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No dia seguinte, meu corpo ainda gritava de dor, cada movimento era um tormento. As costelas latejavam onde as lobas tinham chutado, e o ombro onde Seraphine pisou com o salto ainda ardia como fogo, mas o pior não era a dor física, era ouvir pelos corredores o burburinho constante sobre o casamento. “Seraphine vai ser a nova Luna…” “Que casal perfeito…” “Finalmente uma união digna da Casa Kingsley.” Parecia um pesadelo. Aquela vadia tinha falado a verdade. E o pior de tudo: Orion estava me evitando. Eu o procurei o dia inteiro, mas ele sempre estava “em reuniões” ou “com o Conselho”. Era como se eu tivesse virado um fantasma. Quando a noite caiu, eu não aguentei mais, precisava falar com ele antes da cerimônia. Entrei pelos corredores dos fundos, usando o caminho que só nós dois conhecíamos. Meu coração batia tão forte que parecia querer sair do peito, consegui entrar no quarto dele pela varanda, pulando a sacada como já havia feito tantas vezes. Ele estava sozinho, parado no centro do quarto, vestindo a roupa cerimonial completa da Casa Kingsley, túnica prateada bordada com fios de lua, capa longa, o brasão brilhando no peito, estava lindo e parecia destruído. Parei na porta, com os olhos cheios de lágrimas. — Diz que é mentira… — sussurrei. Orion fechou os olhos com força, como se doesse olhar para mim. Eu me aproximei devagar, as pernas tremendo. — Diz que você não vai casar com ela. Silêncio. Cheguei mais perto e segurei seu rosto com as duas mãos, obrigando-o a me olhar. — Nós somos companheiros, Orion. Você prometeu. — Eu sei… — murmurou ele, a voz rouca. — Então vem comigo, vamos embora, eu não preciso desse castelo, eu só preciso de você. Por um segundo, vi algo brilhar nos olhos dele, esperança explodiu no meu peito. Ele parecia estar realmente pensando. Respirou fundo. — Eu não posso. Meu coração rachou. — Ou você não quer? — Eu sou o futuro Alfa, Jady. Minha alcateia precisa de mim. — E eu? — perguntei, a voz falhando. — Eu não preciso de você? Ele tentou me puxar para seus braços, mas eu afastei sua mão com raiva. — Jady, eu tentei… Mas preciso me casar com Seraphine. É o melhor para a alcateia. — Você é um lobo forte! Poderia lutar por mim! — gritei, sem conseguir me controlar mais. — Não diga isso! — ele rosnou, tentando manter a calma. — Estou tentando evitar uma guerra. Tenta entender… — Não! tenta me entender você! — berrei, lágrimas escorrendo pelo rosto. Orion passou a mão pelo cabelo, visivelmente lutando contra si mesmo. — Escuta… Depois do casamento, nada precisa mudar entre nós. Eu franzi a testa, confusa. — Você continuará sendo minha — completou ele. — Só até eu me tornar Alfa de verdade. Aí termino tudo com ela e fico só com você. Eu fiquei completamente imóvel, depois comecei a rir. Um riso amargo, desesperado, quebrado. — Você quer que eu veja você dormir com outra mulher… enquanto eu espero como uma amante qualquer? — Jady, é só por um tempo… — Eu preferia ter morrido antes de ouvir isso — cuspi, a voz tremendo. Ele perdeu a paciência. Seus olhos prateados brilharam com fúria. — Você está dizendo não? Eu sou o futuro Alfa da Lua de Prata! — Que se dane! Foda-se você, Orion! — gritei, virando-me para a porta. Ele rugiu, um som animalesco que fez as paredes vibrarem. — Se você sair por essa porta… não haverá mais nós. Eu parei. Virei-me lentamente e encarei ele. — Então acabe. Orion ficou em silêncio por longos segundos. Seus olhos estavam cheios de dor, culpa e conflito. Eu sabia que desafiar um futuro Alfa era perigoso, mas eu não me importava mais. Ele fechou os olhos com força, como se as palavras queimassem sua garganta. — Você jamais será minha Luna... Eu rejeito minha companheira destinada. No instante em que as palavras saíram, senti o vínculo se romper. Foi como se algo dentro de mim tivesse sido arrancado à força. Zara uivou de agonia dentro da minha alma, um lamento longo e doloroso. Minhas pernas falharam. Caí de joelhos no chão frio do quarto dele, segurando o peito como se pudesse impedir que meu coração se partisse. Orion permaneceu imóvel por um momento, olhando para mim com o rosto pálido. Depois, sem dizer mais nada, virou as costas e saiu do quarto, deixando-me sozinha no chão, abandonada, rejeitada e quebrada.JadyYanka não me poupava mais. De manhã cedo, sob a névoa fria do pátio externo, ela me fazia repetir sequências até os músculos arderem, quedas, esquivas, golpes de mão vazia, combate corpo a corpo. Eu caía, levantava, caía de novo. O suor escorria pelo rosto e misturava com a respiração ofegante, mas eu não pedia para parar, cada hematoma era uma prova de que eu estava deixando para trás a criada frágil da Lua de Prata.— De novo — ordenava Yanka, os olhos sérios. — Você carrega o sangue Lakis. Mostre isso e eu mostrava.Depois de algumas semanas, Isaac começou a treinar comigo também. Diferente de Yanka, ele era mais técnico, mais preciso. Ensinava-me a ler o oponente, a sentir o peso do corpo antes do ataque, a usar a própria força do inimigo contra ele. Quando treinávamos, o silêncio entre nós era denso. Suas mãos me corrigiam a postura com firmeza cuidadosa. Às vezes nossos olhares se encontravam por tempo demais. Zara se agitava, inquieta, mas eu fingia não notar.Foi
