INICIAR SESIÓN
O cheiro de lírios brancos e cera de abelha derretida deveria ser o aroma da minha felicidade. Durante meses, fechei os olhos para os cochichos, ignorei os avisos sutis da minha intuição e acreditei cegamente na promessa que fiz a mim mesma: eu seria a Luna da Alcateia da Lua Prateada ao lado de Caleb Blackwood.
Enquanto ajustava o tecido pesado do meu vestido de noiva diante do espelho, minhas mãos tremiam levemente. Não era um tremor de frio, mas de pura ansiedade e expectativa. Caleb era tudo o que me restava após a perda dos meus pais. Forte, imponente, com seus quase dois metros de altura e olhos cinzentos que pareciam perfurar a alma de qualquer um, ele comandava a alcateia com severidade. E eu o amava. Pelo menos, amava a versão dele que ele me permitia ver nos momentos em que ficávamos a sós. — Você está deslumbrante, Valerie. — A voz doce de Chloe soou logo atrás de mim, ecoando pelo quarto com uma suavidade que beirava o sussurro. Me virei e sorri para ela. Chloe era minha melhor amiga desde a infância. Cabelos loiros perfeitamente alinhados, olhos azuis que pareciam transbordar inocência e um cuidado constante comigo. Ela segurava o meu buquê com ambas as mãos, os nós dos dedos levemente brancos de tanta força que fazia. Naquele momento, achei que fosse apenas o nervosismo por estar me ajudando no dia mais importante da minha vida. — Obrigada, Chloe. Eu não sei o que faria sem você aqui comigo — falei, segurando as mãos dela por um instante. A pele dela estava fria, mas não dei importância. — Você nunca está sozinha, amiga. Nunca — ela respondeu com um sorriso enigmático que passou rápido demais para que eu pudesse decifrar. As batidas graves dos tambores cerimoniais começaram a ecoar do lado de fora da grande tenda sagrada, marcando o início da nossa união perante os ancestrais. O som reverberava no meu peito, misturando-se às batidas aceleradas do meu próprio coração. O trajeto até o altar foi um borrão de cores, olhares curiosos e murmúrios abafados dos membros da alcateia que lotavam o espaço. Cada passo parecia pesado, como se o chão estivesse me puxando para baixo. Mas eu segui em frente, de cabeça erguida, focando apenas na figura imponente de Caleb que me aguardava no topo da plataforma de pedra calcária. Ele vestia trajes de cerimônia escuros, com detalhes em couro que contornavam seus ombros largos e peito musculoso. Suas cicatrizes de batalhas antigas davam a ele um ar selvagem e dominante. Quando meus olhos encontraram os dele, esperei ver o brilho de posse e carinho que conhecia tão bem. Em vez disso, encontrei uma muralha de gelo. Havia algo rígido, quase impaciente, na forma como ele me encarava. Subi os últimos degraus de pedra, sentindo o tecido do vestido deslizar suavemente. Parei bem diante dele. O calor do corpo de Caleb exalava aquele cheiro inconfundível de pinho e terra molhada que sempre me acalmava. O Ancião da alcateia, um senhor de barbas longas e rugas profundas, ergueu o livro sagrado de couro envelhecido entre nós. O silêncio caiu sobre a multidão reunida. Até o vento pareceu prender a respiração. — Estamos aqui reunidos para unir sob a luz da lua o Alfa Caleb Blackwood e Valerie Sanchez... — a voz rouca do Ancião ecoou pelas paredes de pedra. — Há algo que impeça esta sagrada união perante os deuses e a alcateia? Minhas entranhas se contraíram em um frio repentino. Não por medo de uma objeção, mas por uma intuição súbita, um aperto sufocante na boca do estômago que apareceu do nada. Olhei para Caleb de relance. Os maxilares dele estavam trancados com tanta força que os músculos saltavam na lateral do rosto. — Há — a voz de Caleb cortou o ar como uma lâmina enferrujada. O som daquela palavra chocou o silêncio absoluto. Virei meu rosto bruscamente para ele, o fôlego travando na minha garganta. O Ancião franziu o cenho, abaixando o livro lentamente. — O que disse, meu Alfa? — perguntou o ancião, confuso. Caleb deu um passo à frente, quebrando a distância ritualística que nos separava. Ele não olhava para mim com tristeza ou hesitação; havia um desprezo gélido em seu olhar que eu nunca tinha visto antes. — Eu disse que há um impedimento. — A voz dele reverberou, alta o suficiente para que todos os centenas de lobos presentes ouvissem perfeitamente. — Eu não posso me unir a Valerie. Um murmúrio escandalizado explodiu entre os convidados. Minha visão embaçou por um segundo. Senti o sangue sumir do meu rosto, deixando minha pele completamente gelada. — Caleb... O que você está dizendo? É brincadeira, não é? — Sussurrei, dando um passo trêmulo em sua direção, tentando manter um pingo de dignidade diante de toda aquela gente. — A cerimônia... Os preparativos... — Não há brincadeira nenhuma, Valerie — Caleb rosnou, a voz grossa