MasukO silêncio do quarto só era interrompido pela respiração compassada de Isabela, já adormecida ao lado dele. Rafael, no entanto, permanecia desperto, olhos fixos no teto, enquanto pensamentos se acumulavam como peças de um quebra-cabeça impossível de ignorar.
A memória o levou de volta ao dia em que o advogado da família o chamara ao escritório para falar sobre o testamento do avô. Lembrava-se da raiva fer
O descontrole de Carlos havia sido registrado em áudio e vídeo. Cada palavra carregada de ódio, cada declaração que o aproximava da trama contra Rafael e Heloísa, estava agora documentada e sob a guarda da polícia. Ele talvez ainda não tivesse confessado formalmente o envolvimento no atentado, mas suas próprias palavras revelavam mais do que pretendia.Quando a porta da sala se fechou atrás dele e do advogado, Amaral e Silva permaneceram em silêncio por alguns segundos. O ambiente parecia ter absorvido a tensão dos últimos minutos. Ambos sabiam que precisariam analisar cada detalhe com cuidado, mas também reconheciam que a investigação acabara de dar um passo importante.— Temos o que precisávamos — disse Amaral, finalmente, apoiando as mãos sobre a mesa. — Não é uma confissão formal, mas ele acabou de confi
A sala de interrogatório tinha cheiro de café frio e papel úmido. Carlos Albuquerque entrou acompanhado pelo advogado criminalista, terno escuro e olhar afiado. Ainda assim, parecia gasto: olheiras fundas, barba malfeita e um tique nervoso no canto da boca denunciavam o esforço para manter a compostura.Atrás do vidro espelhado, Dr. Medeiros acompanhava em silêncio, braços cruzados, os olhos fixos na cena. A ordem dos delegados era clara: ele apenas observaria.Amaral abriu a pasta sobre a mesa. Não havia pressa em suas mãos. Dispôs cada folha com meticulosidade, mantendo os documentos organizados diante de si.— Sr. Albuquerque, antes de começarmos, preciso esclarecer que o senhor pode permanecer em silêncio e conversar reservadamente com seu advogado. Entendeu?— Meu cliente está ciente de seus direitos — respondeu o criminalista, antes que Carlos s
A sala de reuniões da delegacia estava agitada. Dossiês e relatórios estavam espalhados em ordem quase cirúrgica sobre a mesa. Amaral e Silva revisavam as anotações uma última vez, conscientes de que o próximo passo poderia determinar o rumo da investigação.— Ele sempre se vê como injustiçado — comentou Silva, folheando uma pasta. — Nunca aceitou ser afastado dos negócios. Mas não era por dinheiro. O que o move é rancor.Amaral concordou, apoiando as mãos na mesa.— E rancor, quando inflamado, é mais revelador do que qualquer prova técnica. Se jogarmos a isca certa, ele perde o controle.A fotografia de Carlos Albuquerque estava entre os documentos. O homem que antes circulava com desenvoltura entre empresários e figuras influentes agora enfrentava acusações que poderiam comprometer tudo
— Foi Moretti. — Tiago repetiu aquilo como quem despe um peso do peito e, por um instante, o interrogatório pareceu respirar.Amaral não comentou. Deixou que o silêncio abrisse espaço para que Tiago contasse o que realmente importava: o momento em que sua vida, já nas margens, foi forçada ao abismo.— Ele apareceu na minha porta — começou Tiago, a voz ainda trêmula, desta vez com mais firmeza. — Foi em casa, de tarde, quando eu voltava do trabalho. Bateu na janela do quintal como se já soubesse que eu estaria ali.Silva prendeu o olhar no rapaz e gesticulou para que prosseguisse.— Eu já fazia uns "trabalhos" para o Moretti há algum tempo. Coisa boba, em eventos de gente importante. — Tiago coçou a testa, desconfortável com a própria confissão. — Colher informações de forma discreta, tirar uma
A sala de interrogatórios estava tomada por um silêncio denso. Apenas o zumbido da lâmpada fluorescente competia com a respiração irregular de Tiago. Algema em uma das mãos, ele evitava olhar para os delegados, como se manter os olhos fixos na mesa pudesse torná-lo invisível. Os dedos batiam nervosamente no metal, denunciando uma agitação que ele tentava esconder.Na frente dele, Amaral abriu a pasta com calma calculada, espalhando sobre o metal frio fotos e documentos. Entre eles, a imagem de uma caixa de inox retirada da cena do buffet.Do outro lado, os delegados observavam em silêncio. Sobre a mesa, um dossiê espesso com relatórios, fotos e documentos — a trilha que ligava Tiago à noite do atentado. Cada folha parecia aproximá-lo ainda mais de um destino que ele tentava evitar.Amaral foi o primeiro a quebrar o silêncio:— Tiago Duart
Ourinhos, fim de tardeO céu começava a tingir-se de tons alaranjados quando os dois investigadores de São Paulo chegaram ao ponto de encontro com a equipe local da Polícia Civil.Desde o ofício encaminhado pelos delegados paulistanos, a cidade monitorava discretamente qualquer movimentação relacionada ao suspeito.O alvo era Tiago Duarte, 27 anos, garçom contratado para eventos. Até então, não havia antecedentes criminais relevantes em seu nome. Ainda assim, as informações reunidas pela investigação o colocavam próximo demais dos acontecimentos que culminaram no atentado contra Rafael Albuquerque.— A recepcionista confirmou que ele se hospedou na pensão ontem à noite — relatou o delegado regional, ajustando o colete. — Entrou sozinho, usando boné







