INICIAR SESIÓNO coração dela falhou um compasso. Durante alguns segundos, Alya não soube o que responder. As palavras se embolaram na garganta.
— É só gratidão, Paolo… — tentou dizer, forçando um sorriso. — Você… se sente grato porque eu te ajudei. É normal confundir as coisas. — Não parece só isso. — ele insistiu, agora se levantando devagar. Paolo se aproximou, a luz da vela desenhando seus traços de um jeito mais intenso. O rosto dele ficava ora em sombra, ora iluminado, e isso o deixava ainda mais misterioso. — Gratidão não faz o coração bater assim. — completou, encostando a mão livre no próprio peito — Fica… estranho. Aperta. Acelera. — ele engoliu em seco. — Principalmente quando você sorri. Ela sentiu as bochechas queimando. Desviou o olhar, sentindo o estômago revirar de nervoso. — Você está confundindo as coisas. — repetiu, mas sua voz não soou tão firme quanto gostaria. Os dedos dele ainda seguravam a mão dela. O toque era quente. Não havia força ali, só presença. Um pedido silencioso para que ela ficasse. — Se eu estiver… — sussurrou — você pode me explicar a diferença? Alya respirou fundo. A sala parecia menor. O ar, mais pesado. — Paolo… — tentou advertir, mas o nome saiu suave demais. Ele deu um passo mais perto. A luz das velas desenhava o contorno dos lábios dele, o brilho dos olhos cinzentos. Havia um misto perigoso entre inocência e desejo naquela expressão. Como alguém que não entendia tudo, mas sentia demais. — Eu não lembro de quem eu era. — continuou, a voz rouca — Não sei se antes disso eu era… bom ou ruim. Mas eu sei o que sinto agora. Quando acordo e vejo você aqui. Quando você diz meu nome. Quando encosta em mim. As palavras foram desarmando as defesas dela uma a uma. Alya sentiu os olhos arderem. Não de tristeza, mas de algo que ela tentava conter há dias. A convivência, os pequenos gestos, a maneira como ele parecia tão grande e, ao mesmo tempo, tão indefeso ali… tudo isso a havia cercado devagar, sem aviso. Quando as mãos deles se tocaram de verdade, dedo com dedo, palma com palma, algo dentro dela se quebrou. Não foi um barulho alto. Foi um estalo silencioso no peito, uma certeza nascida no meio do caos. Ela ergueu os olhos. Encontrou o olhar dele. Por um momento, o mundo inteiro pareceu se resumir àquele espaço minúsculo entre as bocas deles. O primeiro beijo partiu dele. Um gesto ainda incerto, quase tímido, mas carregado de tudo o que ele não sabia dizer. Aproximou-se devagar, esperando que ela recuasse. Ela não recuou. Os lábios se tocaram num choque suave no começo, como quem testa a água fria antes de mergulhar. O coração de Alya disparou. A mão livre dela subiu, quase sem perceber, até o peito dele, sentindo o coração bater rápido sob a pele e a camiseta simples. Paolo aprofundou o beijo com cuidado, como se fosse algo precioso demais para ser tratado com pressa. Ainda assim, havia uma urgência ali. Um medo de perder, de acordar e descobrir que tudo não passava de um sonho. Alya respondeu ao beijo, deixando de lado qualquer resistência. As mãos dela subiram, contornando o pescoço, sentindo a nuca onde a dor o incomodava às vezes. Ele estremeceu, não de dor, mas de algo mais intenso, que tomava conta de todo o corpo. A sala, a falta de luz, a tempestade que já não existia, nada mais importava. Eles se afastaram por um segundo, ofegantes, testando a realidade daquele momento. — Isso… — ele sussurrou, roçando a testa na dela — Isso também é gratidão? Ela sorriu de leve, os olhos brilhando. — Não. — respondeu, numa sinceridade que a surpreendeu — Isso é tudo, menos gratidão. Paolo respirou fundo e voltou a beijá-la, como se tivesse acabado de receber uma resposta que procurava há muito tempo, mesmo sem memória. As velas tremularam quando os movimentos ficaram mais intensos. Os corpos se aproximaram, se reconheceram num ritmo próprio, guiado mais pelo sentimento do que