INICIAR SESIÓNPOV ZOE
Dizem que recomeçar do zero é a melhor forma de curar um coração sangrando. Eu queria muito acreditar nisso. Na verdade, eu precisava acreditar, porque quando você atravessa um oceano inteiro com uma criança de dois anos nos braços e uma mala que carrega mais fracassos do que roupas, a esperança deixa de ser um luxo. Ela vira obrigação. Meu nome é Zoe Pyersen. Tenho vinte e dois anos. Saí de Nova Orleans rumo a Nápoles com a minha filha e uma coragem que, se me perguntassem com sinceridade, eu não saberia dizer de onde tirei. Talvez do desespero. Talvez do medo de continuar no mesmo lugar e ver a minha vida apodrecer diante dos meus olhos. Talvez daquela parte de mim que se recusa a morrer, mesmo depois de tudo. Nunca tive ninguém de verdade por mim. Essa é a parte mais feia da minha história, e também a mais simples. Nasci mulher na família errada. Na casa errada. No colo errado. Meu irmão, Luke, sempre foi o filho querido, o orgulho, o menino de ouro que fazia todo mundo sorrir. Eu era a presença tolerada. A filha que existia, mas não importava. A que precisava ouvir, calada, que era ingrata, difícil, problemática, exagerada. Cresci entendendo cedo demais que afeto, naquela casa, era moeda seletiva. E eu nunca fui rica o bastante para merecê-lo. Nunca esqueci do aniversário de dezoito anos do Luke. A casa cheia, a mesa bonita, as risadas, os abraços, e ele no centro de tudo, brilhando como se tivesse nascido para ser amado. Ganhou um carro. Ganhou aplausos. Ganhou orgulho. Eu ganhei a porta da rua na cara pouco tempo depois, como se toda a minha existência fosse um incômodo que finalmente tinham decidido jogar fora. Naquela noite eu achei que o pior da minha vida tinha acontecido. Eu estava errada. Quando alguém estende a mão para uma pessoa afundando, a tendência é confundir salvação com amor. Eu confundi. Confiei. Fiz dele o meu mundo porque, depois de uma vida inteira sendo tratada como sobra, qualquer migalha de cuidado parecia milagre. Derick entrou na minha vida no momento em que eu mais precisava acreditar que alguém podia me escolher. E eu acreditei. Acreditei quando ele disse que eu não precisava voltar para aquela casa. Acreditei quando ele prometeu que comigo seria diferente. Acreditei até quando tudo começou a quebrar. Ele não quis a gravidez. Nunca quis. No começo tentou disfarçar, depois parou de fingir. As discussões ficaram frequentes, o silêncio ficou mais pesado, as noites dele ficaram cada vez mais longas e as ausências, cada vez menos explicáveis. Eu trabalhava, chegava cansada, cuidava da casa, sentia meu corpo mudar, minha vida mudar, e ele só se afastava. Até que um dia eu cheguei do trabalho e encontrei minhas coisas do lado de fora, empilhadas de qualquer jeito, junto com as da minha filha. A porta estava trancada. A casa vazia. E colado na madeira havia um aviso da proprietária informando que o imóvel estava à venda. Derick sumiu. Foi embora como se eu e a Lira fôssemos apenas bagagem indesejada. Lembro de ter ficado parada na calçada por alguns minutos, sem conseguir entender direito o que eu estava vendo. Minha filha chorando no carrinho. Minhas roupas espalhadas. Minha vida inteira resumida a sacolas tortas e caixas amassadas. Aquilo deveria ter me quebrado de vez. Talvez tenha quebrado uma parte. Mas a outra continuou em pé porque a Lira precisava de mim. Kyra foi a única pessoa que me olhou sem pena e sem julgamento. Minha melhor amiga, meu último abrigo, a única que não me ofereceu conselhos vazios nem perguntas inúteis. Ela apenas abriu a porta de casa e disse que eu podia entrar. Fiquei com ela por alguns dias, respirando entre uma incerteza e outra, até começarmos a procurar alguma saída na internet. Havia anúncios, fóruns, vagas de emprego, relatos de gente que tinha conseguido começar de novo fora dali. E, em meio a tudo isso, apareceu Nápoles. Empregos em restaurantes. Movimento o ano inteiro. Hospedagens baratas perto da