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Choque

Author: Kari
last update Petsa ng paglalathala: 2026-07-01 05:47:56

Meu coração apertou, franzi os lábios, nunca pensei que seria tão difícil enfrentar aquilo. Então forcei um sorriso.

- Diga para a menina que você tem papai e mamãe! Diga que eu posso ser papai, engrosso a voz, mostro meus músculos. - Mostrei meu bíceps, me esforçando para aparecer um pequeno músculo, finalmente Alice gargalhou, se divertindo.

- Não deixe ela te diminuir filha, mas faça isso com palavras, sem agressão, combinado? - Alice confirmou mais confiante, depois me abraçou apertado, se aninhou em meus braços pronta para dormir.

Pouco depois... o sono finalmente venceu.

Mas a dor de escutar aquela pergunta, latejava " Mamãe, porque eu não tenho papai?"

No dia seguinte, fui despertada com Alice pulando na cama, me apressando para levantar. A ansiedade para ir logo ao meu trabalho.

Me espreguicei me preparando para mais um dia de muito trabalho. Tomamos um café com a vovó e avisei que levaria Alice para o trabalho, ela sorriu e incentivou, já que Alice precisava se distrair depois da briga na escolinha.

Não demoramos para sair de casa.

Assim que entramos no restaurante, Alice roubou a atenção de todos. Rita, Marcos e Fabiana fizeram questão de cumprimentá-la, encantados com seu jeito meigo.

Enquanto conversavam com ela, percebi seus olhinhos brilhando na direção da área kids.

Sorri.

Ela mal conseguia disfarçar a ansiedade.

— Pode ir, meu amor.

Nem precisei repetir.

Alice abriu um sorriso radiante e saiu correndo em direção aos brinquedos.

Balancei a cabeça, divertindo-me com sua empolgação, antes de voltar para a cozinha.

Começamos a adiantar os preparos para a noite. Entre uma panela e outra, eu erguia os olhos discretamente para observá-la deslizando pelo escorregador, brincando sozinha ou inventando histórias com os brinquedos.

Alice sempre foi uma criança tranquila. Teimosa quando queria alguma coisa, mas dona de um coração tão puro que fazia qualquer sacrifício valer a pena.

Na noite anterior, eu havia passado horas revivendo o pior período da minha vida.

Mas bastava olhar para minha filha para compreender que, apesar de toda a dor, Deus havia me dado o maior presente que eu poderia receber.

Sorri sem perceber.

Ela era o amor da minha vida.

Os longos cabelos negros, lisos até a cintura, balançavam enquanto corria de um lado para o outro.

Fisicamente...

Ela era a imagem do pai.

Às vezes eu brincava comigo mesma que, durante a gravidez, senti tanta raiva de Henrique que minha filha resolveu nascer com cada traço dele.

Era uma teoria completamente sem sentido.

Ainda assim...

Fazia rir.

Afastei aqueles pensamentos e voltei ao trabalho.

As horas passaram rapidamente.

Quando anoiteceu, os primeiros clientes começaram a chegar.

Uma mesa chamou minha atenção.

Três adultos.

Marcos entrou na cozinha segurando a comanda.

— Mesa cinco pediu a sugestão do chef.

Assenti e comecei a preparar os pratos.

Tudo corria normalmente.

Quando Marcos saiu levando os pedidos, aproveitei para lançar mais um olhar em direção à área kids.

Foi então que meu mundo parou.

Meu corpo inteiro enrijeceu.

A poucos metros de Alice...

Henrique conversava com ela.

Ao lado deles havia um menino loiro, aparentemente da mesma idade da minha filha. Os dois brincavam enquanto Henrique sorria, completamente à vontade.

Meu estômago revirou.

O ar pareceu desaparecer dos meus pulmões.

Com o coração acelerado, desviei o olhar para a mesa onde ele estava.

Izabel minha antiga melhor amiga da escola, permanecia impecável, usando um elegante vestido branco. Os cabelos ondulados caíam sobre os ombros, e o batom vermelho destacava ainda mais sua beleza.

Ao lado dela...

William, seu marido e melhor amigo do Henrique.

Os dois continuavam exatamente como cinco anos atrás.

Apaixonados.

William acariciava delicadamente o rosto da esposa enquanto conversavam entre sorrisos.