carregada de uma repulsa que rasgou o meu peito como garras de aço. — Eu fui cego por tempo demais. Acha mesmo que eu, o Alfa desta alcateia, tomaria como Luna uma mulher fraca, sem sangue puro de linhagem de comando, uma loba que mal consegue liderar a própria vida? As palavras caíram sobre mim como pedras gigantescas. Cada sílaba era um golpe físico. Senti o ar faltar nos meus pulmões. Minhas pernas fraquejaram, mas fiquei firme na marra, o choque paralisando cada músculo do meu corpo. — Você está bêbado? Está louco? — Minha voz saiu falhada, um fio de ar arranhando minha garganta. — Nós passamos anos... Você disse que me amava! — Eu disse o que era necessário para manter a paz na alcateia até encontrar alguém digna de ficar ao meu lado no trono — ele cravou as palavras com crueldade, sem um pingo de remorso. Antes que eu pudesse processar a enormidade daquela traição, um movimento na lateral do altar chamou minha atenção. Chloe emergiu de entre os convidados que abriam espaço. Ela não usava mais o vestido simples de madrinha. Em suas mãos, ela trazia uma estola de pele que pertencia ao alto escalão da alcateia, e em seus lábios havia um sorriso que não era de tristeza, mas de triunfo puro e descarado. Ela caminhou com passos firmes até parar ao lado de Caleb. Caleb virou-se para ela, e a expressão de pedra em seu rosto se desfez em algo que ele nunca demonstrou comigo: um sorriso cúmplice, possessivo e apaixonado. Ele envolveu a cintura de Chloe com o braço, puxando-a contra o seu corpo diante de todos. O meu mundo parou de girar. — É a Chloe... — sussurrei, sentindo o gosto de sangue na minha boca de tanto morder os lábios para não desabar. Olhei para a minha melhor amiga, a pessoa que eu acolhi, a quem contei meus medos mais profundos. — Desde quando? Chloe ergueu o queixo, os olhos azuis brilhando com uma maldade fria que me deu ânsia de vômito. — Desde sempre, Valerie — respondeu Chloe, com aquela voz mansa que agora soava como o veneno mais puro. — Você realmente achou que o Caleb olharia duas vezes para alguém como você se eu não estivesse puxando os pauzinhos nos bastidores? Nós usamos você para manter as aparências enquanto o território principal se estabilizava. Obrigada por facilitar tanto as coisas. As risadas começaram a surgir na multidão. Primeiro abafadas, depois mais altas, transformando-se em gargalhadas abertas e cruéis. Eram membros da minha própria alcateia, pessoas que sorriam para mim todos os dias, apontando o dedo, zombando da minha desgraça, divertindo-se com a minha humilhação pública. — Perante os espíritos ancestrais e os membros da Lua Prateada... — a voz de Caleb cortou as risadas, alta, imponente e definitiva, direcionada para o Ancião atônito. — Eu rejeito Valerie Sanchez. Eu a rejeito como minha companheira, como minha Luna e como parte da minha Matilha. A maldição da rejeição bateu no meu peito como um raio invisível. A dor foi lancinante, um fogo químico que queimou a marca invisível que nos ligava, rasgando minha pele por dentro e arrancando um grito abafado da minha garganta. Senti minhas forças despencarem. O chão de pedra parecia girar de cabeça para baixo. Caleb nem sequer olhou para trás enquanto erguia Chloe pela cintura, coroando o momento com um beijo cínico diante de todos, enquanto as risadas e os uivos de escárnio da alcateia ecoavam como uma sentença de morte na minha cabeça. Com o peito sangrando, a alma despedaçada e o som da traição zumbindo em meus ouvidos, dei meus primeiros passos para trás, sabendo que a minha única opção restante era correr para longe dali antes que eles decidissem terminar o que começaram.Eu acordei com vozes. Não na minha cabeça, vozes de verdade, do lado de fora da porta do quarto dele. — Ela não pode ficar aqui, Dante — era a voz de um homem, mais velho, bravo — O conselho já está sabendo, o bando inteiro sentiu o cheiro de cio de despertar hoje de manhã, você sabe o que isso significa, se for uma loba sem marca de matilha... — Ela tem matilha — a voz do Dante cortou, baixa, mas tão fria que eu arrepiei mesmo enrolada nas peles — Ela tem a minha. Eu abri os olhos devagar, o quarto estava escuro de novo, já era fim de tarde, eu dormi o dia inteiro. Dante estava sentado na beira da cama, de costas pra mim, só de calça, sem camisa, conversando com alguém na fresta da porta entreaberta, a luz do corredor entrava e cortava as costas dele. Ele sentiu que eu acordei na hora, sem nem virar. — Já conversamos, Erik — ele disse pro homem lá fora — Ninguém encosta nela, se alguém tentar, eu arranco a garganta. Ele fechou a porta com força e trancou. Quando virou pra mim
