Compartir

CAPÍTULO 4 — A ESCOLHA

last update Fecha de publicación: 2026-05-28 06:24:04

POV FLORA

Raul parou diante de mim com aquele olhar sério de sempre, como se o mundo inteiro dependesse do próximo passo dele. Eu continuei tricotando, sem levantar os olhos de imediato, só para provocar. Ele odiava quando eu fingia que não estava prestando atenção.

— Nonna, fique em casa hoje. E cuide da sua pressão.

Bufei, erguendo o olhar devagar, como se aquilo fosse a coisa mais absurda que eu já tivesse ouvido na vida.

— Não sou uma criança, Raul. Já tenho setenta e nove anos.

Ele sorriu de lado, aquele sorriso contido que pouca gente via.

— Mas tem atitudes iguais.

Revirei os olhos e, sem pensar muito, joguei o novelo de lã na direção dele. Não com força suficiente para machucar, mas o bastante para marcar meu ponto. Ele segurou no ar com facilidade, como se já esperasse por aquilo.

— Teimoso — resmunguei.

Ele deu um passo à frente, aproximando-se de mim, e então fez algo que ninguém mais naquele mundo via.

Abaixou-se levemente.

— Bença, nonna.

Meu coração sempre amolecia nesse momento, por mais que eu não demonstrasse.

Levei a mão até a cabeça dele com carinho.

— Che Dio ti benedica.

Ele fechou os olhos por um segundo, como se aquele gesto ainda significasse algo… e significava. Sempre significou. Depois se levantou, ajustando o paletó, voltando a ser o homem que o mundo temia.

Meu neto.

Meu menino.

Observei enquanto ele saía, os passos firmes ecoando pelo corredor até desaparecer de vista. Fiquei ali por alguns segundos, o tricô parado entre os dedos, o silêncio da casa se instalando ao redor.

Então larguei tudo.

— Júlia! Otília!

As duas apareceram quase imediatamente, como se já esperassem que eu fosse aprontar alguma coisa.

— Senhora?

Levantei-me com calma, ajeitando o vestido.

— Vamos sair.

As duas trocaram um olhar rápido.

— Dona Flora… a senhora não pode — começou Júlia. — Lembre das recomendações médicas…

— Recomendações médicas? — interrompi, irritada. — Eu não vou morrer por respirar ar fora dessa casa!

Otília tentou intervir.

— Senhora, é por sua segurança…

Apontei o dedo para as duas.

— Eu vou procurar minha nora. E se vocês não vierem comigo… eu vou sozinha.

Silêncio.

Elas sabiam que eu faria.

— Vamos — completei, já caminhando.

O motorista abriu a porta do carro, e os seguranças assumiram suas posições discretas, como sempre. Entrei sem esperar por ninguém, e em poucos segundos o carro já estava em movimento.

— Aquele moleque vai ver — murmurei, cruzando os braços. — Se ele não arruma uma nora, eu mesma arrumo e levo para casa.

O motorista tentou disfarçar o sorriso. Júlia e Otília falharam completamente nisso.

— A senhora já disse isso antes — comentou Júlia, baixinho.

— E vou dizer de novo até acontecer.

O carro parou próximo a uma praça movimentada. Desci com cuidado, ignorando completamente a movimentação ao redor.

Olhei para trás, vendo o segurança já se aproximando.

— Fiquem para trás — ordenei, estreitando os olhos. — Não quero essas caras assustando minha futura nora.

Eles pararam.

Claro que pararam.

Caminhei sozinha.

A praça estava cheia, pessoas indo e vindo, crianças correndo, casais conversando, vida acontecendo. Respirei fundo. Havia algo naquele lugar que me lembrava tempos antigos, quando tudo era mais simples… ou talvez só parecesse.

Sentei-me em um banco.

Observei.

Esperei.

— É hoje que eu encontro você minha neta. Eu li no horóscopo que era o melhor dia. — falei mais para mim, do que para qualquer outra pessoa.

E então algo chamou minha atenção. Dois homens se aproximaram. O cheiro veio antes da presença — álcool, sujeira. Um deles olhou diretamente para minhas mãos. Para os anéis.

— Bonito isso aí, velha — disse, com um sorriso torto.

Ignorei.

O outro se aproximou mais.

— Dá pra gente.

Levantei o olhar devagar.

— Saiam de perto de mim.

Eles riram.

E o riso… mudou.

