LOGIN~~ Giovanne ~~
O despertador não precisou tocar para que eu abrisse os olhos. Na verdade, eu mal havia dormido. A luz do sol cortava as frestas da cortina do meu quarto, mas a verdadeira dor não estava nos meus olhos, e sim latejando dentro da minha cabeça. Uma mistura violenta de ressaca física, provocada pelo uísque, e uma ressaca moral que pesava três vezes mais.
Sentei-me na borda da cama, apoiando os cotovelos nos joelhos e enterrando o rosto nas mãos. Eu me sentia ridículo, pois havia agido como um canalha impulsivo na noite anterior. O álcool e a insônia tinham borrado as minhas linhas de defesa. Pressionar a Jade contra o balcão daquela forma, usar o contrato para mascarar o choque que levei ao vê-la com aquela camisola de algodão… tão… atraente. Nada daquilo fazia parte do meu código de conduta sóbrio. Eu havia sido patético.
Levantei-me, vesti uma calça de moletom e uma camiseta escura, decidido a resolver aquilo antes que ela saísse. Quando cheguei à área comum, Jade já estava na sala, com a bolsa no colo, esperando o horário do motorista. Ela mantinha a postura ereta, mas não me olhou quando entrei.
Aproximei-me a passos lentos, parando a uma distância segura, bem longe do balcão que testemunhara o meu deslize poucas horas antes. Pigarreei, sentindo a garganta seca.
— Dra. Vasconcelos — chamei, a voz um pouco mais baixa do que o normal. Ela finalmente ergueu os olhos para mim, frios e defensivos. Respirei fundo, forçando as palavras a saírem da minha boca. — Quero pedir desculpas pela forma como agi essa madrugada. Eu estava... sob o efeito do álcool e cometi um excesso. Minha conduta não foi profissional.
Jade piscou, visivelmente surpresa com o pedido de desculpas.
— Tudo bem, senhor Vance. Também peço desculpa pelo incômodo.
— E... você está melhor da dor de cabeça? — perguntei, de forma quase mecânica, tentando desviar do assunto principal.
— Sim, o analgésico fez efeito. Obrigada — ela respondeu, a voz neutra, mas ainda desconfiada.
— Ótimo.
Depois disso, o silêncio que se instalou na sala foi sufocante. Um silêncio incômodo, pesado, onde nenhum de nós dois sabia exatamente para onde olhar. Eu me recusei a prolongar o assunto, e ela também não fez questão. Permanecemos como dois estranhos dividindo o mesmo espaço até que o bipe do elevador anunciou a chegada do motorista. Jade se levantou imediatamente e saiu, sem olhar para trás.
Assim que a porta de metal se fechou, passei a mão pelos cabelos com força, soltando um rosnado de pura frustração. Eu estava confuso, irritado e profundamente envergonhado com a minha falta de postura.
Peguei o celular e disquei o número do Edward.
— Hey, Giovanne. Já está na sede? — a voz dele veio animada.
— Não vou hoje, Edward — declarei, massageando as têmporas. — Estou indisposto. Tive uma crise severa de insônia durante a noite e vou trabalhar de casa hoje. Cuide das reuniões da manhã por mim.
— O grande chefe tirando um day off? Isso é histórico. Tudo bem, deixa comigo.
Desliguei. Eu não tinha condições de encarar o conselho de administração com essa dor de cabeça. No entanto, o meu momento de glória durou pouco. Caminhei até o meu escritório privativo, liguei o sistema de monitoramento e liguei a escuta do laboratório onde Jade trabalhava. Em vez de usar os fones, direcionei o áudio para uma caixinha de som em cima da mesa. Passei o dia inteiro ouvindo o som ambiente, o bipe das máquinas, o vidro dos tubos de ensaio batendo, o silêncio concentrado dela.
Já passava das quinze horas quando o barulho de algo vibrando na caixinha de som me chamou a atenção, parecia ser um celular. Tive a confirmação quando Jade atendeu.
