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Mamãe casou de novo.
Na verdade, isso já havia acontecido há cerca de três meses. Desde então, nos mudamos para o enorme casarão de David Cole, um empresário muito bem-sucedido. Ainda me lembro da primeira vez em que atravessei aqueles portões de ferro e contemplei a imensidão da casa. Tudo parecia grande demais para alguém como eu. David realmente é um doce de pessoa. Desde o primeiro dia, nos recebeu com um sorriso sincero e fez questão de que nos sentíssemos em casa. Embora este seja o terceiro casamento da minha mãe, desta vez é diferente. Muito diferente. Sempre que a vejo ao lado dele, noto um brilho em seus olhos que há muito tempo eu não via. Um brilho tranquilo, de quem finalmente encontrou paz. Depois que papai morreu, mamãe passou anos sozinha. Tinha medo de que qualquer sentimento por outro homem pudesse significar uma traição à memória dele. Então ela se apaixonou novamente, se casou... mas aquele homem não tinha o caráter que demonstrava possuir. O casamento terminou, deixando mais cicatrizes do que lembranças felizes. Dessa vez, porém, ela se permitiu amar sem deixar de guardar meu pai no coração. Aprendeu que seguir em frente não significa esquecer quem partiu. Foi assim que conheceu David Cole. Ele realmente trata minha mãe com um carinho que aquece meu coração. A mima como se ela fosse a coisa mais preciosa do mundo, e não vou negar... adoro vê-la sendo amada dessa forma. Depois de tudo o que enfrentamos, ela merece alguém que a faça sorrir todos os dias. Agora estamos sentados na sala. Mamãe e David ocupam o sofá à minha frente, trocando olhares discretos enquanto esperam, tão pacientemente quanto eu, pela chegada dele. Lucas Cole. O filho de David. Meu meio-irmão. A porta da casa se abre, e Lucas entra sem sequer levantar os olhos do celular. Seus dedos deslizam rapidamente pela tela, digitando alguma mensagem. Ele segue em direção à cozinha, mas, ao notar nós três sentados na sala, interrompe o passo. Seu semblante, antes distraído, se transforma em uma expressão curiosa. Ele arqueia uma das sobrancelhas, claramente tentando entender o clima incomum que paira no ambiente. Os cabelos tinham um tom entre o castanho-claro e o loiro escuro, iluminados pela luz que entrava pelas janelas. A pele bronzeada contrastava com a camiseta escura que marcava seus músculos. Ombros largos, braços fortes e uma postura confiante denunciavam alguém que levava os treinos a sério. Seus olhos castanhos percorreram a sala lentamente até encontrarem David e minha mãe. — Está tudo bem? — perguntou. Lucas é dois anos mais velho do que eu. Tem vinte e três anos e, embora adore provocar as pessoas e tenha fama de conquistar qualquer garota com um simples sorriso, também é muito diferente da maioria dos homens da sua idade. Terminou a faculdade recentemente e já trabalha ao lado do pai, ajudando a administrar as empresas da família. — Sente-se, filho. Vamos conversar. — David disse com tranquilidade. Lucas analisou cada um de nós por alguns segundos antes de caminhar até o sofá. Mordo discretamente o lábio inferior. A presença dele sempre me intimida. Não sei explicar exatamente o motivo, mas basta ele estar por perto para meu coração acelerar um pouco e eu me sentir estranhamente consciente de cada movimento que faço. Ele apoiou o celular sobre a mesa de centro e se sentou ao meu lado, deixando apenas alguns centímetros entre nós. A proximidade fez seu perfume amadeirado chegar até mim. Fechei os olhos por uma fração de segundo, respirando sem querer aquele aroma agradável, antes de me obrigar a voltar a atenção para a conversa. — Eu e Cela decidimos fazer algo neste fim de semana. — David anunciou, visivelmente animado. Mordi os lábios enquanto Lucas passava a mão pela nuca. — E o que seria? — perguntou. — Um acampamento! — minha mãe respondeu com um sorriso empolgado. Minha expressão mudou imediatamente. — Ah... tudo bem. Divirtam-se. Não se preocupem, nós vamos cuidar da casa. — respondi. Pelo canto do olho, percebi Lucas me encarar por um instante, como se estivesse se perguntando por que eu também havia respondido por ele. — Não... acho que vocês não entenderam. — David soltou uma breve risada. — Geralmente vamos apenas David e eu. Mas, desta vez, queremos que seja um passeio em família. Nós quatro vamos juntos. — minha mãe explicou. Ouvi Lucas soltar um longo suspiro, daqueles de quem já sabe que perdeu a discussão antes mesmo de tentar argumentar. Pelo jeito, ele também havia entendido que nossos pais não aceitariam uma recusa e não nos deixariam sozinhos em casa.Passei vários minutos sentada no chão do banheiro, segurando o teste entre as mãos.Meu coração parecia incapaz de encontrar um ritmo.Eu ria.Depois chorava.Depois voltava a rir.Era impossível explicar a mistura de emoções que tomava conta de mim.Levei novamente a mão até a barriga.Ainda era cedo demais.Nosso bebê provavelmente era tão pequeno que eu sequer conseguiria imaginá-lo.Mesmo assim...Ele já era amado.Profundamente amado.Respirei fundo, enxuguei as lágrimas e me levantei.Olhei meu reflexo no espelho.Sorri.— Acho que agora somos quatro...Corrigi-me imediatamente, soltando uma risada baixa.— Cinco... contando comigo.---Passei a manhã inteira pensando em como contar para Lucas.Eu não queria simplesmente chegar e dizer.Queria que aquele momento ficasse guardado para sempre em nossas lembranças.Então tive uma ideia.Saí rapidamente para comprar um pequeno par de meias de recém-nascido.E, em uma papelaria, encontrei uma caixinha de madeira delicada.Assim que v
