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Autor: Anny lago
last update Fecha de publicación: 2022-01-13 01:12:23

Sophie Montenegro.

A noite se arrastava mais devagar do que o normal, e a lanchonete estava um caos. Eu estava exausta, com as mãos sujas de gordura e o cheiro de fritura impregnado na roupa, mas não era hora de pensar nisso. O movimento estava insano. Tyler e Liza estavam na cozinha, como se estivessem em uma maratona, soltando pedidos a todo momento, enquanto Janne e eu tentávamos dar conta do resto. Cada mesa parecia um novo campo de batalha. Entre as risadas forçadas e as expressões cansadas, eu tentava me manter em pé, distribuindo pedidos e respondendo perguntas que nem os próprios clientes sabiam responder.

O som da cineta na porta cortou o barulho constante, anunciando a chegada de mais um cliente. Eu não dei muita atenção no começo. Janne já estava indo atender e, na minha cabeça, era só mais um rosto na multidão. Eu estava lidando com um casal de clientes na mesa da frente, os dois discutindo sem parar, sem sequer olhar para o cardápio. Eles se importavam mais em gritar um para o outro do que em pedir o que queriam comer. Eu estava começando a me sentir sufocada.

— Sophie... — Ouço meu nome ser chamado, mas meu corpo não reage de imediato. Talvez fosse apenas uma coincidência. Sophie é um nome comum, afinal. Não seria surpresa se alguém mais na lanchonete estivesse sendo chamado.

Escuto meu nome mais duas vezes, mais alto, mais insistente, pondero por um momento, sentindo que não deveria me virar, que deveria focar no casal a minha frente, e pegar seus pedidos, quando pela quinta vez meu nome é chamado, percebo que era realmente comigo que Janne estava falando, respiro fundo e por fim, meus olhos se levantam. E quando encontro o balcão, encontro também  uma visão que me faz o estômago revirar. Ali, parada bem em frente a Janne, estava Helena. Minha mãe. A mulher que me deu a vida, mas que também tentou me destruir a cada passo. Ela estava tão perto, tão real, que me senti como se tivesse sido puxada de volta para um pesadelo que eu achava ter deixado para trás.

Ela estava mais velha. A vida não havia sido gentil com ela. O rosto marcado pelas linhas do tempo, rugas que não mentiam sobre os anos e as escolhas que havia feito. Aquela mulher imponente, a médica respeitada que sempre soubera ter tudo sob controle, estava agora em pé ali, como um fantasma daquilo que ela já fora. Não havia mais força, nem poder em seus olhos. Só havia um eco de algo que um dia já fora forte. Um eco sombrio.

Eu fiquei paralisada. Meu coração acelerou, meu corpo gelou. A mulher que me criou como se fosse uma boneca, que me moldou à sua vontade, me usou para alimentar seu ego e as expectativas dos outros... Ela estava bem ali, observando-me com aquele olhar que eu conhecia tão bem. Um olhar misturado com culpa e um tipo de espanto, como se ainda tentasse entender o que havia feito de errado.

— Sim, Janne. — Respondi com uma voz baixa, tentando voltar ao que estava fazendo, mas o peso da minha mãe ali, naquele lugar, me fazia sentir como se tudo ao redor estivesse girando. Janne me olhava, sem entender direito, mas havia preocupação em seus olhos.

— Essa senhora diz que precisa falar com você. — Ela indicou Helena, que ainda estava ali, me encarando, como se esperasse uma resposta. Eu podia ver a tensão em seu corpo, a tentativa desesperada de reatar alguma coisa que talvez nem ela soubesse o que era.

Eu não sabia o que fazer. O tempo parecia ter parado, como se o mundo inteiro tivesse se calado. Eu sabia o que ela queria. Ela sempre queria algo de mim, mas agora? Eu não tinha mais nada para dar.

— Sinto muito, Janne, mas estou ocupada. — Respondi, minha voz agora mais firme, uma tentativa de me proteger. — E além do mais... deve haver algum engano. Eu não a conheço. — Fui direta, mas no fundo eu sabia que não podia negar que conhecia cada detalhe daquela mulher. Ela ainda estava ali, em cada pedaço da minha memória, mesmo que eu tentasse me distanciar.

Virei-me para o casal na mesa, que agora parecia mais interessado no drama que se desenrolava ao nosso redor do que na própria briga que travavam. Eles trocavam olhares curiosos, ansiosos por algum espetáculo. Eu estava prestes a retomar o que estava fazendo, quando ouvi a voz de Helena, fraca, mas ainda carregada de uma dor familiar.

— Filha, por favor... — Sua voz tremia, uma súplica silenciosa que cortou o ar como uma faca afiada. Ela não queria aceitar o que tinha feito, não queria aceitar o abandono que havia imposto. E eu sabia disso, mas não sabia o que responder.

Olhei para ela, sentindo uma raiva crescente se acumulando dentro de mim. Uma raiva que vinha de anos de mágoa, de abandono, de tentativas de destruir tudo o que eu era. E, ao mesmo tempo, uma dor profunda, como se ela ainda tivesse alguma parte de mim, mesmo depois de tudo.

Eu respirei fundo. Não iria ceder. Não ia deixar que ela se infiltrar-se mais uma vez na minha vida, me manipulando como sempre fez. Não mais.

— Desculpe, senhora, eu não a conheço. Isso deve ser um engano. — Minha voz saiu fria, sem hesitação, enquanto minha raiva tentava se controlar. — Por favor, estou no meio do meu turno, então, se não se importa, preciso continuar o meu trabalho.

As palavras saíram tão firmes que até eu me impressionei. Como se uma parte de mim estivesse tentando se proteger, levantar um muro contra o turbilhão de emoções que ela, de alguma forma, conseguiu desencadear em mim. Olhei de relance para Helena, que ainda me observava, agora com os olhos um pouco mais marejados, mas não o suficiente para que eu pudesse sentir alguma compaixão. Ela era uma estranha agora, uma mulher que eu não queria mais na minha vida.

Sem dar chance para mais nada, virei-me de costas e comecei a me afastar. Passei pelo balcão, sentindo os olhares curiosos de Tyler e Liza em minha direção, mas ignorei. Eles não sabiam o que estava acontecendo, não precisavam saber. Eu estava em uma missão de sobrevivência emocional e não tinha espaço para distrações. Segui em direção aos fundos, onde a pequena área para os funcionários ficava. A sensação de estar sendo observada era sufocante, mas eu não me virei. Apenas continuei, com passos mais rápidos.

Quando finalmente cheguei à área dos fundos, fechei a porta atrás de mim e me joguei no pequeno sofá, sentindo o peso da noite, da dor e da frustração me consumirem. Minhas mãos foram direto para a cabeça, e respirei fundo, tentando acalmar o turbilhão dentro de mim. Não podia ceder, não podia permitir que essa m*****a mulher me afetasse mais uma vez.

A vida parecia estar se divertindo comigo, jogando-me no caos sem aviso prévio. Eu não sabia mais o que o destino queria de mim. Eu não havia pedido por isso. Não pedi para ser filha de Helena Montenegro, nem para ter sido moldada como uma boneca em seu mundo de expectativas irreais. Não pedi para ter sido esmagada por sua sombra. E agora, de repente, ela voltava, trazendo com ela uma onda de memórias e emoções que eu tentava deixar para trás.

Mas não era o momento de pensar nisso. Não agora. Eu tinha que trabalhar, continuar em frente, sem dar espaço para o passado me consumir. Respirei fundo mais uma vez, me recompondo. Afinal de contas ainda haviam  mais algumas horas antes que meu turno finalmente chegasse ao fim.

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