FAZER LOGINPuts. Acabei morrendo durante a final do Campeonato Mundial de xadrez e reencarnei como um Monstro-capivara em um universo de fantasia medieval. Alguém está de zoação comigo.
Ver maisMuitas — talvez todas — histórias desse gênero começam com o protagonista acordando em um outro corpo, numa nova vida, mas eu quero começar de uma forma diferente, sem olhos piscando para se acostumar com a luz e todas as descrições do despertar.
Eu reencarnei em um bebê monstro-capivara. As memórias de toda a minha vida anterior estavam lá, intactas, como se alguém tivesse simplesmente esquecido de apagá-las durante o processo de reencarnação. Uma grande mestre internacional de xadrez, competindo com homens no grande torneio mundial. Aos vinte e seis anos, no auge da carreira, chegando a grande final. Sim. A grande final. O dia que eu teria uma partida com o grande campeão mundial de xadrez — não era o Magnus Carlsen, e sim Vijay Bhasin, que veio um pouco depois — pelo tão cobiçado título de melhor do mundo. A vida — ou quem sabe, a morte —, porém, prega certas peças em pessoas muito obstinadas. Por isso, talvez, no meio da partida, meu coração falhou. Uma, duas, três vezes. Morri em cima de um tabuleiro de xadrez e, como ironia do destino, reencarnei como uma capivara. Vou começar essa história mamando nas mamas da mamãe monstro-capivara. Mamãe tinha doze tetas e cada uma das tetas estava ocupada por, contando comigo, seis pares de filhotes que se alimentavam como se não houvesse amanhã, sem pensar de fato no que estavam fazendo. Eu pensava e racionalizava, mas a fome era muito maior do que minha capacidade de perceber o mundo. Larguei a mama de mamãe quando fiquei satisfeita, caminhando em minhas quatro patinhas e gorfando algumas partes do leite. Uma coisa me incomodava desde que eu nasci nesse mundo. Em todas as histórias do gênero, que os japoneses chamam de Tensei — que significa literalmente reencarnação –, ou mesmo em Isekais que falam de viagens intermundos, os protagonistas possuem uma espécie de sistema que funciona como nos jogos de RPG de videogame, mas, por mais que eu tentasse, não havia nenhum sinal dele existir nesse mundo, pelo menos não para mim. Eu sei o que vocês devem estar pensando. E sim, eu tenho conhecimento de mangás e animes. Hey, vamos parar por aí. Grandes mestres do xadrez também podem ser otakus. Não é porque eu vivia do xadrez que eu não tinha hobbies. Sem preconceitos, por favor. Eu também não era uma fracassada socialmente, mas não tinha namorados. Nenhum. Certamente, se eu não morresse, em quatorze anos eu protagonizaria o remake de “O Virgem de 40 Anos” e com certeza seria um mega sucesso. Eu era um bebê monstro-capivara. Andei com minhas quatro patinhas minúsculas pela campina onde eu morava com a mamãe. Um dos meus irmãos se jogou em cima de mim e começamos a brincar — ou brigar —, um em cima do outro, até mamãe olhar para nós e fazer com que parássemos, com o poder que todas as mães têm sobre suas crias. Os dias foram passando e eu cheguei a pensar que a vida seria sempre assim, mamar, brincar e dormir. Entretanto, porém, monstros-capivara continuavam sendo monstros e, então, o inevitável aconteceu. Fomos atacados por aventureiros. Eu vi mamãe e meus irmãos serem mortos um por um pelo grupo que nos atacou. Eu me escondi em um lugar onde não poderiam me encontrar. Assim, de um instante para o outro, eu me vi sozinha no meio da campina. Eu não entendia a língua falada pelos humanos, mas consegui distinguir um nome. Capiruna. Bem. Agora eu sabia como os humanos nos chamavam. Doeu muito ficar sozinha naquele pântano tão amplo. Eu tinha fome, tinha medo, não sabia se conseguiria sobreviver até o final do dia. Tudo era assustador para mim naqueles dias. Comecei a caçar animais e até monstros menores e mais fracos para comer –– menos aranhas e slimes. Não tinha coragem de matar o que poderia ser um protagonista de outro isekai –– enquanto bebia água de um riacho próximo que havia encontrado pelo caminho. Quando aventureiros ou criaturas mais fortes se aproximavam, me escondia e torcia para não ser encontrada, o que normalmente acontecia. Mas não daquela vez. Daquela vez alguém me achou. Era um monstro-cachorro fêmea, tendo todo o corpo e aparência de uma garota de entre dezoito à vinte e um anos, com a adição de orelhas e rabo de cachorro, que a deixavam