Mag-log inEla nasceu cercada de luxo. Ele aprendeu a sobreviver no caos. Margareth, ou simplesmente Meg para quem a conhece, sempre viveu no mundo perfeito que seus pais construíram para ela. Escola de elite, roupas caras, festas exclusivas e uma vida onde problemas parecem não existir. Até que sua melhor amiga, Sarah, decide levá-la para uma festa no morro. Meg só não esperava que aquela noite mudaria sua vida para sempre. Porque no alto do morro existe um homem que todos conhecem pelo mesmo nome: Cobra. Felipe é temido, respeitado e dono de um império construído no lugar onde aprendeu a lutar pela própria sobrevivência. Depois de perder os pais ainda jovem em um confronto entre policiais e criminosos, assumiu a responsabilidade de proteger sua irmã e a comunidade que se tornou sua família. Para alguns, ele é apenas um criminoso. Para quem vive no morro, Felipe é aquele que aparece quando ninguém mais aparece. Meg deveria manter distância. Ele sabe disso. Ela também. Mas entre provocações, olhares proibidos e uma atração impossível de ignorar, os dois acabam atravessando uma fronteira que nenhum deles deveria sequer ter alcançado. Ela não pertence àquele mundo. Ele jamais poderia pertencer ao dela. E quanto mais Meg sobe o morro, mais percebe que o verdadeiro perigo talvez não esteja nas ruas. Talvez esteja no homem que faz seu coração disparar. Porque alguns amores não acontecem quando estamos preparados. Eles acontecem quando tudo está contra nós. E, para encontrar Felipe, Meg vai precisar subir Morro Acima.
view moreMARGARETH "MEG"
Eu sempre acreditei que existiam lugares aos quais certas pessoas simplesmente não pertenciam.
Não por serem melhores ou piores, mas porque o mundo fazia questão de separar cada um em sua própria caixinha. Os ricos dos pobres. Os certinhos dos problemáticos. As meninas que usavam vestidos de grife das que passavam a noite em bailes onde o perigo parecia dançar tão perto quanto a música.
E eu, Margareth Laura Albuquerque, tinha nascido no lado certo dessa divisão.
Pelo menos, era nisso que acreditava.
Minha vida era confortável. Talvez confortável até demais. Eu tinha um closet maior do que o quarto de muita gente, um cartão de crédito que minha mãe fingia controlar e um pai que acreditava que dinheiro era capaz de resolver absolutamente qualquer problema.
Estudava em uma das escolas mais caras da cidade, frequentava lugares onde uma garrafa de bebida custava mais do que algumas pessoas ganhavam em uma semana e reclamava quando o motorista demorava mais de cinco minutos para me buscar.
Eu era mimada?
Talvez.
Arrogante?
Dependia de quem estava perguntando.
Mas burra, definitivamente, eu não era.
E deveria ter desconfiado quando Sarah apareceu na minha casa numa sexta-feira à tarde com um sorriso grande demais para ser inocente.
- Você precisa sair comigo hoje.
Continuei passando o gloss diante do espelho, sem sequer olhar para ela.
- Eu saio com você praticamente todos os dias, Sarah.
- Não desse jeito.
Parei o movimento da mão.
- Que jeito?
Ela se jogou na minha cama, abraçando uma das minhas almofadas como se estivesse prestes a me contar o maior segredo do universo.
- Vai ter um baile hoje.
- Uau. Uma festa. Que novidade extraordinária. Estou emocionada.
- Meg!
Virei-me para encará-la, segurando o riso diante da expressão indignada da minha melhor amiga.
Sarah era uma das poucas pessoas que eu realmente considerava parte da minha família. Estudávamos juntas desde que nos conhecemos, e nossa amizade havia sobrevivido a provas desastrosas, ex-namorados idiotas, brigas por roupas emprestadas e incontáveis noites de fofoca.
Ela conhecia todos os meus defeitos.
Infelizmente, gostava de quase todos eles.
- Onde vai ser essa festa? - perguntei.
O sorriso dela aumentou.
E foi exatamente nesse momento que percebi que deveria ter ficado quieta.
- No morro.
Piscar.
Uma vez.
Duas.
