LOGINEla deu um passo atrás, afastando-se do toque dele, não por medo de Nicolas, mas pelo peso do que ele acabara de revelar. Seus olhos se fixaram no chão do jardim.
— De quem eu estava fugindo... — repetiu ela, a própria voz parecendo distante, como se pertencesse a outra pessoa.
De repente, a menção ao mar e à tempestade disparou algo em seu peito. Uma pressão sufocante esmagou seus pulmões, e o ar ao seu redor pareceu ficar estranhamente denso, carregado com o cheiro de ozônio e sal.
Um estalo.
Por uma fração de segundo, a névoa em sua mente se partiu. Ela não viu um rosto, mas sentiu. Uma sensação avassaladora de queda livre. E, acima de tudo, uma gargalhada feminina, ecoando enquanto ela caia montanha a baixo, que fazia suas entranhas revirarem de puro terror. Havia um par de olhos dourados que a fitavam na escuridão daquela memória flash, olhos que pareciam vitoriosos ao ver a queda dela.
Anastácia cambaleou, levando as mãos à cabeça quando a imagem sumiu de forma tão abrupta quanto surgira, deixando apenas uma enxaqueca latejante e um pressentimento assustador.
— Anastácia! Você está bem? — Nicolas deu um passo rápido à frente, segurando-a firme pelos braços antes que ela perdesse o equilíbrio.
Ela respirava de forma arquejada, o suor frio brotando em sua testa. Olhou para as mãos de Nicolas em seus braços e depois subiu o olhar para o rosto preocupado dele.
— Eu... eu vi alguma coisa — sussurrou ela, trêmula, o olhar fixo no vazio. — Não foi um pensamento, Nicolas. Foi um aviso. Eu não caí daquela montanha por acidente. Eu fui jogada.
Ela engoliu em seco, sentindo um arrepio violento percorrer sua espinha. O pressentimento que se instalou em seu peito era nítido e aterrorizante: a tempestade que quase destruiu a floresta ali perto não era um fenômeno natural. Era uma caçada. E quem quer que estivesse atrás dela naquele dia, não ia desistir só porque ela havia esquecido o próprio nome.
— Se eu fui escondida aqui — Anastácia olhou nos olhos azuis de Nicolas, o pânico dando lugar a uma determinação desesperada —, então este templo não é um santuário. É um alvo. E o tempo está acabando.
Escrever uma história sobre deuses e mortais exige, acima de tudo, compreender a nossa própria humanidade. Olhar para o alto, para o topo do Monte Olimpo, ou sintonizar a mente com as profundezas silenciosas do Submundo é, na verdade, um exercício de introspecção. Significa encarar nossas próprias sombras, nossos desejos mais profundos, nossos medos insolúveis e a nossa eterna busca por redenção e poder.Dar vida a esta jornada e ver a transformação gradual da nossa soberana Perséfone foi um processo intenso, desafiador e incrivelmente recompensador. Cada linha traçada exigiu de mim uma entrega absoluta. Houve dias em que os personagens pareciam sussurrar suas dores diretamente em meus ouvidos, exigindo justiça para suas trajetórias. Este livro jamais teria cruzado a fronteira nebulosa da imaginação para se tornar uma realidade palpável se eu estivesse caminhando na completa solidão. Ele é o resultado do apoio incondicional, do carinho e da paciência de pessoas fundamentais que segura
Três ciclos lunares se passaram no mundo superior desde que as águas de Poseidon retornaram ao seu leito e a paz foi restaurada no Olimpo. Na superfície, a terra aprendeu a aceitar a ausência temporária de sua deusa, colhendo os frutos de uma primavera madura que deixara raízes fortes. Mas, nas profundezas do Submundo, o tempo havia corrido em um ritmo próprio — um período de calmaria, treinos sob o brilho dos cristais e uma paixão que floresceu de forma definitiva entre a primavera e as sombras.Perséfone já não era mais a convidada que buscava respostas. Ela havia encontrado sua identidade nas fendas de obsidiana e no abraço seguro de Hades. O sentimento que nascera no meio do caos havia se consolidado, e a decisão de unir seus destinos não vinha de um acordo político de Zeus, mas de uma escolha puramente deles.O grande salão do palácio de mármore negro estava ornamentado como nunca antes em toda a sua eternidade. Não havia a opulência dourada do Olimpo; em vez disso, o ambiente br
