tomou um banho demorado, aproveitando a água quente descendo pelas costas. Vestiu um vestido azul-bebê que realçava sua pele, colocou alguns rolinhos nos cabelos para trazer de volta seus cachos e finalizou com uma maquiagem leve, apenas o suficiente para iluminar o rosto.Sentia-se ela mesma de novo.Na cozinha, preparava o café da manhã quando ouviu, como sempre, o barulho familiar dos gêmeos disputando o banheiro.— Ei, crianças, parem com isso! — disse ela, aproximando-se e beijando a cabeça de Lili.— Garoto irritante! — resmungou Lili assim que Luke saiu do banheiro.— Você que reclama demais! — rebateu Luke, antes de levar um t
Capítulo 178O elevador subiu lentamente até o andar do apartamento, e durante todo o trajeto Melissa apoiou a cabeça no ombro de Dominic. O cheiro familiar dele — uma mistura suave de café e madeira — trouxe uma sensação inesperada de segurança. Era como se, ao cruzar a porta do hospital, todo o caos dos últimos dias tivesse começado a se dissipar… mas não totalmente.Quando a porta do elevador se abriu, Dominic passou o braço pelas costas dela.— Devagar. Se cansar, você me fala — disse ele, com aquela voz firme que tentava esconder o medo que ainda carregava.Melissa sorriu de leve.Assim que entraram no apartamento, Melissa respirou fundo. Tudo estava arrumado demais — claramente obra das meninas. Havia flores frescas sobre a mesa e um bilhete com a letra delicada de Ana: “Se precisar, estamos a uma ligação.”Melissa sentiu um aperto no peito, um misto de gratidão e vulnerabilidade.Dominic tirou o casaco dela e deixou sobre a poltrona.— Senta. Vou preparar algo leve pra você com







