Mag-log inEu precisava falar com alguém.
A dor de ter sido tão idiota, de ter me entregado a alguém como Renato, estava me consumindo de uma forma que eu não sabia como lidar. O peso no meu peito não era só o vazio da traição, mas a vergonha, a humilhação de saber que todos, até Carla, tinham me avisado. Com as mãos trêmulas, procurei o número dela no celular. Ela sempre foi minha amiga, sempre me alertou sobre o que estava acontecendo, mas eu estava cega demais para ouvir. Agora, não restava mais ninguém. O telefone tocou algumas vezes antes de Carla atender. — Meu Deus, Bella, até que enfim! A voz dela soava preocupada, mas eu sabia que, no fundo, ela estava esperando por isso. Respirei fundo, tentando controlar o nó na garganta. — Carla... Eu... Eu fui enganada. Minha voz falhou, e o choro que eu tinha tentado segurar veio à tona. Ela suspirou do outro lado da linha, e eu pude ouvir o peso da preocupação em sua respiração. — Foi o Renato, não foi? Ela perguntou, e antes que eu pudesse responder, completou: — Eu te avisei, Isabella! Ela falou com uma calma que, de alguma forma, me deu um pouco de consolo, apesar do “eu te avisei”. — Eu sei, eu sei... Eu... Não sabia o que mais dizer. As palavras pareciam pequenas diante do que eu sentia. — Ele mentiu pra mim o tempo inteiro. Minha voz tremia, sufocada pela decepção. — E agora... Agora estou arruinada, Carla. Não sei o que fazer. A Débora... Ela não vai me deixar em paz. Eu sei disso. Vai me perseguir até o fim. Eu podia sentir a raiva e a tristeza na minha voz. Carla ficou em silêncio por um momento. Eu sabia que ela estava absorvendo tudo, ouvindo atentamente, e isso foi o que mais precisei naquele momento. Ela nunca me julgaria. — Ela nunca foi embora realmente, foi tudo mentira e eu, como uma idiota, acreditei. — Vai ficar tudo bem. Carla falou com firmeza. — Você vai superar isso, eu prometo. Eu sei que você está destruída agora, mas você não vai deixar que essa mulher vença. Ela respirou fundo antes de continuar: — Você é forte, Isabella. Eu sempre soube disso. Engoli em seco, sem saber se acreditava nas palavras dela. A dor era tão grande que parecia impossível imaginar que um dia eu iria me sentir bem novamente. — Como você consegue ser tão calma? Perguntei, a voz embargada, quase desesperada. — Eu estou... Eu estou destruída, Carla. Minha respiração falhou. — Como eu deixei isso acontecer? Como eu fui tão cega? — Não foi você, amiga. Ela falou suavemente, como quem abraça com palavras. — Ele te enganou. Você confiou nele, e isso não é culpa sua. A culpa é dele. Não de você. Fechei os olhos, sentindo uma mistura de raiva e alívio. Raiva por ter sido enganada e alívio por finalmente ter alguém ao meu lado. — E eu nem cobrei mais ele. Trabalhei de graça para aquele salafrário. Falei com desgosto. Ela riu. — Ai, Isabella! Carla respondeu, rindo ainda mais. Eu acabei rindo também. De forma amarga. De forma arrependida. Quando os risos foram se perdendo, perguntei: — O que eu faço agora, Carla? Minha voz soava perdida. — Eu não sei mais o que fazer... — Primeiro, respira. Carla disse com um tom firme. — Você não está sozinha. Senti meu peito se apertar. — Vou estar ao seu lado, não importa o que aconteça. Ela continuou: — E, segundo, você vai cortar essa história de uma vez. Eu me agarrei às palavras dela como um bote salva-vidas. — Não deixe essa mulher se aproximar de você. O tom de Carla estava mais intenso agora. — Ela vai tentar te destruir, mas você não vai deixar. Eu sei que você vai dar a volta por cima. Respirei fundo. As palavras dela começaram a se infiltrar, com força, no meu coração. Não seria fácil. Não seria rápido. Mas talvez, eu pudesse