por qualquer experiência lembrada. Cada toque era uma descoberta, cada suspiro, uma confissão. Em algum momento, a sala deixou de ser suficiente. As mãos se entrelaçaram ainda mais forte, os passos incertos os levaram para o quarto pequeno de Alya. A porta bateu com um clique suave, como um segredo guardado do lado de dentro. Lá dentro, os sussurros substituíram as palavras. O riso nervoso se misturou à respiração acelerada. Os dedos trêmulos desenharam caminhos sobre a pele, reconhecendo contornos, cicatrizes, histórias que ainda não tinham sido contadas em voz alta. As velas, do lado de fora, seguiram queimando devagar, lançando sombras quentes pelo corredor. A casa inteira parecia segurar o fôlego, como se soubesse que algo importante estava acontecendo ali. Naquela noite, não houve passado, não houve nomes, não houve memórias perdidas. Houve apenas dois corpos se encontrando como se já tivessem esperado tempo demais por isso. Houve coração, medo, desejo e uma entrega que nascia tão natural quanto a chuva que agora apenas pingava lá fora, tímida, envergonhada. Quando o silêncio finalmente tomou conta do quarto, já era tarde. Alya sentia o corpo cansado, mas o peito leve. Paolo respirava ao seu lado, o rosto relaxado como ela nunca tinha visto. Ela o observou por alguns segundos, os cabelos bagunçados, o peito subindo e descendo devagar. — Meu Golden Retriever. — sussurrou, com um meio sorriso, antes de fechar os olhos — Grande, fofo e… totalmente meu problema agora. Não percebeu quando adormeceu, ainda com a mão entrelaçada à dele. Do lado de fora, a noite parecia guardar o segredo dos dois. E, sem que nenhum deles soubesse, algo muito maior do que só o corpo havia se ligado ali. Algo que nem mesmo a memória perdida de Paolo seria capaz de apagar.Quando Paolo entrou na mansão com Matheo ao lado, o ar pareceu prender dentro das paredes. Os funcionários pararam discretamente onde estavam, alguns fingindo arrumar coisas, outros congelando com uma bandeja na mão. Ninguém ousou falar alto. Era como se a casa inteira esperasse o desfecho de um filme que todo mundo tinha começado a ver junto.Alya já estava na porta antes mesmo deles cruzarem o hall. O vestido solto, confortável, balançava com a pressa. O rosto molhado de lágrimas que ela tentou esconder dos outros, mas não dele. Quando viu a silhueta pequena ao lado de Paolo, o corpo dela se moveu sozinho.— Matheo! — gritou, a voz saindo mais alta do que pretendia.O menino correu também. Se jogou nos braços da mãe com tanta força que quase a desequilibrou. Ela o abraçou como se quisesse colar o corpo dele no peito, como se, assim, garantisse que ninguém nunca mais o arrancaria dali.— Meu filho, meu filho… — repetia, entre soluços, passando as mãos pelo cabelo dele, pelo rosto, p
A notícia de que era Felicity quem estava por trás do sequestro caiu em Alya como uma faca virando dentro do peito.Depois que desligou a chamada com Paolo, ela ficou alguns segundos parada no meio da sala, o celular ainda na mão, o coração disparado. Não era só medo. Algo mais bruto tinha acordado.Começou a andar pela mansão como se fosse um animal enjaulado, medindo cada passo, as mãos fechadas em punho.— Se essa mulher encostar um dedo no Matheo… — falou, com a voz baixa, mortal — eu mesma mato ela. Com a minha mão. Não quero saber de código, não quero saber de conselho. Eu arrebento ela.Os funcionários desviavam o olhar, sentindo o clima, mas sem ousar se meter. Gael e Ravi estavam em um dos quartos, sob a guarda de um segurança de confiança, tentando brincar sem conseguir se desligar.Paolo voltou à mansão por algumas horas só pra vê-los. Quando entrou, o ombro ainda doía, mas ele quase esqueceu disso ao ver Alya andando de um lado pro outro na sala, como se não coubesse dentr