- Desculpa. Acho que meu ouvido está apresentando problemas. Você disse o quê?
- No morro, Meg. Vai ser incrível!
Soltei uma gargalhada tão incrédula que Sarah precisou se sentar.
- Você enlouqueceu?
- Não.
- Sarah, meu amor, com todo o respeito à sua sanidade mental, você perdeu completamente a noção da realidade?
- Ah, para!
- Eu não vou para o morro!
- Você nem sabe qual é o morro!
- E preciso saber? A palavra já está fazendo um excelente trabalho em me convencer a ficar em casa!
Ela cruzou os braços.
- Você é muito preconceituosa.
A acusação me atingiu de um jeito que eu não esperava.
Meu sorriso diminuiu.
- Não é isso.
- Então o que é?
Abri a boca, mas nenhuma resposta saiu imediatamente.
A verdade era que eu não conhecia aquele mundo. Conhecia as notícias que passavam na televisão, as histórias que as pessoas contavam nos corredores da escola e os comentários cheios de julgamentos que escutava durante os jantares dos meus pais.
Violência. Tráfico. Tiroteios. Perigo.
Era isso que eu associava ao morro.
Mas não conhecia ninguém de lá, não sabia como aquelas pessoas viviam e nunca tinha me dado ao trabalho de descobrir o que existia além das manchetes.
Talvez Sarah tivesse razão.
Talvez eu estivesse julgando um lugar sem nunca ter colocado os pés nele.
Ainda assim, havia um detalhe que continuava me incomodando.
- Seu irmão sabe que você vai me levar para essa festa?
O rosto dela mudou.
Foi rápido, mas eu percebi.
- Sarah.
- O quê?
- Você contou para o Felipe?
Ela começou a mexer na pulseira em seu pulso.
- Ele não precisa saber de tudo.
Fechei os olhos.
- Nós vamos morrer.
- Para de drama!
- Seu irmão tem cara de quem enterraria alguém antes do café da manhã!
Sarah caiu na gargalhada.
Eu, infelizmente, não estava brincando.
Felipe.
O famoso irmão mais velho de Sarah.
O homem que eu conhecia apenas por fotografias ocasionais no celular dela e por histórias contadas aos pedaços. Ele era alguns anos mais velho do que nós, tinha uma presença que parecia ocupar qualquer ambiente e um olhar que, mesmo através de uma tela, me transmitia a sensação de que eu deveria manter uma distância respeitosa.
Sarah nunca falava muito sobre os negócios dele.
Só dizia que Felipe cuidava dela.
Que sempre cuidara.
Que, depois da morte dos pais, ele havia se tornado tudo o que ela precisava.
E que ninguém deveria confundir o silêncio do irmão com fraqueza.
Eu nunca tinha entendido completamente o que aquilo significava.
Até aquela noite.
Às dez e meia, eu estava diante do espelho, usando um vestido preto curto, botas de cano alto e uma jaqueta que combinava perfeitamente com a minha bolsa.
Meu cabelo caía em ondas sobre os ombros, e o perfume caro que eu havia escolhido provavelmente anunciava minha chegada antes mesmo de eu abrir a boca.
Sarah me observou da porta.
- Você está linda.
- Eu sei.
- Convencida.
- Realista, amor.
Ela revirou os olhos e estendeu a mão.
- Vamos?
Olhei para aquela mão por alguns segundos.
Eu ainda podia desistir.
Podia tirar a maquiagem, colocar meu pijama de seda e passar a noite assistindo a uma série enquanto comia alguma coisa que a cozinheira preparasse.
Era a escolha sensata.
A escolha segura.
A escolha que qualquer pessoa com um mínimo de juízo faria.
Segurei a mão de Sarah.
- Se eu morrer, vou voltar para assombrar você.
- Vai precisar entrar na fila. Meu irmão já ameaça me matar diariamente.
Saímos rindo.
Naquele momento, eu ainda não sabia que, antes do amanhecer, o nome de Felipe estaria gravado na minha cabeça.
Nem que eu passaria a odiar a facilidade com que meu coração reagiria à simples lembrança daquele homem.
Muito menos que, quando nossos olhos finalmente se encontrassem, eu descobriria que existiam perigos muito piores do que aqueles sobre os quais minha mãe me alertava.
