Masuk~~ Jade ~~
— Que recebi uma proposta de emprego no exterior e que quando o senhor soube da condição do meu irmão, se ofereceu para cuidar da reforma, e descontaria aos poucos do meu pagamento.
Giovanne não disse mais nada e eu também não insisti em prolongar qualquer conversa. Encostei minha cabeça no vidro, observando o trajeto sem foco, imaginando como seria a minha vida dali em diante.
O trajeto até o aeroporto aconteceu em um silêncio sepulcral, mas nada me preparou para o momento em que o carro parou na pista do hangar particular. Ver o jatinho executivo da Vance Corporação de perto fez meu estômago despencar. Era uma aeronave imensa, toda pintada em tons de preto e prata reluzente, ostentando o logotipo minimalista da empresa na cauda.
Quando subi os degraus e pisei no interior, precisei segurar o fôlego. Aquilo não parecia um meio de transporte, parecia a sala de estar de um hotel cinco estrelas flutuante. Poltronas largas de couro legítimo cor de gelo, acabamentos em madeira escura polida, tapetes tão macios que afundavam sob os meus pés e uma iluminação embutida suave que deixava tudo ainda mais intimidador.
Acomodei-me na poltrona mais distante possível. Olhei de relance para Giovanne, esperando que o luxo ao seu redor trouxesse alguma faísca de humanidade ao seu rosto, mas foi em vão. Ele sentou-se na diagonal, abriu um laptop de última geração e simplesmente passou a me ignorar. Durante as horas de voo sobre o Atlântico, ele permaneceu imerso em planilhas e relatórios, mantendo sempre uma expressão séria, enigmática e absurdamente fria. Ele não me ofereceu uma palavra, um olhar ou um copo de água. Eu era invisível, um fantasma incômodo dividindo o mesmo oxigênio que ele.
O fuso horário e a exaustão psicológica me deixaram anestesiada. Quando o jato finalmente pousou em Boston, fomos direto para a cobertura dele em um bairro nobre da cidade.
Assim que as portas duplas do elevador privativo se abriram diretamente dentro do apartamento, meu queixo caiu. As paredes eram imensas superfícies de vidro que iam do chão ao teto, revelando a linha do horizonte de Boston com seus arranha-céus iluminados pelo fim de tarde. O design era minimalista, com móveis de linhas retas em tons de cinza, preto e mármore escuro. Não havia porta-retratos, não havia cor, não havia calor. Era um monumento ao poder e à solidão. Tudo ali gritava riqueza intangível, o tipo de lugar que eu só via em revistas de arquitetura.
Estreitei os olhos, absorvendo a frieza ostensiva do ambiente, e não consegui me conter. O deboche saiu antes que eu pudesse frear.
— Nossa, é um verdadeiro cativeiro de luxo.
Giovanne passou o olhar por mim, erguendo uma sobrancelha com a expressão gélida de sempre. Ele caminhou até o centro da sala, retirando o paletó e afrouxando o nó da gravata com movimentos calculados.
— Não se anime, o apartamento é meu, e teremos algumas regras básicas — ele falou, a voz com uma autoridade que me dava arrepios. — Me acompanhe, por favor.
Engoli em seco e o segui por um corredor largo. Quando ele empurrou a porta, deparei-me com um quarto que possuía quase o tamanho da minha casa inteira no Brasil. A cama king size centralizada parecia uma nuvem de lençóis egípcios brancos, ladeada por janelas imensas e um closet embutido que parecia infinito.
— Aqui serão os seus aposentos durante sua estadia aqui — ele prosseguiu, gesticulando de forma protocolar. — É uma suíte, tem TV, mas acho que você não terá tempo a perder com isso. Você terá acesso à minha cozinha, mas prefiro que evite circular, não quero perder a minha privacidade. Por isso, colocarei um frigobar aqui e talvez um fogão elétrico. Se conseguir limitar as suas necessidades a esse quarto, melhor.
Apenas balancei a cabeça concordando. Na verdade, eu até preferia assim, pois não queria qualquer tipo de proximidade com aquele nojo de pessoa, e quanto menos eu precisasse olhar para a cara dele, mais fácil seria suportar aquele ano.
— Eu tenho uma funcionária que cuida da limpeza — ele continuou, a voz mecânica, cruzando os braços enquanto me avaliava de cima a baixo. — Como geralmente como fora, minha despensa não costuma ficar cheia, mas você pode fazer uma lista do que precisa e irei providenciar.
