LOGINO elevador privado estava silencioso.
Lena observava os números a subir. 10, 20, 30, 42. Cada andar era como uma viagem no tempo. Da morte para a vida. As portas abriram-se diretamente para o escritório de Ethan. Não havia assistentes. Era uma entrada privada que só ele utilizava. Ele estava junto à janela, de costas para ela, a olhar para a cidade. Lena saiu do elevador. As portas fecharam-se atrás dela. Ele não se virou. — Agora tem três minutos — disse ele, com a voz fria, mas mais tensa. — Não cinco. Explique a cicatriz. Quero uma explicação verdadeira. Nada de viagens no tempo absurdas. Lena aproximou-se dele por trás. Sentia o cheiro do seu perfume. O mesmo que usava no abrigo subterrâneo. — Acredita em déjà-vu? — perguntou baixinho. Ele virou-se. Os olhos cinzentos encontraram os dela. Agora, mais perto, ela conseguia ver as marcas de cansaço e o stress que ele escondia. — Não acredito em nada que não possa controlar — respondeu. — Então não vai acreditar em mim — disse Lena. — Mas vou contar-lhe na mesma. Porque morri a amar-te e voltei. Essa é a verdade. Ele fitou-a, com a mandíbula contraída. — Chamo-me Lena Carter. Renasci ontem. Antes disso, morri contigo numa ponte. A 15 de maio de 2026. A horda estava atrás de nós, o rio por baixo. Seguraste-me nos braços. Disseste que partiríamos juntos. Depois, uma luz branca. A expressão de Ethan continuava indecifrável. Mas, desta vez, não chamou novamente a segurança. — E espera que eu acredite que se lembra do futuro? — perguntou lentamente. — Lembro-me de tudo o que vai acontecer — respondeu Lena, aproximando-se desesperadamente. — A febre em Queens não é uma gripe. É o vírus HNV-1. O governo dirá que está controlado. Não estará. Em julho, os hospitais estarão lotados. Em agosto, os militares vão isolar a cidade. Em setembro, a eletricidade vai falhar. Em outubro, o mundo que conhece deixará de existir. Ethan estreitou os olhos. — Podia ter lido isso em fóruns de teorias da conspiração. — O seu alojamento de caça — continuou Lena. — Nas Catskills. Coordenadas 42.3319 norte, 74.1456 oeste. Uma casa de pedra com telhado verde. O poço secou em 2015 e tentou consertá-lo. A lareira foi destruída pelo seu pai, quando estava bêbado, em 2008. Nunca a reparou porque o odeia. Guarda uma fotografia da sua mãe numa gaveta da secretária, escondida, porque olhar para ela lhe causa dor. Ethan ficou completamente imóvel. A localização do alojamento não era pública. Não estava em lado nenhum na internet. Apenas a família conhecia aquele lugar. — Como...? — murmurou ele, num tom baixo e ameaçador. — Contou-me — sussurrou Lena, com lágrimas nos olhos. — Durante uma tempestade, no primeiro inverno do apocalipse, escondemo-nos lá. Mostrou-me o lugar. Chorou pela primeira vez quando me falou da sua mãe. Você nunca chora, Ethan. Mas naquela noite chorou, e eu abracei-o. O silêncio tornou-se pesado. Ethan caminhou até à secretária, abriu uma gaveta e retirou uma pequena fotografia emoldurada, virada para baixo. Virou-a. Era uma mulher com olhos bondosos, semelhantes aos dele. Olhou para Lena. Os seus olhos já não estavam frios. Estavam confusos, abalados. — Ninguém sabe desta fotografia — disse ele. — Nem sequer a minha assistente. Mantenho-a virada para baixo. — Eu sei — respondeu Lena suavemente. — Disse-me que ela teria gostado de mim. Ethan sentou-se devagar, como se as pernas tivessem perdido a força. Passou a mão pelos cabelos, destruindo a imagem impecável do CEO. — Isto é insano — murmurou. — Não pode saber essas coisas. — Sei muito mais — disse