LOGIN— Oxigênio! Tragam oxigênio agora!A própria voz de Íris pareceu vir de algum lugar distante enquanto ela se ajoelhava no chão coberto de terra, cinzas e pequenos fragmentos de madeira, mantendo uma das mãos junto ao pescoço de Enzo para sentir o pulso e a outra sobre seu tórax. Havia batimentos. Rápidos, mas presentes. A respiração, porém, era superficial e irregular, e aquilo lhe provocou um medo diferente de tudo o que sentira durante o incêndio. Enquanto os cavalos estiveram presos, ela conseguira pensar em protocolos, corredores de evacuação, sinais respiratórios e prioridades clínicas. Diante do corpo imóvel do homem que amava, o conhecimento continuava em sua cabeça, mas precisava atravessar uma barreira feita de pânico antes de transformar-se em ação. Íris apertou os dentes, obrigando as mãos a permanecerem firmes.— Enzo, consegue me ouvir? Abre os olhos.Nenhuma reação.Um bombeiro ajoelhou-se ao lado dela e colocou a máscara de oxigênio sobre o rosto dele enquanto outr
— Oxigênio! Tragam oxigênio agora!A própria voz de Íris pareceu vir de algum lugar distante enquanto ela se ajoelhava no chão coberto de terra, cinzas e pequenos fragmentos de madeira, mantendo uma das mãos junto ao pescoço de Enzo para sentir o pulso e a outra sobre seu tórax. Havia batimentos. Rápidos, mas presentes. A respiração, porém, era superficial e irregular, e aquilo lhe provocou um medo diferente de tudo o que sentira durante o incêndio. Enquanto os cavalos estiveram presos, ela conseguira pensar em protocolos, corredores de evacuação, sinais respiratórios e prioridades clínicas. Diante do corpo imóvel do homem que amava, o conhecimento continuava em sua cabeça, mas precisava atravessar uma barreira feita de pânico antes de transformar-se em ação. Íris apertou os dentes, obrigando as mãos a permanecerem firmes.— Enzo, consegue me ouvir? Abre os olhos.Nenhuma reação.Um bombeiro ajoelhou-se ao lado dela e colocou a máscara de oxigênio sobre o rosto dele enquanto outro
As luzes vermelhas dos caminhões dos bombeiros atravessaram a fumaça e tingiram o terreiro da Luzes da Aurora com reflexos pulsantes, mas Íris mal percebeu a chegada dos veículos. Toda a sua atenção permanecia concentrada na abertura lateral do haras, onde a fumaça escura saía em ondas cada vez mais espessas. Em algum ponto daquele corredor estava Trovão, caído atrás de uma divisória parcialmente destruída, e ao lado dela estava Enzo, imóvel demais para um homem que acabara de prometer esperar. Íris conhecia aquele silêncio. Conhecia a maneira como ele pressionava os lábios quando já havia tomado uma decisão e ainda procurava argumentos para torná-la aceitável aos outros. Antes que pudesse agarrá-lo novamente, dois bombeiros aproximaram-se carregando equipamentos, e o homem que parecia comandar a equipe avaliou rapidamente a estrutura.— Quem conhece esse galpão?— Eu. Responderam Íris e Enzo ao mesmo tempo.O bombeiro olhou para ambos.— Onde está o animal?Íris apontou.— Corre
O relincho de Trovão atravessou o haras como um pedido de socorro e fez Íris esquecer, durante um segundo, o calor que queimava sua pele, a fumaça arranhando sua garganta e os homens que corriam ao redor tentando impedir que o fogo engolisse a Luzes da Aurora. Ela conhecia aquele som. Não era apenas o chamado assustado de um cavalo acuado, mas o grito desesperado de um animal que já não encontrava saída. Deu um passo na direção do galpão, porém a mão de Enzo fechou-se imediatamente em seu braço. Antes que pudesse protestar, outra rajada atravessou o terreiro e espalhou fagulhas sobre o telhado. Algumas morreram ao encontrar a água lançada minutos antes, outras permaneceram brilhando entre as telhas e a madeira antiga.— Não! Disse Enzo.Íris virou-se para ele com os olhos arregalados.— Trovão está lá dentro.— Eu ouvi.— Então me solta.— Não enquanto eu não souber onde ele está e quanto dessa estrutura ainda aguenta.Íris puxou o braço, mas Enzo não cedeu.— Cada minuto que voc
O vento transformou uma faixa de fogo em uma parede de chamas diante dos olhos de Íris. Durante alguns segundos, ela não conseguiu compreender como aquilo crescera tão depressa. O capim seco ardia com um ruído assustador, semelhante ao de milhares de folhas sendo rasgadas ao mesmo tempo, enquanto fagulhas alaranjadas eram arrancadas do chão e lançadas vários metros adiante. O calor alcançava seu rosto mesmo à distância, e a fumaça, empurrada pelas rajadas, avançava diretamente sobre os galpões e os estábulos. Dentro das baias, os primeiros cavalos já reagiam. Relinchos agudos atravessaram a propriedade, cascos golpearam madeira e metal, e Íris sentiu o medo atingir seu estômago quando percebeu que os animais estavam entrando em pânico antes mesmo que as chamas chegassem até eles.Enzo agarrou o rádio preso à cintura enquanto corria.— Miguel, corta a energia dos galpões e manda alguém fechar o registro principal de combustível. Zeca, tira os tratores da garagem e leva os discos
A reunião com os representantes da cooperativa ocupou boa parte do restante da manhã.Íris entrou na pequena sala administrativa ainda com o cabelo preso de qualquer maneira e vestindo a camisa clara que usara durante os atendimentos no curral, enquanto Enzo permaneceu ao seu lado apenas durante os primeiros minutos. Havia três pessoas esperando por ela: Orlando, um dos responsáveis técnicos da cooperativa e uma mulher chamada Beatriz, veterinária que trabalhava com programas de assistência a pequenos produtores em propriedades de regiões mais distantes. Sobre a mesa estavam planilhas, mapas de comunidades rurais, estimativas de deslocamento e uma lista preliminar de fazendas que haviam demonstrado interesse depois do Dia de Campo. Íris sentiu uma mistura de entusiasmo e responsabilidade ao perceber que aquilo deixara de ser uma ideia comentada entre ela e Enzo e começava a assumir a forma de um projeto real.— Nós fizemos um levantamento inicial. Explicou Orlando, deslizando uma







