Início / Romance / Quando Me Traíram, Eu Casei com o Chefe / Capítulo 5 — A Filha Que Nunca Foi Escolhida

Compartilhar

Capítulo 5 — A Filha Que Nunca Foi Escolhida

Autor: Eva Belmont
last update Data de publicação: 2026-06-12 19:13:56

Valentina demorou alguns minutos para conseguir entrar no carro.

Ela ainda segurava o cartão preto que Leonardo lhe entregara. Passou o polegar sobre os números gravados, tentando entender por que um homem como ele se preocuparia com alguém que acabara de conhecer.

Aquilo não fazia sentido.

Ela era apenas uma funcionária do Grupo Vasconcelos. Uma mulher comum, com um casamento destruído e uma família que, ao que tudo indicava, jamais a enxergou como filha de verdade.

Guardou o cartão na bolsa e ligou o carro.

Durante o caminho de volta, seu celular tocou várias vezes.

Henrique.

Ela ignorou.

Poucos segundos depois, o nome de Lívia apareceu na tela.

Ignorou também.

Então veio a ligação de sua mãe, Beatriz Moreira.

Valentina respirou fundo antes de atender.

— Onde você está? — a voz da mãe saiu seca. — Henrique está desesperado atrás de você.

Ela quase riu.

— Desesperado? Ele estava muito ocupado beijando a Lívia quando eu saí.

Do outro lado da linha, houve um breve silêncio.

Um silêncio que confirmou tudo o que ela já suspeitava.

— Filha, você precisa entender que as coisas saíram do controle...

— Você sabia.

Não era uma pergunta.

Beatriz demorou alguns segundos para responder.

— Eu descobri há alguns dias.

Valentina sentiu o coração apertar.

— E não me contou?

— Eu estava tentando resolver a situação.

— Resolver como? Convencendo meu noivo a continuar comigo enquanto ele dormia com a minha irmã?

— Valentina! Cuidado com as palavras!

Ela estacionou o carro em um acostamento, incapaz de continuar dirigindo.

— Cuidado? A senhora quer que eu tenha cuidado? Eu encontrei os dois juntos, mãe! No quarto dela!

A voz de Beatriz mudou. Já não havia culpa, apenas impaciência.

— Você está fazendo um escândalo desnecessário. Henrique e Lívia se envolveram, isso é verdade, mas ninguém planejou machucar você.

As lágrimas voltaram a encher os olhos de Valentina.

— Ninguém planejou? Então por que todos esconderam isso de mim?

— Porque sua irmã passou por muita coisa. Ela acabou de recuperar a família que perdeu durante anos. Ela está fragilizada.

Valentina fechou os olhos.

Era sempre assim.

Lívia era a menina frágil.

Lívia era a filha que precisava de proteção.

Lívia era a prioridade.

E ela?

Ela era a filha que tinha obrigação de compreender.

— Eu também sou sua filha.

A frase saiu tão baixa que quase se perdeu no silêncio.

Beatriz suspirou do outro lado da linha.

— Você sabe que nós amamos você, mas a situação da Lívia é diferente. Ela é nosso sangue.

As palavras atravessaram Valentina como uma lâmina.

Ela ficou sem voz.

Durante anos, tentou ignorar os comentários, os pequenos gestos, as diferenças de tratamento. Convenceu a si mesma de que tudo estava apenas em sua imaginação.

Mas não estava.

Ela nunca foi igual.

Nunca ocupou o mesmo lugar.

Nunca foi escolhida.

— Entendi — respondeu, controlando o choro. — Obrigada por deixar isso tão claro.

Ela desligou antes que a mãe pudesse dizer mais alguma coisa.

Ficou alguns minutos parada, olhando para o vazio.

Lembrou-se do dia em que os Moreira a adotaram. Ela tinha apenas seis anos. O casal prometeu que ela jamais se sentiria sozinha outra vez. Cresceu acreditando naquelas palavras.