Ficou mais pesado.Mais perigoso. Senti os pêlos do meu braço se eriçarem, meus anos de vida sabia reconhecer quando o perigo se aproximava.

Um deles segurou meu braço com força.

— Eu disse… dá.

— Solte-me! Vocês sabem quem eu sou!

Tentei me levantar, mas fui empurrada de volta contra o banco. A dor subiu pelo corpo rápido demais para eu reagir com clareza.

Olhei ao redor, as pessoas passavam e nem se importavam com o que estava acontecendo, procurei visualmente o segurança e as meninas mas estavam longe demais.

Então um puxão brusco me jogou para o chão.

O impacto tirou o ar dos meus pulmões.

E, por um instante,o mundo girou.

— LARGA ELA!

Uma voz cortou o caos era de uma mulher, firme, decidida.

Eu não vi de onde veio.

Os homens se viraram, irritados.

— Sai daqui!

— NÃO!

Ouvi passos, senti um corpo entre mim e eles me protegendo.

Isso foi totalmente inesperado, todos esses anos e ninguém nunca fez isso.

Ela empurrou um deles com força, mesmo claramente não sendo páreo físico. O outro tentou puxá-la, mas ela resistiu, gritando, chamando atenção.

— SEGURANÇA! ALGUÉM AJUDA! LADRÃO!

O barulho começou a crescer ao redor.

Apitos ao fundo.

Os homens se entreolharam.

— Vamos embora — resmungou um deles, já puxando as joias que conseguiu. — Não vale a pena.

E desapareceram.

Assim.

Como vieram.

Fiquei no chão, tentando recuperar o fôlego, o corpo pesado, a visão turva.

Então ela apareceu acima de mim, desfocada pela minha visão limitada sem os óculos que caíram em algum lugar longe de mim.

— Senhora… por favor… não fecha os olhos… olha pra mim…

A voz dela tremia.

Mas não recuava.

Senti a mão dela no meu rosto, quente, firme, tentando me manter ali.

Abri os olhos com esforço.

E, por um segundo…

achei que estava vendo algo que não pertencia àquele mundo.

— Minha neta… — murmurei, tocando o rosto dela com dificuldade. — você é um anjo…

Ela sorriu.

— Senhora… eu não sou sua neta… mas a senhora vai ficar bem…

Ouvi sirenes ao longe, passos apressados, murmúrios próximos.

— O que aconteceu aqui?

A voz de um homem veio depois mais ao lado.

— Aqueles homens… roubaram a senhora — ela respondeu rápido.

Um dos homens que vi serem policiais olhou melhor para ela.

Franziu a testa.

— Você…

Ela não respondeu.

Ou talvez não teve tempo.

Porque, de repente, tudo virou barulho.

— SENHORA!

Júlia, Otília e o segurança que Raul recomendou e que me segue a tantos anos apareceram rapidamente.

No meio da confusão não a vi mais, minha mente foi se esvaindo mesmo eu pedindo para não dormir, era o preço que eu estava pagando pela minha desobediência e ao meu corpo velho e cansado.

Quando acordei novamente, já estava no hospital.

Minha cabeça ainda doía, meu corpo eu sabia que havia hematomas, minha costela doía.

Olhei na direção de alguma sussuros e notei lá policiais e meu empregados ao lado, cara de preocupação, porque sabiam que tinham falhado comigo e as consequências com aquele moleque teimoso viria. Mas antes mesmo de qualquer pergunta minha voz saiu rouca.

— Quem era aquela mulher?

O segurança e os policiais trocaram um olhar.

— Senhora… podemos levantar as informações…

— Então levantem — interrompi. — Eu quero saber quem ela é.

Silêncio.

— Em meia hora.

Eles não discutiram, não ousaram falar mais nada, sou Flora Maldonado, nunca uso meu sobrenome para impor nada, mas medidas desesperadas, exigem o uso extremo da minha reputação. Os policiais saíram junto com o segurança me deixando somente com Otília e Julia.

Elas me olharam com medo.

— Não se preocupem, ele não vai falar nada com vocês. A culpa é dele! Disse fazendo com que elas ficassem mais leves.

— Mas senhora... Otília começou, mas levantei minha mão onde o soro estava.

— Não se preocupem, não vou mais sair de casa e fazer novamente, aprendi minha lição. Falei acabando com o falatório que viria, sabia que meu neto saberia do ocorrido, mas não tinha tempo para ele.

E eu fiquei ali, olhando para a porta, sentindo algo estranho dentro do peito.