O pior deles era sentir vontade de permanecer onde eu deveria fugir.
E eu ainda nem tinha chegado ao morro.
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FELIPE "COBRA"
O problema de ser o homem que todos temiam era que ninguém parecia entender que, antes de me tornar aquele homem, eu tinha sido apenas um garoto.
Um garoto que perdeu os pais cedo demais.
Um garoto que precisou aprender a engolir o choro porque a irmã mais nova ainda precisava de alguém que dissesse que tudo ficaria bem.
Um garoto que descobriu, da pior maneira possível, que o mundo não tinha pena de quem já havia perdido tudo.
Eu me lembrava daquela noite como se tivesse acontecido poucas horas antes.
As sirenes.
Os gritos.
O barulho dos disparos cortando o ar.
Sarah, pequena demais para compreender por que nossos pais não voltariam para casa, agarrada à minha camisa enquanto eu tentava encontrar alguma resposta que não existia.
Eu tinha perdido meu pai.
Minha mãe.
E, junto deles, a última parte da minha infância.
Naquela noite, fiz uma promessa.
Minha irmã nunca mais ficaria sozinha.
E as pessoas que dependessem de mim não precisariam implorar para serem ouvidas.
Eu não podia mudar o que havia acontecido com a minha família. Não podia apagar o passado nem devolver à Sarah os anos em que ela deveria ter sido apenas uma criança.
Mas podia construir alguma coisa com os pedaços que restaram.
Foi assim que me tornei o Cobra.
Não aconteceu de uma hora para outra.
O poder não apareceu de presente, e o respeito nunca veio sem consequências. Aprendi cedo que, naquele mundo, um erro podia custar mais do que dinheiro.
Por isso, eu observava antes de falar.
Escutava antes de decidir.
E jamais esquecia um rosto.
Naquela sexta-feira, eu estava no escritório quando Samurai entrou sem bater.
Kaio tinha esse péssimo hábito.
Na verdade, tinha vários.
A diferença era que ele era um dos poucos homens que podiam cometer aqueles erros e continuar respirando sem que eu precisasse lembrá-lo de quem mandava.
- Sua irmã saiu.
Continuei olhando os documentos sobre a mesa.
- Ela estuda. Sai. Tem amigas. Não vejo nenhuma novidade nisso.
- Foi para o baile.
Minha caneta parou.
Levantei os olhos devagar.
- Que baile?
Kaio sustentou meu olhar por um segundo.
Depois, soltou o ar pelo nariz.
- O nosso, Cobra.
O silêncio que se instalou no escritório foi suficiente para fazê-lo endireitar a postura.
- Ela foi com quem?
- Com uma amiga.
- Nome.
- Margareth. Mas ela prefere Meg.
Recostei-me na cadeira.
Margareth.
O nome não significava absolutamente nada para mim.
Ainda.
- E você deixou?
Samurai arqueou uma sobrancelha.
- Eu sou segurança dela ou babá? Porque, se for babá, quero um aumento.
Olhei para ele.
Ele levantou as mãos.
- Certo. Entendi. Péssima hora para fazer piada.
Levantei-me, abotoando a camisa enquanto caminhava até a janela.
Lá embaixo, a comunidade estava viva.
As luzes das casas se espalhavam pelas encostas, os bares estavam cheios e a música de algum baile distante se misturava às conversas nas calçadas. Crianças brincavam perto de suas casas, enquanto moradores voltavam do trabalho e comerciantes fechavam seus estabelecimentos.
Era aquele lugar que muita gente julgava sem conhecer.
O lugar onde cresci.
Onde enterrei meus pais.
Onde Sarah aprendera a andar.
E onde eu havia jurado que ela nunca precisaria enfrentar sozinha a crueldade que nos atingira.
- Manda alguém ficar de olho nela - ordenei. - Sem assustar a menina. Se acontecer qualquer coisa, quero saber na mesma hora.
- Pode deixar.
Kaio se encaminhou para a porta, mas parou antes de sair.
- Você sabe que ela vai crescer, né?
Meu maxilar se contraiu.
- Ela já cresceu.
