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Eu cumpria meus afazeres como sempre, esfregando pisos, carregando bandejas pesadas, lavando louça até os dedos sangrarem, mas Orion não apareceu, nem à noite no nosso esconderijo, era como se ele tivesse sumido do castelo. No segundo dia, procurei por ele discretamente. — Onde está Orion? — perguntei a um dos guardas. — Em reuniões importantes com o Alfa e o Conselho — respondeu ele seco. — Não pode ser incomodado. Zara, minha loba, andava inquieta dentro de mim. “Algo está errado, Jady. Muito errado. Sinto um cheiro estranho no ar.” — Cala a boca — murmurei baixinho. — Ele deve estar ocupado com política. Naquela tarde, recebi a ordem de preparar o grande salão para um “evento especial” que aconteceria em três dias. Não me deram detalhes, apenas baldes, panos e a ordem para deixar tudo impecável. Eu estava ajoelhada no chão de mármore, passando o pano pela terceira vez, quando ouvi o som de saltos altos se aproximando. Seraphine entrou no salão como se fosse dona do mundo, com um sorriso largo e quase dançante. Quatro lobas, suas eternas sombras, vinham logo atrás, rindo baixinho. Quando passou por mim, ela chutou o balde com força. A água suja se espalhou por todo o chão que eu tinha acabado de secar. — Cadela… — murmurei, abaixando-me para pegar o balde. Seraphine parou imediatamente e se virou. — O que foi que você disse, sua vadia? Tenha mais respeito com a sua futura Luna! Levantei a cabeça devagar e encarei ela. — Ah, senhorita Seraphine… Você não se cansa desse discurso prepotente? Ela me examinou por um segundo e abriu um sorriso ainda maior, cheio de veneno puro. — Ainda não soube? Vou me casar com Orion, em três dias. Eu ri, uma risada seca, incrédula. — Você é louca… Continue tentando convencer a si mesma. Seraphine ergueu a mão esquerda devagar. No dedo anelar brilhava um lindo anel de ouro branco com uma lua crescente cravejada de pedras prateadas, o anel oficial das Lunas da Casa Kingsley. O mesmo anel que eu já tinha visto na mão da mãe de Orion, o chão sumiu debaixo dos meus pés. Meu estômago embrulhou, o ar ficou preso na garganta. — Segurem ela — ordenou Seraphine. Não tive tempo de reagir. Duas lobas agarraram meus braços com força bruta, enquanto as outras duas bloqueavam qualquer tentativa de fuga. Seraphine se aproximou devagar, saboreando cada segundo. — Está vendo esse anel no meu dedo, vadia? — Ela levantou a mão bem na frente do meu rosto. — Foi Orion quem me deu, vamos nos casar em três dias… e você vai continuar sendo minha escrava, então aprenda a ter respeito. Pá! O tapa veio com as costas da mão, o anel cortou meu lábio inferior. Senti o gosto quente e metálico do sangue na boca. Tentei me soltar, mas eu ainda era fraca. Zara rosnava e tentava emergir, mas as duas lobas que me seguravam eram muito mais fortes. — Eu te disse que Órion sempre foi meu. — sibilou Seraphine, segurando meu queixo com as unhas afiadas, que furavam minha pele. — Me soltem… agora! — rosnei, cuspindo sangue. Seraphine soltou uma gargalhada alta e cruel. — Só depois que eu me divertir um pouco. — Ela olhou para as outras duas lobas. — Acabem com ela, quero ensinar essa vadia a ter respeito. Enquanto as duas continuavam me segurando, as outras começaram a me agredir. Socos no estômago, chutes nas costelas, um tapa forte no rosto que fez minha cabeça girar. Eu tentava me proteger, mas mal conseguia me mexer, caí de joelhos. Elas continuaram chutando, barriga, costas, pernas, cada golpe arrancava um gemido de dor de mim. Eu me encolhi no chão frio, tentando proteger a cabeça com os braços. A dor era lancinante, cada chute parecia quebrar algo por dentro. — Já chega — ordenou Seraphine finalmente. Ela se aproximou e pisou com o salto alto no meu ombro, pressionando com força. A dor explodiu no osso. — O seu lugar é no chão, escrava. Ela pisou ainda mais forte. Eu rosnei de dor, lágrimas de ódio escorrendo pelo rosto. — Sua sorte é que hoje estou de bom humor, senão eu adoraria assistir essas quatro lobas te espancando até a morte — disse ela, rindo alto enquanto saía do salão com suas amigas. Elas me deixaram caída no chão, machucada, sangrando pelo nariz, boca e cortes no rosto. Meu corpo inteiro latejava, mas o que mais doía não era o corpo, era dentro. Orion… o homem que jurou que eu seria sua Luna… ia se casar com ela. Em três dias. Zara uivava de dor e raiva dentro de mim.JadyYanka não me poupava mais. De manhã cedo, sob a névoa fria do pátio externo, ela me fazia repetir sequências até os músculos arderem, quedas, esquivas, golpes de mão vazia, combate corpo a corpo. Eu caía, levantava, caía de novo. O suor escorria pelo rosto e misturava com a respiração ofegante, mas eu não pedia para parar, cada hematoma era uma prova de que eu estava deixando para trás a criada frágil da Lua de Prata.— De novo — ordenava Yanka, os olhos sérios. — Você carrega o sangue Lakis. Mostre isso e eu mostrava.Depois de algumas semanas, Isaac começou a treinar comigo também. Diferente de Yanka, ele era mais técnico, mais preciso. Ensinava-me a ler o oponente, a sentir o peso do corpo antes do ataque, a usar a própria força do inimigo contra ele. Quando treinávamos, o silêncio entre nós era denso. Suas mãos me corrigiam a postura com firmeza cuidadosa. Às vezes nossos olhares se encontravam por tempo demais. Zara se agitava, inquieta, mas eu fingia não notar.Foi