Meia hora depois, a porta se abriu novamente.

O segurança entrou, postura rígida, expressão séria.

— Senhora… encontramos as informações.

Ele estendeu o papel.

Peguei.

Meus olhos correram pelas linhas rapidamente.

E então pararam.

Zoe Pyersen.

Repeti mentalmente.

Uma vez.

Duas.

Gravei.

Levantei o olhar lentamente.

Um pequeno sorriso surgiu no canto da minha boca.

— Então… Zoe Pyersen…

Dobrei o papel com calma.

— você será a minha neta.

Levantei-me, ignorando completamente qualquer tentativa de protesto.

— Vamos.

O segurança hesitou.

— Senhora… para onde?

Olhei direto para ele.

Sem dúvida. Sem espaço para questionamento.

— Vamos encontrar minha neta.

Continúa leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la App

Último capítulo

  • RAUL MALDONADO Um contrato sem amor   CAPÍTULO 218 — CAPÍTULO FINAL

    Raul me esperava no fim do jardim.E por um segundo, todo o resto desapareceu.Os convidados.A música.As luzes.Os anos.Só ele.O homem que entrou na minha vida como um acordo.O homem que segurou minha filha antes de ter o direito de chamá-la assim.O homem que chorou quando Rodrigo apertou seu dedo pela primeira vez.O homem que enterrou a avó ao meu lado.Que apareceu no Napolitano quando eu não atendia o telefone.Que discutiu com uma adolescente sobre horário.Que fingia odiar o cachorro e era sempre quem levava o animal ao veterinário.Que ainda me olhava daquele jeito.Raul respirou fundo quando me aproximei.— Você está atrasada.Ri.— Era isso que tinha para dizer?— Não.Estendeu a mão.Segurei.— Está linda, meu amor.— Melhor.O celebrante começou.Não ouvi metade.Olhei para nossos filhos.Lira ao lado de Rodrigo.Os dois elegantes.Os dois tentando não demonstrar emoção.Kyra perto de Lorenzo.Enzo e Luca surpreendentemente parados por mais de três minutos.Heloísa en

  • RAUL MALDONADO Um contrato sem amor   CAPÍTULO 217 — O CASAMENTO

    Quase vinte anos de amizade.Às vezes eu olhava para ela e ainda via a garota que dividiu comigo noites ruins, contas, medo e uma quantidade absurda de decisões erradas.Agora havia uma aliança na mão esquerda.Dois filhos correndo naquela casa.Um marido que ainda carregava todas as sacolas dela.E nenhuma intenção de me deixar esquecer que estivera certa sobre Lorenzo desde o início.— Onde está Luca? — perguntei.Kyra olhou para o teto.— Eu gostaria de saber.Lorenzo fechou os olhos.— Ele estava com Rodrigo.— Então piorou — Raul murmurou.— Muito — respondi.Do andar de cima veio um estrondo.Todos paramos.Depois:— EU NÃO FIZ NADA! — Rodrigo gritou.Treze anos.E continuava sendo uma frase perigosa.Raul respirou fundo.— Vou ver.Segurei seu braço.— Hoje não.— Alguma coisa caiu.— A casa está inteira há décadas. Sobrevive mais duas horas.Lorenzo apontou.— Apoio.Raul olhou para ele.— É seu filho lá em cima também.— Por isso mesmo.Kyra riu.— Grande exemplo de paternida

  • RAUL MALDONADO Um contrato sem amor   CAPÍTULO 216 — DEZ ANOS DEPOIS

    POV ZOEDez anos depoisO Napolitano ainda cheirava igual.Talvez fosse aquilo que eu mais amasse.Quase cem anos de história, reformas suficientes para manter o prédio vivo, uma cozinha que obviamente já não era a mesma da época em que a família de Flora abriu as portas pela primeira vez, equipamentos novos, fornecedores melhores, alguns pratos acrescentados ao cardápio ao longo dos anos.Mas a alma continuava ali.Na madeira escura.Nas fotografias antigas.Nas receitas que ninguém ousava alterar sem uma razão muito boa.No molho que começava a ser preparado cedo.No pão chegando quente à mesa.Nas famílias que voltavam havia décadas e agora apareciam acompanhadas pelos filhos e netos.Passei os dedos pela borda de uma das páginas do cardápio novo.— Essa fica.O chef assentiu.— E o ravioli?— Também. Mas não tira o antigo para colocar esse.— Vai ficar grande.— Então reorganiza.Ele sorriu.— Sabia que ia falar isso.— Se já sabia, por que perguntou?— Esperança.Ri.— Péssima es

