LOGINJá havia se passado uma meia hora desde que eu tinha acordado naquele quarto estranho de paredes de rocha, mas em uma decoração bonita e confortável, mostrando que eu não era de fato uma prisioneira naquele lugar e sim uma convidada não voluntária. Tudo aquilo ainda era um sequestro, mas pelo menos dava a impressão de que não iriam me fazer mal.
Durante todos esses trinta minutos eu permaneci sozinha, apenas com meus próprios pensamentos e, em alguns momentos, conversando com Gabby. Aproveitei o tempo para levantar da cama e caminhar pelo aposento, parando na estante cheia de livros que tinha próxima a porta. Um livro chamou a minha atenção. Era um livro antigo, cujo a capa destoava bastante do resto das obras, como se tivesse sido adicionado posteriormente, provavelmente até recentemente, já que, apesar da aparência velha, não havia sinal de pó, indicando que fora limpo recentemente, provavelmente durante a mudança de um local para o outro. O peguei e vi sua capa, que tinha a imagem de uma ampulheta. "História da Imigração de Mundos - Conhecendo as Almas Peregrinas", por Kamille Lancaster. Almas Peregrinas. Eu lembrei já ter escutado isso da boca de Marlin no dia em que nos conhecemos, mas não cheguei a perguntar o que significava aquilo, até porque ela havia dito que esse tipo de coisa era raro de acontecer e que ela só havia escutado falar de uma pessoa, em toda a história de Solis, que tinha vindo de outro mundo, que era o seu bisavô e fundador da cidade, Anúbis Solis. Entretanto, se tinha um livro escrito de trezentas e sessenta e cinco páginas sobre isso, provavelmente não era tão raro como parecia ser. Provavelmente, Marlin apenas não tinha conhecimento sobre outros desses casos. Fiquei ali, por alguns instantes, refletindo se deveria ou não abri-lo e começar a ler. Será que esse era o tempo certo para ter essa informação? –– Está interessada? –– uma voz feminina chegou aos meus ouvidos –– Eu não te julgo, esse nome é bem convidativo. Tirei os olhos do livro e os fixei na recém-chegada. Ela era bonita, bastante bonita. Seus cabelos loiros, lisos e magicamente arrumados –– muito bem tratados para um mundo sem a tecnologia de cosméticos moderna –– alcançavam a altura de seus quadris. Seus olhos eram de formato amendoado e de um tom de azul que, dependendo da iluminação, era de alguma forma sobrenatural, irreal, como se tivesse uma luz dentro deles, algo beirando ao divino –– uma coisa meio os olhos de especiarias daquela série de romances de ficção científica –– E não era só a beleza. Havia algo de muito intrigante nela –– Me chamo Eduarda –– me puxou para um abraço rápido, como se fosse a coisa mais comum do mundo –– E nós estamos no Refúgio dos Peregrinos. –– Então realmente existe mais gente como eu –– voltei meu olhar para a capa do livro, pensativa –– Nós estamos no subterrâneo, não é? –– Sim. O refúgio foi construído todo no subsolo, para nossa proteção. –– Nos proteger de quem? –– Das almas nativas. Eu não consegui entender na época, afinal eu tinha tido uma vida ótima com as almas nativas, tirando alguns humanos que eu encontrei pelo caminho. Não consegui acreditar que houvesse tanto perigo assim para nós que fosse necessário nos esconder debaixo da terra para nos proteger. "Aviso! Nem todos são tão solícitos com almas peregrinas como o povo da cidade de Solis" Como assim, Gabby? O que está acontecendo com esse mundo? –– Leia o livro que você tem em mãos –– Eduarda respondeu, percebendo a confusão em meu rosto –– Você vai saber tudo o que precisa saber nele. Mas primeiro, coloque essa roupa e vá para a sala de reuniões. É fácil de achar. O líder quer falar com você. Nesse