rodoviária. Possibilidade de trabalho imediato para quem estivesse disposto a fazer de tudo um pouco. Não parecia sonho. Parecia sobrevivência. E naquele ponto da minha vida, sobreviver já era um ótimo plano. Kyra me ajudou com o que podia. Mais do que podia, na verdade. Fez contas comigo, pesquisou rotas, comparou passagens, me obrigou a comer quando eu estava ansiosa demais para sentir fome. Foi ela quem segurou meu rosto entre as mãos na noite anterior à viagem e disse, com aquela firmeza que sempre salvava minhas partes mais fracas: — Você não é uma perdedora, Zoe. Só está cansada. Tem diferença. Quase chorei naquela hora. Quase. Mas eu vinha me prometendo havia muito tempo que só desabaria quando estivesse sozinha. A viagem foi longa, e o cansaço começou antes mesmo de o avião pousar em Roma. Lira dormiu uma boa parte do trajeto, encolhida contra mim, a boca entreaberta, os cachinhos grudando de leve na testa. Eu a observei mais do que dormi. Talvez porque toda vez que ela fechava os olhos parecia mais pequena, mais vulnerável, e isso me lembrava que, a partir daquele momento, não existia plano B. Era comigo. Sempre tinha sido comigo. Só que agora o mundo parecia maior, mais distante, e eu não tinha mais o idioma das ruas, dos sinais e dos medos. Roma me recebeu com barulho, filas, pressa e um idioma que eu reconhecia nos letreiros, mas não na velocidade das bocas. Tive vontade de parar, sentar no chão frio do aeroporto e chorar por meia hora. Em vez disso, peguei a minha mala, ajustei a bolsa no ombro, ergui a cabeça e segui. O ônibus para Nápoles saía no fim da tarde, e eu não podia me dar ao luxo de perder nada. A estrada pareceu longa demais. Lira acordou no meio do caminho, pediu água, depois colo, depois dormiu de novo. Eu olhava pela janela tentando me convencer de que tudo aquilo tinha algum sentido. Que quilômetros e mais quilômetros de distância eram suficientes para apagar a humilhação, o abandono, a voz da minha mãe dizendo que eu nunca seria nada. Parte de mim sabia que não era assim que a vida funcionava. A outra parte insistia em acreditar, porque sem isso eu não teria saído dos Estados Unidos.Raul me esperava no fim do jardim.E por um segundo, todo o resto desapareceu.Os convidados.A música.As luzes.Os anos.Só ele.O homem que entrou na minha vida como um acordo.O homem que segurou minha filha antes de ter o direito de chamá-la assim.O homem que chorou quando Rodrigo apertou seu dedo pela primeira vez.O homem que enterrou a avó ao meu lado.Que apareceu no Napolitano quando eu não atendia o telefone.Que discutiu com uma adolescente sobre horário.Que fingia odiar o cachorro e era sempre quem levava o animal ao veterinário.Que ainda me olhava daquele jeito.Raul respirou fundo quando me aproximei.— Você está atrasada.Ri.— Era isso que tinha para dizer?— Não.Estendeu a mão.Segurei.— Está linda, meu amor.— Melhor.O celebrante começou.Não ouvi metade.Olhei para nossos filhos.Lira ao lado de Rodrigo.Os dois elegantes.Os dois tentando não demonstrar emoção.Kyra perto de Lorenzo.Enzo e Luca surpreendentemente parados por mais de três minutos.Heloísa en
Quase vinte anos de amizade.Às vezes eu olhava para ela e ainda via a garota que dividiu comigo noites ruins, contas, medo e uma quantidade absurda de decisões erradas.Agora havia uma aliança na mão esquerda.Dois filhos correndo naquela casa.Um marido que ainda carregava todas as sacolas dela.E nenhuma intenção de me deixar esquecer que estivera certa sobre Lorenzo desde o início.— Onde está Luca? — perguntei.Kyra olhou para o teto.— Eu gostaria de saber.Lorenzo fechou os olhos.— Ele estava com Rodrigo.— Então piorou — Raul murmurou.— Muito — respondi.Do andar de cima veio um estrondo.Todos paramos.Depois:— EU NÃO FIZ NADA! — Rodrigo gritou.Treze anos.E continuava sendo uma frase perigosa.Raul respirou fundo.— Vou ver.Segurei seu braço.— Hoje não.— Alguma coisa caiu.— A casa está inteira há décadas. Sobrevive mais duas horas.Lorenzo apontou.— Apoio.Raul olhou para ele.— É seu filho lá em cima também.— Por isso mesmo.Kyra riu.— Grande exemplo de paternida
