LOGINA atmosfera no jardim mudou no instante em que Nicolas abriu a boca para responder. Um som sutil de passos na pedra fez com que os dois se afastassem rapidamente. Da sombra dos pilares do Partenon, Dimitra surgiu.
A alta sacerdotisa mantinha a postura impecável de sempre, mas seus olhos, geralmente serenos e imponentes, carregavam uma sombra de exaustão e profunda preocupação. Ela olhou de Anastácia para Nicolas, avaliando a proximidade dos dois com um único olhar severo.
— Nicolas, o dever o chama na entrada do templo. Os peregrinos estão chegando — ordenou Dimitra, com uma voz firme que não admitia réplicas.
O rapaz assentiu em silêncio, lançou um último olhar tenso para Anastácia e retirou-se, deixando as duas mulheres a sós. Dimitra aproximou-se devagar, seus trajes sacerdotais roçando suavemente no chão. Ela encarou o rosto empalidecido de Anastácia.
— Você está se lembrando de algo, não está? — perguntou a sacerdotisa, sem rodeios. Antes que a jovem pudesse inventar uma desculpa, Dimitra fez um gesto com a mão. — Venha comigo. Há algo que você precisa ver.
Ela guiou Anastácia por um corredor subterrâneo e trancado do templo, um lugar onde apenas as sacerdotisas de alto escalão tinham acesso. No centro de uma pequena sala iluminada por tochas, sobre uma mesa de pedra, repousavam os pertences com os quais Anastácia havia sido resgatada da floresta.
À luz do fogo, o tecido que Nicolas mencionara parecia ainda mais extraordinário. Não era apenas uma roupa comum de linho ou lã.
— Passe os dedos aqui — instruiu Dimitra, a voz quase num sussurro.
Anastácia aproximou-se e tocou o tecido. Era incrivelmente macio, mas ao mesmo tempo quente. Conforme ela movia a mão, os fios pareciam mudar sutilmente de cor, oscilando entre o branco e um tom de dourado. Não havia costuras visíveis; a peça parecia ter sido moldada por pura magia.
— Eu passei as últimas noites examinando cada centímetro dessas roupas — revelou Dimitra, cruzando os braços. — O padrão geométrico bordado nas bordas não pertence a nenhuma pólis grega. Mas o que realmente me assustou foi isto.
Dimitra pegou uma pequena adaga de bronze que estava ao lado do tecido. A lâmina estava completamente retorcida e cega, como se tivesse colidido contra uma rocha com força brutal.
— Essa adaga estava perto de você. Quando tentei limpar o sangue seco da lâmina para examinar o metal, notei que o sangue não era seu, Anastácia. E quando a aproximei da água benta do altar de Atena... a água ferveu instantaneamente.
Anastácia deu um passo para trás, sentindo o mesmo cheiro de ozônio que sentira no jardim.
— O que isso significa? — perguntou a jovem, com o coração martelando no peito.
— Significa que você esteve no meio de um confronto de proporções divinas — Dimitra cravou os olhos nela, o medo finalmente transparecendo em sua expressão. — O metal dessa adaga foi forjado no próprio Monte Olimpo, mas o poder que destruiu a lâmina e que impregnou esse tecido vem de algo muito mais antigo e violento. A própria terra e as raízes a protegeram na queda porque você carrega uma herança ou uma maldição que a natureza da montanha reconhece. Eu exigi o seu isolamento das outras sacerdotisas não por capricho, Anastácia. Mas porque sei que, se os deuses descobrirem que o que restou daquela batalha está escondido sob o meu teto, eles destruirão este templo para chegar até você.
O terror nas palavras de Dimitra ainda ecoava na mente de Anastácia quando a escuridão daquela sala subterrânea pareceu se estender, cruzando as fronteiras do mundo mortal até alcançar as alturas imponentes do Monte Olimpo. Lá em cima, a atmosfera não era de mistério velado, mas de uma tensão sufocante e elétrica.
