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Capítulo 5: O Peso da Gratidão

Autor: Jhenny M.
last update Fecha de publicación: 2026-07-21 12:45:01

~~ Jade ~~

A manhã seguinte foi um borrão de fios, bipes de monitores e lágrimas reprimidas. A ambulância de UTI móvel parou na porta de casa logo cedo, atraindo os olhares curiosos dos vizinhos que ainda tentavam entender a transformação repentina do nosso lar. Acompanhei cada movimento da equipe do home care, chequei a calibração do ventilador mecânico, a fixação dos sensores e a resposta dos monitores no momento em que instalaram João Pedro na cama hospitalar. Quando o último técnico se afastou e o bipe constante do coração do meu irmão ecoou pelo quarto novo, agora limpo, amplo e seguro, meu peito finalmente desinchou. Ele estava em casa.

Minha mãe chorava baixinho, acariciando os cabelos do João, enquanto a nova enfermeira de plantão organizava as medicações no armário lacrado.

O som da campainha me tirou do transe, quando abri a porta, encontrei Valentina. Ela trazia uma expressão cansada, mas seus olhos transmitiam todo o apoio que eu precisava. Ela entrou em silêncio e me envolveu em um abraço apertado.

— Eu não podia deixar você ir embora sem me despedir — Minha amiga sussurrou perto do meu ouvido. — Passei no laboratório antes de vir, o clima lá está horrível, todo mundo comentando a sua demissão e o sumiço do Renato. Mas eu sei a verdade, Jade, sei o tamanho do sacrifício que você está fazendo. Promete que vai ser forte em Boston? Não abaixe a cabeça para aquele homem, por mais lindo que ele seja, e promete que vai dizer que tem uma amiga a fim dele.

Acabei rindo pela primeira vez em dias. 

— Eu vou ser, Val. Não tenho outra opção — respondi, engolindo o nó na garganta. — Cuida da minha mãe por mim. Se qualquer coisa parecer errada por aqui, me avisa na hora. Eu vou finalizar essa fórmula e vou limpar o meu nome.

Nós duas nos despedimos com os olhos marejados. Valentina era a única ponte que me restava com a minha antiga realidade.

Depois que ela saiu, o tempo voou de forma cruel. Passei o restante do dia e a noite inteira em claro, sentada em uma cadeira ao lado da cama do meu irmão, segurando sua mão fria. Fiz a ele uma promessa silenciosa de que cruzaria o oceano e enfrentaria aquele monstro de gelo quantas vezes fossem necessárias, mas que traria a cura dele na bagagem. Eu não ia falhar.

Às sete e cinquenta e cinco da manhã, minhas malas já estavam na sala. Meu coração batia em um ritmo frenético, doloroso. Dei um abraço apertado na minha mãe, tentando não desabar diante dela, e caminhei até a calçada, arrastando a bagagem.

O relógio do celular marcou exatamente oito horas quando o imponente sedã preto, com vidros fumê, dobrou a esquina da minha rua simples e parou exatamente em frente à nossa casa. O motor roncava baixo, uma máquina estrangeira e luxuosa que parecia deslocada naquela realidade.

Prendi a respiração quando o vidro elétrico do banco traseiro começou a se abaixar lentamente, revelando as feições perfeitamente simétricas e os olhos de um azul gélido e cortante de Giovanne Vance. Ele me encarou com a sua habitual soberba, o terno preto sem uma única dobra.

— Entre, Dra. Vasconcelos. Não gosto de atrasos — a voz dele saiu baixa e autoritária.

Antes que eu pudesse dar o primeiro passo ou responder à sua arrogância, a porta da frente da minha casa se abriu e minha mãe passou por mim, caminhando apressada em direção ao carro. Meu coração parou. 

“Mãe, não!”  Pensei em desespero, tentando segurá-la, mas foi tarde demais.

Minha mãe se aproximou da janela aberta do carro. Seus olhos estavam vermelhos pelo choro recente, mas havia um brilho de pureza e devoção no seu rosto que fez o próprio Giovanne tensionar os ombros dentro do terno. Ela apoiou as mãos simples na lataria do carro luxuoso e olhou diretamente para o bilionário.

— Senhor Vance... — a voz da minha mãe embargou, mas ela continuou. — Eu precisava olhar nos seus olhos antes de o senhor levar a minha filha. Eu sei que ela está indo trabalhar para o senhor no exterior, mas o que o senhor fez pela nossa família... a reforma da minha casa, a estrutura para trazer o meu menininho de volta para os meus braços... o senhor salvou a vida do meu filho.

Giovanne piscou, visivelmente atordoado. Sua máscara de CEO implacável vacilou por um segundo inteiro. Ele abriu a boca para falar algo, provavelmente para dizer de forma fria que aquilo era apenas uma transação comercial, mas minha mãe não o deixou interromper.

— Que Deus te abençoe e te proteja todos os dias, meu filho — ela continuou, derramando lágrimas de pura gratidão e bem-dizendo o homem que me ameaçou de prisão quarenta e oito horas atrás. — O senhor é um anjo que entrou nas nossas vidas no momento de maior escuridão. Por favor, cuide bem da minha Jade lá fora. Ela é o meu maior tesouro.

Um silêncio sepulcral caiu sobre a rua. Olhei para Giovanne e o vi engolir em seco, completamente desarmado. Seus olhos azuis, antes cheios de desconfiança e gelo, alternavam entre o rosto marejado da minha mãe e o meu semblante tenso, inteiramente atordoado pelo choque ético daquela situação. Ele, o homem que se considerava um monstro de controle, estava sendo chamado de anjo pela mãe da mulher que ele pretendia transformar em prisioneira.

Ele não soube o que responder, apenas assentiu de forma rígida com a cabeça, enquanto o motorista rapidamente saía do carro para colocar minhas malas no porta-malas.

Olhei para a minha mãe uma última vez, engolindo as lágrimas, e entrei no banco de trás, sentando-me o mais longe possível de Giovanne e o vidro fumê subiu, isolando-nos do mundo exterior novamente.

Quando o carro arrancou, o silêncio entre nós dentro daquele veículo era sufocante. Giovanne continuava olhando para a janela, com o maxilar travado, digerindo o peso daquela gratidão que ele definitivamente não merecia.

— O que exatamente você falou para a sua mãe? — Ele perguntou sem sequer me olhar.

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