POV ZOEDez anos depoisO Napolitano ainda cheirava igual.Talvez fosse aquilo que eu mais amasse.Quase cem anos de história, reformas suficientes para manter o prédio vivo, uma cozinha que obviamente já não era a mesma da época em que a família de Flora abriu as portas pela primeira vez, equipamentos novos, fornecedores melhores, alguns pratos acrescentados ao cardápio ao longo dos anos.Mas a alma continuava ali.Na madeira escura.Nas fotografias antigas.Nas receitas que ninguém ousava alterar sem uma razão muito boa.No molho que começava a ser preparado cedo.No pão chegando quente à mesa.Nas famílias que voltavam havia décadas e agora apareciam acompanhadas pelos filhos e netos.Passei os dedos pela borda de uma das páginas do cardápio novo.— Essa fica.O chef assentiu.— E o ravioli?— Também. Mas não tira o antigo para colocar esse.— Vai ficar grande.— Então reorganiza.Ele sorriu.— Sabia que ia falar isso.— Se já sabia, por que perguntou?— Esperança.Ri.— Péssima es
POV ZOERaul terminou a conta de Lira.— Agora.Ela comparou com o caderno.— Igual.— Eu falei.— A professora faz melhor.Ele fechou os olhos.Eu ri.Lira guardou o lápis.— Posso ver desenho?— Meia hora — Raul respondeu.— Uma.— Meia.— Quarenta.Raul olhou para mim.— Foi você que ensinou negociação?— Não.— Foi o sangue Maldonado — Kyra comentou.— Ela é Pyersen também — respondi.Lira ergueu a cabeça.— Eu sou os dois.Meu coração parou por uma fração de segundo.Ela voltou a guardar os lápis.Natural.Sem peso.Sem dúvida.Eu sou os dois.Sorri.— É, meu amor. É mesmo.Raul olhou para ela.Depois para mim.Não dissemos nada.Não precisava.---Foi mais tarde, depois que as crianças dormiram, que eu voltei ao Napolitano na minha cabeça.Não porque houvesse problema.Justamente porque não havia.Eu estava na varanda do nosso quarto.Raul apareceu atrás de mim com duas taças.Entregou uma.— Água?— Você trabalha cedo amanhã.Olhei.— E?— Água.— Você ficou chato.— Disseram i
POV ZOELira aceitou a informação e começou a contar para Flora alguma coisa sobre uma colega que derrubara tinta na escola.E eu fiquei olhando.Minha filha tinha seis anos.Tinha amigos.Escola.Um quarto que considerava território soberano.Um pai que assinava provas.Uma bisavó que escondia chocolate.Um irmão que invadia suas coisas.Uma casa para voltar.Lira não carregava mais a ausência como centro da vida.E isso era tudo que eu tinha desejado sem nem saber formular.---Kyra e Lorenzo chegaram quase no horário do jantar.Juntos.No mesmo carro.Dessa vez nem tentei fingir surpresa.Kyra entrou primeiro.— Eu trouxe sobremesa.— Temos sobremesa — Raul respondeu.Ela passou por ele.— A minha é melhor.Lorenzo entrou carregando duas caixas.Olhei para ele.— Você ainda carrega as sacolas dela.Ele parou.— Três anos, Zoe.— Eu sei.— Já passou da hora.— Nunca vai passar.Kyra me beijou na bochecha.— Você é insuportável.— Foi assim que começou.— Não começou com sacolas.Lor
POV ZOEOlhei novamente para Raul.— Por que vocês estão aqui?— Fui buscar Lira.— E o pequeno?— Estava com nonna.— Isso não responde.— Nonna disse que Rodrigo precisava sair.— Fó falou passeio — Rodrigo contribuiu.— Fó? — repeti.Ele assentiu.Flora tinha sido oficialmente rebaixada de “nonna” para “Fó” pelo segundo bisneto.Ela fingia reclamar.Mentira.Amava.— E por que vieram ao restaurante?Raul estendeu a mão para mim.— Porque estamos indo para casa.— Eu ainda tenho coisas para fazer.— Não tem.— Raul.— Kyra disse que não tem.Voltei a olhar para minha amiga.Ela nem levantou a cabeça dessa vez.— Covarde!— Eu ouvi!— Ótimo!Lira riu.Rodrigo também, embora não soubesse por quê.Olhei para Raul.— Vocês estão conspirando.— Há três anos.— Eu percebi.Ele estendeu a mão novamente.— Vem.Fiquei olhando.Não era ordem.Não mais.Ainda parecia às vezes.Raul nunca perderia completamente aquele jeito de dizer uma palavra como se o resto do mundo naturalmente fosse obede







