FAZER LOGINQuando Andy chegou do trabalho, Kassandra estava arrumando o cabelo. Ele entrou no quarto, aproximou-se e disse, como se nada tivesse acontecido:
— Já está linda.
Kassandra deu um sorrisinho sem jeito. Andy sentou-se atrás dela na cama e começou a apalpá-la, passando a mão pela perna e subindo para as coxas. Ela usava um vestidinho simples, de ficar em casa mesmo. O toque dele a incomodou profundamente. A mágoa que sentia não permitiria qualquer intimidade com ele, como sempre fora.
— Para, Andy. Estou ocupada! — ela disse, chateada.
Ele respondeu, apertando os sei.os dela:
— Se você não for dormir comigo hoje, não vou te levar para sair.
Kassandra começou a chorar de ódio, sentindo-se humilhada, mas não respondeu. Achou que, ficando quieta, ele sairia e ela não seria obrigada a fazer nada. Ele se afastou para tomar banho. Ela continuou a se arrumar, colocou um macacão, fez uma maquiagem forte. Ele começou a se arrumar também, e até pediu para ela passar uma calça para ele. Quando Kassandra estava pronta, ele estava na sala mexendo no celular. Ela se aproximou, parou na frente dele e disse, mexendo na bolsa:
— Estou pronta, vamos?
Ele sorriu, levantou-se e se aproximou devagar, deu um beijinho nela e disse, colocando-a de costas para ele e puxando-a pela cintura:
— Antes, quero fazer uma coisa com você.
Kassandra entendeu o recado e afastou-se, apreensiva:
— Andy, vamos logo, quero sair um pouco.
Ele respondeu, enrolando a mão no cabelo dela e puxando, fazendo-a ficar encostada nele:
— Vamos fazer um amorzinho antes, preciso me aliviar, vai. Faz dias que você não dorme comigo! Vai, Kassandra.
Ela afirmou que não estava a fim, mas ele insistiu e começou a beijá-la. Kassandra retribuiu o beijo, sugerindo que poderiam dormir juntos quando voltassem. Eles se beijaram, seguindo para o sofá. Andy a jogou com força e tentou abrir o macacão às pressas, estourando o zíper. Kassandra começou a negar, virando o rosto, enquanto ele insistia, quase a forçando a beijá-lo, determinado a deixá-la nua. Ela gritou:— Para, eu sinto no.jo de você, não quero, Andy! Me larga!
Ele não gostou da reação. Deitado sobre ela no sofá, ele agarrou o cabelo dela, olhou-a nos olhos com ódio e disse:— Agora sente nojo? Você nem faz nada direito. Vou atrás de mulher na rua, já que você não está sendo mulher suficiente para mim. Acho que nunca foi.
Kassandra olhou nos olhos dele e respondeu:
— Você vai se arrepender muito por isso!
Ele a soltou, foi para o quarto, bateu a porta e logo voltou, saindo da casa. Antes de partir, disse a ela:
— Não quero encontrar você mais aqui quando eu voltar. Pegue suas coisas e vá embora!
Kassandra via em Andy um homem completamente diferente daquele por quem se apaixonara. Ele nunca fora muito meloso, mas era gentil e, à sua maneira, demonstrava gostar dela. De repente, tudo mudou, e ela não conseguia entender o porquê. Arrasada, arrumou suas malas, mas não tinha para onde ir. Decidiu ir para o quarto de empregada ao lado da lavanderia, levando suas coisas para lá a fim de evitá-lo.Ouviu Andy chegando de manhã. Dormiu no quartinho, e, de manhã, levantou-se para comprar pão, enquanto ele dormia até tarde. Quando ele se levantou, não falou com ela e saiu novamente. À noite, quando ele chegou, Kassandra o chamou para conversar. Sentaram-se na sala, e ela começou a falar enquanto ele mexia no celular:
— Andy, eu não tenho para onde ir, não tenho experiência alguma, e você sabe disso. Não quero mais brigar, tá bom? A gente já devia ter terminado antes. Você me traiu e isso é uma coisa que não vou conseguir passar por cima.
Ele respondeu que a traição era culpa dela.
— Como você tem coragem de me tratar assim, Andy? — ela perguntou.
— A gente está junto há anos, o que eu te fiz para você me odiar tanto?
Ele não respondeu. Levantou-se, foi para a cozinha, passou pela sala e disse com frieza:
— Fique o tempo que precisar, mas você vai cuidar da casa para mim. Vou dispensar a faxineira e você vai fazer o trabalho dela em troca de ficar aqui. É o mínimo, já que você não faz bosta nenhuma da vida.
Kassandra começou a chorar e pediu a Andy que lhe desse pelo menos a metade do dinheiro que havia dado como entrada no apartamento, para que pudesse se virar. Ele respondeu que ela não sabia fazer nada sozinha, que gastaria tudo. Ao mesmo tempo em que a humilhava, ele tentava fazer parecer que não agia com más intenções.— Ficarei pouco tempo, até conseguir um emprego — ela disse.
