INICIAR SESIÓNEvelyn O carro se afastava devagar, e cada metro parecia uma despedida em câmera lenta. A fachada do orfanato foi ficando menor, até virar só um borrão pela janela embaçada. Eu forcei o olhar pra frente, tentando fingir que aquilo não me afetava — mas afetava. E muito. O peito pesava como se tivesse uma pedra ali dentro. Eu me despedi das meninas há poucos minutos, e ainda conseguia ouvir as vozes delas, as risadas forçadas pra esconder o choro, o som das malas sendo arrastadas no chão do pátio.
Abaixei a cabeça, fingindo interesse no próprio colo. Não queria que o motorista percebesse o nó que estava se formando na minha garganta. Ele olhava pra mim de tempos em tempos pelo retrovisor, e toda vez que nossos olhos se cruzavam, eu desviava rápido. Senti o gosto metálico de segurar o choro, aquela ardência no fundo da garganta. Eu queria chorar, mas não ali. Queria guardar as lágrimas pra quando estivesse sozinha, pra quando não houvesse testemunhas. A noite anterior tinha sido uma tortura. Tentei dormir, mas a ansiedade não deixou. O travesseiro virou um campo de batalha entre pensamentos e lembranças. Agora, no banco do carro, o cansaço me vencia aos poucos. As pálpebras pesavam, mas eu me recusava a fechar os olhos. Queria estar acordada quando chegasse. Queria ver — mesmo que doesse — o lugar que seria minha nova casa. Quando os portões se abriram, meu coração deu um salto involuntário. A mansão se impôs diante de mim como uma lembrança que eu não sabia se queria revisitar. Era grande, silenciosa, com aquela arquitetura que misturava imponência e frieza. Tudo parecia mais bonito do que eu lembrava… e ao mesmo tempo, mais distante. A sra. Collins me esperava na entrada, o sorriso acolhedor de sempre. Eu me lembrava dela. Está mais envelhecida, mas com o momento sorriso. Ela me envolveu num abraço que quase quebrou a minha resistência. Tinha cheiro de bolo, de casa viva, de alguém que realmente se importa.Evelyn Eu me formei na França em uma manhã clara. Lembro do diploma nas mãos, do cheiro de papel novo e do aperto no peito ao pensar em tudo que precisei atravessar para chegar ali. Dante estava na primeira fileira, orgulhoso de um jeito silencioso, como se aquele momento também fosse dele. Meses depois, foi ele quem me surpreendeu, ajoelhado no jardim da mansão, completamente sem jeito, dizendo que não fazia sentido existir um futuro em que eu não estivesse ao lado dele. Casamos no último verão, sob um céu aberto, com risadas, vento quente e a sensação de que, enfim, o tempo tinha decidido cooperar. Asher e Bonnie estão juntos. Ainda me pego sorrindo quando penso nisso, porque jamais teria apostado nessa combinação. Eles funcionam. De verdade. Existe leveza entre os dois, algo que se construiu sem drama, sem medo. Adam se formou em Cambridge e decidiu tirar um ano sabático pela Ásia. Quando me contou, os olhos dele brilhavam de um jeito que me fez pensar que, apesar de tudo,
Dante 3 anos Três anos se passaram como quem vira páginas depressa demais, sem tempo de absorver tudo. Evelyn e eu seguimos caminhos separados, ainda que invisivelmente conectados. Ela se formou em Cambridge e foi para a França, realizou o sonho. Eu fiquei. Nos vimos algumas poucas vezes, encontros espaçados, cuidadosos, como se qualquer movimento em falso pudesse quebrar algo que ainda doía. Nunca retomamos o que fomos. Eu respeitei o tempo dela. Respeitei a decisão. Esperei. Não foi passivo, foi paciente, do tipo que cansa o corpo, mas mantém a alma alerta. Enquanto isso, mergulhei no trabalho como quem se joga no mar para não afundar em si mesmo. Meu filho nasceu. Julius Augustus Harrington. Pequeno, saudável, atento demais para uma criança que mal tinha chegado ao mundo. Sou presente sempre que possp. Katherine tentou, muitas vezes, se apoiar nisso para criar algo que não existia entre nós. Deixei claro, com palavras e atitudes, que não a amava, que não a desejava. Dem