Até que a filha biológica voltou.

Lívia havia sido sequestrada quando bebê e encontrada muitos anos depois. A notícia emocionou a cidade inteira. Os jornais contavam a história do reencontro milagroso da família Moreira.

Ninguém contou que, depois daquele reencontro, a filha adotiva foi sendo apagada aos poucos.

Primeiro vieram os jantares em família sem que a chamassem.

Depois, as viagens nas quais não havia mais lugar para ela.

Então começaram as comparações.

"Lívia é mais espontânea."

"Lívia sofreu demais."

"Você é madura, Valentina. Precisa entender."

Ela sempre entendia.

Cedia.

Perdoava.

Aceitava.

Mas, naquela noite, algo dentro dela havia se quebrado.

Quando chegou à mansão, encontrou todos reunidos na sala principal.

Seu pai, Alberto Moreira, estava sentado na poltrona. Beatriz permanecia ao lado dele. Henrique andava de um lado para o outro, enquanto Lívia chorava no sofá, amparada pela governanta.

Valentina sentiu um gosto amargo na boca.

Parecia que a vítima era a irmã.

Assim que a viu, Henrique caminhou em sua direção.

— Meu amor, eu estava preocupado. Você desapareceu.

Ela deu um passo para trás.

— Não me chama assim.

— Eu sei que você está magoada, mas precisamos conversar.

— Conversar sobre o quê? Sobre qual dos dois começou a traição? Ou sobre quantas vezes vocês riram de mim enquanto eu organizava o nosso casamento?

Lívia levantou-se imediatamente.

— Eu nunca ri de você!

Valentina a encarou.

— Então me diz... em qual momento você decidiu roubar a minha vida?

Alberto bateu a mão na mesa de centro, interrompendo a discussão.

— Chega! Esta família já passou vergonha demais por hoje.

Valentina olhou para o homem que chamava de pai.

— Vergonha? O senhor está preocupado com a vergonha?

— Estou preocupado com o escândalo que isso pode causar. O casamento está anunciado, os convites foram enviados e Henrique faz parte dos nossos negócios.

Henrique aproveitou a oportunidade.

— Senhor Alberto tem razão. Nós podemos resolver isso com calma.

Valentina não acreditava no que estava ouvindo.

— Resolver? Como? Vocês esperam que eu finja que nada aconteceu?

Beatriz aproximou-se dela.

— Filha, pense com a cabeça fria. Você e Henrique têm uma história. Talvez seja apenas uma fase. Talvez ele esteja confuso.

Lívia abaixou a cabeça, fingindo chorar.

— A culpa é minha. Se vocês quiserem, eu vou embora.

Henrique imediatamente segurou a mão dela.

— Não! Você não vai a lugar nenhum.

Aquela cena foi suficiente.

Valentina deu um sorriso triste.

Agora ela enxergava tudo.

Os olhares.

Os silêncios.

As ausências.

Ela era a única que ainda não tinha entendido que seu relacionamento havia acabado muito antes daquela noite.

Sem dizer uma palavra, tirou do dedo a aliança de noivado.

Henrique arregalou os olhos.

— Valentina... não faz isso.

Ela caminhou até ele e colocou o anel na palma de sua mão.

— Você escolheu a pessoa errada para trair.

— Eu posso consertar tudo!

Ela balançou a cabeça.

— Não. O que você fez não tem conserto.

Virou-se para os pais.

— E vocês também fizeram uma escolha.

Beatriz deu um passo à frente.

— Filha...

— Não me chamem assim. Não esta noite.

Valentina subiu as escadas sem olhar para trás.

Entrou no quarto e trancou a porta.

Apoiou-se contra a madeira, sentindo as pernas fraquejarem.

Então abriu a bolsa para pegar um lenço e, sem querer, seus dedos tocaram o cartão preto que havia guardado.

Ela o encarou por alguns segundos.

"Se alguém tentar machucar você, ligue."