Por um instante, senti como se o tempo tivesse voltado.

Só que eu...

Eu não fazia mais parte daquela história.

Um arrepio percorreu minha espinha.

Sem pensar duas vezes, dei meia-volta e praticamente corri para a cozinha.

Apoiei as mãos na bancada de inox, tentando controlar a respiração.

Meu corpo tremia.

Meu Deus...

Henrique estava brincando com a própria filha na área kids.

E ele nem fazia ideia disso.

— Fabiana!

Minha voz saiu trêmula, quase desesperada.

Ela ergueu a cabeça imediatamente.

— O que foi?

— Chama a Alice... Agora. Diz que fui eu quem mandou.

Fabiana franziu a testa, sem entender a urgência no meu tom.

— Mas...

— Por favor!

Ela não insistiu. Apenas assentiu e saiu da cozinha.

Fiquei parada diante da bancada, apertando as mãos uma contra a outra.

Aquilo não podia estar acontecendo.

Meu coração batia tão forte que parecia querer escapar pela garganta.

Henrique...

Fechei os olhos por um instante.

Se ele olhasse para Alice com atenção...

Se reparasse naqueles olhos azuis...

Naqueles cabelos negros...

Nos traços do rosto...

Não.

Ele não podia desconfiar de nada.

Alguns minutos depois, Fabiana voltou de mãos dadas com Alice.

Minha pequena entrou na cozinha emburrada e cruzou os braços assim que me viu.

— Fica aqui comigo agora.

Ela me encarou, indignada.

— Não!

Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, seus olhos se encheram de lágrimas.

— Justo agora apareceu um amiguinho para brincar comigo! Eu nunca tenho com quem brincar!

Sua voz ecoou pelo restaurante.

— Isso não é justo!

Meu desespero aumentou.

Olhei discretamente para a porta da cozinha, com medo de que Henrique ouvisse o choro e resolvesse entrar.

— Alice, por favor...

— Eu quero voltar!

Fabiana observava a cena com pena.

— Carol... deixa ela brincar mais um pouquinho. Ela está tão feliz...

Antes que eu respondesse, ouvi uma voz feminina chamar alguém do salão.

Meu sangue gelou.

Reconheci aquela voz imediatamente.

Izabel.

Olhei para Fabiana quase implorando.

— Vai você...

Ela continuava sem entender absolutamente nada, mas saiu da cozinha.

Os segundos pareciam horas.

Meu peito subia e descia numa respiração completamente descompassada.

Pouco depois, Fabiana voltou.

— A cliente da mesa cinco perguntou por que a Alice estava chorando.

Senti minhas pernas fraquejarem.

— E... o que você respondeu?

— Que você chamou sua filha de volta.

Engoli em seco.

Fabiana continuou:

— Ela disse que o filho dela ficou triste quando a Alice saiu da área kids. Perguntou se você podia deixá-la brincar mais um pouco com ele.

Meu coração afundou.

Aquilo era um pesadelo.

Olhei para Alice.

Ela me encarava com os olhinhos cheios de esperança.

Fechei os olhos por um breve instante.

Se eu continuasse impedindo...

Chamaria ainda mais atenção.

Respirei fundo.

— Pode ir...

Alice abriu um sorriso enorme.

— Obrigada, mamãe!

Ela saiu praticamente correndo, segurando a mão de Fabiana.

Assim que as duas desapareceram, caminhei até a porta da cozinha.

Espiei discretamente pela pequena abertura.

Henrique já não estava mais na área kids.

Mesmo assim, meu corpo continuava tremendo.

Apoiei uma das mãos na parede.

O que estava acontecendo comigo?

Eu deveria sentir ódio.

Deveria desejar nunca mais vê-lo.

Então...

Por que uma parte de mim ainda procurava por ele, mesmo que fosse apenas de longe?

— Carol...

A voz de Fabiana interrompeu meus pensamentos.

— Você está estranha.

Forcei um sorriso.

— Não é nada... Acho que só estou um pouco cansada.

Voltei para o fogão tentando agir normalmente.

Mas minhas mãos não obedeciam.

Queimei a ponta do dedo ao virar uma frigideira.

Logo depois, uma taça escapou entre meus dedos e se estilhaçou no chão.

— Ei, calma! — Marcos aproximou-se rapidamente. — Eu limpo isso.

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