Assenti, sentindo um nó doloroso se formar na minha garganta. Tive que morder o interior da bochecha para segurar a vontade de chorar ali mesmo, na frente dele, começando a sentir o peso daquela decisão.
— Todos os dias, pontualmente às 7:40, o motorista estará aqui nesse mesmo horário para te buscar — ele ditou os termos, implacável. — Nós jamais iremos juntos ao laboratório, e ninguém jamais deve saber quem você é e o que aconteceu no Brasil. Para todos os efeitos, você é uma pesquisadora terceirizada de um projeto confidencial. Lá na sede temos um refeitório onde você poderá fazer as suas refeições. Quanto ao horário de trabalho, te deixarei livre. Você pode continuar exercendo sua carga horária, ou virar a madrugada se quiser, mas não pagarei um centavo a mais por isso. Quanto mais rápido você me entregar resultados, mais rápido acabamos com isso e você retorna para a sua família.
— Sim, senhor — respondi, engolindo a minha dignidade.
— E o mais importante — ele deu um passo à frente, estreitando os olhos azuis de um jeito que me fez congelar. — Quando você estiver aqui, se eu receber visitas, você permanece absolutamente proibida de sair do quarto. Por segurança, prefiro que ninguém saiba da sua existência aqui.
— Certo. Algo mais?
— Você fala inglês?
— Sei o básico — respondi, sustentando o olhar dele. Eu conseguia ler artigos científicos em inglês perfeitamente, mas a conversação ainda me travava.
— Ótimo, você não vai precisar ficar de conversa fiada com a equipe — ele rebateu, curto e grosso. — Se precisar instruir a equipe do laboratório ou tiver algo que não saiba, pode falar diretamente comigo. Eu serei o seu único canal.
— Combinado.
— Fique à vontade para organizar as suas coisas — ele deu as costas, caminhando em direção à porta. — Usaremos essa semana para a sua adaptação, por isso faça a lista de compras do que precisa, para que eu resolva.
O estalo da porta se fechando selou o meu destino. Fiquei sozinha no silêncio daquele quarto monumental. O que mais eu poderia dizer ou fazer? Eu não tinha escolha.
Caminhei a passos lentos até as minhas malas no chão, abrindo os zíperes com as mãos trêmulas. Aos poucos, conforme as roupas simples que eu trouxera do Brasil iam sendo colocadas nas gavetas daquele closet luxuoso, as lágrimas começaram a correr deliberadamente pelo meu rosto. O choro, antes contido, veio com força, lavando a solidão, o medo e a humilhação de estar sendo tratada como um segredo sujo.
Levei alguns minutos para me recompor, forçando o ar a entrar nos meus pulmões. Limpei as bochechas com as costas das mãos e sentei-me na borda da cama macia. Eu precisava ser forte. Pelo João Pedro, pela minha mãe.
~~ Eleanor ~~Eu estava na sala da presidência em Boston, revisando os relatórios de mitigação de danos após a prisão de Washington, quando a secretária abriu a porta com uma expressão hesitante.— Senhora Vance... A senhorita Alexandra Hastings está na recepção. Os seguranças iam barrá-la, mas ela está muito alterada e exigiu falar com a senhora.Fechei a pasta de couro sobre a mesa, sentindo a minha espinha enrijecer.— Deixe-a entrar — ordenei, ajeitando a minha postura na cadeira. Eu queria ver até onde ia a audácia daquela garota.Quando a porta se abriu novamente, a mulher que cruzou a soleira não parecia a herdeira impecável e soberba de sempre. Alexandra estava pálida, com os cabelos levemente desgrenhados e uma expressão de puro pânico.— Eleanor... — ela começou, a voz trêmula, dando passos rápidos até a minha mesa. — Graças a Deus a senhora me atendeu. Onde ele está?Encarei-a com um olhar que poderia congelar o próprio inferno. Não me levantei, sequer pisquei.— Como você
~~ Jade ~~Duas semanas se passaram. Saber por Eleanor que Richard Hastings estava sendo investigado pela polícia americana como um dos prováveis financiadores do ataque contra Giovanne, além de toda a sujeira financeira contra a empresa, mantinha o meu estômago embrulhado.A sensação de impotência e medo era uma sombra constante. Eleanor havia redobrado a segurança em Boston e ordenado escolta privada vinte e quatro horas para nós no hospital. Edward, Valentina e eu, mesmo estando no Brasil, vivíamos nos escondendo, em alerta constante. Eu não tinha mais coragem de pisar nem mesmo na sede brasileira da Vance.Certa manhã, enquanto me preparava para ir ao hospital, parei de frente ao espelho do quarto. Estava vestindo apenas as minhas roupas íntimas, que agora já começavam a ficar desconfortavelmente apertadas.Minha barriga, agora entrando no quarto mês, finalmente começava a criar forma. A pequena curva sob o umbigo já era perceptível, arredondada e impossível de ser escondida sob r
