FAZER LOGINEla passou dez anos tentando esquecer o homem que a destruiu. Ele passou dez anos tentando esquecer a mulher que nunca conseguiu deixar de amar. Lyra aprendeu cedo que algumas feridas não sangram. Algumas apenas permanecem abertas, escondidas sob a pele, esperando o momento certo para lembrar que ainda existem. Dez anos atrás, ela era apenas uma garota. A garota que amava Kael Draven. A garota que acreditava que o vínculo entre suas almas era eterno. Até ser rejeitada, humilhada e expulsa da única casa que conhecia. Naquela noite, Lyra perdeu tudo. Seu lar. Seu nome. Seu amor. E quase perdeu a si mesma. Mas a garota que partiu não existe mais. Nas sombras de Arcádia Noir, Lyra foi treinada para sobreviver. Aprendeu a mentir sem piscar, a matar sem hesitar e a transformar a própria dor em uma arma. Agora ela retorna à Vargem Neegra por uma única razão: vingança! Vingar-se do homem que destruiu seu passado. Ele achou que ela estava morta. Ela jurou que ele a tinha destruído. Os dois estavam errados e quando a Lua finalmente revelar o que foi enterrado... alguns nomes serão lembrados. Outros serão apagados para sempre. E um deles pode ser o nome daquele que Lyra terá que matar. Dez anos atrás, ela foi rejeitada. Hoje, voltou para matá-lo. O problema é que o vínculo entre eles nunca morreu. Nem todo inimigo nasce para ser odiado. Alguns nascem para ser lembrados.
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A Floresta de Vargem Negra não guardava segredos; ela os devorava sob o manto gelado da meia-noite. A névoa espessa e leitosa rastejava pelo solo negro como os dedos esqueléticos de um fantasma ancestral, congelando a umidade nas folhas retorcidas dos carvalhos milenares. A cada passo calculado que eu dava sobre o musgo, sentia o peso sufocante de cruzar a fronteira proibida da Matilha Valkares. Na hierarquia implacável das alcateias, uma intrusa sem o cheiro do bando era considerada caça viva, destinada a ser estraçalhada nas presas dos lobos de patrulha antes que pudesse sequer pronunciar uma súplica. Contudo, eu não era uma humana indefesa. Sob a minha capa de veludo negro, ajustada ao corpo para garantir agilidade mortal, meus dedos enluvados seguravam com firmeza o cabo esculpido em osso de uma adaga de prata pura. Eu havia sido forjada na dor e no silêncio pelo Clã Noctharys, transformada na espiã mais letal da fortaleza sombria de Arcádia Noir. Minha missão naquela noite de lua cheia parecia simples nos mapas de guerra: infiltrar-me no coração do território inimigo, mapear as rotas de caça do novo Alfa Supremo e encontrar a fraqueza que colocaria a Matilha Valkares de joelhos perante os nossos líderes. Mas havia algo em Vargem Negra que nenhum treinamento em Arcádia Noir foi capaz de prever. Conforme eu me aprofundava no escuro, o ar ao meu redor tornou-se subitamente leve e vibrante, como se a própria atmosfera tivesse sido eletrificada por uma tempestade ameaçadora. Um perfume avassalador, intenso e carnal invadiu minhas narinas, notas amadeiradas de pinho selvagem, terra úmida pós-chuva de granizo, couro aquecido e a masculinidade bruta e indomável de um predador de sangue puro. No mesmo instante, uma pontada aguda e ardente queimou bem no centro do meu peito, logo abaixo da clavícula, como se um ferro em brasa estivesse gravando uma marca invisível em minha carne. Meu coração saltou na garganta, batendo em um ritmo frenético e irregular que não vinha do medo, mas de uma pulsação primordial que ressoava até a última gota do meu sangue. — Mate bond... — o sussurro escapou dos meus lábios trêmulos como um lamento assustado. Eu conhecia as lendas sobre o Laço de Companheiros Destinados pela Deusa da Lua. Dizia-se que quando dois seres predestinados se aproximavam, seus lobos interiores uivavam em adoração e a atração física superava