- Então talvez esteja na hora de você entender que não pode controlar cada passo dela.
Virei o rosto.
- Está querendo me ensinar a criar minha irmã?
- Deus me livre. Eu gosto de viver.
Ele desapareceu pelo corredor antes que eu pudesse responder.
Fiquei sozinho.
Por alguns segundos, permiti que meus pensamentos voltassem para a única pessoa capaz de me fazer esquecer que o mundo inteiro me chamava de Cobra.
Sarah.
Minha menina.
A única parte da minha vida que eu ainda tentava manter longe de tudo aquilo.
Eu pagava a escola dela. Garantia que tivesse roupas, livros, conforto e oportunidades que eu nunca tive. Queria que ela estudasse, viajasse, se apaixonasse por alguém decente e construísse uma vida em que não precisasse olhar por cima do ombro.
Queria que ela pudesse escolher.
Mesmo que eu não soubesse como deixá-la fazer isso.
Peguei o celular e encontrei uma mensagem dela.
Não fica bravo comigo, tá? Te amo. ❤️
Soltei uma risada sem humor.
Aquela garota ainda acabaria comigo.
Digitei uma resposta, apaguei e guardei o aparelho.
Eu falaria com ela pessoalmente.
Mas, antes disso, precisava descer.
O baile estava cheio, e eu não costumava deixar as coisas acontecerem sem saber exatamente o que estava acontecendo.
Principalmente quando Sarah estava envolvida.
O grave da música fazia o chão vibrar.
Luzes coloridas cortavam a multidão, e o cheiro de perfume, bebida e comida se misturava ao ar quente da noite. As pessoas dançavam, riam e conversavam, aproveitando aquelas horas em que podiam esquecer os próprios problemas.
Eu caminhava entre elas quando percebi os olhares.
Alguns cumprimentavam com respeito.
Outros apenas abriam espaço.
Eu não precisava exigir silêncio para ser ouvido. Tampouco precisava levantar a voz para que soubessem que eu havia chegado.
Era assim que funcionava.
Samurai surgiu ao meu lado.
- Sarah está ali.
Segui a direção indicada por ele.
Encontrei minha irmã perto de algumas amigas, sorrindo como se não existissem problemas no mundo.
Por um instante, a tensão em meus ombros diminuiu.
Até perceber a garota ao lado dela.
Vestido preto.
Cabelo impecável.
Bolsa que provavelmente custava mais do que muita coisa que eu tinha comprado na vida.
Ela gesticulava enquanto falava, com uma expressão indignada que parecia não combinar nem um pouco com o lugar.
A patricinha.
Margareth.
Meg.
Ela não me viu imediatamente.
Estava ocupada demais reclamando de alguma coisa para Sarah, que ria da cara dela.
Então a música mudou.
Sarah se virou para cumprimentar alguém, e Meg ficou sozinha por alguns segundos.
Foi quando nossos olhos se encontraram.
Não sei o que esperava.
Medo, talvez.
A maioria das pessoas que não me conhecia baixava os olhos quando percebia quem eu era. Algumas tentavam disfarçar. Outras simplesmente se afastavam.
Ela não fez nada disso.
Olhou diretamente para mim.
Primeiro, com curiosidade.
Depois, com uma espécie de desafio silencioso.
Como se estivesse tentando decidir se eu era tão perigoso quanto imaginava.
Inclinei ligeiramente a cabeça.
Ela estreitou os olhos.
E, por algum motivo absolutamente ridículo, tive vontade de rir.
- Aquela é a Margareth? - perguntei.
Samurai acompanhou meu olhar.
- A própria.
- Ela sempre faz essa cara?
- Que cara?
- De quem está prestes a reclamar com o gerente.
Kaio soltou uma gargalhada.
- Irmão, pelo amor de Deus...
Ignorei-o.
Meg disse alguma coisa para Sarah e voltou a olhar na minha direção.
Dessa vez, não desviou.
Eu também não.
Havia alguma coisa insolente naquela garota.
Alguma coisa que me dizia que ela não estava acostumada a ouvir não, que provavelmente acreditava que o mundo inteiro devia se adaptar às suas vontades.
O tipo de pessoa que eu costumava evitar.
