FAZER LOGINOs dias seguintes foram estranhamente tranquilos. A casa pequena de Alya, que antes vivia em silêncio, agora parecia viver diferente. Havia um par de passos a mais no chão de madeira, uma respiração pesada no sofá, uma risada tímida vinda da cozinha.
Paolo se movimentava devagar, ainda se acostumando com o próprio corpo. A cicatriz no abdômen puxava um pouco a pele quando ele se erguia mais rápido, e às vezes uma dor fina na nuca o fazia interromper qualquer gesto. Mas, apesar disso, havia nele uma disposição quase infantil. — Posso te ajudar? — ele perguntava sempre que via Alya pegando uma vassoura, um pano, um prato. No começo, ela até tentou recusar. — Você já ajuda muito só ficando quieto e se recuperando. — respondia, ajeitando uma pilha de roupa ou abrindo a janela — Não precisa se esforçar demais. Mas ele insistia. Ajudava a lavar a louça, mesmo derrubando água para todo lado. Tentava varrer, mas juntava mais poeira do que tirava. A primeira vez que decidiu cozinhar sozinho, quase colocou fogo na frigideira. — Paolooo! — Alya correu até o fogão, desligando o gás às pressas — Você quer fritar ovo ou explodir a casa? Ele deu uma risada envergonhada, coçando a nuca. — Eu juro que isso fazia mais sentido na minha cabeça. — Ainda bem que só a frigideira saiu traumatizada. — ela respondeu, rindo junto. Aos poucos, aquilo virou rotina. Alya passava parte do dia trabalhando na farmácia da cidade, e sabia que podia deixar Paolo ali, mais calmo a cada dia, andando pela casa, tentando ajudar do seu jeito. Quando voltava, era recebida com coisas assim: — Eu arrumei o sofá. — ele dizia, orgulhoso, apontando para a manta mal esticada. Ou: — Lavei a louça. Só que… quebrei dois pratos. Mas foram só dois, juro. Ela ria, balançando a cabeça, mas o peito se aquecia. Tinha se acostumado com a presença dele mais rápido do que gostaria de admitir. O silêncio da casa já não parecia tão pesado quanto antes. Uma tarde, depois do trabalho, Alya chegou cansada e o encontrou sentado no chão da sala, mexendo na velha gaveta de fotos dela. Ele olhava cada uma com um cuidado quase sagrado. — Ei! — ela disse, surpresa. — Fuçando minhas coisas sem permissão? Paolo levou um susto e deixou cair uma das fotos, apressado. — Desculpa! Eu… eu só… — respirou fundo. — Eu estava tentando ver se alguma foto me fazia lembrar de alguma coisa. Tipo… sei lá, se eu já te conhecia. Ela respirou fundo, pegou a foto do chão e se sentou ao lado dele. — Se você já me conhecesse… — falou, olhando as fotos antigas com a mãe e o pai — eu tenho certeza que eu saberia. Ele sorriu fraco. — É. Acho que eu ia lembrar de você. Alya fingiu que não ouviu aquilo, mas as bochechas queimaram. A convivência foi criando um laço que nenhum dos dois sabia nomear. Paolo era grande, forte, cheio de cicatrizes… mas, por dentro, havia nele uma doçura desconcertante. Uma noite, Alya tropeçou em uma cadeira e quase caiu de cara no chão. Antes que percebesse, as mãos dele estavam em sua cintura, segurando-a com firmeza. — Cuidado. — sussurrou, a voz baixa perto do ouvido dela — Você é desastrada demais pra andar sozinha. O toque dele a fez congelar por um instante. O cheiro, o calor, a proximidade. Ela se afastou rápido demais, rindo para disfarçar o nervosismo. — Eu só estava testando seus reflexos de herói. — brincou. Paolo sorriu, meio sem jeito. — Então eu passei? — Por pouco. Às vezes, quando achava que Alya não estava vendo, ele a observava calado. Olhava o jeito como ela prendia o cabelo, concentrada, ou como franzia o nariz quando lia algo difícil. Era como se tivesse medo de perder qualquer detalhe. Ela percebia. Fingindo que não. Uma noite, depois do expediente na farmácia, Alya chegou exausta. O céu estava pesado, mas não chovia. O calor era abafado. Assim que entrou em casa, percebeu que não havia luz acesa, e, quando tentou ligar o interruptor, nada aconteceu. — Ah, ótimo. — resmungou. — Faltou energia. Paolo apareceu na porta da cozinha, segurando duas velas