No Coração Do Dono Do Morro

No Coração Do Dono Do Morro

last updateLast Updated : 2026-10-09
By:  Amanda Luna DeCarvalhoUpdated just now
Language: Portuguese
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Ricardo Azevedo Brum era um homem que tinha tudo. Um império empresarial, uma família unida e o amor da esposa Beatriz que era seu ponto de equilíbrio. Até o dia em que tudo foi destruído. A mulher que amava foi assassinada em um crime arquitetado pelo próprio primo, Caio Azevedo Brum, um homem consumido por obsessão e inveja dentro da própria família. A tragédia não apenas destruiu um casamento, como também o homem que Ricardo era. Movido pela dor e pela vingança, Ricardo abandonou sua antiga vida e mergulhou em um mundo que nunca deveria ter tocado.

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Chapter 1

Capítulo 01 — Um Preço Pago Alto Demais — Parte 01

A chuva caía fina sobre o morro, como sempre fazia àquela hora da madrugada, lavando o concreto rachado e o sangue que, de vez em quando, ainda marcava as vielas. Ricardo Azevedo Brum estava de pé na laje da casa mais alta da comunidade, um sobrado reforçado com grades de ferro e com câmeras que vigiavam cada esquina. O vento frio batia no seu rosto marcado, cicatrizes antigas misturadas às novas. Aos quarenta e um anos, era o Chefão resoluto. O homem que mandava em Paraisópolis como se o lugar tivesse nascido para ser seu império de dor e de ordem.

Embaixo, as luzes amarelas dos postes tremulavam. O som distante de um funk abafado chegava, misturado ao choro de uma criança e ao latido de um cão. Ricardo acendeu um cigarro, tragou devagar. Seus olhos, antes azuis e vivos, agora pareciam duas pedras frias. Ricardo não sorria havia anos. Quando sorria, era um gesto calculado, para acalmar ou para ameaçar. Alguém bateu de leve na porta de ferro atrás.

— Chefe, o moleque novo tá falando demais lá embaixo... — o homem sabia que daria encrenca. — Tá perguntando da Beatriz.

O nome cortou o ar como faca quente. Ricardo não se virou de imediato. Fechou os olhos azuis e, por um segundo, o mundo desapareceu. Ricardo estava de novo com vinte e poucos anos, dentro do carro escuro, o celular grudado na orelha.

— O preço já foi pago, mano... Beatriz... — o nome soou relativamente frio. — Rua das Acácias, 87... Vai logo...

A voz do outro lado era calma, quase debochada. Ricardo pisou fundo no acelerador. O coração batia tão forte que parecia querer sair pela garganta. Beatriz não atendia o telefone desde a tarde. Tinha saído para visitar a mãe, como sempre fazia nas quartas. Grávida de três semanas. Ninguém sabia ainda. Ninguém tinha certeza absoluta, nem Ricardo tinha conhecimento naquela altura, e quando soube, seu mundo ruiu. Tinha visto o brilho diferente nos olhos castanhos de Beatriz de manhã.

Ricardo chegou ao endereço — um terreno baldio nos limites de Paraisópolis, perto de onde a favela encontrava a marginal. O carro de Beatriz estava lá, porta aberta, faróis ainda acesos.

Ricardo saltou antes mesmo de frear completamente. As pernas tremiam. O cheiro de sangue chegou primeiro, metálico, doce demais. Depois a imagem.

Beatriz estava caída sobre o banco traseiro, o corpo nu, marcado por cortes profundos. O rosto — aquele rosto que amava desde os treze anos — estava irreconhecível de tanto espancamento. Os cabelos longos, sempre cheirosos de shampoo de rosas, colados no sangue seco. A barriga ainda pequena, quase imperceptível, tinha um corte vertical. Como se alguém quisesse ter certeza de que nada ali sobreviveria.

Ricardo caiu de joelhos no asfalto molhado. Um grito rouco saiu da sua garganta, animal, sem palavras. As mãos tremiam quando tocou o corpo frio. Já estava rígida. Horas. Horas de tortura, de violações, de dor que nem conseguia imaginar. E não estivera lá. Não a protegera.

— Beatriz... Meu amor... — a voz falhou, então puxou-a para os braços, embalando-a como se ainda pudesse aquecê-la, as lágrimas vieram quentes, misturadas à chuva. — Eu tô aqui... Tô aqui agora... Perdoa... Perdoa eu...

Não havia mais nada para perdoar. Só silêncio. O silêncio mais cruel que já conhecera.

Ricardo ficou ali por quase uma hora, até os primeiros raios de luz. Quando os guardas particulares que mantinha na época chegaram, encontraram o homem que sempre fora controlado, educado, filho de uma família rica de cosméticos, ajoelhado num mar de sangue, cantando baixinho a música que Beatriz gostava de ouvir no carro.

A partir daquele dia, Ricardo Azevedo Brum morreu junto com Beatriz.

Ricardo e Caio eram primos de primeiro grau, ambos herdeiros do império Azevedo Brum, uma rede de fábricas de cosméticos que se espalhava pelo Brasil e pela América Latina. Cresceram juntos, disputaram tudo desde a infância — brinquedos, atenção da família, e, mais tarde, o coração de Beatriz, a prima linda e doce que unia os dois ramos da família. Caio, sempre mais impulsivo e invejoso, perdeu Beatriz para Ricardo quando os dois tinham apenas dezesseis anos. O casamento discreto selou a derrota. A partir dali, Caio se desencaminhou de vez, mergulhou no mundo do crime, abandonou a herança, as boas maneiras e o sobrenome limpo. Tempos depois, reapareceu como o Chefão de Paraisópolis, um traficante cruel e ambicioso que transformou a favela em seu reino particular. O ódio antigo, guardado como brasa sob cinzas, finalmente encontrou combustível na inveja e na sede de vingança. Matar Beatriz não foi apenas um acerto de contas, foi o golpe final contra o primo Ricardo que, na visão distorcida de Caio, havia roubado tudo o que lhe era de direito.

Assim, Ricardo juntou o que restava do dinheiro da família, vendeu ações das fábricas que ainda estavam em seu nome, hipotecou tudo. Contratou os piores que o dinheiro podia comprar, ex-militares, mercenários paraguaios, matadores de aluguel que não faziam perguntas. Pagou em dólares, em ouro, em promessas de poder.

— Eu quero Paraisópolis... — disse Ricardo, na sala escura de um galpão abandonado, a voz sem emoção. — Quero Caio vivo... O resto, queima tudo...

A invasão foi brutal. Três noites de tiroteio, facadas, gritos. Caio, que já se chamava de Chefão da favela, fugiu como rato. Ricardo tomou conta. Matou quem precisava matar. Poupou quem jurou lealdade. E impôs as regras. Regras rígidas.

Ninguém tocava em mulher ou criança. Ninguém vendia droga perto de escola. Quem roubasse dentro da comunidade perdia a mão. Quem matasse sem ordem dele perdia a vida. O povo do morro temia-o muito, mas também respeitava-o como nunca. Porque com Ricardo no comando, o tráfico era controlado, a violência era dirigida, e o PCC, depois de anos de guerra fria, acabou aceitando o novo arranjo. Ricardo era útil. Ricardo frio. Era implacável.

Anos se passaram. Caio reapareceu em Heliópolis, mais forte, mais cruel. Tomou conta de lá como um câncer. Ricardo sabia. Observava. Esperava o momento certo.

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