momento, percebi que Eduarda trazia uma muda de roupas em seus braços, que estendeu para mim. Assim que eu estava com as roupas em mãos, Eduarda saiu do quarto, deixando-me sozinha para me vestir. Não demorou muito até que eu estivesse pronta. Não tinha nenhum traço de magia naquele tecido, mas mesmo assim as roupas tinham um caimento perfeito no meu corpo. O design era muito bonito e prático, também. Algo que com certeza eu teria usado na minha antiga vida, entretanto que não geraria estranhamento para as almas nativas desse mundo. Decidi deixar meus cabelos soltos dessa vez, uma vontade de deixar minhas madeixas ruivas e onduladas livres para balançarem ao movimento do meu corpo. Assim como Eduarda havia dito, foi bem fácil encontrar a Sala de Reuniões. Da porta dupla, que no momento estava fechada, pude ouvir o som de algumas vozes, dentre elas a da própria Eduarda e a de Lucas, o misterioso jogador que me venceu no pequeno campeonato de xadrez no ginásio da Escola Duque Anúbis Solis. Bati na porta de leve, um pouco envergonhada de estar interrompendo algo importante. –– Pode entrar. Estávamos esperando por você. Abri a porta e entrei na sala. Era um aposento grande, com estantes cheias de livros nas paredes de pedra e uma enorme mesa redonda no centro. Em volta desta, vinte cadeiras de madeira escura, recentemente polidas. Dezenove delas estavam ocupadas, algumas por monstros e outras por humanos. Quais eram peregrinos e quais eram descendentes? "Resposta: Entre as pessoas nessa sala, quinze são peregrinos e cinco são descendentes com almas sedentárias." Almas sedentárias são nativas desse mundo, não é? "Afirmativo." Sentei-me na única cadeira que havia restado vaga, olhando para o homem que deduzi ser o líder do refúgio. Era um fungi –– descobri que o sobrenome daquela família de monstros-cogumelos também era o nome da espécie –– de meia idade, com as laterais do cabelo alaranjado já tomadas pelos fios grisalhos, e algumas poucas marcas de expressão no rosto, em especial no canto dos olhos, formando os famosos pés-de-galinha. –– Peço desculpas pela forma em que foi trazida para cá –– o líder balançou a cabeça, com uma expressão contrariada no rosto –– Enviei o rapaz Lassini para a superfície para investigarmos a existência de uma alma peregrina encarnada em Solis. Minhas ordens era para que, acaso fosse confirmada a identidade, seria feito o convite para o nosso refúgio. –– Não havia tempo para conversa –– O homem jovem ao seu lado bufou, defendendo-se com um tom de voz ligeiramente indignado –– Não depois da carta que eu interceptei. Não dava para correr esse risco. Finalmente eu pude ver como era o seu rosto sem o capuz. Era um capiruna, assim como eu. Seus olhos eram castanho-escuros e seu cabelo quase poderia ser confundido com preto. Mandíbula bem marcada e lábios não muito finos nem muito grossos. Era bonito, muito bonito. Havia algo nele, porém, além da aparência, que eu já havia notado no ginásio, que atraiu, como um ímã, meus olhos para o seu rosto. –– Carta? –– perguntei assim que ele se virou para mim ao perceber que eu o olhava –– Que carta? O que estava escrito nela? Desviei o olhar para a mesa assim que terminei a pergunta, com o rosto corado de vergonha, como se tivesse sido pega fazendo algo errado. Eduarda, que sentava do outro lado de Lucas, soltou um riso abafado, sussurrando algo em seu ouvido, o que ele negou com a cabeça. –– Eu tenho a carta aqui comigo, N-Aléssia. –– Lucas tirou uma carta de dentro de sua capa, mostrando que o envelope continha o selo real de Teresia –– Prezada Condessa Aléssia Solis. Nesses três anos que nos conhecemos, tentei, assim como pedido pela vossa