JadyO tempo na Lua Negra continuava a deslizar como a névoa.As semanas se acumularam sem que eu percebesse de verdade. Raika já se sentava sozinha, balbuciava sons que eu insistia em transformar em palavras e sorria toda vez que ouvia a voz do avô. Eu a carregava menos no colo e mais no coração. A maternidade, que no começo me assustava, agora se tornava o eixo do meu dia.Yanka se tornou quase uma extensão de mim.Não era apenas minha guarda, era a pessoa com quem eu dividia silêncios confortáveis e conversas longas demais. Treinávamos juntas no pátio externo quase todas as manhãs, ela me corrigia a postura, eu a fazia rir quando errava algum movimento por causa do cansaço. Às vezes, depois do treino, sentávamos no chão frio de pedra, suadas, e falávamos sobre tudo e sobre nada, sobre a Guarda Real, sobre cicatrizes antigas, sobre o medo de falhar com quem amamos. Yanka nunca pedia detalhes sobre meu passado na Lua de Prata, mas quando eu mencionava alguma coisa, ela apenas es
Nury Eu já havia cuidado dos ferimentos do Alfa inúmeras vezes ao longo dos anos, cortes de treinamento, marcas de patrulhas, hematomas de confrontos antigos. Vernon Lakis nunca foi um homem que se poupava, mas desde a noite em que Erykhan Noctis o desafiou diante de toda a matilha, algo dentro de mim mudou. Ele não recuou, não hesitou. Mostrou, com a frieza e a força que só um verdadeiro Alfa possui, por que a Lua Negra ainda se ajoelhava diante dele e eu, que já o admirava em silêncio há décadas, me vi ainda mais rendida.Depois que limpei os ferimentos dele naquela noite, algo sutil se alterou entre nós.Nos dias seguintes, os olhares se alongaram.Quando eu entrava na sala dele para entregar relatórios ou chá, seus olhos azul-gelo demoravam um segundo a mais nos meus. A forma como ele dizia meu nome também mudou. Já não era apenas “Nury”, dito com a indiferença de quem chama uma subordinada de confiança. Agora havia uma suavidade baixa, quase íntima, que fazia meu estômago
JadyOs dias seguintes à expulsão de Erykhan Noctis foram estranhamente silenciosos.A Lua Negra parecia respirar aliviada, mas também mais atenta, os olhares de desconfiança que eu ainda sentia em alguns corredores diminuíram. Ninguém ousava questionar abertamente a decisão do meu pai, a demonstração de força dele havia sido clara: a proteção à sua filha e neta não era negociável.Raika, alheia a tudo, continuava crescendo no meu colo.Já sorria com mais frequência, seus olhinhos claros me seguiam pela suíte e, às vezes, eu jurava que ela tentava imitar os sons que eu fazia. O peso dela contra o meu peito se tornou meu lugar mais seguro. Eu a amamentava olhando a névoa pela varanda, cantarolava baixinho as canções que Nury me ensinara.Yanka, tinha se tornado presença constante, acompanhava-me nos corredores, treinava no pátio enquanto eu observava com Raika no colo, e à noite costumava ficar perto da porta do meu quarto até eu dormir, nossa conversa ia além de segurança, falávamo
JadyAs semanas se transformaram em meses.Raika crescia rápido, já sustentava melhor o pescoço, abria os olhos com mais frequência e sorria quando me reconhecia, seus cabelos escuros estavam mais densos, e às vezes eu jurava ver o mesmo brilho azul-gelo do meu pai quando a luz batia neles de certo ângulo. Eu a carregava quase o tempo todo. O peso quente dela contra o peito se tornou a coisa mais natural do mundo.Isaac se aproximava aos poucos.No começo eram apenas olhares prolongados nos corredores. Depois, ele começou a aparecer com mais frequência perto de nós, oferecia ajudar a carregar o berço quando eu mudava de aposento. Perguntava, em voz baixa, se Raika havia dormido bem. Nunca ultrapassava limites, mas sua presença se tornou constante. Seus olhos escuros me seguiam com uma intensidade quieta que eu fingia não notar… embora Zara, dentro de mim, se agitasse levemente toda vez que ele estava perto.Nury se tornou ainda mais presente.Ela não era apenas a governanta, era
JadyO final da gravidez chegou sem aviso, as dores começaram de madrugada, profundas, ritmadas, inevitáveis. Nury foi a primeira a entrar no quarto, seguida de Yanka. Logo atrás vieram as criadas que mais cuidavam de mim: Sienna, Maelis e Filipa. A curandeira da Lua Negra, uma mulher de cabelos brancos chamada Elderin, chegou pouco depois com sua bolsa de ervas e instrumentos simples. O parto seria natural, como todos os da Casa Lakis.Meu pai não saiu do meu lado.Vernon segurou minha mão durante cada contração. Eu gritava, suava, tremia, mas ele permanecia firme, a voz baixa e constante:— Estou aqui, filha. Você consegue.As horas se arrastaram, a dor era avassaladora. Yanka apertava minha outra mão. Nury enxugava meu rosto. As criadas se moviam em silêncio, trocando panos quentes, preparando água, sussurrando palavras de incentivo. E então, depois de uma última onda de dor que pareceu rasgar o mundo, Elderin anunciou com calma:— É uma menina.O choro fino e poderoso pree