Eu não conseguia ouvir a voz da pessoa do outro lado da linha, mas a reação dela foi instantânea e violenta.
— Como você tem a audácia de me ligar?! — a voz dela subiu dois tons, carregada de um ódio cru que eu ainda não tinha ouvido. Havia um som de passos rápidos, como se ela estivesse andando de um lado para o outro. — Você é um desgraçado, um verme! Você roubou a minha vida, destruiu tudo o que eu construí e ainda acha que pode falar comigo como se nada tivesse acontecido?!
Houve uma pausa, ela escutou o outro lado por alguns segundos antes de explodir novamente.
— Cala a boca, Renato! Não ouse falar de amor! Se você acha que vai ficar com os bilhões da Apex usando o meu suor, você está muito enganado. Eu espero do fundo da minha alma que você apodreça no inferno!
O som de um impacto me fez acreditar que ela havia batido o telefone contra algo.
Na minha sala, soltei uma risada curta e sincera, recostando-me na cadeira. Uma onda de satisfação inexplicável me atingiu. Aquela discussão era a prova cabal que eu precisava, ela estava dizendo a verdade. Jade odiava aquele homem com cada fibra do seu ser, não havia aliança ali, apenas traição. Fiquei interessado, perguntando-me o que aquele canalha teria dito para deixá-la naquele estado, e uma ideia começou a se formar na minha mente.
Mais tarde, por volta das dezoito horas, meu celular tocou novamente, era o Edward.
— Cara, é sexta-feira. Você passou os últimos dias trancado nessa cobertura com a sua prisioneira. Vamos tomar um chopp, você precisa arejar a cabeça.
Olhei para a janela, vendo o entardecer de Boston.
— Tudo bem. Me encontre lá em vinte minutos.
O pub estava movimentado, com aquela atmosfera barulhenta típica de fim de semana. Sentamos em uma mesa de canto e pedimos duas canecas grandes de chopp. Após o primeiro gole, o efeito relaxante do álcool começou a dissipar a tensão do meu dia.
— Você não sabe o que aconteceu hoje — comentei, inclinando-me na direção do Edward, com um sorriso de canto. — Deixei a escuta do laboratório ligada. O tal namorado que roubou a fórmula, o Renato, ligou para a Jade hoje à tarde.
Edward ergueu as sobrancelhas, interessado. — Sério? E o que ela disse?
— Cara, ela acabou com ele — contei, soltando uma risada de satisfação junto com o meu amigo. — Chamou o sujeito de verme, desgraçado, disse que queria que ele apodrecesse no inferno. Ela não quer ver o cara nem pintado de ouro.
— Bom, pelo menos agora você tem certeza de que ela não está jogando dos dois lados — Edward ponderou, bebendo um gole.
— Sim. Mas fiquei curioso para saber o que ele queria. Tive uma ideia... Na segunda-feira, vá até a bancada dela. Puxe assunto, seja o Edward simpático de sempre e tente arrancar o que o Renato disse nessa ligação. Eu vou estar na minha sala ouvindo tudo pela escuta.
Edward soltou uma risada maliciosa, achando graça da minha obsessão pelo controle. — Combinado. Vou ser o ombro amigo dela por dez minutos. Tudo pela empresa.
Pedimos mais uma rodada. Três chopes depois, com a guarda totalmente baixa e a ressaca moral da madrugada voltando a esquentar o meu sangue, olhei para o copo e soltei uma risada abafada, lembrando-me do que tinha acontecido na cozinha.
— Você precisa ver, Edward... — comecei, balançando a cabeça, um pouco alto por causa da bebida. — Ontem de madrugada... a Jade foi até a cozinha de camisola. Uma camisola de algodão branco, cara…
Edward parou o copo no meio do caminho, os olhos brilhando de pura fofoca.
— Não brinca. E aí?
— E aí que... porra, faz tanto tempo que eu não toco em uma mulher, desde que a Alexandra acabou com a minha vida... que eu cheguei a sentir desejo por ela. Logo por ela, dá para acreditar? — Falei, rindo de forma nervosa.