senhoria, várias aproximações para estreitar nossos laços e aumentar nosso nível de intimidade, tentativas essas que foram evitadas pela senhorita em todas as ocasiões. Neste momento, perdi toda a minha paciência e não tolerarei mais esse descaso e insolência de vossa parte, por isso envio aqui um ultimato real. Como príncipe herdeiro do reino de Teresia, farei uma visita em cinco dias à capital do ducado de Solis para oficializar o nosso noivado. Não aceitarei negativas e não será tolerada mais nem uma de suas formas de me evitar. Atenciosamente, príncipe Pito Teresia, Príncipe Delfin do reino de Teresia. –– Há quanto tempo eu estava dormindo? –– Seis dias. Meu coração parou de bater por alguns instantes. –– Eu preciso voltar –– levantei às pressas para sair da sala de reuniões –– Preciso ver se todos estão bem. Papai e mamãe Solis, Marlin, Sorriso, o povo de Solis. Eu preciso ver. Tentei correr até a porta, mas Lucas me abraçou pela cintura, fazendo minhas costas se chocarem com seu corpo. –– O que você acha que vai poder fazer indo até lá? –– ele perguntou rispidamente, sem me soltar um só instante –– Aceitar esse casamento maluco? Lutar contra um exército inteiro? –– Me solta, Lucas, eu preciso... tenho... Foi então que um jovem canitech correu para dentro do salão de reuniões soltando bofes pela boca. Pela expressão em seu rosto, eu sabia que algo muito ruim havia acontecido. –– Um massacre! –– ele gritava, extremamente nervoso enquanto seus olhos paravam em mim –– Um genocídio. Todos mortos. O exército real atacou a cidade de Solis e estão todos mortos! Todos mortos... Todos mortos....Acariciei o pelo de Lita, que se abaixou para facilitar a minha subida. Antes de montá-la, fiz uma reverência breve. A égua levantou-se assim que me sentiu em suas costas, movendo sua cabeça em sintonia com meus pensamentos.— Passem por aqui na volta — Flos nos cumprimentou enquanto Lucas subia em Hypo — Boa viagem, e tomem cuidado durante o caminho.Assentimos com a cabeça, e os cavalos começaram seu caminho. Alguns minutos depois, estávamos fora da cidadela e de volta à estrada para a Cordilheira do Rei da Morte. Pelos meus cálculos, chegaríamos ao próxima vilarejo às vinte e duas horas, onde dormiríamos para seguir apenas na manhã seguinte.Seguimos a viagem, conversando sobre algumas amenidades no caminho, inclusive sobre alguns movimentos do xadrez, sobre nossos ídolos, e etc. Falamos também sobre literatura, filosofia, política e, por fim, sobre família.— Eu posso dizer que fui um cara privilegiado na minha vida passada — Lucas comentou, enquanto passávamos p
Cavalgamos à beira do Rio Otum, com Apolius sob nossas cabeças. Lucas e eu, ao lado do senhor de Flos, conversávamos sobre detalhes que encontramos na sede do território, além de nos ser apresentada a entrada de alguns terrenos de plantio, coleta e criação de animais para corte e produção de leite.— Áboris é conhecida pela melhor e mais produtiva agropecuária de Area, e não é por nada — Flos comentou com os olhos cheios de um orgulho indisfarçável — Produzimos carne, leite e vegetais de alta qualidade, sem contar as montarias, e tudo isso conseguindo preservar a fauna e flora característica de nosso reino, evitando destruição desnecessária.— Eu ouvi alguma coisa desse tipo com meu pai — comentei, sentindo o vento balançar meus cabelos — O ducado de Solis estava tentando replicar o sistema de produção de vocês, mas estava impossível conseguir uma audiência com a sua rainha para conversar sobre esse intercâmbio de informações.— Nosso país é meio fechado mesmo para estra