acesas em potes de vidro. — Eu já vi isso acontecendo hoje à tarde. — explicou. — Achei melhor adiantar o clima romântico. Ela revirou os olhos, rindo. — Não começa, Paolo. Ele colocou uma vela sobre a mesa e outra no aparador. A casa ficou banhada em um brilho amarelado e suave, que desenhava sombras pelas paredes. Aquele pequeno lar parecia um lugar completamente diferente à luz de velas. Mais íntimo. Mais vulnerável. Alya se sentou, soltando o ar numa longa respiração. — Hoje foi puxado? — Foi. — ela respondeu, apoiando os cotovelos na mesa — Muita gente doente, muita receita pra separar… e ainda tinha uma senhora que jurava que o remédio dela estava “olhando” pra ela de volta. Paolo riu, se aproximando e se sentando à sua frente. — Eu queria poder te ajudar lá também. Não só aqui. — Aqui já é muito. — respondeu. — Você cuida da casa, me faz rir… e às vezes quase explode a cozinha, mas eu deixo passar. Ele ficou a olhando por alguns segundos. O brilho da vela dançava nos olhos dela, e Alya desviou o olhar, inquieta. — Você não devia me olhar assim. — sussurrou. — Como? — ele perguntou, genuinamente confuso. — Como se eu fosse… — hesitou, procurando as palavras. — A coisa mais interessante da sala. — Mas você é. — Paolo respondeu, com uma naturalidade que fez o coração dela acelerar. — Eu olho em volta e só vejo… coisas. Aí eu olho pra você. Ela engoliu em seco. O silêncio que se instalou não era desconfortável… mas era carregado demais. Para quebrar o clima, Alya se levantou. — Quer saber? Acho que vou pegar mais uma vela pro quarto, antes que eu esqueça. Quando passou ao lado dele, Paolo segurou de leve sua mão, sem puxar, só… pedindo para que ela parasse. Ela sentiu o toque. Parou. — Alya… — ele chamou, a voz mais baixa do que de costume. — Tem uma coisa que eu não entendo. — O quê? — ela perguntou, sem ousar olhar diretamente pra ele. — Por que meu peito aperta quando olho pra você? A pergunta veio limpa, sincera, sem filtros. Como tudo nele desde que acordou.Quando Paolo entrou na mansão com Matheo ao lado, o ar pareceu prender dentro das paredes. Os funcionários pararam discretamente onde estavam, alguns fingindo arrumar coisas, outros congelando com uma bandeja na mão. Ninguém ousou falar alto. Era como se a casa inteira esperasse o desfecho de um filme que todo mundo tinha começado a ver junto.Alya já estava na porta antes mesmo deles cruzarem o hall. O vestido solto, confortável, balançava com a pressa. O rosto molhado de lágrimas que ela tentou esconder dos outros, mas não dele. Quando viu a silhueta pequena ao lado de Paolo, o corpo dela se moveu sozinho.— Matheo! — gritou, a voz saindo mais alta do que pretendia.O menino correu também. Se jogou nos braços da mãe com tanta força que quase a desequilibrou. Ela o abraçou como se quisesse colar o corpo dele no peito, como se, assim, garantisse que ninguém nunca mais o arrancaria dali.— Meu filho, meu filho… — repetia, entre soluços, passando as mãos pelo cabelo dele, pelo rosto, p
A notícia de que era Felicity quem estava por trás do sequestro caiu em Alya como uma faca virando dentro do peito.Depois que desligou a chamada com Paolo, ela ficou alguns segundos parada no meio da sala, o celular ainda na mão, o coração disparado. Não era só medo. Algo mais bruto tinha acordado.Começou a andar pela mansão como se fosse um animal enjaulado, medindo cada passo, as mãos fechadas em punho.— Se essa mulher encostar um dedo no Matheo… — falou, com a voz baixa, mortal — eu mesma mato ela. Com a minha mão. Não quero saber de código, não quero saber de conselho. Eu arrebento ela.Os funcionários desviavam o olhar, sentindo o clima, mas sem ousar se meter. Gael e Ravi estavam em um dos quartos, sob a guarda de um segurança de confiança, tentando brincar sem conseguir se desligar.Paolo voltou à mansão por algumas horas só pra vê-los. Quando entrou, o ombro ainda doía, mas ele quase esqueceu disso ao ver Alya andando de um lado pro outro na sala, como se não coubesse dentr