O tempo tinha um jeito curioso de passar.Quando eu menos esperava, Melissa já não era mais o bebê que cabia inteira nos meus braços. Agora corria pela casa com os cachos balançando, inventava histórias com seus bichinhos de pelúcia e fazia perguntas que, muitas vezes, nem eu sabia responder.Naquela manhã, nossa casa estava completamente enfeitada.Balões em tons de branco, azul-claro e dourado decoravam a sala, uma grande mesa de doces ocupava um dos cantos e, bem no centro, o bolo que eu mesma havia preparado com tanto carinho esperava pela aniversariante do dia.Melissa estava completando quatro anos.Olhei para ela do outro lado da sala e senti um aperto gostoso no peito.Ela rodopiava com um vestido branco cheio de pequenas flores bordadas, enquanto uma coroa delicada de flores enfeitava seus cabelos cacheados.— Mamãe! — ela correu até mim, segurando a barra do vestido. — Eu tô bonita?Sorri imediatamente.Ajoelhei-me à sua frente e arrumei uma mecha de cabelo que insistia em c
Aquele momento pareceu dissolver o restinho de insegurança que Melissa carregava.Ela permaneceu mais alguns minutos aninhada no colo do pai, brincando distraidamente com os botões de sua camisa, enquanto Lucas fazia carinho em seus cabelos. Era um gesto tão simples, mas que transmitia uma segurança impossível de explicar.Depois de um tempo, ela ergueu a cabeça.— Papai?— Hum?— Posso ver o bebê de novo?Lucas sorriu.— Claro que pode.Segurando sua mãozinha, caminhou até o bercinho.O meu irmão dormia profundamente, completamente alheio à conversa que acabara de mudar o coração de uma menininha de quase três anos.Melissa apoiou as mãozinhas na grade do berço e ficou observando seu rostinho.— Ele faz muito "naninha", né?— Faz. — Lucas respondeu baixinho.Ela inclinou um pouco a cabeça.— Ele ainda não sabe brincar comigo.— Ainda não.— Mas vai aprender?Lucas olhou para mim antes de responder.— Vai. E eu acho que ele vai querer brincar justamente com você.Ela abriu um sorriso
Alguns dias depois do nascimento do meu irmão, a casa da minha mãe parecia viver em um eterno entra e sai.Parentes apareciam para conhecer o bebê, vizinhos levavam pequenos presentes e amigos passavam apenas para desejar felicidades. Apesar do movimento, minha mãe fazia questão de manter tudo tranquilo para conseguir descansar.Naquela tarde, eu, Lucas e Melissa fomos visitá-los novamente.Assim que entramos, encontrei minha mãe sentada no sofá da sala, embalando o bebê nos braços. Ela ainda demonstrava o cansaço do pós-parto, mas seu sorriso continuava iluminando o ambiente.— Olha quem veio visitar a vovó.Melissa correu até ela.— Vovó!Minha mãe sorriu e a abraçou com um dos braços.— Minha menina.Melissa deu um beijo em seu rosto, mas logo seus olhos se voltaram para o bebê.Ela permaneceu em silêncio por alguns segundos.Era estranho.Minha filha nunca ficava em silêncio.Continuei observando sem dizer nada.Minha mãe percebeu.— Você quer ver seu tio?Melissa apenas deu de om
Eu ainda tentava conter as lágrimas quando a médica voltou a falar. — Eles já estão sendo levados para o quarto. Assim que a equipe terminar os primeiros cuidados com o bebê, um de cada vez poderá entrar para vê-los. Levei a mão ao peito, respirando profundamente. Era impossível explicar o alívio que eu sentia. Durante toda a gravidez, minha mãe havia sido forte. Sempre sorria, dizia que estava tudo bem e fazia planos para o futuro. Ainda assim, naquele momento, ouvir que ela e o bebê estavam saudáveis fez um peso enorme desaparecer dos meus ombros. Lucas apertou delicadamente minha mão. — Eu disse que daria tudo certo. Sorri entre as lágrimas. — Dessa vez você acertou. Ele riu baixinho. — Dessa vez? Dei um leve empurrão em seu braço. — Não se acostuma. Melissa puxou minha blusa. — Mamãe... Abaixei-me até sua altura. — Oi, princesa. Ela olhou para a médica. — O bebê já sabe falar? A médica levou a mão à boca para esconder a risada. — Ainda não. Melissa fez um biqu
Os minutos seguintes pareceram horas.Nunca imaginei que esperar do lado de fora de uma sala de parto pudesse ser tão angustiante. Eu andava de um lado para o outro pelo corredor, incapaz de permanecer sentada por mais de alguns segundos. De tempos em tempos, olhava para a porta fechada, como se isso fosse fazê-la se abrir mais rápido.Lucas observava tudo em silêncio.Ele conhecia aquele meu jeito.Sempre que eu ficava ansiosa, começava a andar sem perceber.Em determinado momento, segurou delicadamente minha mão.— Amor...Parei diante dele.— Ela vai ficar bem.Respirei fundo.— Eu sei... mas é minha mãe.Minha voz falhou.— Eu nunca a vi passando por isso.Lucas acariciou meus dedos.— Você também passou.Olhei para ele.— Quando a Melissa nasceu.Sorri de leve.Era verdade.Só que eu não me lembrava de muita coisa. Naquele momento, porém, estar do outro lado da porta era completamente diferente. Agora eu entendia a angústia de quem espera.Melissa, sentada entre nós, balançava as