Fiquei um tempo parada, olhando toda a decoração daquele escritório. Assim como no saguão de entrada, havia desenhos e esculturas de slimes por todos os lados. Sorriso pareceu gostar muito disso, pois ficou pulando de um lado para o outro, sentindo-se em casa. Eu gostava de vê-lo assim, animado. Me lembrava do passado.— Provavelmente não — Lucas respondeu pensativo — Conceitos como multiverso e espíritos que encarnam sempre em mundos diferentes deve ser estranho demais para pessoas comuns.— Então — o slime revezou o olhar entre mim e Lucas — Vocês estão aqui para me chamarem para o Refúgio? Outros já tentaram me chamar, mas eu já disse milhões de vezes que não posso sair daqui. Essas pessoas dependem de mim. Preciso manter esse lugar seguro para todos os não-humanos. — Espera — eu me intrometi, com Sorriso novamente em meus colo — Não estamos aqui para isso. Apenas queremos um lugar para jantar e dormir antes de seguirmos viagem.— Estamos indo em direção à Cordil
O dono da taverna havia dito que estava tudo na conta da casa, por isso o almoço não precisou ser pago. Assim que terminamos, pegamos nossas coisas e nos dirigimos para a saída da taverna. Giu nos interrompeu na porta, entregando-nos algumas bolsas de pano cheias.— O chefe mandou entregar esses suprimentos para vocês. Disse que vocês vão precisar quando atravessarem a fronteira. Não é muito confiável parar em tavernas estrangeiras.— Muito obrigado, de verdade — Lucas agradeceu, abrindo um sorriso sincero — Vamos ser eternamente gratos ao que vocês estão fazendo.— Nós temos grandes expectativas em relação a vocês dois. É nossa obrigação nos ajudarmos. Juntos somos mais fortes.— Juntos somos mais fortes — Lucas e eu repetimos em coro — Nos vemos na volta.— Nos veremos novamente antes do fim.Terminados os cumprimentos e desejos de boa sorte na viagem, saímos da caverna, pegamos nossas montarias e seguimos viagem. Apolius havia
— Ah, não — suspirou indignado — Quero uma revanche. Vamos jogar de novo.— Essa já foi a nossa revanche, Lucas. E eu ganhei.— Vamos fazer uma melhor de três.— Adoraria jogar de novo contra você, — disse enquanto olhava a minha volta — mas isso aqui já começou a lotar novamente. Parece que é hora de almoço. Inclusive, temos platéia.Mostrei a ele as pessoas que nos cercavam, apesar de algumas já começarem a se dispersar para suas mesas, já que a partida havia acabado. A movimentação local indicava que realmente já era por volta de meio-dia, e o almoço começou a ser servido.— Então a gente almoça — Lucas abriu um sorriso convicto — e depois a gente joga uma outra partida.— Não sei se você se esqueceu disso, mas nós não estamos aqui de férias. A gente precisa seguir viagem.— Está bem. Você está certa — suspirou resignado — Assim que terminamos o almoço, seguimos viagem.— A gente pode fazer uma nova partida q
— Tem certeza que esse é o caminho certo?— Foi o que o cara da taverna falou, e ele me pareceu confiável.— Ele pareceu estranho demais, sei lá. Como se não fosse, sei lá, real... e esse lugar é... assustador demais.E era mesmo. Casebres em estado deplorável, uma ener- gia estranha e uma atmosfera pesada, com um céu que parecia escuro mesmo a plena luz do dia. Não havia chuva, mais raios e trovões podiam ser ouvidos e vistos.— Você está com medo? Nunca imaginei que você fosse assim.— É-é claro que não! E-eu não estou....ahhhh!!! — o barulho do trovão me fez agarrar o braço de Lucas, aterrorizada — Está bem, eu estou com medo. Mas é a energia desse lugar. Não sei como explicar.— Não se preocupe — ele me abraçou forte, colocando minha cabeça em seu peito — Eu também não estou nenhum pouco confortável com esse ambiente, mas algo me diz que estamos perto do lugar. — Talvez fosse melhor a gente ir embora.