Lena, ajoelhando-se diante da secretária para ficar ao nível dos olhos dele. — No próximo mês, vai investir na empresa de energia solar SunVolt e perder doze milhões porque ela vai falir. Na próxima semana, o seu pai vai telefonar-lhe a pedir dinheiro. Você vai recusar, e ele vai ameaçar expô-lo à imprensa. Tem pesadelos com o acidente de carro que matou a sua namorada da faculdade, Sarah, em 2014. Nunca contou isso a ninguém. A cabeça de Ethan ergueu-se bruscamente. Os olhos arregalaram-se, quase assustados. — Pare — ordenou ele. — Pare! Sarah. Ninguém sabia de Sarah. Ele enterrara aquela lembrança bem fundo. Lena estendeu a mão por cima da secretária, sem lhe tocar, mas aproximando-se o suficiente. — Não sou uma perseguidora. Não sou louca — disse ela, com a voz trémula, mas firme. — Sou a mulher que o amou no fim do mundo. Morri nos seus braços. Recebi uma segunda oportunidade para o salvar antes de o apocalipse começar. Pode continuar a achar que sou louca e expulsar-me outra vez. Mas, daqui a três anos, quando a febre se espalhar e se lembrar das minhas palavras naquela ponte, vai desejar ter-me ouvido. Ethan olhou para a mão dela, tão perto da sua. Os dedos eram pequenos, e as unhas estavam lascadas, sem a manicure impecável das mulheres que tentavam conquistá-lo. Pela primeira vez em dez anos, Ethan sentiu algo que não conseguia controlar. Era como se já conhecesse aquelas mãos e aquela voz. — Porquê eu? — perguntou num sussurro, quase vulnerável. — Por que voltou por mim? Não sou um bom homem. Sou implacável. Sou frio. Lena sorriu através das lágrimas. Foi o primeiro sorriso verdadeiro desde que renascera. — Porque é um bom homem quando o mundo acaba — respondeu. — Porque salvou cinquenta pessoas, protegeu-as, abraçou-me quando eu tinha medo e morreu comigo quando podia ter sobrevivido. Ethan voltou a levantar-se e caminhou até à janela, afastando-se dela porque precisava de espaço para pensar. Lá fora, a cidade parecia normal. Era difícil acreditar que o apocalipse estava a chegar. Mas a rapariga atrás dele conhecia coisas que ninguém poderia saber. As coordenadas do alojamento. A fotografia virada para baixo. Sarah. O nome que ele não pronunciava em voz alta desde o funeral. Ele virou-se. — Se o que está a dizer é verdade — começou lentamente, pondo-a à prova —, prove-o. Conte-me algo que vai acontecer amanhã e que eu possa verificar. Nada de memórias privadas. Quero um acontecimento futuro. Lena pensou rapidamente. As memórias do futuro eram confusas, mas algumas estavam bem claras. — Amanhã, às 14h13, haverá um pequeno terramoto de magnitude 4,2 em Nova Jérsia, que será sentido em Manhattan. As notícias dirão que é um acontecimento raro, mas sem danos. Toda a gente vai comentar isso no escritório. E o mercado de ações cairá duzentos pontos por causa do medo provocado pela febre, apesar de o governo afirmar que a situação está controlada. Ethan ficou a olhar para ela, memorizando cada palavra. — Se isso acontecer amanhã exatamente como disse, voltarei a vê-la — declarou. — Caso contrário, nunca mais se aproxime de mim nem da minha empresa. Desapareça para sempre. Entendeu? Lena assentiu e levantou-se. — E vai contratar-me? — perguntou, tentando fazer uma piada fraca. — Não — respondeu ele, com algo parecido com um sorriso passageiro. — Mas também não vou mandar prendê-la. Ainda. Caminhou até ao elevador privado e carregou no botão. — Margaret vai acompanhá-la pela saída dos fundos. Desta vez, sem segurança. Lena entrou no elevador, mas parou e voltou-se. — Ethan — chamou, usando o nome