MasukÍris permaneceu alguns segundos em silêncio depois daquela constatação, observando Enzo como se procurasse em seu rosto uma resposta capaz de diminuir a gravidade do que acabara de dizer. Não encontrou. O homem deitado diante dela ainda estava abatido pela fumaça, com o antebraço coberto pelo curativo e os olhos avermelhados pela irritação, mas havia recuperado aquela expressão concentrada que ela conhecia tão bem, a mesma que surgia quando analisava uma conta que não fechava, um problema no rebanho ou qualquer ameaça à Luzes da Aurora. A diferença era que, dessa vez, nenhum dos dois estava diante de uma disputa comercial ou de uma provocação jurídica. Alguém poderia ter atravessado os limites da propriedade durante a noite, escolhido um ponto vulnerável e iniciado um incêndio sabendo que homens e animais dormiam a poucos metros dali.— Não quero que você comece a juntar nomes antes de termos provas. Disse Íris, passando lentamente o polegar sobre os dedos dele. — Eu sei em quem
O pequeno saco transparente permaneceu entre os dedos do comandante dos bombeiros enquanto Íris tentava compreender o significado daquelas últimas palavras. Atrás dele, a Fazenda Luzes da Aurora começava a emergir da escuridão sob uma claridade acinzentada que tornava ainda mais cruel a dimensão do estrago. O fogo já não avançava, mas continuava vivo em pequenos pontos escondidos sob madeira, raízes e montes de capim queimado, obrigando os bombeiros e os homens da Santa Emília a percorrerem toda a área atingida à procura de brasas. Uma névoa de fumaça permanecia suspensa sobre o campo, misturando-se à umidade da manhã, e o cheiro acre de madeira, borracha e vegetação queimada parecia ter impregnado a própria pele de Íris. Seus cabelos estavam endurecidos pela fuligem, a camisa tinha manchas de sangue dos animais atendidos e suas mãos tremiam agora que a urgência diminuíra. Mesmo assim, seus olhos continuavam presos ao fragmento escurecido dentro do saco.— O que exatamente vocês
— Oxigênio! Tragam oxigênio agora!A própria voz de Íris pareceu vir de algum lugar distante enquanto ela se ajoelhava no chão coberto de terra, cinzas e pequenos fragmentos de madeira, mantendo uma das mãos junto ao pescoço de Enzo para sentir o pulso e a outra sobre seu tórax. Havia batimentos. Rápidos, mas presentes. A respiração, porém, era superficial e irregular, e aquilo lhe provocou um medo diferente de tudo o que sentira durante o incêndio. Enquanto os cavalos estiveram presos, ela conseguira pensar em protocolos, corredores de evacuação, sinais respiratórios e prioridades clínicas. Diante do corpo imóvel do homem que amava, o conhecimento continuava em sua cabeça, mas precisava atravessar uma barreira feita de pânico antes de transformar-se em ação. Íris apertou os dentes, obrigando as mãos a permanecerem firmes.— Enzo, consegue me ouvir? Abre os olhos.Nenhuma reação.Um bombeiro ajoelhou-se ao lado dela e colocou a máscara de oxigênio sobre o rosto dele enquanto outr
— Oxigênio! Tragam oxigênio agora!A própria voz de Íris pareceu vir de algum lugar distante enquanto ela se ajoelhava no chão coberto de terra, cinzas e pequenos fragmentos de madeira, mantendo uma das mãos junto ao pescoço de Enzo para sentir o pulso e a outra sobre seu tórax. Havia batimentos. Rápidos, mas presentes. A respiração, porém, era superficial e irregular, e aquilo lhe provocou um medo diferente de tudo o que sentira durante o incêndio. Enquanto os cavalos estiveram presos, ela conseguira pensar em protocolos, corredores de evacuação, sinais respiratórios e prioridades clínicas. Diante do corpo imóvel do homem que amava, o conhecimento continuava em sua cabeça, mas precisava atravessar uma barreira feita de pânico antes de transformar-se em ação. Íris apertou os dentes, obrigando as mãos a permanecerem firmes.— Enzo, consegue me ouvir? Abre os olhos.Nenhuma reação.Um bombeiro ajoelhou-se ao lado dela e colocou a máscara de oxigênio sobre o rosto dele enquanto outro
As luzes vermelhas dos caminhões dos bombeiros atravessaram a fumaça e tingiram o terreiro da Luzes da Aurora com reflexos pulsantes, mas Íris mal percebeu a chegada dos veículos. Toda a sua atenção permanecia concentrada na abertura lateral do haras, onde a fumaça escura saía em ondas cada vez mais espessas. Em algum ponto daquele corredor estava Trovão, caído atrás de uma divisória parcialmente destruída, e ao lado dela estava Enzo, imóvel demais para um homem que acabara de prometer esperar. Íris conhecia aquele silêncio. Conhecia a maneira como ele pressionava os lábios quando já havia tomado uma decisão e ainda procurava argumentos para torná-la aceitável aos outros. Antes que pudesse agarrá-lo novamente, dois bombeiros aproximaram-se carregando equipamentos, e o homem que parecia comandar a equipe avaliou rapidamente a estrutura.— Quem conhece esse galpão?— Eu. Responderam Íris e Enzo ao mesmo tempo.O bombeiro olhou para ambos.— Onde está o animal?Íris apontou.— Corre
O relincho de Trovão atravessou o haras como um pedido de socorro e fez Íris esquecer, durante um segundo, o calor que queimava sua pele, a fumaça arranhando sua garganta e os homens que corriam ao redor tentando impedir que o fogo engolisse a Luzes da Aurora. Ela conhecia aquele som. Não era apenas o chamado assustado de um cavalo acuado, mas o grito desesperado de um animal que já não encontrava saída. Deu um passo na direção do galpão, porém a mão de Enzo fechou-se imediatamente em seu braço. Antes que pudesse protestar, outra rajada atravessou o terreiro e espalhou fagulhas sobre o telhado. Algumas morreram ao encontrar a água lançada minutos antes, outras permaneceram brilhando entre as telhas e a madeira antiga.— Não! Disse Enzo.Íris virou-se para ele com os olhos arregalados.— Trovão está lá dentro.— Eu ouvi.— Então me solta.— Não enquanto eu não souber onde ele está e quanto dessa estrutura ainda aguenta.Íris puxou o braço, mas Enzo não cedeu.— Cada minuto que voc







