تسجيل الدخولSamantha
As vozes ficaram atrás de mim como farpas presas na pele. Não eram gritos, eram sussurros que cortam mais fundo. — “Coitada.” — “Devia saber o seu lugar.” — “O Alfa teve coragem.” Coragem? Se aquilo era coragem, eu não queria aprender essa lição. Respirei, ergui o queixo, caminhei devagar para fora do salão, sentindo a atenção de todos pousada nos meus ombros como pedra. Cada passo tinha o peso de um veredito. O vento lá fora trouxe cheiro de resina e de noite fria. Foi o suficiente para as pernas desobedecerem. Apertei o tecido do vestido na altura do peito para manter o coração dentro, como se ele quisesse saltar, fugir de mim, esconder-se debaixo de folhas secas. Eu não ia chorar na frente deles. Não daria esse presente. Não hoje. — “Sam…” A voz veio doce e firme, do jeito que só Arwen sabe fazer. Minha loba não é tempestade, é o rio constante que cava pedra. — Não, Arwen. — minha resposta saiu áspera, sem querer — Não tenta me consolar agora. — “Eu não vou passar a mão na sua cabeça.” — Ela se aproximou por dentro como quem senta ao nosso lado sem pedir licença — “Eu vou lembrar quem você é.” — Quem eu sou? — ri sozinha, um riso sem graça que doeu — A garota rejeitada. A que o Alfa apontou na frente de todos e disse que não quer. Senti Arwen inflar o peito dentro de mim. — “Você é a filha da Lua. E você não pediu para ser escolhida por ele. Você foi apontada pela própria Deusa.” — Então por que dói tanto? — apertei as pálpebras, como quem prende um grito que não quer nascer — Eu conheci a palavra “não” desde pequena. Ouvi “não” no prato, no cobertor, no abraço. Mas o “não” dele… é como se arrancasse um pedaço. — “Não porque é o “não” dele, Sam.” — Arwen sussurrou, paciente — “Porque é o “não” diante de todos. E você sabe que essa matilha gosta de assistir quedas.” Fugi para a trilha. Não olhei para trás. As árvores ficaram altas e silenciosas, guardiãs de uma menina que, de repente, se sentia velha. Meus pés conheciam o caminho mesmo no escuro, pedras de sempre, raízes de sempre, sombras familiares. O bosque me recebeu com um abraço que não julga. — Eu não vou quebrar. — disse alto, para o tronco de um carvalho — Não agora. — “Você não precisa provar nada para eles Sam.” — Não estou provando. — encostei a testa na casca rugosa — Só estou tentando não me perder. O rosto dele voltou na minha mente sem que eu chamasse. Aqueles olhos que misturam verão e inverno, a tatuagem que parece guardar um passado que não me pertence, a respiração contida no momento em que ouviu meu nome. Eu vi medo naquele homem. E o medo dele me feriu de um jeito que nem sei dizer. — Ele falou de fraqueza. — sussurrei, e a palavra queimou a língua — Mas a fragilidade que vi estava no olho dele. — “Medo de perder.” — Arwen assentiu por dentro — “Quem ama e não se conhece vira refém do passado.” — Eu não quero ser o remédio de ninguém. — minha voz finalmente quebrou — Não nasci para consertar o que ele e o pai dele fizeram com o coração deles. As lágrimas vieram quentes, teimosas, e eu as deixei vir. Deixei que corressem sem cena, sem barulho, só o bastante para lavar um pouco da vergonha grudada no rosto. Lembrei do chalé dos órfãos, das noites de frio, do cobertor curto dividido em três, do pão de ontem, da mão de uma cuidadora tentando dar conta de sete. A vida inteira eu juntei migalhas, mas jurei que meu amor não seria migalha. E ainda assim eu estava ali, tentando remendar um vazio que nunca foi meu. Arwen roçou o focinho no meu peito de dentro para fora, como se tentasse me endireitar a coluna. — “Você está viva. Você está inteira. Eu estou com você.” Respirei fundo, inalei a noite. A Lua, tímida atrás de nuvens leves, espiava. Sentei sobre uma pedra lisa ao lado do riacho. A água corria do mesmo jeito de sempre, alheia à tragédia dos humanos. Por um segundo, invejei a indiferença. Por outro, agradeci por ela me ensinar que tudo se move, até a dor. — Eu queria entender por quê. — falei com a correnteza — Por que me chamar assim, na frente de todos, só para