LOGINDavi decidiu que Daniel fazia parte da família numa quarta-feira às quatro e vinte da tarde e imediatamente se arrependeu de ter usado uma palavra tão grande.A culpa foi da escola.Naturalmente.A professora havia distribuído uma folha intitulada MINHA REDE DE FAMÍLIA E CUIDADO, o que parecia simples até Davi perceber que havia círculos demais e instruções insuficientes.No centro, precisava escrever o próprio nome.Ao redor, pessoas importantes em sua vida.Podiam ser parentes ou não.A professora explicara isso três vezes.Mesmo assim, Davi ficou vinte minutos olhando para um círculo vazio.Elisa percebeu da cozinha.— Travou?— Não.— Você está parado na mesma palavra desde que eu comecei a cortar cenoura.— Estou pensando.— Certo.Ela não se aproximou.Era uma habilidade aprendida.Na folha já estavam:Mãe.Pai.Tomás continuava ali sem qualquer dúvida.Depois:Tio Augusto.Tia Cecília.Davi tinha começado a escrever Helena como “tia Helena”, parado no meio e riscado.Não porque
Três semanas depois do casamento, Augusto descobriu que vinte minutos podiam ser mais assustadores que uma cerimônia inteira.No casamento, pelo menos, Helena estivera ao lado dele.No Festival Instrumental de Lago Sereno, ela estaria na terceira fileira.Diferença pequena em metros.Considerável no corpo.— Você já tocou em público — disse Helena.Estavam no quarto do hotel, duas horas antes da apresentação.Augusto ajeitava a manga da camisa pela terceira vez.— Recital pequeno.— Continua sendo público.— Era outro contexto.— Qual?Ele olhou.— Menos gente.— Quantas pessoas você acha que vão estar hoje?— Não sei.— Então está com medo de uma quantidade imaginária.— Obrigado.Helena sorriu.— Disponha.O festival ocupava um antigo centro cultural perto da praça principal de Lago Sereno.Nada enorme.Dois auditórios.Um palco externo.Oficinas durante o dia.Apresentações curtas à noite.Música instrumental suficiente para atrair gente interessada e insuficiente para transformar
Na manhã seguinte ao casamento, Helena acordou porque Augusto estava tentando alcançar o próprio telefone sem acordá-la.Falhou nas duas tarefas.Ela abriu os olhos e encontrou o braço dele estendido para o criado-mudo, a aliança nova refletindo uma faixa estreita de luz.— O que você está fazendo?Augusto parou.— Nada.— Isso claramente é alguma coisa.— Vendo as horas.— Por quê?— Para saber as horas.Helena fechou os olhos outra vez.— Casamos ontem e você continua péssimo mentindo.Ele pegou o telefone.— Oito e dezenove.— Horrível.— Temos reserva às duas.— Na serra. Uma hora e meia daqui.— Duas, com trânsito.Helena puxou o lençol.— Ainda temos quase quatro horas.— Cinco e quarenta e um minutos.Ela abriu um olho.— Se você fizer contagem regressiva da lua de mel, eu peço divórcio.Silêncio.A palavra ficou no quarto por um instante.Nenhum dos dois riu imediatamente.Helena virou o rosto.Augusto olhava para o telefone, agora sem qualquer interesse nele.— Foi ruim? — pe
Às seis e vinte da manhã do casamento, Helena percebeu que tinha cometido um erro básico de planejamento.Não havia pensado no café.Não no serviço da Casa das Janelas, que estava contratado. Nem no almoço. Nem no bolo pequeno que Cecília continuava considerando uma ofensa à instituição matrimonial.No café daquela manhã.Ela estava sentada à mesa de camiseta velha, o cabelo preso de qualquer jeito, olhando para um pacote quase vazio enquanto Augusto preparava a cafeteira.— Tem pouco.— Dá para dois.— E amanhã?Augusto virou o rosto.Helena percebeu.— Certo.— Amanhã podemos comprar.— Eu sei.— Literalmente?Ela apontou para ele.— Não começa no dia do casamento.Augusto sorriu e voltou para a cafeteira.A máquina fez o barulho habitual. O mesmo de todas as manhãs em que nada legalmente relevante acontecia.Helena gostou disso.Às onze, assinariam documentos.Antes, precisavam tomar café.Nenhum dos dois tinha planejado uma separação cerimonial na manhã.Ainda assim, ela aconteceu
Na sexta-feira anterior ao casamento, Helena acordou às seis e doze com Augusto já olhando para o teto.Não era incomum ele despertar antes dela. O incomum era continuar na cama sem pegar o telefone, sem abrir e-mail, sem começar mentalmente a primeira tarefa do dia.Helena virou o rosto no travesseiro.— Há quanto tempo você está acordado?— Não sei.— Mentira.— Quarenta minutos.Ela fechou os olhos outra vez.— Isso é preocupante.— Estou tranquilo.— Você está acordado há quarenta minutos pensando no casamento.— Não falei que estava pensando no casamento.Helena abriu um olho.Augusto continuava olhando para o teto.— Está pensando em quê?Silêncio.— No casamento.— Claro.Ela aproximou-se, encostou a testa no ombro dele e ficou ali. A casa ainda estava quieta; do lado de fora, um caminhão passou devagar pela rua. O oitizeiro da frente filtrava uma luz pálida de início de manhã pelas frestas da cortina.Faltava um dia.Durante meses, essa frase teria produzido alguma reação mais
Helena descobriu que um vestido de noiva podia apertar em lugares que ela não sabia que existiam.A costureira puxou o tecido dois centímetros na lateral, prendeu com alfinetes e perguntou:— Melhor?Helena respirou.— Consigo inspirar.— Isso costuma ajudar.Clara, sentada perto da janela, começou a rir.Cecília estava em pé diante do espelho lateral com uma expressão de quem avaliava falhas estruturais em obra pública.— Ainda está repuxando aqui.A costureira, Marta Lins, olhou para ela.— Você trabalha com roupa?— Não.— Então me dê cinco minutos.Leonor baixou os olhos para esconder o sorriso.Helena fechou os olhos.— Eu disse para não trazer Cecília.— Você me convidou — respondeu ela.— Erro técnico.— Grave.Marta puxou outro alfinete.— Não se mexa.— Tenho casamento daqui a dez dias. Ser perfurada agora seria inconveniente.— Se parar de girar para falar com suas amigas, reduz bastante o risco.Helena ficou quieta.Por quase vinte segundos.Recorde.O vestido não era grandi