As palavras de Leonardo ecoaram em sua memória.

Valentina não fazia ideia de quem ele realmente era.

Não sabia por que homens armados o chamavam de chefe, nem por que ele parecia carregar o peso de uma guerra invisível.

Mas, naquele instante, enquanto toda a sua família ficava do outro lado da porta defendendo as pessoas que a destruíram, ela teve uma estranha sensação.

O homem mais perigoso que já conheceu... talvez fosse o único que realmente estivesse disposto a ficar ao lado dela.

Continue a ler este livro gratuitamente
Escaneie o código para baixar o App

Último capítulo

  • Quando Me Traíram, Eu Casei com o Chefe   Epílogo — A Vida Que Escolhemos

    Um ano havia passado desde o dia em que Leonardo Vasconcelos completara trinta anos.Um ano desde que o Conselho deixara de existir.Um ano desde que os últimos documentos foram entregues às autoridades e os arquivos que durante décadas haviam sido usados para controlar famílias foram destruídos.Um ano desde que Leonardo finalmente deixara de ser o herdeiro de uma história que nunca escolhera.Agora, diante do mar, ele não era presidente de nenhuma organização.Não era líder de família.Não era sucessor de um império secreto.Era apenas Leonardo.E, para ele, aquilo significava tudo.A casa branca construída sobre a encosta estava silenciosa naquela manhã.As janelas abertas deixavam entrar a brisa do oceano.As cortinas dançavam suavemente.No jardim, os quatro cachorros corriam atrás de uma bola que havia sido abandonada por algum deles.Na varanda, Valentina estava sentada com uma xícara de café nas mãos.Ela observava o horizonte.Leonardo apareceu atrás dela.Vestia apenas uma c

  • Quando Me Traíram, Eu Casei com o Chefe   Capítulo 135 — O Último Conselho

    Trinta e um dias.Era tudo que restava.Leonardo passou os primeiros dois dias organizando documentos.Os seguintes foram usados para encontrar os membros do Conselho.Não houve ataques.Não houve assassinatos.Não houve vingança.Leonardo escolheu outro caminho.Convocou cada família.Cada representante.Cada pessoa que havia herdado algum fragmento daquela estrutura.E apresentou as provas.Não ameaçou.Não negociou.Apenas mostrou a verdade.Bellini cuidou dos documentos.Gabriel reuniu as provas deixadas pelo pai.Cecília forneceu informações preservadas pelos Arquivos Vivos.Rafael apresentou os registros antigos.Isabela contou o que sabia.Helena revelou os nomes das pessoas que haviam desaparecido.E Valentina permaneceu ao lado de Leonardo em cada reunião.No décimo quinto dia, a primeira família abandonou o Conselho.No décimo oitavo, foram três.No vigésimo segundo, metade da estrutura já havia desaparecido.Caio cumpriu sua promessa.Não assumiu liderança.Alexandre também

  • Quando Me Traíram, Eu Casei com o Chefe   Capítulo 134 — A Irmã Que Foi Apagada

    Leonardo permaneceu imóvel.A mulher diante dele parecia ter saído de uma fotografia antiga.Os mesmos olhos de Isabela.O mesmo formato delicado do rosto.Até a maneira como segurava as próprias mãos lembrava a mãe.Mas havia algo diferente.Uma tristeza profunda.Como se aquela mulher também tivesse passado anos procurando respostas.Valentina continuava segurando a mão de Leonardo.Ele apertou os dedos dela.Precisava sentir algo real.Precisava lembrar que ainda estava ali.— Helena...O nome saiu de sua boca quase sem voz.A mulher assentiu.— Sim.Leonardo olhou para Isabela.— Ela é realmente minha irmã?Isabela começou a chorar.— Sim.A resposta simples destruiu o pouco equilíbrio que ainda restava dentro dele.Leonardo deu um passo para trás.— Por que ninguém me contou?Isabela aproximou-se.— Porque acreditávamos que ela estava morta.— Vocês disseram isso sobre você também.A dor na voz dele fez Isabela parar.— Eu sei.— Então me explique.Isabela respirou profundamente.