JadyO tempo na Lua Negra continuava a deslizar como a névoa.As semanas se acumularam sem que eu percebesse de verdade. Raika já se sentava sozinha, balbuciava sons que eu insistia em transformar em palavras e sorria toda vez que ouvia a voz do avô. Eu a carregava menos no colo e mais no coração. A maternidade, que no começo me assustava, agora se tornava o eixo do meu dia.Yanka se tornou quase uma extensão de mim.Não era apenas minha guarda, era a pessoa com quem eu dividia silêncios confortáveis e conversas longas demais. Treinávamos juntas no pátio externo quase todas as manhãs, ela me corrigia a postura, eu a fazia rir quando errava algum movimento por causa do cansaço. Às vezes, depois do treino, sentávamos no chão frio de pedra, suadas, e falávamos sobre tudo e sobre nada, sobre a Guarda Real, sobre cicatrizes antigas, sobre o medo de falhar com quem amamos. Yanka nunca pedia detalhes sobre meu passado na Lua de Prata, mas quando eu mencionava alguma coisa, ela apenas es
Nury Eu já havia cuidado dos ferimentos do Alfa inúmeras vezes ao longo dos anos, cortes de treinamento, marcas de patrulhas, hematomas de confrontos antigos. Vernon Lakis nunca foi um homem que se poupava, mas desde a noite em que Erykhan Noctis o desafiou diante de toda a matilha, algo dentro de mim mudou. Ele não recuou, não hesitou. Mostrou, com a frieza e a força que só um verdadeiro Alfa possui, por que a Lua Negra ainda se ajoelhava diante dele e eu, que já o admirava em silêncio há décadas, me vi ainda mais rendida.Depois que limpei os ferimentos dele naquela noite, algo sutil se alterou entre nós.Nos dias seguintes, os olhares se alongaram.Quando eu entrava na sala dele para entregar relatórios ou chá, seus olhos azul-gelo demoravam um segundo a mais nos meus. A forma como ele dizia meu nome também mudou. Já não era apenas “Nury”, dito com a indiferença de quem chama uma subordinada de confiança. Agora havia uma suavidade baixa, quase íntima, que fazia meu estômago
JadyOs dias seguintes à expulsão de Erykhan Noctis foram estranhamente silenciosos.A Lua Negra parecia respirar aliviada, mas também mais atenta, os olhares de desconfiança que eu ainda sentia em alguns corredores diminuíram. Ninguém ousava questionar abertamente a decisão do meu pai, a demonstração de força dele havia sido clara: a proteção à sua filha e neta não era negociável.Raika, alheia a tudo, continuava crescendo no meu colo.Já sorria com mais frequência, seus olhinhos claros me seguiam pela suíte e, às vezes, eu jurava que ela tentava imitar os sons que eu fazia. O peso dela contra o meu peito se tornou meu lugar mais seguro. Eu a amamentava olhando a névoa pela varanda, cantarolava baixinho as canções que Nury me ensinara.Yanka, tinha se tornado presença constante, acompanhava-me nos corredores, treinava no pátio enquanto eu observava com Raika no colo, e à noite costumava ficar perto da porta do meu quarto até eu dormir, nossa conversa ia além de segurança, falávamo
JadyAs semanas se transformaram em meses.Raika crescia rápido, já sustentava melhor o pescoço, abria os olhos com mais frequência e sorria quando me reconhecia, seus cabelos escuros estavam mais densos, e às vezes eu jurava ver o mesmo brilho azul-gelo do meu pai quando a luz batia neles de certo ângulo. Eu a carregava quase o tempo todo. O peso quente dela contra o peito se tornou a coisa mais natural do mundo.Isaac se aproximava aos poucos.No começo eram apenas olhares prolongados nos corredores. Depois, ele começou a aparecer com mais frequência perto de nós, oferecia ajudar a carregar o berço quando eu mudava de aposento. Perguntava, em voz baixa, se Raika havia dormido bem. Nunca ultrapassava limites, mas sua presença se tornou constante. Seus olhos escuros me seguiam com uma intensidade quieta que eu fingia não notar… embora Zara, dentro de mim, se agitasse levemente toda vez que ele estava perto.Nury se tornou ainda mais presente.Ela não era apenas a governanta, era
JadyO final da gravidez chegou sem aviso, as dores começaram de madrugada, profundas, ritmadas, inevitáveis. Nury foi a primeira a entrar no quarto, seguida de Yanka. Logo atrás vieram as criadas que mais cuidavam de mim: Sienna, Maelis e Filipa. A curandeira da Lua Negra, uma mulher de cabelos brancos chamada Elderin, chegou pouco depois com sua bolsa de ervas e instrumentos simples. O parto seria natural, como todos os da Casa Lakis.Meu pai não saiu do meu lado.Vernon segurou minha mão durante cada contração. Eu gritava, suava, tremia, mas ele permanecia firme, a voz baixa e constante:— Estou aqui, filha. Você consegue.As horas se arrastaram, a dor era avassaladora. Yanka apertava minha outra mão. Nury enxugava meu rosto. As criadas se moviam em silêncio, trocando panos quentes, preparando água, sussurrando palavras de incentivo. E então, depois de uma última onda de dor que pareceu rasgar o mundo, Elderin anunciou com calma:— É uma menina.O choro fino e poderoso pree







