FAZER LOGINValentina sentiu as pernas perderem a força.
As palavras de Lívia ainda ecoavam em sua cabeça.
— Tempo suficiente para você entender que ele nunca foi realmente seu.
Ela olhou para Henrique, esperando que ele negasse, que dissesse que a irmã estava mentindo, que tudo aquilo era um mal-entendido absurdo. Mas ele permaneceu em silêncio, com os olhos baixos, como um criminoso pego em flagrante.
Aquele silêncio destruiu os últimos pedaços do seu coração.
— Então é verdade... — sua voz saiu quase como um sussurro. — Enquanto eu escolhia as flores do nosso casamento, vocês estavam juntos.
Henrique deu um passo em sua direção.
— Valentina, me escuta. As coisas não aconteceram do jeito que você está pensando.
Ela riu. Um riso baixo, amargo, carregado de decepção.
— Existe algum jeito aceitável para um homem trair a noiva com a irmã dela?
Lívia cruzou os braços, completamente à vontade.
— Você sempre teve tudo. A atenção dos nossos pais, a confiança da empresa, um noivo perfeito... Não pode me culpar por ele ter percebido que ama outra pessoa.
Valentina virou lentamente o rosto para a irmã.
Ela havia dividido brinquedos, roupas, segredos e até sonhos com aquela garota. Defendeu Lívia quando os próprios pais a criticavam, ajudou em sua adaptação depois que ela voltou para a família e acreditou que, enfim, tinha conquistado uma irmã.
Era tudo mentira.
— Você podia ter escolhido qualquer homem no mundo — disse, segurando as lágrimas. — Mas escolheu justamente aquele com quem eu ia me casar.
Lívia ergueu os ombros.
— O amor não escolhe.
A frase foi a última gota.
Valentina não respondeu. Apenas pegou a pasta caída no chão e saiu daquele quarto. Atrás dela, Henrique ainda chamou seu nome algumas vezes, mas ela não parou.
Se ficasse ali por mais um minuto, desmoronaria.
Entrou no carro sem saber para onde iria. Ligou o motor e saiu dirigindo pelas ruas da cidade, enquanto as lágrimas finalmente escorriam pelo seu rosto.
Ela não percebeu quanto tempo passou.
Quando deu por si, já estava longe do centro, em uma avenida cercada por antigos galpões industriais. Precisava respirar. Precisava pensar. Precisava encontrar uma maneira de voltar para casa e fingir que ainda tinha forças.
Foi então que um estrondo cortou a noite.
Do outro lado da rua, dois carros pretos surgiram em alta velocidade. Um deles perdeu o controle após uma curva fechada e bateu violentamente contra a grade de um depósito abandonado.
O segundo veículo parou alguns metros atrás.
As portas se abriram.
Três homens desceram correndo, todos vestidos de preto. Mesmo à distância, Valentina percebeu que estavam armados.
Seu coração disparou.
— Meu Deus...
O instinto mandava acelerar e fugir dali. Qualquer pessoa sensata faria isso.
Mas, antes que pudesse reagir, ouviu um disparo.
Depois outro.
Os homens começaram a atirar contra o carro acidentado.
Valentina observou, horrorizada, quando a porta do motorista se abriu com dificuldade. Um homem saiu cambaleando, segurando o próprio abdômen, claramente ferido.
Ele usava um terno escuro, agora manchado de sangue.
Os atiradores correram em sua direção.
Sem pensar, Valentina arrancou o carro e jogou o veículo entre eles e o desconhecido. O som da buzina ecoou pela rua.
Os criminosos se assustaram por um instante.
— Entra! — ela gritou, abaixando o vidro. — Anda logo!
O homem ferido a encarou.
Mesmo sob a luz fraca dos postes, ela conseguiu notar seus olhos escuros, frios e atentos. Não era um olhar de vítima. Era o olhar de alguém acostumado a sobreviver.
Ele abriu a porta do passageiro e entrou.
— Acelera.
Valentina pisou fundo.
Os homens atrás deles voltaram a atirar. Um dos tiros acertou a parte traseira do carro, arrancando um grito assustado dela.
— Eles estão vindo! — disse, olhando pelo retrovisor.
— Eu sei.
A voz do desconhecido era grave, firme e estranhamente calma para alguém que estava perdendo sangue.
Ela fez uma curva brusca e entrou em uma rua estreita. Os pneus cantaram no asfalto molhado. Outro carro surgiu atrás deles, perseguindo-os.
— Quem são eles? — perguntou, com as mãos tremendo no volante.
O homem não respondeu.
Continuou olhando pelo vidro traseiro, calculando a distância entre os veículos.