O sequestro de Matheo virou o centro do mundo de Paolo em segundos. Ele mal deixou o curativo do ombro ser trocado. A gaze ainda estava úmida de sangue quando ele já descia as escadas da mansão como se não tivesse levado tiro nenhum. O corpo doía, mas a cabeça só repetia uma coisa… levaram meu filho. Alya veio atrás, ofegante.— Eu vou com você. — disse, decidida — Não vou ficar aqui parada enquanto…Paolo se virou, segurou o rosto dela com as duas mãos, obrigando ela a olhar apenas pra ele.— Fica com o Gael e o Ravi. — pediu, firme — Eles precisam de você inteira. Eu volto com o nosso filho.Os olhos dela cortaram a pele dele mais do que qualquer bala.— Se você não voltar com ele… — começou, a voz quebrando.Ele aproximou a testa da dela por um segundo.— Eu volto. — repetiu — Nem que seja arrastado.Ela assentiu, mas o peito queimava.— Vai. — sussurrou — Traz ele pra casa.Na sala do conselho, ninguém estava preparado para a tempestade que entrou. Paolo abriu as portas com um em
A mansão parecia maior quando o coração dela apertava. Desde que Paolo saiu, Alya andava de um lado pro outro, contando mentalmente os minutos, as horas, qualquer coisa que ajudasse a manter a cabeça ocupada. Sabia apenas que ele tinha ido resolver um problema “sério demais” fora da cidade. Não perguntou detalhes. Não precisava.Na frente dos meninos, fingia normalidade. Preparou café da manhã, discutiu sobre quem ia tomar banho primeiro, fingiu rir das piadas de Ravi, ouviu Gael falar sobre um desenho novo e Matheo perguntar por que o pai tinha que sair tanto. Em cada resposta, uma parte dela quebrava e outra colava por cima.Quando finalmente ouviu o barulho do carro entrando pelo portão, sentiu o coração disparar. Não correu de imediato. Esperou ouvir a porta da frente abrir.Quando Paolo entrou no hall, o mundo dela estreitou. Ela viu o sangue na camisa antes de qualquer outra coisa.— Paolo! — gritou, correndo na direção dele.Ele estava pálido, o ombro caído de leve, a respiraç
A notícia do desfalque chegou como chegam as coisas sérias, sem rodeio. Paolo estava no escritório da mansão quando um dos homens de confiança entrou, pálido, com uma pasta na mão e o celular no bolso vibrando sem parar. Bastou ele posar a pasta na mesa para o clima mudar.— Fala. — Paolo pediu, sério.— Tem um buraco grande demais nos números da filial da cidade vizinha. — o homem explicou — Não é erro de contabilidade, é mão de gente. Roubo.Paolo folheou rapidamente alguns papéis, o olhar ficando mais escuro a cada página. Não era só dinheiro. Era afronta. Quem tinha coragem de mexer em algo dele assim, na cara dura, não estava interessado apenas em lucro. Estava testando limites.Algumas horas depois, a sala do conselho estava cheia. Os mais velhos sentados, como sempre. Paolo de pé, como sempre que o assunto pedia posição clara. O clima era pesado, carregado de expectativa e tensão.— Eu vou sair da cidade. — ele anunciou, a voz firme — Vou resolver o desfalque pessoalmente. E, e
A mansão estava num daqueles dias em que tudo parecia calmo demais. Os meninos tinham saído com um dos seguranças para brincar no jardim dos fundos, Paolo estava trancado no escritório resolvendo assuntos da máfia, e Alya aproveitava a rara quietude da sala principal pra organizar os livros dos trigêmeos numa estante.Estava de vestido que moldava o corpo na medida certa, confortável, mas atraente, e o cabelo preso numa trança única que caía sobre um dos ombros. Parecia uma cena doméstica qualquer, se não fosse o peso do sobrenome que agora carregava. Ela separava os livros em pilhas.— Histórias, escola, bagunça. — sussurrava, encaixando um por um — Vocês três deviam aprender a guardar isso aqui sozinhos.Foi quando ouviu o som do salto ecoando no piso. Não era o som de qualquer salto. Era aquele som, firme, decidido, acostumado a ser notado. A cada passo, o eco atravessava o hall e subia pelas paredes.Os funcionários se entreolharam antes mesmo de ela aparecer. Alguns seguranças, p