— E qual é o problema, Giovanne? — Edward franziu o cenho, defendendo-a imediatamente. — A Jade é uma mulher linda, muito atraente. Você está solteiro há meses, é normal sentir atração.
Senti minhas bochechas esquentarem e gaguejei por um segundo antes de tentar recuperar a minha pose de superioridade.
— O-o quê? Ficou maluco? Ela não é... eu nem acho ela tudo isso! Aquela mulher é insuportável, petulante, não tem o menor respeito pela minha autoridade!
Edward soltou uma gargalhada alta, apontando o dedo para mim.
— Ah, claro! Deve ser por isso que você passou a noite inteira falando dela! "Jade isso", "Jade aquilo".
— Isso é assunto de interesse da empresa, Edward. — debochei, virando o resto do meu chope com força na mesa. — Quer saber? Cansei de falar de cientistas. Eu vou acabar a minha noite com uma mulher que preste.
Afastei a cadeira e me levantei, o álcool ditando as minhas ações. Olhei para o balcão do pub, onde um grupo de amigas conversava animadamente. Entre elas, uma morena de vestidos ajustados notou o meu olhar e sorriu de volta. O cortejo foi fácil, o sobrenome Vance e o relógio caro no meu pulso faziam noventa por cento do trabalho de sedução em qualquer lugar do mundo.
Após alguns minutos de flerte barato, drinks pagos e risadas forçadas, eu já estava com ela no banco do meu carro.
~~ Eleanor ~~Eu estava na sala da presidência em Boston, revisando os relatórios de mitigação de danos após a prisão de Washington, quando a secretária abriu a porta com uma expressão hesitante.— Senhora Vance... A senhorita Alexandra Hastings está na recepção. Os seguranças iam barrá-la, mas ela está muito alterada e exigiu falar com a senhora.Fechei a pasta de couro sobre a mesa, sentindo a minha espinha enrijecer.— Deixe-a entrar — ordenei, ajeitando a minha postura na cadeira. Eu queria ver até onde ia a audácia daquela garota.Quando a porta se abriu novamente, a mulher que cruzou a soleira não parecia a herdeira impecável e soberba de sempre. Alexandra estava pálida, com os cabelos levemente desgrenhados e uma expressão de puro pânico.— Eleanor... — ela começou, a voz trêmula, dando passos rápidos até a minha mesa. — Graças a Deus a senhora me atendeu. Onde ele está?Encarei-a com um olhar que poderia congelar o próprio inferno. Não me levantei, sequer pisquei.— Como você
~~ Jade ~~Duas semanas se passaram. Saber por Eleanor que Richard Hastings estava sendo investigado pela polícia americana como um dos prováveis financiadores do ataque contra Giovanne, além de toda a sujeira financeira contra a empresa, mantinha o meu estômago embrulhado.A sensação de impotência e medo era uma sombra constante. Eleanor havia redobrado a segurança em Boston e ordenado escolta privada vinte e quatro horas para nós no hospital. Edward, Valentina e eu, mesmo estando no Brasil, vivíamos nos escondendo, em alerta constante. Eu não tinha mais coragem de pisar nem mesmo na sede brasileira da Vance.Certa manhã, enquanto me preparava para ir ao hospital, parei de frente ao espelho do quarto. Estava vestindo apenas as minhas roupas íntimas, que agora já começavam a ficar desconfortavelmente apertadas.Minha barriga, agora entrando no quarto mês, finalmente começava a criar forma. A pequena curva sob o umbigo já era perceptível, arredondada e impossível de ser escondida sob r