Ele retrucou que, nesse caso, ela ficaria muito tempo, já que nunca gostou de trabalhar.
— Então você está saindo e fazendo o que quer, com certeza ficando com outras, e eu aqui como a trouxa? — ela questionou.
— Quando vamos terminar oficialmente para todos saberem?Ele respondeu com ironia:
— Quando eu quiser, ainda não é hora.
Andy também a alertou que não era para ela sair ou encontrar ninguém, e que se soubesse que ela estava conversando com algum homem, ele a jogaria na rua, sem nada.
Kassandra sentiu-se péssima, desejando desaparecer. Começou a ficar descuidada e triste. Às vezes, pensava que um dia acordaria, abriria os olhos e tudo estaria como antes, normal. Não conseguia entender por que ele a tratava daquela forma. Os dias foram passando, Andy levava vida de solteiro e, quando os pais dele iam à casa, Kassandra tinha que fingir que estava tudo bem. Ele vivia a ameaçando, dizendo que se a família dele soubesse da verdade, ela se daria mal. Ele começou a inventar que ela não se sentia bem para receber visitas, disse que ela estava depressiva, tomando remédios e que só dormia o dia inteiro, enquanto a casa ficava suja e ele sem comida.
Quando os amigos deles mandavam mensagem, ele a instruía a ignorar ou então deixá-lo responder, porque todos estavam o vendo com outras mulheres e, com certeza, logo contariam a ela. Se ela soubesse, teria que tomar um rumo, sair dali. Às vezes, algumas colegas mandavam mensagem perguntando se ela estava bem, mas Kassandra apenas ignorava.
Quando os pais de Andy foram visitá-los, Kassandra ouviu o dia inteiro como estava feia, relaxada, com o cabelo desarrumado, as unhas sem fazer. Ele a fez faxinar a casa toda, mesmo ela tendo limpado bem no dia anterior. Com medo da visita, ela fez tudo. Pensou em pedir ajuda, mas era o filho deles, e se algo desse errado, ela estaria na rua sem um centavo. Eles foram em horário marcado, e Kassandra teve que dizer à sogra que não estava bem para sair, que talvez fosse síndrome do pânico. Essa era a justificativa para ela não ir à casa da sogra há tanto tempo.
Eles acreditaram em tudo. Assim que saíram, Andy disse que só faltava ela "dar para ele" para completar o seu "show, o teatro". Kassandra respondeu que só fingindo mesmo para parecer ter prazer com ele. Ela estava tirando a mesa quando ele jogou uma assadeira com comida no chão, mandando-a limpar para ela ver como era bom.
A rotina de Kassandra era limpar a casa, cozinhar e mandar muitos currículos por e-mail, mas sem experiência e sem ensino superior, as portas pareciam estar sempre fechadas para ela. Ela dormia e ficava no quarto da empregada no período em que Andy estava em casa para evitá-lo. Eles quase nunca conversavam; ele pedia favores, exigia que ela passasse as roupas mesmo estando no cabide, só dizia o que queria comer e criticava quase sempre tudo o que ela cozinhava. Kassandra apenas ouvia calada e ficava olhando ele sair. Sentia um alívio ao vê-lo indo para qualquer lugar.
Na manhã seguinte, ainda com aquela pressão, ela decidiu fazer um teste, mais por desencargo do que por real expectativa, mas quando o resultado apareceu diante dos olhos, o mundo pareceu desacelerar ao redor dela. Sentada no chão do banheiro, com as mãos tremendo e os olhos marejados, Kassandra ficou olhando para o pequeno objeto como se estivesse tentando confirmar que aquilo era real, que depois de tudo que tinham vivido, depois de todas as decisões difíceis, a vida estava novamente se expandindo dentro dela.Valentino entrou alguns minutos depois, encontrou ela naquele estado confuso entre riso e choro, e antes mesmo que ela falasse qualquer coisa, ele percebeu que algo tinha mudado. Quando ela entregou o teste em silêncio, ele demorou alguns segundos para compreender, passando da surpresa para a emoção de forma tão intensa que os dois acabaram rindo e chorando juntos, abraçados no banheiro, sem precisar de palavras para entender o tamanho daquele momento.Contaram primeiro para A
Ele a encarou com aquele olhar penetrante.— Te amo, admiro, respeito. Você está sendo uma ótima mãe, para minha filha, cuida de mim e da casa. Temos uma família que eu amo muito. Não vou cortar suas asas, nunca, não precisa temer por isso. Sei que a idade, pode bagunçar as coisas, um pouco.Valentino respirou fundo antes de continuar.— Aqui dentro as coisas são como são, só nós sabemos de tudo. Mas daqui pra fora, eu não fico falando nada a ninguém e me comporto como o homem casado que devo ser. Sei que pesa muito, nosso passado. Eu mudei.Ele passou a mão pelos cabelos dela, olhando para Kassandra fixamente.— Você sabe toda a minha rotina. Eu não vou a lugar nenhum sozinho. Se qualquer dia eu vier a fazer algo que te cause insegurança, por favor me fale, e eu irei parar. Não quero que se precipite.A voz dele suavizou.— Sou muito apaixonado por cada detalhe seu. Sonho com você em meus braços quase todas as noites.Ele sorriu de leve.— Acho que tem um ímã em você que me atrai. Ac
