FAZER LOGINSamantha
Era uma voz feminina, antiga, sem idade, que falava sem pressa e ocupava o espaço certo, como água achando caminho entre pedras. — Filha. Minha espinha inteira se alinhou. O pescoço, os ombros, tudo se fez atento por dentro de uma reverência que não se inclina, se ergue. — Deusa… — o nome se fez sopro na boca — eu… eu não sei o que dizer. — Não diga. Sinta. A claridade se concentrou nas minhas mãos. Uma sensação morna percorreu minhas palmas, subiu pelos braços, abriu um corredor entre o estômago e o peito. Eu fechei os olhos. Não era medo. Era reconhecimento. Como quando a gente volta para um cômodo da infância e encontra a cadeira de sempre no lugar de sempre, mas, agora, grande. — Você se sente rejeitada pelos homens… — a voz prosseguiu, sem julgamento — mas não foi rejeitada pela Lua. O que ele negou diante dos seus, eu escrevi em você antes do primeiro uivo. Não confunda o gesto de um com o destino de todos. — Dói. — confessei, nua de fingimento — Dói de um jeito que eu nem sei explicar. — A dor queima o que é excesso. — respondeu — O que sobra, é seu. O resto não te pertence. A claridade se abriu mais uma vez, e eu vi coisas que não eram exatamente imagens… um lobo enorme, escuro, ajoelhando sem querer. Uma matilha em torno de um fogo que não mata, aquece. Crianças correndo sobre grama molhada. O rio onde eu estava agora, cheio de luz, e, de repente, o que parecia minha própria mão erguendo-se para barrar algo que vinha contra mim, e parando. Não com força muscular, mas com uma ordem que saía de algum lugar dentro do meu osso. — Você foi apontada para liderar o que ainda não sabe nomear. — a voz disse, firme — E liderança não é trono, é coluna. Você pode treinar o corpo para a guerra. Eu vou treinar o que a carne não alcança. Arwen fez um som de aprovação, uma alegria contida. — “Eu disse…” — E eu achei que estava louca. — um sorriso cansado me pegou de surpresa — Deusa… se você me quer inteira, me ensina a levantar sem virar pedra. Eu não quero endurecer do jeito que eles endurecem. — Pedra não dança com a maré. — Havia doçura na resposta — Você terá de ser firme sem perder a quentura. Doce sem perder o fio. Branda sem ceder à covardia. Para isso, vou acender em você o que foi depositado por quem veio antes. — Quem… veio antes? O brilho ficou mais delicado. Eu “vi” uma mulher que não conhecia e, ainda assim, parecia minha… cabelos escuros, olhos luminosos, mãos desenhando símbolos no ar. Ao redor dela, lobos mais fortes que o ferro baixando as cabeças não por medo, mas por reconhecimento. Não era adoração. Era acordo. — Sua ancestral. Sacerdotisa da minha casa. O sangue dela corre em você. O que repousou por gerações, eu desperto agora. Arrepios atravessaram minha pele. O vento mudou de direção e trouxe um perfume desconhecido, algo entre alecrim e noite limpa. Minhas mãos, ainda banhadas de claridade, formigaram. Eu senti, como quem nota uma janela que dá para um jardim, que havia um espaço novo dentro de mim. Um lugar silencioso, daquele silêncio bom que não pesa, onde cabia comando sem grito, cura sem milagre, visão sem delírio. — E o que eu faço com isso? — perguntei, tão prática quanto sempre fui — Com esse… lugar? — Você não fará nada hoje. — A resposta veio sem pressa — Hoje você recebe. Amanhã, obedece ao que o corpo pedir. Depois, aprende a dizer sem levantar a voz. — Dizer o quê? — Que ninguém rasga o que Eu fio. A frase ficou na clareira como um selo. O brilho, então, começou a recolher-se devagar, como água voltando ao leito. Eu continuei de joelhos, as mãos ainda quentes, o rosto úmido não sei mais se de lágrimas ou do orvalho que caía mais grosso. Arwen encostou a cabeça no meu peito, eu a abracei por dentro, e nós duas respiramos juntas. — Eu não sou atalho. — repeti para mim, pensando em Ayres, no olhar duro que escondia menino ferido — E não vou mendigar o que é meu por direito. — Não mendiga. — a Deusa repetiu, com uma nota que soou quase maternal — Recebe. E cuida. — De quê? — De quem vier. Dos