Eu ainda estava arqueada na cama dele quando ele tirou a boca da minha marca. O quarto inteiro ficou em silêncio, só com a minha respiração descontrolada e o uivo dos lobos lá embaixo no pátio que já estava sumindo. Dante me olhava como se eu fosse a coisa mais perigosa que ele já tinha visto. — Você sentiu? — ele perguntou baixo, com a voz rouca colada na minha orelha. Eu não consegui responder, só assenti, porque se eu abrisse a boca ia sair outro gemido e eu já estava com vergonha demais. Não foi um beijo, foi só a boca dele encostando na minha marca, mas meu corpo inteiro acendeu como se ele tivesse me marcado de verdade, as minhas pernas tremeram, a camisola preta grudou nas minhas costas de suor e a luz dourada da minha nuca ficou piscando igual uma lâmpada louca. É, filhote, agora ferrou, a Elara falou dentro da minha cabeça rindo — Você está em cio, não é mais febre de despertar, é cio de verdade e é por causa dele, o lobo dele chamou e o seu respondeu. — Cio? — eu suss
Eu acordei quente. Não febril. Quente. O tipo de quente que vem de dentro, baixo, na barriga, e que não tem nada a ver com a febre dourada. Era o peso de um braço enorme e pesado em volta da minha cintura, me prendendo contra um peito que já não estava mais gelado. Estava morno. Quente como o meu. A cama do Dante ainda cheirava a tempestade, mas agora cheirava a mim também. A ouro queimado e a erva-mãe. Eu tentei me mexer e senti. A toalha tinha sumido em algum momento da madrugada. Eu estava só com a camisola preta seca que a Leonor tinha deixado, fina demais, levantada até o meio da coxa. E atrás de mim, colado em mim, o Dante dormia de verdade. Pela primeira vez desde que eu cheguei aqui. A respiração dele estava funda, lenta, batendo na minha marca. Os braços dele, que ontem estavam travados me segurando com autocontrole, agora estavam relaxados, possessivos, uma mão espalmada na minha barriga por baixo da camisola, a outra enfiada no meu cabelo. As runas dele não estavam ma
O quarto dele não cheirava a pinho queimado. Cheirava a tempestade. A pedra fria molhada de chuva, e a lenha molhada. Um cheiro tão dele que, quando ele me colocou na cama enorme, a febre que tinha dado uma trégua no banho ameaçou voltar só pelo cheiro. Ele ainda estava sem camisa. Molhado da cintura pra baixo, com as calças pretas encharcadas grudadas no corpo, as runas douradas ainda acesas fracas no peito, e nos ombros. Ele tinha me enrolado numa toalha, mas não tinha se secado. A Leonor entrou logo depois, com uma bacia de água com mais ervas e uma camisola seca preta, simples, de algodão. Ela não olhou pro peitoral dele. Nem pra mim dentro da toalha. Bruxa velha, sabia de tudo. — A febre vai voltar em ondas — ela disse, enquanto torcia um pano na água verde e colocava na minha testa — O banho puxou o grosso, mas o despertar não termina até o sol nascer. Se ela dormir sozinha, o fogo volta e ela pode convulsionar. O corpo dela ainda não aprendeu a guardar o fogo sozinho.
A água já tinha esfriado. Não porque o fogo tinha acabado, mas porque o fogo tinha encontrado onde ficar. Eu ainda estava sentada entre as pernas dele dentro do tonel, com as costas coladas no peito dele, a camisola branca totalmente transparente de tão molhada, colada no meu corpo como uma segunda pele. Eu deveria estar com vergonha. Qualquer outra mulher do bando teria se coberto, teria gritado, teria mandado o Alfa virar o rosto. Eu não consegui. Porque pela primeira vez desde que acordei com essa febre, eu não estava queimando. Eu estava morna. E o único motivo era as duas mãos grandes dele ainda segurando a minha cintura debaixo da água, e a testa dele ainda encostada na minha marca atrás da nuca. O frio dele me ancorava. — Valerie — a voz dele saiu baixa, rouca, perto da minha orelha — A água esfriou. Você vai ficar doente se ficar aqui. — Não vou — eu murmurei, com os olhos fechados, a cabeça tombada no ombro dele — Se eu sair, queima de novo. Ele ficou em silên
O colo dele era o único lugar frio no castelo inteiro. Enquanto o Dante descia a escada em espiral comigo nos braços, eu sentia o resto do mundo queimando. As paredes de pedra suavam. O ar do corredor parecia pesado de fumaça, mas não tinha fumaça nenhuma. Era a minha febre fazendo tudo distorcer. Eu estava com quarenta graus. Depois quarenta e um. Eu sentia o suor escorrer pela minha testa, pelas minhas costas, encharcando a camisola fina que a Leonor tinha me vestido enquanto eu estava apagada. — Você está queimando a minha camisa — ele murmurou, mas a voz dele não era de reclamação. Era de preocupação. Ele me apertou mais contra o peito, e onde a minha bochecha encostava no pescoço dele, a pele dele ficava gelada por dois segundos e depois voltava a ficar quente — Segura só mais um pouco. A sala é logo ali. Ele está se segurando pra não te morder, filhote. A Elara falou dentro de mim, com aquela voz rouca divertida — O l