  • RAUL MALDONADO Um contrato sem amor   CAPÍTULO 215 — MEU LUGAR

    POV ZOERaul terminou a conta de Lira.— Agora.Ela comparou com o caderno.— Igual.— Eu falei.— A professora faz melhor.Ele fechou os olhos.Eu ri.Lira guardou o lápis.— Posso ver desenho?— Meia hora — Raul respondeu.— Uma.— Meia.— Quarenta.Raul olhou para mim.— Foi você que ensinou negociação?— Não.— Foi o sangue Maldonado — Kyra comentou.— Ela é Pyersen também — respondi.Lira ergueu a cabeça.— Eu sou os dois.Meu coração parou por uma fração de segundo.Ela voltou a guardar os lápis.Natural.Sem peso.Sem dúvida.Eu sou os dois.Sorri.— É, meu amor. É mesmo.Raul olhou para ela.Depois para mim.Não dissemos nada.Não precisava.---Foi mais tarde, depois que as crianças dormiram, que eu voltei ao Napolitano na minha cabeça.Não porque houvesse problema.Justamente porque não havia.Eu estava na varanda do nosso quarto.Raul apareceu atrás de mim com duas taças.Entregou uma.— Água?— Você trabalha cedo amanhã.Olhei.— E?— Água.— Você ficou chato.— Disseram i

  • RAUL MALDONADO Um contrato sem amor   CAPÍTULO 214 — PAZ EM FAMÍLIA

    POV ZOELira aceitou a informação e começou a contar para Flora alguma coisa sobre uma colega que derrubara tinta na escola.E eu fiquei olhando.Minha filha tinha seis anos.Tinha amigos.Escola.Um quarto que considerava território soberano.Um pai que assinava provas.Uma bisavó que escondia chocolate.Um irmão que invadia suas coisas.Uma casa para voltar.Lira não carregava mais a ausência como centro da vida.E isso era tudo que eu tinha desejado sem nem saber formular.---Kyra e Lorenzo chegaram quase no horário do jantar.Juntos.No mesmo carro.Dessa vez nem tentei fingir surpresa.Kyra entrou primeiro.— Eu trouxe sobremesa.— Temos sobremesa — Raul respondeu.Ela passou por ele.— A minha é melhor.Lorenzo entrou carregando duas caixas.Olhei para ele.— Você ainda carrega as sacolas dela.Ele parou.— Três anos, Zoe.— Eu sei.— Já passou da hora.— Nunca vai passar.Kyra me beijou na bochecha.— Você é insuportável.— Foi assim que começou.— Não começou com sacolas.Lor

  • RAUL MALDONADO Um contrato sem amor   CAPÍTULO 213 — A Visita

    POV ZOEOlhei novamente para Raul.— Por que vocês estão aqui?— Fui buscar Lira.— E o pequeno?— Estava com nonna.— Isso não responde.— Nonna disse que Rodrigo precisava sair.— Fó falou passeio — Rodrigo contribuiu.— Fó? — repeti.Ele assentiu.Flora tinha sido oficialmente rebaixada de “nonna” para “Fó” pelo segundo bisneto.Ela fingia reclamar.Mentira.Amava.— E por que vieram ao restaurante?Raul estendeu a mão para mim.— Porque estamos indo para casa.— Eu ainda tenho coisas para fazer.— Não tem.— Raul.— Kyra disse que não tem.Voltei a olhar para minha amiga.Ela nem levantou a cabeça dessa vez.— Covarde!— Eu ouvi!— Ótimo!Lira riu.Rodrigo também, embora não soubesse por quê.Olhei para Raul.— Vocês estão conspirando.— Há três anos.— Eu percebi.Ele estendeu a mão novamente.— Vem.Fiquei olhando.Não era ordem.Não mais.Ainda parecia às vezes.Raul nunca perderia completamente aquele jeito de dizer uma palavra como se o resto do mundo naturalmente fosse obede

Más capítulos
Explora y lee buenas novelas gratis
Acceso gratuito a una gran cantidad de buenas novelas en la app GoodNovel. Descarga los libros que te gusten y léelos donde y cuando quieras.
Lee libros gratis en la app
ESCANEA EL CÓDIGO PARA LEER EN LA APP
DMCA.com Protection Status