~~ Eleanor ~~O peso de retornar à sede da Vance Neuro-Genetics parecia carregar todas as toneladas do fracasso que evitei encarar por anos. Enquanto meu salto estalava contra o piso do saguão, os olhares dos funcionários e executivos recaíam sobre mim com uma mistura de choque, sussurros e temor. Washington, meu próprio irmão, havia sido preso em uma operação federal esmagadora, arrastado por crimes que ameaçavam desmoronar o império fundado por meu falecido marido.Entrei na imensa sala de reuniões do conselho com a postura erguida, vestindo uma armadura de frieza que aprendi a dominar no mundo corporativo. Ao redor da mesa oval, os acionistas majoritários murmuravam em pânico. A queda das ações na bolsa nas últimas horas era um reflexo direto do escândalo.— Silêncio, por favor — exigi, ocupando a cadeira principal da presidência, um lugar que por direito pertencia ao meu filho.O burburinho cessou aos poucos. Antes que qualquer acionista pudesse abrir a boca para disparar question
— Preso? Minha nossa! Mas por quê? — Minha mãe nos olhou com espanto, totalmente por fora do que estava acontecendo.— Então ficou comprovado? Ele teve envolvimento com o acidente? — ela continuou, levando a mão ao peito e passando o olhar de mim para Eleanor, em busca de respostas.— Não sei. Não souberam me dizer exatamente os termos, mas não teriam prendido ele à toa... — Eleanor balbuciou, visivelmente abalada.Minha mãe rapidamente correu para ampará-la, puxando uma cadeira próxima. — Venha, sente-se um pouco. Vou pegar uma água.Em poucos segundos, mamãe retornou e a serviu com o copo de água, que minha sogra segurava com as mãos trêmulas, tomando um gole com dificuldade.— A senhora teve acesso aos documentos da auditoria? — perguntei, cruzando os braços, tentando entender a extensão do estrago que estava ocorrendo em Boston.Eleanor abaixou a cabeça, balançando-a positivamente. — A polícia me chamou para prestar depoimento. Eu não sabia dessa sujeira toda, Jade. Meu marido me
~~ Jade ~~A semana finalmente chegou ao fim e, como prometido, no sábado pela manhã, Eleanor desembarcou no Brasil. Minha mãe havia ficado com Giovanne no hospital, então eu mesma fiz questão de buscá-la pessoalmente no aeroporto.Encontrei-a no saguão, vestindo um conjunto de alfaiataria elegante e arrastando duas malas caras. O trajeto até o carro foi silencioso, mas assim que o motorista assumiu o volante, ela quebrou o silêncio, olhando pela janela com uma expressão pensativa.— Já faz anos que não retorno aqui. Depois que meus pais morreram, nunca mais tive vontade.— O Washington é seu único irmão? — perguntei, tentando manter um tom amigável e abrir espaço para a nossa primeira conversa civilizada.— Nós éramos quatro, mas um já faleceu, e a outra vive na Europa.Sorri de leve, assentindo, enquanto observava a paisagem de São Paulo passar.— Viu o Giovanne hoje? Como ele está? — ela perguntou, o olhar ainda fixo no trajeto, mas a voz carregando uma preocupação verdadeira.— Ho
~~ Valentina ~~ Mesmo que Edward já tivesse me contado os fatos, ouvir tudo novamente causava a mesma sensação de angústia misturada ao desejo implacável de obter justiça.O silêncio na sala virtual de videoconferência permaneceu pesado por alguns segundos após o término do relato dele. Através da tela, o detetive Walker e o oficial de ligação da cooperação internacional pareciam processar cada palavra, anotando detalhes minuciosos que ele acabara de expor.— Obrigado, Sr. Harrison. O seu depoimento é cristalino e muito esclarecedor — o detetive Walker declarou, ajeitando os óculos com uma expressão firme. — As provas documentais que a auditoria e os representantes da família apresentaram corroboram exatamente a sua narrativa.Senti um misto de alívio e amargor ao ouvir aquilo. Edward me olhou com uma expressão de profunda tristeza, os olhos repletos de lágrimas.— Fico satisfeito em saber que a verdade está vindo à tona — ele respondeu com a voz embargada. — Se precisarem de qualque