De repente, tirou uma pequena arma debaixo do paletó.
Valentina arregalou os olhos.
— Você... você está armado?
— Continue dirigindo.
— Meu Deus... em que eu me meti?
Ele virou o rosto para ela.
Mesmo pálido por causa do ferimento, havia algo extremamente intimidador em sua presença. Um tipo de autoridade que não precisava ser explicada.
— Se você parar o carro, eles matam nós dois.
Ela engoliu em seco e continuou.
Depois de alguns minutos de perseguição, o veículo que os seguia desapareceu em uma bifurcação. O homem ao lado observou por mais alguns segundos antes de abaixar a arma.
Valentina soltou o ar preso nos pulmões.
— Acho que... acho que conseguimos.
Nenhuma resposta.
Ela olhou de lado e percebeu que ele estava quase inconsciente. O sangue atravessava o tecido do terno e escorria pelo banco.
— Ei! Você está bem?
Ele fechou os olhos por um instante.
— Não me leve para um hospital.
— O quê? Você levou um tiro!
— Não... hospital.
Ela quase perdeu o controle do carro.
— Você enlouqueceu? Se eu não chamar ajuda, você vai morrer!
Ele segurou o braço dela antes que alcançasse o celular.
O toque foi firme, mas não agressivo.
— Eles vão me encontrar lá.
Aquelas palavras fizeram um arrepio percorrer a espinha de Valentina.
Quem era aquele homem?
Que tipo de vida levava para preferir sangrar até a morte a dar entrada em um hospital?
Ela não conhecia a resposta.
Mas, olhando para aquele rosto marcado pela dor e para a camisa completamente vermelha, percebeu que não conseguiria abandoná-lo.
Respirou fundo e tomou uma decisão impulsiva.
— Eu conheço uma clínica pequena. O dono é um médico aposentado, amigo do meu falecido avô. Ele atende casos particulares e não faz perguntas.
O desconhecido a encarou em silêncio.
— Se você confiar em mim, eu posso salvar a sua vida.
Por alguns segundos, apenas o som do motor ocupou o interior do carro.
Então ele assentiu devagar.
— Meu nome é Leonardo.
Valentina sentiu o coração falhar uma batida.
Leonardo.
O nome era familiar demais.
Ela olhou outra vez para o homem ao seu lado, reparando melhor nos traços fortes, no relógio caro e na postura impecável mesmo ferido.
Não podia ser.
Era impossível.
— Leonardo... Vasconcelos?
Ele não respondeu.
Mas o silêncio foi suficiente.
Valentina apertou o volante com força, completamente atordoada.
O homem que ela havia acabado de tirar da mira de assassinos... era justamente o presidente da empresa onde trabalhava.
E ela ainda não fazia ideia de que, naquela noite, acabara de salvar a vida do homem mais perigoso que já pisaria em seu caminho.
Um ano havia passado desde o dia em que Leonardo Vasconcelos completara trinta anos.Um ano desde que o Conselho deixara de existir.Um ano desde que os últimos documentos foram entregues às autoridades e os arquivos que durante décadas haviam sido usados para controlar famílias foram destruídos.Um ano desde que Leonardo finalmente deixara de ser o herdeiro de uma história que nunca escolhera.Agora, diante do mar, ele não era presidente de nenhuma organização.Não era líder de família.Não era sucessor de um império secreto.Era apenas Leonardo.E, para ele, aquilo significava tudo.A casa branca construída sobre a encosta estava silenciosa naquela manhã.As janelas abertas deixavam entrar a brisa do oceano.As cortinas dançavam suavemente.No jardim, os quatro cachorros corriam atrás de uma bola que havia sido abandonada por algum deles.Na varanda, Valentina estava sentada com uma xícara de café nas mãos.Ela observava o horizonte.Leonardo apareceu atrás dela.Vestia apenas uma c
Trinta e um dias.Era tudo que restava.Leonardo passou os primeiros dois dias organizando documentos.Os seguintes foram usados para encontrar os membros do Conselho.Não houve ataques.Não houve assassinatos.Não houve vingança.Leonardo escolheu outro caminho.Convocou cada família.Cada representante.Cada pessoa que havia herdado algum fragmento daquela estrutura.E apresentou as provas.Não ameaçou.Não negociou.Apenas mostrou a verdade.Bellini cuidou dos documentos.Gabriel reuniu as provas deixadas pelo pai.Cecília forneceu informações preservadas pelos Arquivos Vivos.Rafael apresentou os registros antigos.Isabela contou o que sabia.Helena revelou os nomes das pessoas que haviam desaparecido.E Valentina permaneceu ao lado de Leonardo em cada reunião.No décimo quinto dia, a primeira família abandonou o Conselho.No décimo oitavo, foram três.No vigésimo segundo, metade da estrutura já havia desaparecido.Caio cumpriu sua promessa.Não assumiu liderança.Alexandre também