~~ Eleanor ~~O peso de retornar à sede da Vance Neuro-Genetics parecia carregar todas as toneladas do fracasso que evitei encarar por anos. Enquanto meu salto estalava contra o piso do saguão, os olhares dos funcionários e executivos recaíam sobre mim com uma mistura de choque, sussurros e temor. Washington, meu próprio irmão, havia sido preso em uma operação federal esmagadora, arrastado por crimes que ameaçavam desmoronar o império fundado por meu falecido marido.Entrei na imensa sala de reuniões do conselho com a postura erguida, vestindo uma armadura de frieza que aprendi a dominar no mundo corporativo. Ao redor da mesa oval, os acionistas majoritários murmuravam em pânico. A queda das ações na bolsa nas últimas horas era um reflexo direto do escândalo.— Silêncio, por favor — exigi, ocupando a cadeira principal da presidência, um lugar que por direito pertencia ao meu filho.O burburinho cessou aos poucos. Antes que qualquer acionista pudesse abrir a boca para disparar question
— Preso? Minha nossa! Mas por quê? — Minha mãe nos olhou com espanto, totalmente por fora do que estava acontecendo.— Então ficou comprovado? Ele teve envolvimento com o acidente? — ela continuou, levando a mão ao peito e passando o olhar de mim para Eleanor, em busca de respostas.— Não sei. Não souberam me dizer exatamente os termos, mas não teriam prendido ele à toa... — Eleanor balbuciou, visivelmente abalada.Minha mãe rapidamente correu para ampará-la, puxando uma cadeira próxima. — Venha, sente-se um pouco. Vou pegar uma água.Em poucos segundos, mamãe retornou e a serviu com o copo de água, que minha sogra segurava com as mãos trêmulas, tomando um gole com dificuldade.— A senhora teve acesso aos documentos da auditoria? — perguntei, cruzando os braços, tentando entender a extensão do estrago que estava ocorrendo em Boston.Eleanor abaixou a cabeça, balançando-a positivamente. — A polícia me chamou para prestar depoimento. Eu não sabia dessa sujeira toda, Jade. Meu marido me
~~ Jade ~~A semana finalmente chegou ao fim e, como prometido, no sábado pela manhã, Eleanor desembarcou no Brasil. Minha mãe havia ficado com Giovanne no hospital, então eu mesma fiz questão de buscá-la pessoalmente no aeroporto.Encontrei-a no saguão, vestindo um conjunto de alfaiataria elegante e arrastando duas malas caras. O trajeto até o carro foi silencioso, mas assim que o motorista assumiu o volante, ela quebrou o silêncio, olhando pela janela com uma expressão pensativa.— Já faz anos que não retorno aqui. Depois que meus pais morreram, nunca mais tive vontade.— O Washington é seu único irmão? — perguntei, tentando manter um tom amigável e abrir espaço para a nossa primeira conversa civilizada.— Nós éramos quatro, mas um já faleceu, e a outra vive na Europa.Sorri de leve, assentindo, enquanto observava a paisagem de São Paulo passar.— Viu o Giovanne hoje? Como ele está? — ela perguntou, o olhar ainda fixo no trajeto, mas a voz carregando uma preocupação verdadeira.— Ho
~~ Valentina ~~ Mesmo que Edward já tivesse me contado os fatos, ouvir tudo novamente causava a mesma sensação de angústia misturada ao desejo implacável de obter justiça.O silêncio na sala virtual de videoconferência permaneceu pesado por alguns segundos após o término do relato dele. Através da tela, o detetive Walker e o oficial de ligação da cooperação internacional pareciam processar cada palavra, anotando detalhes minuciosos que ele acabara de expor.— Obrigado, Sr. Harrison. O seu depoimento é cristalino e muito esclarecedor — o detetive Walker declarou, ajeitando os óculos com uma expressão firme. — As provas documentais que a auditoria e os representantes da família apresentaram corroboram exatamente a sua narrativa.Senti um misto de alívio e amargor ao ouvir aquilo. Edward me olhou com uma expressão de profunda tristeza, os olhos repletos de lágrimas.— Fico satisfeito em saber que a verdade está vindo à tona — ele respondeu com a voz embargada. — Se precisarem de qualque