me dizer não? — “Porque o destino nem sempre escolhe a hora da coragem.” — Arwen pousou a cabeça no meu ombro de um jeito que só eu sentia — “Às vezes, ele j**a a luz e deixa os homens lidarem com o clarão.” — E eu que fico cega. — esfreguei o rosto — E com vontade de sumir. — “Se quiser sumir, eu sumo com você.” Sorri por dentro, arranhado. — Não, loba. Eu não fujo da minha história. Fiquei ali tempo suficiente para meus dedos perderem a cor. O frio entrou nas pernas, os pés doíam dentro do sapato. Quando levantei, minhas costas estalaram e, por um instante, achei que o mundo tinha mudado de eixo, não mudou. Mudei eu. Um pouco. O suficiente para dar dois passos sem tombar. Segui mais para dentro da mata, até a clareira onde as ervas crescem sem pedir permissão. Ali, sempre que eu precisava de coragem, eu ajoelhava. Fiz isso agora. O chão úmido aceitou meu peso como quem diz “fica”. A Lua resolveu sair do esconderijo e derramou um brilho pálido sobre a grama. As lágrimas voltaram, não as de vexame, mas as de quem sabe que o corpo precisa esvaziar para caber de novo. — Eu ouvi você em todos os meus sonhos. — falei para o céu — Se me escolheu, então me mostra o que fazer com esse resto de mim. O ar ficou parado. O bosque prendeu a atenção. Eu também. — “Sam…” — Arwen chamou, meia cautela, meia carinho. — Tô aqui. — sussurrei, sem abrir os olhos — Tô aqui. E esperei. No começo, achei que era só tontura. A luz ficou mais branca e meu corpo, mais leve, como se a gravidade tivesse desaprendido meu nome. Depois, o brilho cresceu, tomou meus braços, minhas mãos, meu rosto. A roupa ficou prateada, minha pele, também. A clareira inteira respirou comigo. Meu coração, que minutos antes parecia um bicho ferido, se aquietou. Não de paz fácil, mas de foco. — O que está acontecendo? — minha voz saiu baixa, como se eu temesse acordar alguém. — “Não tenha medo.” — Arwen avançou um passo dentro de mim, os olhos âmbar alargando-se, curiosidade e respeito — “Ela está aí.” — Ela… quem? A resposta veio como uma canção que eu já tinha ouvido dormindo e agora reconhecia desperta.SamanthaA Lua estava cheia, testemunha paciente de tudo que vivemos. Desde a noite em que fui rejeitada, até a noite em que fui aceita diante de todos, eu entendi que nada na vida acontece por acaso. As cicatrizes que um dia queimaram meu peito hoje são as linhas que desenham meu destino.Depois da guerra, depois da dor e da vitória, a alcateia Greene não era mais a mesma. Nem eu. Nem Ayres. Nem o mundo ao nosso redor.O clã Lunar, antes escondido entre sombras e lendas, desceu das montanhas para selar uma aliança com nossa alcateia. Homens e mulheres de túnicas prateadas caminharam lado a lado com guerreiros de pele marcada pelo tempo, e nenhum dos dois lados olhou o outro como inimigo. A líder deles, Maelin, ergueu sua mão e proclamou diante de todos:— A Escolhida da Lua é uma só, e ela está aqui. Onde ela pisa, nós pisamos. Onde ela luta, nós lutamos.A matilha inteira uivou em resposta. Naquele momento, eu não era apenas a companheira do Alfa. Eu era ponte. Eu era caminho. Eu er
AyresA manhã encontrou a cabana ainda com cheiro de lenha fria e pele aquecida. A luz entrou pelas frestas como pequenos rios dourados, atravessando o tecido leve da cortina, pousando no rosto de Sam. Ela dormia no meu peito, a respiração calma, o traço de um sorriso no canto dos lábios, como se conversasse com a Lua em segredo. Passei a mão com cuidado por seus cabelos e, por um instante, deixei que a memória me esmagasse: o menino, o estampido, a queda da minha mãe. Depois, trouxe de volta o homem que acordava ali, inteiro, pertencente, escolhido também.Se eu tivesse mantido o orgulho, o que sobraria? Uma casa silenciosa e um comando vazio. Um Alfa forte por fora, oco por dentro. Foi preciso ajoelhar para ficar de pé. A força que eu gastava para negar o óbvio hoje serve para sustentar o que me sustenta: ela.Sam abriu os olhos devagar, lindo sereno atravessado por brilho travesso.— Bom dia, meu Alfa. — disse, a voz rouca de sono.— Bom dia, minha Luna. — respondi, encostando a b