seus. De si. A mata voltou a produzir seus sons. Um bicho correu entre as folhas, a água brincou com pedras, a Lua manteve-se no alto, agora mais prateada do que antes. Eu me levantei devagar, como quem experimenta um corpo renovado. As pernas ainda tremiam, mas não por vergonha. Por potência. — Arwen? — chamei, sentindo minha loba alongar o dorso, satisfeita. — “Eu estou aqui. Eu sempre estive.” — Eu acho que… — procurei a palavra certa e encontrei o que cabia — eu acho que acordei. — “Você começou.” — Arwen sorriu de um jeito que só lobo sabe sorrir — “E começo não é pouco.” Dei um passo, depois outro. O mundo parecia o mesmo e, ao mesmo tempo, outro. Na borda da clareira, algo cintilou. Aproximei-me por instinto. Entre duas raízes retorcidas, havia uma pequena pedra oval, leitosa, como um pedaço de Lua caído, fria por fora, quente por dentro. Peguei. Ao tocar, um arrepio subiu pela espinha, e a mesma voz de antes sussurrou, muito perto: — Lembra do que te dei. — O que exatamente você me deu? — perguntei, mas não houve resposta. Só o bater compassado do meu próprio peito, diferente, mais inteiro. Um som distante cortou o bosque. Não era lamento. Não era chamado. Era um uivo que eu conhecia, grave, imponente, de quem nasceu para liderar. Fenrir. E, logo depois, outro, mais afinado, firme e sereno. Arwen respondeu de dentro e de fora de mim, como se existisse em dois lugares ao mesmo tempo. Meu corpo congelou por um instante, não de medo, mas de pressentimento. O ar pareceu mudar de rumo. Ramas estalaram no limite da clareira. Eu ergui o rosto, a pedra oval fechada na palma, o coração batendo em compasso com a mata. — Arwen… — “Eu sei, Sam.” Os passos pararam a poucos metros. Eu não via ninguém, mas sentia uma presença atravessando a escuridão, conhecida, perigosa, inevitável. A Lua intensificou o brilho por um segundo, como se quisesse iluminar o que vinha. Eu prendi a respiração. E, antes que qualquer nome fosse dito, uma sombra rompeu a beira das árvores. Mas ele não fala nada, apenas me olha e depois se afasta... Ayres.SamanthaA Lua estava cheia, testemunha paciente de tudo que vivemos. Desde a noite em que fui rejeitada, até a noite em que fui aceita diante de todos, eu entendi que nada na vida acontece por acaso. As cicatrizes que um dia queimaram meu peito hoje são as linhas que desenham meu destino.Depois da guerra, depois da dor e da vitória, a alcateia Greene não era mais a mesma. Nem eu. Nem Ayres. Nem o mundo ao nosso redor.O clã Lunar, antes escondido entre sombras e lendas, desceu das montanhas para selar uma aliança com nossa alcateia. Homens e mulheres de túnicas prateadas caminharam lado a lado com guerreiros de pele marcada pelo tempo, e nenhum dos dois lados olhou o outro como inimigo. A líder deles, Maelin, ergueu sua mão e proclamou diante de todos:— A Escolhida da Lua é uma só, e ela está aqui. Onde ela pisa, nós pisamos. Onde ela luta, nós lutamos.A matilha inteira uivou em resposta. Naquele momento, eu não era apenas a companheira do Alfa. Eu era ponte. Eu era caminho. Eu er
AyresA manhã encontrou a cabana ainda com cheiro de lenha fria e pele aquecida. A luz entrou pelas frestas como pequenos rios dourados, atravessando o tecido leve da cortina, pousando no rosto de Sam. Ela dormia no meu peito, a respiração calma, o traço de um sorriso no canto dos lábios, como se conversasse com a Lua em segredo. Passei a mão com cuidado por seus cabelos e, por um instante, deixei que a memória me esmagasse: o menino, o estampido, a queda da minha mãe. Depois, trouxe de volta o homem que acordava ali, inteiro, pertencente, escolhido também.Se eu tivesse mantido o orgulho, o que sobraria? Uma casa silenciosa e um comando vazio. Um Alfa forte por fora, oco por dentro. Foi preciso ajoelhar para ficar de pé. A força que eu gastava para negar o óbvio hoje serve para sustentar o que me sustenta: ela.Sam abriu os olhos devagar, lindo sereno atravessado por brilho travesso.— Bom dia, meu Alfa. — disse, a voz rouca de sono.— Bom dia, minha Luna. — respondi, encostando a b
