FAZER LOGINSofia baixou o olhar para as próprias mãos. De fato, havia ferimentos, consequência de abrir o caranguejo.Mesmo com a técnica que Henrique havia ensinado sendo eficiente, sem ferramentas profissionais, desmontar sozinha um caranguejo-rei daquele tamanho sem se machucar era praticamente impossível.— Obrigada, eu mesma cuido disso.Ela estendeu a mão para Miguel, mas ele não entregou a caixa de primeiros socorros.Em vez disso, disse em voz baixa:— Eu cuido disso para você.Sofia reforçou:— Não precisa. Eu mesma faço.Os cortes nas mãos precisavam ser tratados, ou poderiam comprometer a restauração da coroa.Provavelmente Miguel pensava o mesmo, por isso havia ido buscar a caixa.— Eu cuido disso para você.Ele repetiu.Sofia começou a se irritar.Havia tantas pessoas ali observando. Ele realmente pretendia insistir daquele jeito?— Eu já disse que faço sozinha.A voz dela ficou mais fria, mais firme.— Então me dá um motivo. Por que eu deveria aceitar a sua ajuda?A pergunta deixou
— O que você entende disso?Isabela virou e gritou com Sofia, a voz já rouca. Em seguida, apontou para ela com irritação:— A culpa é sua! Foi você que, ao abrir o caranguejo, fez tudo com força demais e acabou soltando os diamantes da coroa! A responsabilidade é toda sua, você vai ter que arcar com esse prejuízo!Isabela falava como se aquilo fosse lógico, mas todos ali sabiam que não passava de uma tentativa descarada de se eximir da culpa.Por maior que tivesse sido o impacto ao abrir o caranguejo, aquilo jamais afetaria a coroa nas mãos de Rainha Helena.Rainha Helena olhou para Isabela, visivelmente constrangida e irritada, com clara decepção no olhar.Como rainha, ela não chegaria ao ponto de culpar uma simples garçonete inocente.— Deixe isso.De repente, Sofia respondeu:— Tudo bem. Eu pago.Rainha Helena e Felícia se surpreenderam.Isabela soltou uma risada fria:— E você vai pagar com o quê? Com esse salário que nem chega a trezentos dólares por mês?Assim que terminou de fa
Sofia começou a abrir o caranguejo em silêncio.Embora, em geral, mulheres tenham menos força que homens, era possível compensar isso com o uso adequado das ferramentas.Com duas facas de mesa, ela conseguia forçar a abertura da carapaça. Já a faca de carne, afiada, servia para cortar a membrana fina no interior das patas.As pinças, mais rígidas, exigiam um pouco mais de esforço.Bastava localizar a articulação mais frágil e dar leves batidas com o cabo da faca para abrir.Ainda bem que Henrique havia ensinado aquilo a ela.Na época do ensino médio, foi a primeira vez que ele faltou aula. Ele levou ela para uma festa escondida, mesmo sendo o aluno exemplar, sempre cheio de méritos.Normalmente, uma festa só é animada quando há muita gente. Mas, naquela vez, estavam apenas os dois.Henrique conseguiu um caranguejo-rei enorme.Sofia já comia caranguejo-rei desde pequena, mas sempre em restaurantes.Aquela foi a primeira vez que abriu um com as próprias mãos.Henrique realmente era um
Felícia virou o rosto e olhou para Isabela, com um olhar frio e cortante.O Hotel Imperial Vale agora pertencia à família dela, e aquele jantar havia sido organizado sob sua responsabilidade para receber Rainha Helena.O caranguejo-rei, raríssimo e caríssimo, tinha sido preparado especialmente para agradar a convidada e incentivar ela a aumentar o investimento no projeto de túnel submarino de energia limpa.Ainda assim, quem havia sido chamada para preparar o prato não era uma profissional experiente, mas Sofia.E o mais grave: não havia sequer ferramentas para abrir o caranguejo.Felícia não era ingênua. Aquilo só podia ter sido armado por Isabela nos bastidores.Quando o assunto era lidar com Sofia, até podia haver um alinhamento momentâneo entre as duas, afinal, o inimigo em comum criava conveniências. Mas confiar em Isabela? Nem cogitar.Se não fosse pelo apoio de Miguel, considerando o histórico da família dela, Isabela sequer teria nível para ocupar aquele lugar à mesa.Isabela
Para receber Rainha Helena, Felícia havia escolhido, com duas semanas de antecedência, uma das salas privadas mais luxuosas e providenciado tudo nos mínimos detalhes, incluindo um esquema de segurança rigoroso.Durante o jantar, Rainha Helena demonstrou grande satisfação e elogiou diversas vezes Felícia, Miguel e Isabela, sobretudo Isabela.— Sinceramente, não imaginei que, sendo tão jovem, você tivesse um olhar de design tão apurado. Adorei essa coroa.Encantada com a peça final entregue por Isabela, Rainha Helena a manteve nas mãos o tempo todo, sem vontade de se desfazer dela.— A senhora está sendo generosa. Ainda sou iniciante, tenho muito a aprender.Ao perceber que Isabela permanecia serena, sem se deixar levar pelos elogios e ainda demonstrava humildade, a impressão de Rainha Helena a seu respeito se tornou ainda mais positiva.— Na verdade, a designer que eu mais queria era a KEYS. Por isso, no começo, fiquei um pouco insegura ao deixar esse projeto com você. Mas agora, vendo
Havia certa distância entre Miguel e Sofia.Sofia não sabia dizer se era porque os olhos ainda estavam turvos por causa do vinho ou se a expressão dele realmente era tão fria.Para ela, Miguel parecia uma montanha de gelo, imóvel, observando tudo.Ela imaginou que encontraria desprezo ou zombaria naquele olhar.Mas não.O olhar dele parecia congelado, sem emoção alguma.— Miguel, você chegou!Isabela acenou com entusiasmo.Só então Miguel desviou o olhar de Sofia.Ele se sentou ao lado de Isabela e, ao passar por Sofia, agiu como se ela nem estivesse ali.Miguel não disse nada.Sofia também ficou em silêncio.Isabela achou que, ao ver Sofia completamente encharcada de vinho, ele ao menos comentaria alguma coisa.Mas ele não disse nada.E aquele silêncio a deixou extremamente satisfeita.“Sofia, de que adianta tentar se fazer de vítima na frente dele? Ele nem olha para você.”De bom humor, Isabela sorriu com doçura, e até a comida parecia mais saborosa.Sofia foi até o banheiro limpar o