Escrever uma história sobre deuses e mortais exige, acima de tudo, compreender a nossa própria humanidade. Olhar para o alto, para o topo do Monte Olimpo, ou sintonizar a mente com as profundezas silenciosas do Submundo é, na verdade, um exercício de introspecção. Significa encarar nossas próprias sombras, nossos desejos mais profundos, nossos medos insolúveis e a nossa eterna busca por redenção e poder.Dar vida a esta jornada e ver a transformação gradual da nossa soberana Perséfone foi um processo intenso, desafiador e incrivelmente recompensador. Cada linha traçada exigiu de mim uma entrega absoluta. Houve dias em que os personagens pareciam sussurrar suas dores diretamente em meus ouvidos, exigindo justiça para suas trajetórias. Este livro jamais teria cruzado a fronteira nebulosa da imaginação para se tornar uma realidade palpável se eu estivesse caminhando na completa solidão. Ele é o resultado do apoio incondicional, do carinho e da paciência de pessoas fundamentais que segura
Três ciclos lunares se passaram no mundo superior desde que as águas de Poseidon retornaram ao seu leito e a paz foi restaurada no Olimpo. Na superfície, a terra aprendeu a aceitar a ausência temporária de sua deusa, colhendo os frutos de uma primavera madura que deixara raízes fortes. Mas, nas profundezas do Submundo, o tempo havia corrido em um ritmo próprio — um período de calmaria, treinos sob o brilho dos cristais e uma paixão que floresceu de forma definitiva entre a primavera e as sombras.Perséfone já não era mais a convidada que buscava respostas. Ela havia encontrado sua identidade nas fendas de obsidiana e no abraço seguro de Hades. O sentimento que nascera no meio do caos havia se consolidado, e a decisão de unir seus destinos não vinha de um acordo político de Zeus, mas de uma escolha puramente deles.O grande salão do palácio de mármore negro estava ornamentado como nunca antes em toda a sua eternidade. Não havia a opulência dourada do Olimpo; em vez disso, o ambiente br
Os Jardins de Obsidiana tornaram-se o refúgio favorito de Perséfone nas semanas que se seguiram. Sob a tutoria paciente de Hades, as explosões descontroladas de poder haviam dado lugar a um domínio gracioso. Ela já não temia a escuridão da terra; aceitava-a como parte de sua própria essência.Após uma longa tarde de treinamento, onde conseguiram fazer um bosque inteiro de salgueiros de ébano brotar das rochas, os dois caminharam até a beira de um lago subterrâneo. A água ali era tão escura e imóvel que parecia um espelho de vidro negro, refletindo perfeitamente as constelações de cristais azuis que brilhavam no teto da imensa caverna.Perséfone sentou-se na margem rochosa, recolhendo as pernas e abraçando os joelhos. Ela olhou para o próprio reflexo na água e sorriu, sentindo uma paz que nunca havia experimentado nos salões dourados e barulhentos do Olimpo.Hades sentou-se ao lado dela, mantendo uma distância respeitável, embora sua atenção estivesse inteiramente voltada para o perfil
O palácio de Hades erguia-se em mármore negro e colunas de obsidiana polida, refletindo o brilho espiritual do Submundo. Para celebrar a chegada de sua ilustre convidada, o grande salão de banquetes foi aberto. A atmosfera misturava a imponência habitual das sombras com o frescor sutil que a presença de Perséfone trazia.A longa mesa de pedra estava decorada com cálices de prata e bandejas de ouro. Sentados ao longo do salão, os conselheiros do reino subterrâneo — juízes das almas, espectros antigos e generais — observavam a jovem deusa com um silêncio reverente e curioso. Ela estava vestindo apenas suas roupas da superfície, mas a forma como se portava já atraía a atenção de todos.Conforme Perséfone conversava de forma descontraída com os conselheiros, tentando entender o funcionamento daquele lugar novo, pequenas vinhas com flores de pétalas escuras e brilhantes brotavam timidamente perto de seus pés, espalhando-se sutilmente pelo chão de pedra. A energia dela estava respondendo e
A carruagem de ébano cruzou a fronteira do mundo dos vivos com um sussurro de vento. À medida que os cavalos negros desciam pelas passagens subterrâneas que levavam ao Submundo, a luz dourada do Olimpo foi gradualmente substituída pelo brilho suave de cristais e pela névoa mística das sombras. Dentro do veículo, o silêncio da noite eterna trouxe o isolamento perfeito que os dois tanto precisavam.Hades afrouxou as rédeas, permitindo que as criaturas seguissem o caminho familiar sozinhas. Ele se recostou no assento de couro escuro, desarmando a postura imponente que costumava manter diante de Zeus e do conselho. Seus olhos negros, suavizaram-se ao se fixarem em Perséfone.Ela havia retirado a Lança do Equilíbrio e a mantinha apoiada ao lado. Seus dedos brincavam com as bordas de suas vestes. O olhar esmeralda parecia perdido nas paredes de rocha que passavam velozes lá fora.— No que está pensando, Perséfone — disse Hades, a voz baixa e aveludada quebrando o silêncio. Um sorriso raro e
Lá no alto da colina, o Partenon ostentava as marcas profundas da invasão de Argos e do impacto das ondas. Colunas de mármore centenárias estavam caídas, e as paredes do santuário de Atena haviam sido reduzidas a destroços. Mas o clima não era de desolação.A reconstrução do templo de Atena começou no dia seguinte.Movidos pela gratidão de ter sobrevivido a mais um evento apocalíptico, os pescadores locais e os moradores da base da montanha uniram-se às sacerdotisas para a reconstrução do templo. Dimitra liderava os esforços litúrgicos, purificando o solo com óleo sagrado, enquanto Nicolas assumia a liderança da força bruta.Com o mesmo machado de ferro que usara para enfrentar o executor de Hera, o jovem cortava os troncos dos pinheiros da montanha para erguer os novos andaimes e movia os blocos de pedra com uma resistência que parecia tocada pelo divino. Nicolas trabalhava do amanhecer ao pôr do sol, encontrando paz no suor do esforço e no som do metal contra a rocha.Levaria meses