extremamente fofa. Como uma otaku convicta, eu sei o que se espera de garotas-cachorro é que suas características caninas sejam similares às de raças japonesas como akita ou shiba inu, mas ela se parecia muito mais com um vira-lata de médio porte da tonalidade caramelo. Até o seu cabelo tinha esse tom caramelo claro. Seus olhos eram como duas balas de açúcar caramelizado. É muito caramelo. Eu fico até com fome. Ao me ver pela primeira vez, ela deu um grito, não de medo, mas de animação. Seus olhos brilhavam de felicidade. Falava a mesma língua dos seres humanos, por isso eu não consegui entender o que fora dito em meio aos faniquitos, mas logo entendi que era uma coisa boa, porque me vi agarrada pela garota e pegada no colo, sendo praticamente esmagada por ela. Se eu pudesse comparar ela com uma personagem de desenho animado do nosso mundo, eu diria que ela é tipo a Felícia dos Tiny Toons, entretanto, posteriormente, descobri que ela é assim apenas com monstros-capivara, nos achando os seres mais fofos do mundo. Falou na própria língua daquele lugar palavras que eu não conhecia, mas que, por algum motivo, eu senti que a intenção dela era me levar para sua casa como um animal de estimação. Tentei falar algo para dizer que não queria isso, mas apenas alguns sons saíram da minha boca. Rangi os dentes para tentar assustar ela, mas –– essa doida acha isso fofo –– a única coisa que eu consegui foi ela me agarrando novamente. Com as palavras que ela dizia, vinha um nome. Com esse nome, uma energia que preenchia todo o meu corpo. Então, uma imagem mental com palavras em uma língua conhecida. Nomeação detectada. Sistema conectado. Recuperar Pontos de Vida. Recuperar Pontos de Mana. Evoluir hospedeiro para o nível 9. “Boa tarde, hospedeira” uma voz masculina surgiu na minha mente “Me chamo Gabriel e serei o seu guia nesse mundo. Seja bem vinda.” Agora sim eu sinto que estou vivendo um Tensei clássico. Capiruna Bebê Nível 9. Nome: Aléssia Solis Idade: 4 meses (3 anos em vida humana) PV: 90 PM: 90 XP: 45 Habilidades: Mordida nv 9 Arranhar nv 9 Esmagar nv 9 Encantar nv 9 Magia A hospedeira ainda não possui nenhum tipo de magia. Espera um minuto. Encantar não seria um tipo de magia? “Negativo. Encantar é uma habilidade física natural de todos os capirunas.” Deve ser pela aparência fofa, não? “Positivo.” Que útil! Estou começando a gostar disso. Mas como vou viver nesse mundo se eu não consigo me comunicar com mais ninguém além de uma voz na minha cabeça? “Necessidade de linguagem detectada. Deseja gastar 10 xp para adquirir Linguagem nv 1?” Adquirir Linguagem nvl 1 Sim Não Não sei o que é isso, mas é claro que eu vou querer. SIM “Linguagem nv 1 adquirida. Deseja usar Linguagem nvl 1 para aprender Teresiano?” Sim. “Tenesiano aprendido.” –– Eu vou cuidar de você com muito amor, carinho, te alimentar, treinar, –– agora conseguia entender exatamente o que a garota-cachorro falava –– você é minha filhinha, Aléssia. –– Ai… ai… você está me esmagando –– reclamei, tentando me soltar de seu aperto –– Isso dói. –– Você apren…. ah…. –– bateu com a palma da mão na texta, começando a rir –– Você é única. Totalmente única para uma capiruna. Você é consciente, isso é legal. Vamos ser companheiros? –– Co… companheiros? –– estranhamente, senti meu rosto enrubescer, o que achava que não seria possível em um corpo de monstro-capivara –– Do que você está falando? A garota-cachorro começou a rir. O que está acontecendo? “Companheiros: Seres ligados entre si por um vínculo forte de lealdade de grupo. Um companheiro estará sempre disponível para ir para onde o líder do grupo está independente do que estiver fazendo e lutar as batalhas juntos do mesmo, assim como companheiros devem ajudar uns aos outros em todo o tipo de tarefa requisitada pelo líder.” Então não tem nada de romântico nisso tudo, certo? “Negativo. As relações românticas são determinadas por uniões matrimoniais, e são chamados Cônjuges.” –– Bem…. acho que dá para sermos companheiros, sim –– não seria tanto um problema para mim esse tipo de união. –– Aceito… “Aceita Marlin Solis como Companheira?” Aceitar Companheiro Sim Não SIM Companheiro Adquirido Marlin Solis Canitech Adolescente nvl 9 Tipo: Cachorro Raça: Vira-Lata Idade: 3 anos (17 anos em vida humana) PV: 9000 PM: 9000 XP: 3580 Quando chegou a quantidade de habilidades, eu fiquei extremamente assustada. Será que todos os outros monstros são fortes daquele jeito? “Negativo. Um monstro adulto pode alcançar mais do que cem vezes esse poder dependendo da espécie.” O que? Que mundo apelão é esse? E eu que só queria viver uma vida tranquila como uma capivara comendo mato e dormindo sob a luz do Sol –– ou seja lá como se chama essa estrela –– e não ter nenhum tipo de problema. “Resposta: O nome da estrela que ilumina nosso mundo é Apolius.” Isso está começando a fazer menos sentido do que no início –– na verdade, está fazendo tanto sentido que é de se estranhar ––. Espero que pelo menos exista xadrez nesse mundo.