dele mais uma vez. Ele olhou para ela. — No futuro, odeia quando as pessoas lhe chamam senhor Cross em privado. Disse-me que isso o fazia sentir-se sozinho. Ethan ficou imóvel. As portas do elevador abriram-se. Lena entrou, com lágrimas a escorrerem novamente pelo rosto, mas agora sentia algo diferente. Esperança. As portas fecharam-se. Ethan ficou sozinho no escritório, a olhar para a fotografia da mãe, agora virada para cima. O coração batia-lhe como não acontecia desde a morte de Sarah. Pegou no telemóvel e ligou a Margaret. — Acompanhe os relatórios sobre o terramoto de amanhã. E encontre o processo da SunVolt. Cancele o investimento imediatamente. Lá fora, Lena saiu para a luz do sol de Manhattan, três anos antes do fim do mundo. Pela primeira vez desde que morrera, sentiu-se viva. O dia seguinte provaria que ela não era louca. Afastou-se da torre sem saber que Ethan a observava da janela, incapaz de desviar o olhar até ela desaparecer na multidão. Ele tocou na cicatriz do ombro. E sussurrou: — Lena. Experimentou pronunciar o nome, como se uma memória estivesse a regressar. Ela caminhou mais depressa, sorrindo através das lágrimas e fazendo planos para reunir suprimentos, porque agora Ethan talvez acreditasse nela. Continua...As luzes morreram.Não piscaram. Morreram.Num segundo a câmara estava branca e a zumbir, cheia de luz, no segundo seguinte foi engolida por completo. Engolida.Ninguém se mexeu. Ninguém respirou.Tudo o que Lena conseguia ouvir era a própria respiração — demasiado rápida, demasiado alta, a serrar-lhe a garganta. Como se estivesse a correr sem sair do sítio.Um.Dois.Três.As luzes de emergência dispararam de volta, pintando tudo de vermelho-sangue. Vermelho de alarme.Daniel tinha desaparecido.Lena ficou só a olhar para o vão vazio da porta onde ele tinha estado. A mão dela ainda estava meio levantada no ar, como se pudesse puxá-lo de volta. Agarrá-lo."Ele estava ali," sussurrou ela. A voz partiu-se ao meio. "Ele estava ali mesmo à minha frente."Ethan colocou-se à frente dela instantaneamente, os ombros a bloquear a passagem. Protetor. Tenso. Todo o corpo dele era um escudo à frente dela."Eu sei," disse ele baixo, duro. "Eu também o vi."Os olhos de Sarah estavam presos na sétim
Escuridão.Não aquele tipo de escuridão que só esconde as coisas. O tipo que as engole inteiras. Que as apaga.Lena não conseguia ver nada. Não via o Ethan. Não via a Sarah. Não via o Adrian.Mas a mão do Ethan ainda estava na dela. Suada. A tremer. Real.Agarrou com mais força. Como se fosse a única coisa que a prendia ao mundo.Algo se moveu debaixo dos pés deles. Não eram passos. Era mais pesado. Maior. O chão inteiro estremeceu, vibrou."Não te mexas," Ethan sussurrou-lhe ao ouvido. Tão perto que ela conseguia sentir o medo dele na respiração.Lena tentou respirar. Não conseguiu. O peito estava demasiado apertado. O ar não entrava.E depois ouviu."Lena..."O próprio nome dela. Com a própria voz dela.Mas ela não tinha dito nada. A boca estava seca. Colada."Ouviste isso?" sussurrou ela, em pânico.Ninguém respondeu.Uma luz de emergência fraca zumbiu e piscou por cima deles. Durante meio segundo, Lena viu a escadaria — de betão, húmida, sem fim, a descer para o abismo.Depois, de