encontrar uma maneira de seguir em frente. — Obrigada, Carla. Por me ouvir. Ela sorriu do outro lado da linha, e sua resposta veio carregada de certeza: — Sempre. Eu te amo, amiga. E você vai sair dessa, mais forte do que nunca. A conversa terminou, mas a sensação de ter alguém ao meu lado me deu um pouco de paz. Mesmo que o mundo parecesse desabar, eu ainda tinha Carla. E isso, por enquanto, era o suficiente para me segurar. ... A Noite da Vingança A raiva fervia dentro de mim como lava prestes a explodir. Eu sabia exatamente o que faria naquela noite. Não podia continuar me sentindo uma tola, enganada sem poder fazer nada. Não, Renato precisava saber o quanto me magoou. E eu faria ele sentir isso de forma tão intensa quanto eu estava sentindo. O relógio marcava a hora em que ele sairia do trabalho. Fui até o guarda-roupa e peguei meu casaco de capuz, me cobrindo da cabeça aos pés. Não queria ser reconhecida. Não por ele. Não por ninguém. Só queria fazer o que tinha que fazer. Fui até a cozinha e peguei uma caixa de ovos da geladeira. Minha arma silenciosa e certeira. Eu sabia que ele se achava no controle, achava que tudo estava bem. Mas não estava. Eu estava ali para dar um fim a essa mentira. Para dar um basta. O que ele fez comigo? Eu ia fazer de volta. Olhei para os ovos na minha mão e respirei fundo. Isso é só o começo. Você vai me pagar, Renato. Ah, se vai! ....Carla mudou rapidamente o semblante, recusando-se a aceitar o que eu acabara de dizer. Ela achava que minha reação era por causa de Renato, supondo que eu pudesse tê-lo visto ali. Mas, na verdade, nem mesmo a presença dele teria tanto impacto quanto ver Kaio ao lado deles. — Amiga, você acabou de chegar. O que foi? É por causa dele? Onde está aquele cretino? — Não, Carla... Ele não está aqui. Ela me lançou um olhar ainda mais confuso. — Então, o que foi? — Eu... só não estou me sentindo bem. Que desculpa mais esfarrapada! — Isabella Roth, você não tá falando isso só pra se trancar no apartamento e acabar mandando mensagem pra ele, né? — Quê? Claro que não! Eu não quero ver a cara dele nunca mais, Carla. — Então já chega de se isolar! Você já está aqui, sua entrada já foi paga, não vai me decepcionar, ouviu? — Amiga... Ela negou rapidamente, me cortando. — Olha, essa é a primeira vez que o Gustavo me apresenta alguém da sua família. O cara que te cumprimentou é primo dele,
No dia seguinte, eu teria minha folga. O trabalho tinha sido minha fuga necessária, um refúgio que me permitia esquecer os problemas pessoais, ainda que por um tempo. Não sobrava espaço para remoer os desgostos e as decepções que Renato me causou. Mas naquele dia, eu sabia que não podia mais me esconder do mundo.Estava voltando para casa quando meu celular tocou. Era Carla. Fazia dias que não conversávamos direito.— Isa! — A animação na voz dela era contagiante. — Sei que você anda focada no trabalho, mas amanhã é sua folga, né? Meu namorado chamou a gente pra sair com uns amigos. Vai ser divertido! Vamos tomar uns drinks, dançar… Vem com a gente?Hesitei. A saudade de sair, de ser algo além de funcionária daquela casa enorme, me puxava. Eu precisava disso. Mas, ao mesmo tempo, tudo que queria era um tempo para colocar a cabeça no lugar. Minha vida estava uma bagunça. Fingir que nada estava acontecendo parecia impossível.Suspirei, parando no sinal vermelho.— Não sei, Carla… Minha