qualquer barreira de ódio ou sanidade. Mas eu sempre fui ensinada de que era sem loba, uma rejeitada sem cheiro cujo passado foi consumido pelo fogo. Como era possível que meu corpo estivesse queimando com a dor e a glória do vínculo sagrado? O estalar seco de um galho quebrado na escuridão atrás de mim, fez todos os meus instintos de sobrevivência gritarem. Girei sobre os calcanhares em uma fração de segundo, desembainhando a adaga de prata e assumindo uma postura de combate letal. O metal sagrado brilhou com um reflexo prateado sob a luz prateada da lua cheia, que surgia entre as nuvens pesadas. Das sombras profundas do nevoeiro, uma figura imensa emergiu com a graça silenciosa e letal de uma divindade da guerra. Kael Draven. O temido Alfa de Ferro de Vargem Negra. Ele tinha mais de um metro e noventa de estatura, ombros largos e uma presença esmagadora que parecia roubar todo o oxigênio ao redor. Sua camisa de couro escuro estava entreaberta na altura do peito, expondo músculos rígidos esculpidos por batalhas e marcas profundas de cicatrizes de garras. Mas foram seus olhos que me paralisaram por completo: duas esferas douradas e brilhantes de pura fúria selvagem que cintilavam no breu como brasas vivas. Ele não trazia nenhuma arma nas mãos calejadas. Ele não precisava. Suas garras retráteis e a força sobrenatural de sua linhagem ancestral, eram suficientes para partir um homem ao meio. Kael caminhou lentamente na minha direção, sem pressa, sabendo que eu não tinha para onde fugir. A cada passo pesado que ele dava, a queimação em meu peito intensificava-se ao ponto de me tirar o fôlego. Eu conseguia ver as narinas dele se dilatando enquanto ele farejava o ar noturno, capturando o meu perfume de jasmim e sangue com uma intensidade que fez os pelos de sua nuca se arrepiarem. Seus lábios bem desenhados se curvaram em uma expressão perigosa, uma mistura esmagadora de ódio territorial, espanto e uma fome erótica e insaciável que ameaçava me devorar inteira. — Uma espiã de Arcádia Noir armada com prata no meu santuário... — a voz dele soou grave, rouca e suave, ressoando como um trovão distante, que fez o chão vibrar sob minhas botas. — Você deveria estar morta antes de dar o terceiro passo nesta floresta, garota. Tentei manter a mão firme, apontando a ponta afiada da lâmina diretamente contra o pomo de adão do Alfa. — Dê mais um passo, Kael Draven, e eu garanto que seu sangue de monstro banhará este musgo antes mesmo que sua matilha alcance meus passos. Em vez de recuar, Kael soltou uma risada sombria e rouca, que enviou uma onda de calor líquido direto para o centro do meu ventre. Ele deu mais dois passos largos, encurtando a distância entre nós, até que a ponta da adaga tocasse a pele nua de seu peito, logo acima de uma cicatriz antiga. Ele não se importou com a dor do metal. Em vez disso, deu mais um passo à frente, forçando a lâmina a arranhar sua pele, fazendo com que uma única gota escarlate de sangue escorresse por seu músculo rígido. Ele se inclinou sobre mim, sua sombra engolindo meu corpo por completo. O calor que emanava de seu corpo musculoso, era como uma fornalha ardente contrastando com a noite congelante. Eu podia sentir sua respiração quente batendo contra a curva do meu pescoço, acelerando minhas pulsações até o delírio. Seus olhos dourados cravaram-se nos meus com uma ferocidade possessiva tão devastadora que minhas pernas tremeram. Ele levou a mão áspera ao meu rosto, roçando os lábios na minha têmpora enquanto sussurrava: — Você tem a coragem de me ameaçar com prata... mas não consegue esconder que o seu sangue acabou de reconhecer o seu Alfa.