Andreyna os chamou do banheiro, Kassandra foi ajudá-la, a colocou para dormir com eles. Quando Valentino contou a filha, que iria viajar, ela quis dormir com eles. Os dois nem puderam conversar mais.Valentino fez as malas e viajou no dia seguinte. Não foi uma viagem curta, nem longa demais, foram alguns dias suficientes para o silêncio pesar e para tudo que estava suspenso começar a se organizar dentro de Kassandra. Ele não ligava o tempo todo, não cobrava, não perguntava nada diretamente. Mas todos os dias, sem falhar, chegavam rosas.Sempre rosas vermelhas. No primeiro dia, um buquê simples, com um bilhete curto, falando sobre o quanto ele tinha demorado para entender que amar não era possuir, era cuidar mesmo quando podia perder. No segundo dia, mais rosas, com outra mensagem, falando sobre os erros, sobre o quanto ele tinha vivido no automático antes de Kassandra, sem enxergar nada além de responsabilidades vazias.No terceiro, outra entrega, outro bilhete, como se fosse uma cont
A festa aconteceu de forma linda, genuína. Todos ali tinham algum motivo para talvez não ir, alguns tinham raiva, mágoas, motivos para não perdoar, mas todos estavam olhando e se esforçando pelo centro de tudo, Andreyna e Yágilla. Valentino se manteve forte, foi educado, cordial, se isolou o pouco que pôde, ficou mais perto da própria família, deixandoKassandra, Ticiano e Andreyna à vontade, mais próximos da família de Rubian e de Yágilla.O quintal estava tomado por risadas, conversas cuidadosas, abraços que demoravam um pouco mais do que o normal, como se cada pessoa ali estivesse fazendo um acordo silencioso consigo mesma: aquele não era o dia para feridas, era o dia para a criança no centro da festa. Andreyna corria de um lado para o outro com o vestido lilás rodando, o cachorrinho Paçoca no colo ou no chão, sendo seguido por ela como uma sombra. Ticiano observava tudo passando de colo em colo, rindo fácil, alheio à complexidade emocional que envolvia cada familiar presente.Vale
Foi um fim de semana, incrível. Os dias que antecederam a festa de aniversário, passaram de forma surpreendentemente tranquila.A semana correu bem, quase mansa demais para uma vida que sempre parecia andar no limite. Kassandra voltou à rotina com um tipo novo de organização, menos caótica, menos ansiosa. Trabalhava, resolvia pendências das crianças, chegava em casa tentando não levar o peso do mundo nos ombros, sempre aceitando ajuda, quando as redes de apoio ofereceriam. Havia dias em que se sentia falha, outros em que se sentia estranhamente em paz, especialmente depois de curtir a verdadeira lua de mel, quente, intensa. Sentindo aquele cansaço bom de quem estava conseguindo acertar, ela passou a ficar mais saudável até.Ana assumiu as crianças com uma dedicação afetuosa. Cuidava e mimava Andreyna, com carinho atento, ajudava Ticiano a se desenvolver, preparava lanches que ela mesma, mal conhecia, ajeitava mochilas antes de Kassandra chegar, observava tudo como quem finalmente se
Rubian balançou a cabeça afirmando, indiferente. Kassandra sentou perto dele.— Vamos fazer uma festinha pra Andreyna e ela quer que vocês todos vão. Vai ser em casa mesmo, só familiares.Rubian respondeu:— Tá bom. Já fui lá por sua causa, posso ir por ela também. É só uma criança que não entende as coisas, né?Kassandra respondeu incomodada:— Não fica me tratando assim. Eu fico perdida no meio, tentando uma ponte, você não queria, estar perto? Dela? Olha o quanto o Valentino mudou.— Ela até dormiu aqui, sozinha. Rubian falou sério:— Eu vejo mudança, mas não confio. E isso me incomoda!— Tenho receio, de hoje, me aproximar dela e futuramente, algo acontecer e respingar no meu filho. — Você acha que eu não vejo? Como ele trata ela? Tudo de bom, que ela tem?— Comigo, ela nunca teria tudo isso. Eu jamais, faria algo para prejudicar ela. É um pedaço meu, eu a amo demais. — É difícil. Kassandra tentou buscar a melhor forma de falar com ele e respondeu:— Eu entendo, tudo e eu nunc