SamanthaA noite de lua cheia se abriu sobre nós como um véu prateado. O templo lunar estava lotado, mas o silêncio era tão profundo que eu podia ouvir a batida do meu próprio coração. Ayres estava ao meu lado, imponente, mas vulnerável, e por isso mais belo do que nunca.A Mestra do Ritual nos chamou para o círculo central. A matilha nos observava com olhos cheios de expectativa. Alguns choravam, outros apenas seguravam a respiração.— A Lua chama seus escolhidos. — a Mestra anunciou — Hoje, não há Alfa e Luna separados. Hoje, há união.Ayres estendeu a mão para mim. Por um instante, vi o homem que me rejeitou, o medo em seus olhos, o peso do trauma que ele carregou desde menino. Mas, quando toquei seus dedos, tudo se dissolveu. Ele era só meu. E eu, dele.A luz da Lua desceu sobre nós. As marcas prateadas na minha pele brilharam e se estenderam até encontrarem o peito de Ayres, como se fossem rios de luz conectando nossos corpos. Fenrir e Arwen uivaram ao mesmo tempo, e o som ecoou
AyresO templo lunar da nossa matilha nunca me pareceu tão imponente. As paredes de pedra bruta refletiam o luar que entrava pelas aberturas no teto, derramando clarões prateados que dançavam pelo chão. Eu caminhava um passo atrás de Samantha, observando-a como se fosse a primeira vez. Cada olhar dirigido a ela tinha peso, respeito, temor, fascínio. Mas nenhum desses sentimentos se comparava ao que queimava dentro de mim: rendição.Os anciãos a posicionaram no centro do círculo, enquanto a matilha se reunia em silêncio absoluto. A fumaça das ervas queimadas subia e se misturava à luz da Lua. Samantha manteve a cabeça erguida, as mãos firmes ao lado do corpo, o olhar sereno. A força dela não era exibida, era natural, como a respiração.Quando a voz da Mestra do Ritual ecoou, a sala pareceu se contrair:— A Deusa da Lua chama sua escolhida. Se for de Sua vontade, que as marcas se revelem.No instante seguinte, o milagre aconteceu. Na pele de Samantha, símbolos prateados começaram a br
Samantha Levei Ayres até um banco largo, perto da forja apagada. Sentei-o aos poucos, cuidando para não tensionar o lado ferido. Ele obedeceu sem discussão, o que, confessei, me deu uma paz secreta.— Vai ficar uma marca. — comentei, observando o selo de luz que ainda vibrava sob a pele.— Quero que fique. — ele disse, sem hesitar — Para lembrar do que não volto a fazer.— E do que voltamos a ser. — acrescentei.Ele segurou minha mão de novo, mas agora não era ancoragem, era afeto quieto. O pátio nos rodeava sem nos invadir, como se soubesse que aquele banco, naquele minuto, era nosso altar.— Tem algo que eu não disse do jeito certo. — Ayres começou, o olhar procurando o meu — Sempre falei sobre destino com raiva, como se fosse uma corrente. Hoje entendo: ele só aponta. Quem anda somos nós. Se eu te aceito diante de todos, é porque decidi andar contigo, não porque a Lua me empurrou.— Eu sei. — respondi, sentindo a garganta apertar do jeito bom — E, se eu digo que escolho ser tua, é
SamanthaA madrugada cedeu lugar a um início de manhã que não tinha força para ser bonito. O campo estava gasto, brasas morrendo, cascas de munição enterradas no barro, passos arrastados de quem voltou. A vitória é um bicho silencioso depois do estalo e, ainda assim, viva. Os nossos se juntaram em torno de mim e de Ayres como quem busca calor. Vi rostos manchados de terra e sangue, vi olhos fundos e, mesmo assim, inteiros. Crianças foram trazidas para fora, agarradas às saias das mães, provando com o toque que a casa continuava de pé.Ayres permanecia ajoelhado, uma mão no chão para apoiar o corpo ferido, a outra segurando a minha, como quem se ancora no que é certo. Eu sentia sob os dedos o pulsar dele irregular, mas firme o suficiente para me manter ali. A cada respiração, ele lutava um pouco, e vencia um pouco. O corte estava selado, obra da Lua e das minhas mãos, mas o veneno rondava por dentro, como um inverno tardio tentando demorar-se. Eu fiquei. Não por pena. Por escolha. Eu