As batidas pararam.Ninguém se mexeu. Ninguém respirou. Lena estava com os olhos cravados no chão de betão, a ouvir o próprio coração a bater demasiado alto.E depois, voltou._Toc._Silêncio._Toc._Outro silêncio._Toc._Três batidas. Lentas. Pacientes. Como se algo lá em baixo soubesse que estavam a ouvir.Ethan deu um passo e colocou-se à frente de Lena, instintivamente.— Seja o que for que está aí em baixo, não vamos abrir aquela porta.Adrian nem olhou para ele. Os olhos dele estavam presos no monitor.— Você não entende.— Então explica — Ethan rosnou.Adrian apontou para o ecrã com a mão trémula.— O apocalipse original não começou na superfície.Lena sentiu o sangue gelar. Olhou para o mapa. O marcador prateado por baixo do Brooklyn estava a pulsar. Vivo.— O que é que há debaixo da ponte?— Algo que a Aurora encontrou quando estavam a fazer as sondagens para a construção — respondeu Adrian, a voz baixa. — Uma estrutura. Mais antiga que a própria cidade.Sarah abanou a cabeç
Sarah.Ethan pronunciou o nome como se estivesse enterrado algures dentro dele há anos.Lena olhou fixamente para a mulher que estava debaixo da luz intermitente do túnel.Sarah.A mulher de quem Ethan só lhe tinha falado uma vez.A namorada que tivera na universidade.A mulher que, supostamente, morrera num acidente de viação em 2014.Mas ela estava ali, diante deles.Viva.Ethan deu lentamente um passo em frente.— Tu morreste.A expressão de Sarah mal se alterou.— Na tua linha temporal.Ethan parou.— O que significa isso?Sarah lançou um olhar a Adrian.— Significa que ainda não te lembraste de tudo.A marca prateada no pulso de Ethan começou subitamente a brilhar.Lena sentiu o calor espalhar-se pela palma da mão.Então, tudo desapareceu.Durante alguns segundos, Ethan viu outra memória.Chuva.Uma estrada escura.Sarah ao lado de um veículo danificado.Agentes do Projecto Aurora a chegar.Uma carrinha preta.Um laboratório por baixo de um edifício desconhecido.Depois, uma voz
As luzes vermelhas do lado de fora do armazém voltaram a piscar.Lena permaneceu completamente imóvel.Adrian Vale continuava perto da entrada, a observá-la a ela e a Ethan, como se já soubesse o que os dois estavam prestes a fazer.— Quanto tempo? — perguntou Ethan.Adrian olhou para o dispositivo que tinha na mão.— Onze meses.O estômago de Lena afundou-se.— Até ao apocalipse?— Até ao primeiro colapso.— Não foi isso que aconteceu antes.— Eu sei.Ethan aproximou-se.— Então, explique.Os olhos de Adrian deslocaram-se para a marca prateada no pulso de Ethan.— O vosso regresso alterou a sequência.Lena abanou a cabeça.— Nós não provocámos isto.— Não — respondeu Adrian. — Mas alteraram algo que nunca devia ter sido alterado.Virou o dispositivo na direcção deles.Uma linha temporal digital apareceu no ecrã.ACONTECIMENTO ORIGINAL: 9 DE AGOSTO DE 2026Depois, surgiu outra linha por baixo.PROJECÇÃO ACTUAL: 17 DE ABRIL DE 2024Lena ficou a olhar para o ecrã.— Isso é impossível.—
Olá, Lena.A voz do homem era calma.Calma demais.Lena olhou através do para-brisas.Lembrava-se daquela voz.Não da sua primeira vida.Do laboratório.Era a voz que falava dela como se fosse uma experiência.A mão de Ethan apertou o volante.— Quem é você?O homem sorriu.— Você já sabe.— Não — respondeu Lena. — Não sei.— Ainda não.Ele aproximou-se do veículo.Era mais velho do que Ethan, talvez estivesse no final dos quarenta anos. Vestia um fato escuro por baixo de um sobretudo comprido.Não havia raiva no seu rosto.Apenas certeza.E isso assustava Lena ainda mais.Ethan tentou ligar o carro novamente.Nada.O homem soltou uma gargalhada baixa.— Não perca tempo. O veículo foi desactivado.Ethan olhou para Lena.— Fica aqui dentro.Abriu a porta.O homem levantou imediatamente a mão.— Senhor Cross, eu não faria isso.Ethan parou.Vários homens à volta dos SUV apontaram as armas.O estômago de Lena contraiu-se.Ethan recuou lentamente.O homem sorriu.— Boa decisão.— Nome.—