  • Quando Me Traíram, Eu Casei com o Chefe   Capítulo 133 — A Verdade na Capela

    A antiga capela ficava no ponto mais afastado da propriedade.Leonardo conhecia aquele lugar.Quando era criança, acreditava que a construção estava abandonada havia décadas.As janelas permaneciam cobertas por tábuas.A porta principal estava trancada.E seu pai nunca permitia que ele se aproximasse.Agora, enquanto o carro avançava pela estrada estreita, Leonardo começava a entender por quê.Valentina estava ao lado dele.Bellini dirigia.Gabriel permanecia no banco da frente, atento ao movimento ao redor.Nenhum deles falava.A mensagem de Caio continuava aberta no celular."Então venha buscá-la."Leonardo olhou novamente para a localização.— Isso pode ser uma armadilha.Bellini respondeu:— É uma armadilha.— E mesmo assim vamos.— Porque alguém está usando sua família para atrair você.Leonardo guardou o telefone.— Não vou deixar ninguém machucar minha mãe.Valentina segurou sua mão.— Nem eu.Ele olhou para ela.— Se algo acontecer...— Não.Ela o interrompeu.— Não comece.—

  • Quando Me Traíram, Eu Casei com o Chefe   Capítulo 132 — A Última Cláusula

    Leonardo permaneceu diante da mesa, encarando o documento que revelava a existência da última cláusula.Trinta e dois dias.Era esse o tempo que restava antes que completasse trinta anos.Trinta e dois dias para descobrir quem estava manipulando o Conselho.Trinta e dois dias para impedir que o próprio nome fosse usado como instrumento de poder.E, acima de tudo, trinta e dois dias para garantir que ninguém tocasse em Valentina.Ela continuava ao seu lado.A mão dela permanecia entrelaçada à sua.Leonardo olhou para os dedos unidos.Era curioso.Durante anos, acreditara que sua vida era determinada pelo sobrenome.Vasconcelos.Herdeiro.Filho de Eduardo.Neto de Álvaro.Agora percebia que todas aquelas palavras representavam apenas partes de uma história que outras pessoas haviam escrito.Valentina era diferente.Ela não o chamava de herdeiro.Não o tratava como alguém destinado a governar.Não se importava com o que o Conselho esperava dele.Ela simplesmente o amava.E isso era exata

  • Quando Me Traíram, Eu Casei com o Chefe   Capítulo 131 — O Homem Que Deveria Estar Morto

    A notícia parecia absurda demais para ser real.Rafael Vasconcelos estava vivo.O homem que Leonardo acreditara ter morrido vinte e quatro anos atrás estava parado do outro lado do portão.E, segundo Isabela, aquele mesmo homem havia tentado matá-lo quando ainda era criança.Leonardo permaneceu diante da mãe.— Você tem certeza?Isabela respirava com dificuldade.— Eu reconheceria aquele rosto em qualquer lugar.— Mas por que ele faria isso?Ela desviou os olhos.— Porque você era a chave.— Para o Conselho?— Para tudo.Leonardo sentiu o estômago se contrair.Valentina aproximou-se.— Precisamos entender antes de agir.Leonardo assentiu.Então olhou para Gabriel.— Ninguém abre o portão.— Já dei essa ordem.— E Rafael?— Continua esperando.Leonardo caminhou até a janela.Do outro lado do jardim, conseguia enxergar o homem.Rafael permanecia parado ao lado do veículo.Não demonstrava pressa.Não parecia nervoso.Como se soubesse que, mais cedo ou mais tarde, Leonardo apareceria.— E

Mais capítulos
Explore e leia bons romances gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de bons romances no app GoodNovel. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no app
ESCANEIE O CÓDIGO PARA LER NO APP
DMCA.com Protection Status