Passei a semana seguinte tentando me concentrar no trabalho e nos cuidados com as crianças, mas não podia ignorar a sensação de que algo estava errado na casa de Kaio. Ele, como sempre, nunca aparecia. Era um fantasma, uma presença invisível, sempre presente de alguma forma, mas nunca fisicamente ali. Chegava após meu turno e saía antes de eu chegar.Como se estivesse tentando se esconder ou, talvez, como se a casa fosse uma extensão dele, um lugar em que se sentia seguro, livre de ser visto. Ele nunca tirava folga, nunca aparecia de forma alguma. Eu nem sabia quando descansava.Naquele dia, mais uma vez, levei as crianças para o balé e para o psicólogo. Zoe, com sua expressão fechada, parecia tão distante, tão isolada do mundo ao seu redor. O menino, ainda em seu silêncio profundo, com os olhos vazios, parecia mais uma sombra do que uma criança. Eram como ecos das coisas erradas naquela casa.Enquanto assistia Zoe dançar, a agitação e a perfeição de seus movimentos me impressionaram
Depois de deixar Zoe no carro, segui para buscar Kalleb no consultório de psicologia.Assim que ele saiu, percebi imediatamente sua postura fechada. A cabeça baixa, os ombros caídos, os olhos presos ao chão, sem dirigir um único olhar a ninguém.Ele não disse uma palavra.Fiquei parada, observando-o, sem saber exatamente o que fazer. Eu sabia que não deveria interagir demais, que meu papel era apenas cuidar. Mas, ao mesmo tempo, não conseguia afastar a sensação de que havia algo errado.Me abaixei na frente dele, tentando captar qualquer sinal de comunicação.— Ei, está tudo bem? — perguntei suavemente.Nenhuma resposta.Seus olhos permaneceram no chão, vazios, sem emoção.Uma dor sutil se instalou no meu peito. Uma tristeza profunda.Eu não podia simplesmente deixá-lo assim. Não podia me afastar sem tentar. Mas também sabia que existiam limites que eu não poderia ultrapassar.Respirei fundo, me levantei e, sem convicção, disse:— Vamos…Mas, por dentro, eu estava insatisfeita.Eu sab
Encarei aqueles olhinhos inocentes, tão carentes, tão amáveis… Foi uma das sensações mais intensas que já senti. Era como sentir paz e, ao mesmo tempo, angústia.— Você é a nova babá? — A voz da menina soou hesitante.Acenei em confirmação, esboçando um pequeno sorriso. Era tudo que eu conseguia fazer diante deles.— Já conhece as crianças? — A pergunta de Matilda me trouxe de volta ao presente.Pisquei, despertando do transe.— Sim. Eu os conheci quando vim para a entrevista.Olhei novamente para os dois, que ainda me observavam com expectativa, mas sem nenhuma expressão real. Eram tão travados… tão contidos.Matilda pigarreou, retomando o controle da situação.— Vocês terminaram? Isabella vai levar vocês para o banho e ajudá-los a se arrumar. Não podem se atrasar.Sem questionar, eles se levantaram quase de forma mecânica. Meu coração se apertou ao vê-los tão adestrados, tão programados para obedecer. Aquela casa, tão grandiosa e imponente, deveria transbordar alegria, cor… Mas tudo
ISABELLAO sol ainda nem havia nascido completamente quando despertei, meu coração acelerado com a expectativa de mais um dia naquela casa. Algo dentro de mim dizia que eu deveria ficar, seguir o ritmo daquele lugar e cumprir meu papel. Mas, ao mesmo tempo, uma sensação desconfortável me consumia. Como se houvesse algo não dito, algo oculto, que se manifestava nos pequenos detalhes. E, de alguma forma, eu sabia que o centro de tudo eram as crianças.Diante daquela mansão imponente, inspirei fundo. Era uma construção extensa e luxuosa, mas havia algo de frio e distante em sua grandiosidade.— Isabella?A voz de Matilda, a governanta, me trouxe de volta dos devaneios.— Sim? — respondi rapidamente.— Me acompanhe. A Elza está lhe aguardando.Acenei, seguindo seus passos. Enquanto caminhava, observei as flores do jardim. Eram exuberantes, cheias de vida. Mas, ao adentrar a casa, notei as mesmas flores dispostas em vasos pelo interior. Só que ali, elas estavam murchas.— Matilda, não é? —