🌹 Lyra VossA melodia fluiu da minha garganta como um fio de seda dourada cortando a escuridão sufocante do quarto.Era uma canção de ninar antiga, um acalanto proibido que os anciãos do Clã Noctharys sussurravam apenas nas noites mais escuras, um segredo de sangue projetado para acalmar a tempestade nas veias dos lobos mais destrutivos.Quando a primeira nota vibrou contra a pele do pescoço de Kael, senti o corpo dele enrijecer.Suas garras, que antes pressionavam meus ombros com uma força quase capaz de estraçalhar meus ossos, hesitaram.O hálito quente dele, carregado de fumaça, pinho selvagem e terra molhada, bateu contra a minha clavícula exposta, fazendo cada milímetro da minha pele arrepiar-se em uma resposta elétrica e inevitável.Eu não queria ceder.O meu lado racional, moldado sob anos de treinamento impiedoso como espiã dos Noctharys, gritava para que eu usasse aquela distração para cravar a adaga de prata diretamente sob sua costela.Mas o meu lobo interior, aquela parte
🐺 Kael DravenO veneno corre pelas minhas veias como fogo líquido, uma enxurrada escaldante que consome cada resquício de racionalidade que ainda tento manter.Sinto meus ossos se expandirem e se romperem sob a pele, um processo de transformação forçado e violento, que meu lobo interior responde com um uivo de pura agonia e fúria.Meus olhos devem estar brilhando naquele tom dourado e doentio, o reflexo da maldição que minha própria mãe arquitetou contra mim.E ali, no centro do meu tormento, está ela.Lyra.Minha companheira destinada, a mulher que o destino me deu e que as mentiras do meu próprio sangue me fizeram rejeitar no passado.O perfume dela invade meus sentidos de forma embriagante, uma mistura fascinante de jasmim selvagem, terra molhada após a chuva de verão, e o aroma metálico, proibido e doce do sangue lunar, que ainda mancha meus lábios.Cada batida do meu coração acelerado clama pelo toque dela, enquanto a besta dentro de mim exige que eu a reivindique, que rasgue su
🌹 Lyra VossO impacto de suas presas rasgando a minha carne não foi apenas dor; foi uma profanação sagrada.No milésimo de segundo em que o aço marfim dos dentes de Kael perfurou a minha pele, o mundo ao nosso redor silenciou.O vento que uivava entre as frestas de pedra da fortaleza sombria pareceu congelar, e o próprio tempo se dobrou sob o peso do nosso destino.Uma descarga elétrica, de um azul-escuro quase negro entrelaçado com filamentos de um dourado incandescente, explodiu do ponto de contato.Senti cada terminação nervosa do meu corpo incendiar-se, como se o sangue que corria em minhas veias estivesse sendo substituído por fogo líquido e prata derretida.O laço de companheiros, aquela corda espiritual que Kael tentava ignorar e que eu tentava enterrar sob camadas de ódio e segredos, esticou-se até o limite, vibrando com uma nota aguda que ecoou diretamente na minha alma.Minha loba interior, que passou anos em um sono de pura agonia e autopreservação, ergueu a cabeça e uivou
🐺 Kael DravenO tempo congelou no exato milésimo de segundo em que a lâmina de prata dos Noctharys reluziu sob o luar pálido, apontada diretamente contra o peito de Lyra.Eu, o Alfa Supremo de Ferro, aquele que governava a Matilha Valkares com punho de aço e que nunca havia dobrado os joelhos diante de nenhum inimigo, senti minhas forças se esvaírem como areia entre os dedos.A visão de minha companheira destinada, a mulher cuja alma estava ligada à minha pelo tecido invisível do destino, prestes a tirar a própria vida para me salvar de uma maldição, rasgou meu peito de uma forma que nenhuma garra ou adaga jamais conseguiria.O vento zunia através das frestas de pedra da fortaleza, trazendo o cheiro gelado da tempestade que se formava lá fora.Mas, para mim, o mundo havia se reduzido ao perfume dela.Aquele aroma fascinante de jasmim selvagem e chuva de verão, agora perigosamente misturado com o odor metálico e quente do sangue lunar que brotava da cicatriz em seu pescoço.O sangue n












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