— Há muito, muito tempo atrás Um tempo que eu não lembro mais Um tempo que não volta mais Perdido no esquecimento. Havia um lugar de ninguém que era o sonho de alguém e o pesadelo pros do “bem” O vil desentendimento. A voz de Maya ecoava pelo salão real, e seu bandolim seguia a canção assim como o seu próprio corpo, que dançava com a maestria dos verdadeiros bardos de antigamente. Dessa vez, não havia magia de fogo a envolvendo, mas seus passos soavam como se ela mesma fosse feita de chamas. Fadi mantinha os olhos fechados, focado na melodia e nos dois tambores a sua frente, que tocava para acompanhar a canção entoada pela humana. Suas batidas eram fortes e firmes, e exponeciavam a atmosfera incandescente provocada pela música. — E o mal então se apossou daqueles que se achavam bons
A resposta era óbvia para todos. Joa Teresia, infante real e duquesa de Mashir, não tinha um resquício de magia natural. A decepção era visível na expressão em seu rosto, que a princesa nem tentou esconder, e gerou reações divergentes entre os espectadores e alistados, que iam de compaixão pura, pena condescendente à zombaria pela sua derrota.Não chorou uma só vez, apesar de demonstrar sua raiva e indignação em seu olhar, movimento do corpo e até em seu caminhar, com pisadas fortes e pesadas. A examinadora falou algumas palavras em seu ouvido, e ela assentiu com a cabeça, acalmando-se e indo sentar-se junto de sua irmã.— Alistado número três, — Archise chamou o próximo — Kai Hoshnaff.O rapaz chamado Hoshnaff subiu à arena e, assim como as duas primeiras, colocou suas mãos na bola auroral, que tomou a coloração marrom, indicando que ele possuía a magia da terra. Todos bateram as palmas para o rapaz, que desceu e se dirigiu para o banco vazio destinado a ele.— A
Todos olharam na direção das duas recém-chegadas, incluindo Lucas, que colocou a mão no meu ombro para mostrar que seus pensamentos estavam em sintonia com os meus. Pensávamos que demoraria um pouco até termos contato com membros da família Teresia, mas o destino facilitou muito dessa vez, nos dando uma chance que não poderíamos perder.Elas olharam em nossa direção, curiosas. Mesmo estando com a camuflagem de nossos pingentes, ainda éramos pessoas novas e desconhecidas na cidade, por mais que eu duvidasse que alguém da família real tivesse interesse o suficiente para conhecer os rostos de cada habitante da cidade de Tarami, e desconhecimento gera curiosidade.— Nós nunca vimos vocês por aqui — Joa me olhou de cima abaixo, com um sorriso enigmático no canto dos lábios — Vocês vieram de outra cidade?— Não somos daqui — respondi, sentindo-me um pouco desconfortável com essa análise — Viemos de uma cidade no litoral.— Qual delas? — Camilli perguntou, com olhos brilhan
— A minha escola tinha aula de inglês, mas eu não sei inglês tão bem quanto você sabe francês. — Minha escola tinha aulas de francês, espanhol e alemão, e aprendi por fora português, italiano, russo, japonês e mandarim. Estava começando a aprender árabe quando eu morri. — Ora, ora. Pelo visto sua genialidade não é só no xadrez. — Eu acho que viver em uma família com condição e estrutura também ajuda muito. Eu fui estimulado desde cedo a aprender e buscar conhecimento. Eu fui privilegiado na minha vida antiga. — Nessa vida também, não é? — Isso nós dois fomos. Pelo menos durante boa parte dela. Fomos? Bem. Sim. Fomos. Eu sei que eu fui privilegiada nessa vida de alguma forma. Eu tinha um nome, uma forma bípede, mas eu não consigo me lembrar onde eu consegui tudo isso, quem me deu tudo isso. Havia algo que faltava na minha memória. Pessoas, eventos, sentimentos. Tudo isso. Quando eu tentava lembrar, a dor era tão grande






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