LOGIN(POV Jullie) No final do sexto mês, a casa de Petrópolis já não era apenas o casarão austero herdado de Heitor Toledo. O cheiro de cera antiga e livros encadernados dividia espaço com o aroma adocicado de óleo de amêndoas, camomila e madeira fresca recém-trabalhada. Eu estava sentada em uma cadeira de balanço de palha e carvalho claro, posicionada junto ao janelão do antigo quarto de hóspedes do primeiro andar. A luz suave das quatro da tarde banhava o piso de tábua corrida e as paredes recém-pintadas em um tom suave de linho cru. Sobre a cômoda baixa de freijó maciço, pilhas de bodies brancos de algodão egípcio e mantas de tricô estavam dobradas com precisão quase militar. No meio do cômodo, Daniel estava descalço, vestindo apenas uma calça jeans escura desbotada e uma camiseta preta com as mangas arregaçadas. Ele segurava uma chave de fenda e um nível de precisão, ajustando as últimas travas de segurança do berço de madeira escura — uma réplica fiel do berço em que ele próprio d
(POV Daniel) Quatro meses na serra de Petrópolis haviam feito o que nenhum recurso extraordinário ou acordo de leniência jamais conseguiu: desacelerar o relógio. O inverno rigoroso dera lugar a uma primavera úmida e cheirosa. O jardim ao redor do casarão estava tomado por hortênsias de um azul profundo e azaléias brancas, cujas pétalas caíam sobre o caminho de cascalho recém-nivelado. O silêncio da montanha não me incomodava mais; ele deixara de ser a ausência de ameaças para se tornar o som da nossa própria vida acontecendo. Eu estava na varanda lateral, escorado na amurada de madeira envernizada, segurando uma xícara de café enquanto observava o horizonte verde. Vestia apenas calça de sarja e uma camisa de linho com os punhos dobrados. O telefone criptografado agora ficava trancado na gaveta do antigo gabinete do meu pai, programado para vibrar somente em caso de acionamento do protocolo vermelho por Alemão — algo que, nas últimas dez semanas, limitara-se a relatórios rotineiro
(POV Jullie) O sol da serra entrava oblíquo pelos janelões de madeira maciça, cortando a névoa matinal e iluminando a sala com um tom dourado e límpido. Acordei com o cheiro de café passado e madeira aquecida. Ainda estávamos sobre o tapete diante da lareira, cercados pelo edredom pesado de plumas. Daniel dormia com a respiração profunda e calma, um braço pesado repousado protetoramente sobre a curva do meu quadril, a mão firme espalmada na minha barriga. Fiquei imóvel por alguns instantes, apenas contemplando o peito largo que subia e descia em um ritmo compassado. Não havia no rosto dele aquela tensão de quem calculava prazos processuais ou antecipava o próximo movimento de uma quadrilha de colarinho-branco. Havia uma serenidade que ele nunca se permitira viver. Movi-me com cuidado, tentando não acordá-lo. Mas, no segundo em que retirei a perna de debaixo do cobertor, os dedos dele fecharam-se na minha cintura, trazendo-me de volta contra o calor do seu corpo nu com um puxão s
(POV Daniel) A noite na serra de Petrópolis caiu trazendo uma névoa espessa que engoliu os pinheiros ao redor do casarão. Do lado de fora, a temperatura despencou para doze graus, fazendo o vento assobiar de leve contra as janelas de madeira maciça. Do lado de dentro, a sala principal era um abrigo aquecido pelo crepitar das toras de eucalipto na lareira de pedra. Eu estava sentado no tapete felpudo de lã crua estendido diante do fogo, com as costas apoiadas na base de um sofá de veludo verde-escuro. Havia dispensado a camisa social, vestindo apenas uma calça de moletom pesada. O calor das chamas refletia na pele do meu peito, mas a única fonte de calor que realmente me importava estava acomodada entre as minhas pernas abertas. Jullie estava sentada à minha frente, de costas para mim, aninhada no vão do meu corpo. Vestia uma camisola longa de flanela clara com pequenos botões de madrepérola até o colo. A cabeça dela repousava contra o meu ombro esquerdo, os cabelos loiros e macio
(POV Jullie) Duas semanas de repouso absoluto transformaram o ritmo da cobertura. O silêncio, antes pesado pelo medo de emboscadas, aos poucos ganhou os ruídos comuns de uma casa viva: o tilintar de xícaras de porcelana na cozinha, a brisa salgada enfunando as cortinas de linho cru e os passos firmes de Daniel circulando pelos cômodos sem a urgência letal de quem precisava apagar incêndios jurídicos. Naquela manhã de sábado, o enjoo me dera uma trégua generosa. Eu estava sentada em uma das poltronas confortáveis da varanda, descalça, vestindo um vestido de malha canelada cinza que começava a desenhar, ainda muito sutilmente, o arredondamento na base do meu abdômen. Nas mãos, eu segurava uma xícara de chá de camomila morno, observando a linha azul-turquesa do mar de Ipanema onde surfistas e caminhantes aproveitavam a manhã limpa. A porta de vidro correu suavemente sobre os trilhos. Virei o rosto e encontrei Daniel trazendo uma bandeja de madeira escura com torradas integrais, fa
POV Daniel O fim de tarde descia sobre o mar de Ipanema tingindo o horizonte de cobre e violeta. Eu estava recostado contra a cabeceira da cama, com o notebook fechado sobre a cômoda e o celular silencioso pela primeira vez em mais de quinze anos de advocacia criminal. O mundo corporativo lá fora podia estar desabando com as repercussões da prisão de Siqueira Campos, mas a única coisa que realmente prendia a minha atenção estava deitada entre os meus braços. Jullie dormia com a cabeça apoiada no meu peito nu, a respiração quente e ritmada batendo compassada contra as minhas costelas. Uma das pernas dela estava jogada por cima das minhas, a barra da camisola curta de seda preta subida até a metade das coxas macias. A luz dourada que entrava pela janela deslizava pela pele alva das costas dela, desenhando as curvas perfeitas de um corpo que eu conhecia em cada detalhe, cada cicatriz, cada ponto de entrega. Passei a mão devagar pelos cabelos loiros e ondulados espalhados sobre o meu