O tipo de problema que não tinha motivo algum para me interessar.
Então por que continuei olhando?
- Vai lá cumprimentar sua cunhada. - Samurai provocou.
Virei o rosto tão depressa que ele ergueu as mãos.
- Calma, Cobra! Foi brincadeira!
- Repete.
- Não, obrigado. Tenho amor à vida.
Voltei a encarar a multidão.
Sarah percebeu minha presença e começou a acenar, sorrindo.
Meg acompanhou o movimento da amiga.
Seu sorriso desapareceu quando percebeu que Sarah estava chamando justamente o homem para quem ela vinha olhando.
Eu caminhei na direção das duas.
Sem pressa.
Sem tirar os olhos dela.
Quanto mais me aproximava, mais evidente ficava o desconforto que a garota tentava esconder atrás de uma expressão arrogante.
Interessante.
Muito interessante.
Parei diante da minha irmã e beijei o topo da cabeça dela.
- Está se divertindo?
- Muito! - respondeu, animada. - Você chegou cedo.
- E você saiu sem me avisar.
- Felipe...
- Depois conversamos.
Sarah fez uma careta, mas assentiu.
Só então me virei para a amiga dela.
De perto, Meg era ainda mais bonita.
E parecia estar fazendo um esforço monumental para não demonstrar que minha presença a intimidava.
- Então você é a famosa Margareth.
Ela ergueu o queixo.
- Depende. Famosa por quê?
A resposta me pegou desprevenido.
Samurai, atrás de mim, soltou uma tosse que tinha toda a intenção de esconder uma risada.
Observei a garota por alguns segundos.
- Pela coragem de vir até aqui sem saber onde está pisando.
Ela cruzou os braços.
- E você é sempre simpático assim ou hoje é uma ocasião especial?
Agora, sim, tive vontade de rir.
Não ri.
- Felipe. - apresentei-me, estendendo a mão.
Ela olhou para minha mão antes de voltar os olhos para o meu rosto.
- Eu sei quem você é.
- Sabe?
- Você é o irmão da Sarah.
Sorri de lado.
- Entre outras coisas.
Ela apertou minha mão.
A mão dela era pequena dentro da minha.
E, quando nossos dedos se tocaram, aconteceu algo que eu não soube explicar - um instante breve, quase imperceptível, que não deveria ter significado absolutamente nada.
Mas significou.
Pelo menos para mim.
Porque, pela primeira vez em muito tempo, senti curiosidade por alguém que não fazia parte do meu mundo.
E curiosidade, para um homem como eu, costumava ser o primeiro passo para um problema.
Soltei a mão dela.
- Aproveite a festa, patricinha.
Meg estreitou os olhos.
- Não me chame assim.
Inclinei-me ligeiramente, apenas o suficiente para que ela escutasse minha resposta em meio à música.
- Então me dê um motivo para chamar você de outra coisa.
Afastei-me antes que ela respondesse.
Não precisava olhar para trás para saber que estava me encarando.
Eu sentia.
E aquilo me incomodava mais do que deveria.
Porque Margareth não era apenas uma garota bonita que havia aparecido no baile com a minha irmã.
Era uma desconhecida de um mundo que eu não compreendia, trazendo consigo perguntas que eu não tinha interesse em responder.
Ela não conhecia minhas perdas.
Não conhecia meus limites.
Não sabia o que significava ser Felipe.
Muito menos o que significava ser Cobra.
E eu não tinha a menor intenção de permitir que ela descobrisse.
Naquela noite, fiz o que sempre fazia quando algo ameaçava atravessar as barreiras que eu havia construído ao meu redor.
Decidi manter distância.
O problema?
Eu já havia olhado para ela uma vez.
E, quando olhei novamente, percebi que a distância talvez fosse a única coisa que eu não conseguiria controlar.
Eu ainda não sabia, mas a patricinha que havia subido o morro por uma noite de diversão estava prestes a se tornar o maior problema da minha vida.
E, quando isso acontecesse, não existiria dinheiro, poder ou medo capaz de me proteger da única coisa que eu jamais deveria ter permitido:
Me apaixonar por ela.