O sequestro de Matheo virou o centro do mundo de Paolo em segundos. Ele mal deixou o curativo do ombro ser trocado. A gaze ainda estava úmida de sangue quando ele já descia as escadas da mansão como se não tivesse levado tiro nenhum. O corpo doía, mas a cabeça só repetia uma coisa… levaram meu filho. Alya veio atrás, ofegante.— Eu vou com você. — disse, decidida — Não vou ficar aqui parada enquanto…Paolo se virou, segurou o rosto dela com as duas mãos, obrigando ela a olhar apenas pra ele.— Fica com o Gael e o Ravi. — pediu, firme — Eles precisam de você inteira. Eu volto com o nosso filho.Os olhos dela cortaram a pele dele mais do que qualquer bala.— Se você não voltar com ele… — começou, a voz quebrando.Ele aproximou a testa da dela por um segundo.— Eu volto. — repetiu — Nem que seja arrastado.Ela assentiu, mas o peito queimava.— Vai. — sussurrou — Traz ele pra casa.Na sala do conselho, ninguém estava preparado para a tempestade que entrou. Paolo abriu as portas com um em
A mansão parecia maior quando o coração dela apertava. Desde que Paolo saiu, Alya andava de um lado pro outro, contando mentalmente os minutos, as horas, qualquer coisa que ajudasse a manter a cabeça ocupada. Sabia apenas que ele tinha ido resolver um problema “sério demais” fora da cidade. Não perguntou detalhes. Não precisava.Na frente dos meninos, fingia normalidade. Preparou café da manhã, discutiu sobre quem ia tomar banho primeiro, fingiu rir das piadas de Ravi, ouviu Gael falar sobre um desenho novo e Matheo perguntar por que o pai tinha que sair tanto. Em cada resposta, uma parte dela quebrava e outra colava por cima.Quando finalmente ouviu o barulho do carro entrando pelo portão, sentiu o coração disparar. Não correu de imediato. Esperou ouvir a porta da frente abrir.Quando Paolo entrou no hall, o mundo dela estreitou. Ela viu o sangue na camisa antes de qualquer outra coisa.— Paolo! — gritou, correndo na direção dele.Ele estava pálido, o ombro caído de leve, a respiraç
A notícia do desfalque chegou como chegam as coisas sérias, sem rodeio. Paolo estava no escritório da mansão quando um dos homens de confiança entrou, pálido, com uma pasta na mão e o celular no bolso vibrando sem parar. Bastou ele posar a pasta na mesa para o clima mudar.— Fala. — Paolo pediu, sério.— Tem um buraco grande demais nos números da filial da cidade vizinha. — o homem explicou — Não é erro de contabilidade, é mão de gente. Roubo.Paolo folheou rapidamente alguns papéis, o olhar ficando mais escuro a cada página. Não era só dinheiro. Era afronta. Quem tinha coragem de mexer em algo dele assim, na cara dura, não estava interessado apenas em lucro. Estava testando limites.Algumas horas depois, a sala do conselho estava cheia. Os mais velhos sentados, como sempre. Paolo de pé, como sempre que o assunto pedia posição clara. O clima era pesado, carregado de expectativa e tensão.— Eu vou sair da cidade. — ele anunciou, a voz firme — Vou resolver o desfalque pessoalmente. E, e
A mansão estava num daqueles dias em que tudo parecia calmo demais. Os meninos tinham saído com um dos seguranças para brincar no jardim dos fundos, Paolo estava trancado no escritório resolvendo assuntos da máfia, e Alya aproveitava a rara quietude da sala principal pra organizar os livros dos trigêmeos numa estante.Estava de vestido que moldava o corpo na medida certa, confortável, mas atraente, e o cabelo preso numa trança única que caía sobre um dos ombros. Parecia uma cena doméstica qualquer, se não fosse o peso do sobrenome que agora carregava. Ela separava os livros em pilhas.— Histórias, escola, bagunça. — sussurrava, encaixando um por um — Vocês três deviam aprender a guardar isso aqui sozinhos.Foi quando ouviu o som do salto ecoando no piso. Não era o som de qualquer salto. Era aquele som, firme, decidido, acostumado a ser notado. A cada passo, o eco atravessava o hall e subia pelas paredes.Os funcionários se entreolharam antes mesmo de ela aparecer. Alguns seguranças, p