Evelyn Alguns dias se passaram e eu tentei convencer a mim mesma de que a vida estava retomando um eixo minimamente aceitável. Voltei à rotina da universidade, aos corredores conhecidos, às salas frias pela manhã. O mundo seguia, indiferente ao caos interno. Asher passou a estar mais presente. Às vezes me buscava depois das aulas, outras me levava até em casa, sempre atento e discreto, como se estivesse ali para segurar algo que eu não enxergava. Não havia notícias de Dante. Esse silêncio me incomodava mais do que qualquer discussão. Havia algo acontecendo, eu sentia no corpo, naquele peso constante no peito, e uma parte de mim tinha certeza de que Asher sabia o que era. Mesmo assim, não perguntei. Havia coisas que eu já estava cansada demais para ouvir. Fui ver Bridget numa visita rápida. Conversamos banalidades, trocamos sorrisos contidos, e quando me despedi, senti aquela estranha vontade de ficar mais um pouco, como se sair dali fosse um erro. Ignorei. No caminho de volta
Dante Cinco horas antes. Eu ainda sentia o corpo pesado da madrugada quando chegamos a Bournemouth. A estrada tinha sido longa, silenciosa demais, dessas que deixam espaço para pensamentos que a gente preferia evitar. Assim que paramos em frente à casa de Adam, fiquei no carro, com as mãos apoiadas no volante, observando o Asher descer e bater na porta. O vento frio entrou pela janela entreaberta e me fez apertar o maxilar. Nada. Ele voltou poucos minutos depois, balançando a cabeça. — Ele não está. Talvez esteja naquele clube de boliche.— ele sugeriu.—Foi lá que o encontramos da outra vez. — Vamos. — respondi, já ligando o carro. No clube, o barulho das bolas batendo nas pistas e das conversas altas me irritou instantaneamente. Percorremos o lugar, perguntamos a alguns rapazes. Olhares desconfiados, respostas vagas. Até que uma garota, apoiada no balcão, disse que tinha visto o Adam numa lanchonete ali perto, com alguns amigos. Anotou o endereço num guardanapo. Voltamos p
Evelyn A Bridget apareceu na porta da sala enquanto eu dobrava uma manta no sofá e avisou que o Asher tinha mandado mensagem dizendo que precisava resolver umas coisas fora e que provavelmente voltaria tarde. Assenti com a cabeça, mas por dentro a frase ficou ecoando. Tarde quanto? E por que eu senti que aquele aviso era menos para informar e mais para me preparar? Talvez fosse coisa da minha cabeça, talvez ele estivesse apenas sendo cuidadoso, mas a sensação de recado indireto ficou ali, martelando. Passei o dia com a Bridget. Fizemos café juntas, lavei a louça enquanto ela secava, ajudei a organizar algumas caixas que estavam empilhadas no corredor. A rotina simples tinha algo de reconfortante, como se por algumas horas minha vida tivesse encolhido para caber em tarefas pequenas e concretas. Ainda assim, vez ou outra meu pensamento escorregava para o Dante. Estranhei o fato de ele não ter aparecido, nem ligado. Uma parte de mim pensou que talvez ele tivesse desistido. Outra pa
Dante O celular tocou como um soco no silêncio, vibrando sobre o criado-mudo antes mesmo de eu conseguir abrir os olhos direito. Atendi no impulso, a voz ainda rouca, pesada de uma noite sem dormir, sem sequer olhar a tela. — Harrington. — Bom dia, senhor Dante. Aqui é da delegacia. Precisamos que o senhor compareça ainda hoje, ou assim que puder. Meu corpo despertou na hora. — Claro, eu ainda estou na cidade. Obrigado por avisar. Desliguei e fiquei alguns segundos encarando o teto. A luz fraca da manhã entrava pelas frestas da cortina do hotel, desenhando sombras longas nas paredes. Levantei, lavei o rosto na pia fria do banheiro e encarei meu reflexo. Pensei em ligar para a Evelyn. O impulso veio forte, quase automático. Meu dedo chegou a pairar sobre o contato, mas parei. Não sabia se era o momento. Talvez não fosse, e acabaria piorando a situação com ela. Se ela não atendesse, eu ficaria péssimo. Peguei a chave do carro e saí. O ar da rua me atingiu o rosto qu