{...}
Felipe “Cobra”Eu estava cuidando da patricinha, mas meus pensamentos estavam no maldito que havia colocado alguma coisa na bebida dela.Quando Samurai o encontrasse, ele iria sofrer. E sofrer muito.Só de imaginar aquele desgraçado se aproveitando de uma mulher indefesa, meu sangue fervia. Eu conhecia os perigos daquele mundo, sabia muito bem o que algumas pessoas eram capazes de fazer quando achavam que ninguém estava olhando. Mas mexer com uma mulher daquela maneira, dentro da minha comunidade, era ultrapassar todos os limites.Principalmente quando essa mulher era Margareth Romano.Aquela garota já tinha problemas suficientes para resolver. O pai havia destruído a própria família, a mãe estava tentando reconstruir a vida e ela mal conseguia esconder o quanto tudo aquilo a machucava. Meg estava perdida, mesmo quando fingia que sabia exatamente o que estava fazendo.E eu, que deveria manter distância, estava cada vez mais envolvido.Merda!Passei a mão pelo rosto, tentando afastar a
Margareth "Meg"Eu estava tranquila, bebendo minha água com gás e tentando ignorar a existência de um certo homem arrogante que, aparentemente, havia decidido fiscalizar cada movimento meu naquela noite.Felipe era um idiota.Um idiota bonito, irritantemente atraente e com uma capacidade absurda de me tirar do sério, mas ainda assim um idiota.Depois da nossa discussão, eu havia decidido que não daria mais atenção a ele. Se queria agir como meu dono, problema dele. Eu não era uma propriedade, muito menos uma criança que precisava de autorização para sair de casa.Estava conversando com uma das meninas quando senti uma tontura repentina.No começo, achei que fosse apenas o calor. O baile estava lotado, a música parecia fazer o chão vibrar e o ar estava pesado. Levei a mão à testa e pisquei algumas vezes, tentando afastar aquela sensação estranha.Mas não passou.Pelo contrário.Minha visão começou a ficar embaçada, as luzes se misturaram diante dos meus olhos e minhas pernas perderam a
Margareth “Meg”Minha mãe, com a ajuda de Samurai, logo finalizou a reforma da casinha onde havia vivido durante a infância. Pelo que Sarah me contava, Felipe tinha feito questão de garantir que nada faltasse para ela. A casa estava simples, mas bonita, com paredes recém-pintadas, móveis novos e um pequeno quintal.Eu deveria estar feliz por ela.E estava. De verdade.O problema era que, desde que tudo havia desmoronado, a nossa relação parecia ter se transformado em um campo minado. Cada conversa terminava em silêncio, cada tentativa de aproximação parecia esbarrar em alguma coisa que nenhuma de nós tinha coragem de dizer.Minha mãe estava diferente comigo.Ou talvez fosse eu quem estivesse diferente com ela.Às vezes, quando a encontrava, percebia um olhar distante, uma tristeza que ela tentava esconder e uma espécie de arrependimento que me machucava mais do que qualquer palavra.E eu comecei a pensar besteiras.Pensava que, se não tivesse engravidado de mim, talvez ela nunca tives
Margareth “Meg”Acordei naquela manhã no sofá da casa de Sarah. Não queria nem ver a minha cara horrível; tinha certeza de que estava com os olhos inchados e vermelhos, parecendo um baiacu.Minha cabeça doía, meu corpo parecia pesar uma tonelada e, para completar, eu tinha a sensação de que minha vida inteira havia sido jogada em um liquidificador e alguém apertara o botão na velocidade máxima.Meu pai era um fugitivo. Minha mãe estava tentando recomeçar a vida. Minha família, que até poucos dias atrás parecia ter tudo sob controle, agora estava no centro de um escândalo nacional.E eu?Eu ainda não sabia quem era sem o sobrenome Romano me abrindo portas.— Bom dia, amiga. Desculpa ter te deixado dormir aí, mas não queria te acordar e acabar deixando você sem sono. — Sarah disse, sentando-se ao meu lado.Virei o rosto para ela, tentando esboçar um sorriso.— Tudo bem, Sarah.Levantei-me devagar, ajeitando a blusa amassada que eu havia usado na noite anterior. Meu cabelo estava uma bag












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