Os Jardins de Obsidiana tornaram-se o refúgio favorito de Perséfone nas semanas que se seguiram. Sob a tutoria paciente de Hades, as explosões descontroladas de poder haviam dado lugar a um domínio gracioso. Ela já não temia a escuridão da terra; aceitava-a como parte de sua própria essência.Após uma longa tarde de treinamento, onde conseguiram fazer um bosque inteiro de salgueiros de ébano brotar das rochas, os dois caminharam até a beira de um lago subterrâneo. A água ali era tão escura e imóvel que parecia um espelho de vidro negro, refletindo perfeitamente as constelações de cristais azuis que brilhavam no teto da imensa caverna.Perséfone sentou-se na margem rochosa, recolhendo as pernas e abraçando os joelhos. Ela olhou para o próprio reflexo na água e sorriu, sentindo uma paz que nunca havia experimentado nos salões dourados e barulhentos do Olimpo.Hades sentou-se ao lado dela, mantendo uma distância respeitável, embora sua atenção estivesse inteiramente voltada para o perfil
O palácio de Hades erguia-se em mármore negro e colunas de obsidiana polida, refletindo o brilho espiritual do Submundo. Para celebrar a chegada de sua ilustre convidada, o grande salão de banquetes foi aberto. A atmosfera misturava a imponência habitual das sombras com o frescor sutil que a presença de Perséfone trazia.A longa mesa de pedra estava decorada com cálices de prata e bandejas de ouro. Sentados ao longo do salão, os conselheiros do reino subterrâneo — juízes das almas, espectros antigos e generais — observavam a jovem deusa com um silêncio reverente e curioso. Ela estava vestindo apenas suas roupas da superfície, mas a forma como se portava já atraía a atenção de todos.Conforme Perséfone conversava de forma descontraída com os conselheiros, tentando entender o funcionamento daquele lugar novo, pequenas vinhas com flores de pétalas escuras e brilhantes brotavam timidamente perto de seus pés, espalhando-se sutilmente pelo chão de pedra. A energia dela estava respondendo e
A carruagem de ébano cruzou a fronteira do mundo dos vivos com um sussurro de vento. À medida que os cavalos negros desciam pelas passagens subterrâneas que levavam ao Submundo, a luz dourada do Olimpo foi gradualmente substituída pelo brilho suave de cristais e pela névoa mística das sombras. Dentro do veículo, o silêncio da noite eterna trouxe o isolamento perfeito que os dois tanto precisavam.Hades afrouxou as rédeas, permitindo que as criaturas seguissem o caminho familiar sozinhas. Ele se recostou no assento de couro escuro, desarmando a postura imponente que costumava manter diante de Zeus e do conselho. Seus olhos negros, suavizaram-se ao se fixarem em Perséfone.Ela havia retirado a Lança do Equilíbrio e a mantinha apoiada ao lado. Seus dedos brincavam com as bordas de suas vestes. O olhar esmeralda parecia perdido nas paredes de rocha que passavam velozes lá fora.— No que está pensando, Perséfone — disse Hades, a voz baixa e aveludada quebrando o silêncio. Um sorriso raro e
Lá no alto da colina, o Partenon ostentava as marcas profundas da invasão de Argos e do impacto das ondas. Colunas de mármore centenárias estavam caídas, e as paredes do santuário de Atena haviam sido reduzidas a destroços. Mas o clima não era de desolação.A reconstrução do templo de Atena começou no dia seguinte.Movidos pela gratidão de ter sobrevivido a mais um evento apocalíptico, os pescadores locais e os moradores da base da montanha uniram-se às sacerdotisas para a reconstrução do templo. Dimitra liderava os esforços litúrgicos, purificando o solo com óleo sagrado, enquanto Nicolas assumia a liderança da força bruta.Com o mesmo machado de ferro que usara para enfrentar o executor de Hera, o jovem cortava os troncos dos pinheiros da montanha para erguer os novos andaimes e movia os blocos de pedra com uma resistência que parecia tocada pelo divino. Nicolas trabalhava do amanhecer ao pôr do sol, encontrando paz no suor do esforço e no som do metal contra a rocha.Levaria meses