SamanthaA noite de lua cheia se abriu sobre nós como um véu prateado. O templo lunar estava lotado, mas o silêncio era tão profundo que eu podia ouvir a batida do meu próprio coração. Ayres estava ao meu lado, imponente, mas vulnerável, e por isso mais belo do que nunca.A Mestra do Ritual nos chamou para o círculo central. A matilha nos observava com olhos cheios de expectativa. Alguns choravam, outros apenas seguravam a respiração.— A Lua chama seus escolhidos. — a Mestra anunciou — Hoje, não há Alfa e Luna separados. Hoje, há união.Ayres estendeu a mão para mim. Por um instante, vi o homem que me rejeitou, o medo em seus olhos, o peso do trauma que ele carregou desde menino. Mas, quando toquei seus dedos, tudo se dissolveu. Ele era só meu. E eu, dele.A luz da Lua desceu sobre nós. As marcas prateadas na minha pele brilharam e se estenderam até encontrarem o peito de Ayres, como se fossem rios de luz conectando nossos corpos. Fenrir e Arwen uivaram ao mesmo tempo, e o som ecoou
AyresO templo lunar da nossa matilha nunca me pareceu tão imponente. As paredes de pedra bruta refletiam o luar que entrava pelas aberturas no teto, derramando clarões prateados que dançavam pelo chão. Eu caminhava um passo atrás de Samantha, observando-a como se fosse a primeira vez. Cada olhar dirigido a ela tinha peso, respeito, temor, fascínio. Mas nenhum desses sentimentos se comparava ao que queimava dentro de mim: rendição.Os anciãos a posicionaram no centro do círculo, enquanto a matilha se reunia em silêncio absoluto. A fumaça das ervas queimadas subia e se misturava à luz da Lua. Samantha manteve a cabeça erguida, as mãos firmes ao lado do corpo, o olhar sereno. A força dela não era exibida, era natural, como a respiração.Quando a voz da Mestra do Ritual ecoou, a sala pareceu se contrair:— A Deusa da Lua chama sua escolhida. Se for de Sua vontade, que as marcas se revelem.No instante seguinte, o milagre aconteceu. Na pele de Samantha, símbolos prateados começaram a br
Samantha Levei Ayres até um banco largo, perto da forja apagada. Sentei-o aos poucos, cuidando para não tensionar o lado ferido. Ele obedeceu sem discussão, o que, confessei, me deu uma paz secreta.— Vai ficar uma marca. — comentei, observando o selo de luz que ainda vibrava sob a pele.— Quero que fique. — ele disse, sem hesitar — Para lembrar do que não volto a fazer.— E do que voltamos a ser. — acrescentei.Ele segurou minha mão de novo, mas agora não era ancoragem, era afeto quieto. O pátio nos rodeava sem nos invadir, como se soubesse que aquele banco, naquele minuto, era nosso altar.— Tem algo que eu não disse do jeito certo. — Ayres começou, o olhar procurando o meu — Sempre falei sobre destino com raiva, como se fosse uma corrente. Hoje entendo: ele só aponta. Quem anda somos nós. Se eu te aceito diante de todos, é porque decidi andar contigo, não porque a Lua me empurrou.— Eu sei. — respondi, sentindo a garganta apertar do jeito bom — E, se eu digo que escolho ser tua, é
SamanthaA madrugada cedeu lugar a um início de manhã que não tinha força para ser bonito. O campo estava gasto, brasas morrendo, cascas de munição enterradas no barro, passos arrastados de quem voltou. A vitória é um bicho silencioso depois do estalo e, ainda assim, viva. Os nossos se juntaram em torno de mim e de Ayres como quem busca calor. Vi rostos manchados de terra e sangue, vi olhos fundos e, mesmo assim, inteiros. Crianças foram trazidas para fora, agarradas às saias das mães, provando com o toque que a casa continuava de pé.Ayres permanecia ajoelhado, uma mão no chão para apoiar o corpo ferido, a outra segurando a minha, como quem se ancora no que é certo. Eu sentia sob os dedos o pulsar dele irregular, mas firme o suficiente para me manter ali. A cada respiração, ele lutava um pouco, e vencia um pouco. O corte estava selado, obra da Lua e das minhas mãos, mas o veneno rondava por dentro, como um inverno tardio tentando demorar-se. Eu fiquei. Não por pena. Por escolha. Eu