Leonardo permaneceu imóvel.A mulher diante dele parecia ter saído de uma fotografia antiga.Os mesmos olhos de Isabela.O mesmo formato delicado do rosto.Até a maneira como segurava as próprias mãos lembrava a mãe.Mas havia algo diferente.Uma tristeza profunda.Como se aquela mulher também tivesse passado anos procurando respostas.Valentina continuava segurando a mão de Leonardo.Ele apertou os dedos dela.Precisava sentir algo real.Precisava lembrar que ainda estava ali.— Helena...O nome saiu de sua boca quase sem voz.A mulher assentiu.— Sim.Leonardo olhou para Isabela.— Ela é realmente minha irmã?Isabela começou a chorar.— Sim.A resposta simples destruiu o pouco equilíbrio que ainda restava dentro dele.Leonardo deu um passo para trás.— Por que ninguém me contou?Isabela aproximou-se.— Porque acreditávamos que ela estava morta.— Vocês disseram isso sobre você também.A dor na voz dele fez Isabela parar.— Eu sei.— Então me explique.Isabela respirou profundamente.
A antiga capela ficava no ponto mais afastado da propriedade.Leonardo conhecia aquele lugar.Quando era criança, acreditava que a construção estava abandonada havia décadas.As janelas permaneciam cobertas por tábuas.A porta principal estava trancada.E seu pai nunca permitia que ele se aproximasse.Agora, enquanto o carro avançava pela estrada estreita, Leonardo começava a entender por quê.Valentina estava ao lado dele.Bellini dirigia.Gabriel permanecia no banco da frente, atento ao movimento ao redor.Nenhum deles falava.A mensagem de Caio continuava aberta no celular."Então venha buscá-la."Leonardo olhou novamente para a localização.— Isso pode ser uma armadilha.Bellini respondeu:— É uma armadilha.— E mesmo assim vamos.— Porque alguém está usando sua família para atrair você.Leonardo guardou o telefone.— Não vou deixar ninguém machucar minha mãe.Valentina segurou sua mão.— Nem eu.Ele olhou para ela.— Se algo acontecer...— Não.Ela o interrompeu.— Não comece.—
Leonardo permaneceu diante da mesa, encarando o documento que revelava a existência da última cláusula.Trinta e dois dias.Era esse o tempo que restava antes que completasse trinta anos.Trinta e dois dias para descobrir quem estava manipulando o Conselho.Trinta e dois dias para impedir que o próprio nome fosse usado como instrumento de poder.E, acima de tudo, trinta e dois dias para garantir que ninguém tocasse em Valentina.Ela continuava ao seu lado.A mão dela permanecia entrelaçada à sua.Leonardo olhou para os dedos unidos.Era curioso.Durante anos, acreditara que sua vida era determinada pelo sobrenome.Vasconcelos.Herdeiro.Filho de Eduardo.Neto de Álvaro.Agora percebia que todas aquelas palavras representavam apenas partes de uma história que outras pessoas haviam escrito.Valentina era diferente.Ela não o chamava de herdeiro.Não o tratava como alguém destinado a governar.Não se importava com o que o Conselho esperava dele.Ela simplesmente o amava.E isso era exata
A notícia parecia absurda demais para ser real.Rafael Vasconcelos estava vivo.O homem que Leonardo acreditara ter morrido vinte e quatro anos atrás estava parado do outro lado do portão.E, segundo Isabela, aquele mesmo homem havia tentado matá-lo quando ainda era criança.Leonardo permaneceu diante da mãe.— Você tem certeza?Isabela respirava com dificuldade.— Eu reconheceria aquele rosto em qualquer lugar.— Mas por que ele faria isso?Ela desviou os olhos.— Porque você era a chave.— Para o Conselho?— Para tudo.Leonardo sentiu o estômago se contrair.Valentina aproximou-se.— Precisamos entender antes de agir.Leonardo assentiu.Então olhou para Gabriel.— Ninguém abre o portão.— Já dei essa ordem.— E Rafael?— Continua esperando.Leonardo caminhou até a janela.Do outro lado do jardim, conseguia enxergar o homem.Rafael permanecia parado ao lado do veículo.Não demonstrava pressa.Não parecia nervoso.Como se soubesse que, mais cedo ou mais tarde, Leonardo apareceria.— E







