INICIAR SESIÓNA luz da manhã de quarta-feira atravessava as frestas da persiana, desenhando linhas douradas sobre a pele de Yas e os lençóis brancos e bagunçados. Yasmin despertou primeiro, sentindo o peso do braço de Arthur sobre a sua cintura. Por um segundo, ela esqueceu onde estava, mas o cheiro do perfume amadeirado — agora misturado ao cheiro de sexo e pele — trouxe todas as memórias da noite anterior de volta.
Ela virou-se devagar, observando o homem ao seu lado. Sem a pose de herdeiro ou o terno impecável, Arthur parecia mais jovem, quase vulnerável. Mas a memória da intensidade dele entre aquelas quatro paredes não tinha nada de vulnerável. Foi, sem dúvida, uma das melhores noites da vida dela.
Arthur começou a despertar, os olhos abrindo devagar e encontrando o sorriso de Yas. Ele não hesitou; puxou-a para mais perto, escondendo o rosto no pescoço dela e deixando um beijo demorado ali.
— Bom dia... — ele sussurrou, a voz rouca de sono fazendo o corpo de Yas reagir instantaneamente. — Eu esperava que você fosse incrível, mas você superou qualquer expectativa.
Yas deu uma risada baixa, passando a mão pelo cabelo dele. — Eu avisei que não gostava de entregar pouco, Arthur. Mas você também não se saiu nada mal.
A mão dele começou a subir pela coxa dela, eo clima no quarto voltou a esquentar rapidamente. Arthur subiu sobre ela, beijando-a com uma urgência que indicava que ele estava pronto para o segundo round. Yasmin sentiu o desejo disparar, mas um olhar rápido para o relógio na mesa de cabeceira a trouxe de volta à realidade.
— Arthur... para — ela disse, embora suas mãos estivessem firmes nas costas dele. — São sete e meia. Eu tenho uma reunião de planejamento às nove na agência e você provavelmente tem uma empresa para gerir.
Arthur soltou um resmungo frustrado, enterrando o rosto no travesseiro ao lado dela. — Eu trocaria qualquer reunião por mais uma hora com você agora.
— Eu também — ela confessou, sentando-se na cama e deixando o lençol cair, sem qualquer timidez. — Mas a vida de adulto não se paga sozinha.
Ela levantou-se e caminhou em direção à casa de banho. Arthur ficou ali, sentado na cama, observando-a com um olhar que Yasmin já conhecia bem: ele estava fisgado. Não era apenas o sexo; era a energia dela, a forma como ela não parecia impressionada com nada além do prazer que eles partilharam.
Alguns minutos depois, enquanto Yas saía do banho enrolada na toalha, encontrou Arthur já de calças, encostado no batente da porta da casa de banho.
— Escuta, Yas... — ele começou, com um tom de voz mais sério, mas ainda charmoso. — Eu não sou de fazer isso, mas eu não consigo parar de pensar que a gente mal conversou. E que eu preciso de repetir a dose.
Yas terminou de passar o hidratante nas pernas, olhando para ele pelo espelho. — Você quer um repeteco, é isso?
— Eu quero um jantar. Hoje à noite — ele propôs. — Sem pressa, sem bar barulhento no início. Um restaurante que eu conheço nos Jardins. Eu quero ver se você é tão boa de conversa no jantar quanto é... bom, você sabe.
Yasmin sorriu. Ela gostava da insistência dele. Arthur era bonito, o sexo era fenomenal e ele parecia genuinamente interessado em conhecê-la fora da cama.
— Jantar soa bem — ela disse, aproximando-se dele e ajeitando o colarinho da camisa amassada que ele tinha acabado de vestir. — Mas eu vou trabalhar até tarde.
— Não tem problema. Eu passo no The Vault às nove. A gente se encontra lá, toma um drink para abrir o apetite e depois seguimos para o restaurante. O que achas?
— Combinado — ela selou o acordo com um beijo rápido, mas intenso. — Agora vai, antes que eu decida que a minha reunião pode esperar e a gente acabe perdendo o emprego.
Arthur riu, deu um último beijo nela e saiu. Quando a porta do apartamento se fechou, Yasmin soltou um suspiro profundo. Ela estava animada. Geralmente, esses encontros de uma noite terminavam em silêncio ou mensagens vagas, mas com Arthur, parecia haver um magnetismo que ela não queria ignorar.
O dia na agência passou a voar. Yas estava radiante, produtiva e com um brilho no olhar que as suas colegas de equipa não deixaram passar despercebido. Ela só conseguia pensar no jantar e em como Arthur estaria vestido. Ela sentia-se poderosa, bem resolvida e pronta para aproveitar o que a vida lhe estava a oferecer.
A luz do domingo entrou no apartamento pelas frestas da cortina com uma suavidade que contrastava com o caos da madrugada. Yasmin estava deitada na própria cama, com a lateral da cabeça latejando numa dor surda e o curativo na testa lembrando o susto da balada. A sensação de tontura ainda aparecia se ela tentasse levantar rápido demais, o que a forçava a aceitar uma posição que ela detestava: a de depender de alguém.Thiago passou a manhã toda ali, movendo-se pelo quarto com passos firmes e silenciosos. O cuidado dele era totalmente prático. Ele entrava de hora em hora para deixar um copo d’água fresco na mesa de cabeceira, checar o horário do analgésico e garantir que ela não estava encostando no celular. Não havia cobrança no rosto dele, nenhuma tentativa de usar o papel de cuidador como moeda de troc
O telefone de Thiago mal tinha completado o segundo toque quando ele atendeu. A voz do Arthur, direta e sem o tom irônico de sempre, foi um soco no estômago: “A Yasmin se machucou na balada. Bateu a cabeça. Estou levando ela para o pronto-socorro do Albert Einstein. Vem para cá.”Trinta minutos depois, Thiago arrancava com o carro na entrada da emergência. Ele entrou no hospital com passos largos, o peito subindo e descendo rápido, os olhos rodando a recepção até focar na ala de triagem. A raiva da discussão de sábado de tarde tinha sumido por completo, engolida por uma preocupação cega que fazia suas mãos ainda tremerem de leve.Ao avistar a cena, ele travou por um segundo. Yasmin estava sentada em uma cadeira de rodas, com um curativo limpo na lateral da testa, ainda meio pálida. Ao lado dela, o Arthur segurava a ficha médica e c
O som abafado da balada começou a voltar aos poucos, como se a Yasmin estivesse saindo debaixo d'água. A música ainda batia no teto, mas aquela gritaria desesperada estava mais longe. A lateral da cabeça dela latejava num ritmo violento, e o chão frio do estacionamento foi trocado por braços firmes que a ergueram com cuidado, sem perder tempo.— Yasmin? Ei, olha para mim. Fica comigo.A voz era firme, limpa e estranhamente conhecida. Quando ela conseguiu forçar os olhos a abrir, a luz do estacionamento bateu direto no rosto tenso do Arthur. Ele estava ali na balada sozinho e, ao notar aquela confusão perto do bar, reconheceu a silhueta dela caindo no meio do tumulto.O Arthur não pensou duas vezes. Saiu do camarote, se enfiou no meio da briga abrindo caminho no braço e puxou a Yasmin da
Ficar em casa trancada no apartamento remoendo as perguntas do Thiago e o cansaço da semana não era a cara da Yasmin. Às onze da noite, decidida a fugir do próprio mau humor e daquela sensação chata de cobrança que tinha estragado o seu sábado, ela mandou uma mensagem para a Marina, sua amiga dos tempos de faculdade. Duas horas depois, as duas já estavam entrando em uma balada badalada no Itaim Bibi.O lugar era exatamente o que a Yasmin precisava: barulhento, escuro e cheio de gente que ela não conhecia. O som grave da pista vibrava direto no peito, e os feixes de luz neon cortavam o ambiente. No balcão do bar, esperando os drinques, Yasmin se permitiu baixar a guarda bem mais do que o normal. Aquela rigidez do trabalho e a postura defensiva dos últimos dias sumiram por umas horas.— Amiga, você es
A transição do ritmo louco da agência para a calmaria do fim de semana não trouxe o alívio que Yasmin queria. O sábado amanheceu com um céu limpo, mas, por dentro, ela ainda sentia o cansaço acumulado daquela sexta-feira intensa trancada na sala com o Arthur.Por volta do meio-dia, a campainha do apartamento 122 tocou. Era o Thiago. Ao abrir a porta, Yasmin o recebeu com um selinho rápido e um sorriso leve, tentando deixar o cansaço de lado. Ele entrou trazendo uma sacola com o almoço que tinha comprado para os dois, vestindo jeans e uma camiseta escura, com aquele jeito rústico e firme de sempre.— Pensei em passarmos a tarde sossegados, já que sua semana foi um caos — ele disse, deixando a comida na bancada da cozinha e puxando Yasmin pela cintura para um abraço mais demorado.
De terça a quinta-feira, o décimo segundo andar da agência operou em um ritmo quase mecânico, mas previsível. A sala de reuniões reservada para o "Projeto Fênix" tornou-se um microssistema isolado do resto da empresa. Entre planilhas de viabilidade financeira e o desenho do escopo de identidade que levaria para Lisboa, Yasmin viu a rotina com Arthur se firmar em blocos de horas silenciosas, interrompidas apenas pelo som de digitação e discussões pontuais sobre o público-alvo europeu.Foi na quarta-feira que os pequenos tijolos de mudança na postura dele começaram a aparecer, de forma sutil. Yasmin chegou às oito e quinze e encontrou Arthur já instalado, com as mangas da camisa social dobradas até os antebraços e o cenho franzido diante de uma tabela de projeção de custos. Ninguém havia exigi







