LOGINAs luzes morreram.Não piscaram. Morreram.Num segundo a câmara estava branca e a zumbir, cheia de luz, no segundo seguinte foi engolida por completo. Engolida.Ninguém se mexeu. Ninguém respirou.Tudo o que Lena conseguia ouvir era a própria respiração — demasiado rápida, demasiado alta, a serrar-lhe a garganta. Como se estivesse a correr sem sair do sítio.Um.Dois.Três.As luzes de emergência dispararam de volta, pintando tudo de vermelho-sangue. Vermelho de alarme.Daniel tinha desaparecido.Lena ficou só a olhar para o vão vazio da porta onde ele tinha estado. A mão dela ainda estava meio levantada no ar, como se pudesse puxá-lo de volta. Agarrá-lo."Ele estava ali," sussurrou ela. A voz partiu-se ao meio. "Ele estava ali mesmo à minha frente."Ethan colocou-se à frente dela instantaneamente, os ombros a bloquear a passagem. Protetor. Tenso. Todo o corpo dele era um escudo à frente dela."Eu sei," disse ele baixo, duro. "Eu também o vi."Os olhos de Sarah estavam presos na sétim
Escuridão.Não aquele tipo de escuridão que só esconde as coisas. O tipo que as engole inteiras. Que as apaga.Lena não conseguia ver nada. Não via o Ethan. Não via a Sarah. Não via o Adrian.Mas a mão do Ethan ainda estava na dela. Suada. A tremer. Real.Agarrou com mais força. Como se fosse a única coisa que a prendia ao mundo.Algo se moveu debaixo dos pés deles. Não eram passos. Era mais pesado. Maior. O chão inteiro estremeceu, vibrou."Não te mexas," Ethan sussurrou-lhe ao ouvido. Tão perto que ela conseguia sentir o medo dele na respiração.Lena tentou respirar. Não conseguiu. O peito estava demasiado apertado. O ar não entrava.E depois ouviu."Lena..."O próprio nome dela. Com a própria voz dela.Mas ela não tinha dito nada. A boca estava seca. Colada."Ouviste isso?" sussurrou ela, em pânico.Ninguém respondeu.Uma luz de emergência fraca zumbiu e piscou por cima deles. Durante meio segundo, Lena viu a escadaria — de betão, húmida, sem fim, a descer para o abismo.Depois, de
As batidas pararam.Ninguém se mexeu. Ninguém respirou. Lena estava com os olhos cravados no chão de betão, a ouvir o próprio coração a bater demasiado alto.E depois, voltou._Toc._Silêncio._Toc._Outro silêncio._Toc._Três batidas. Lentas. Pacientes. Como se algo lá em baixo soubesse que estavam a ouvir.Ethan deu um passo e colocou-se à frente de Lena, instintivamente.— Seja o que for que está aí em baixo, não vamos abrir aquela porta.Adrian nem olhou para ele. Os olhos dele estavam presos no monitor.— Você não entende.— Então explica — Ethan rosnou.Adrian apontou para o ecrã com a mão trémula.— O apocalipse original não começou na superfície.Lena sentiu o sangue gelar. Olhou para o mapa. O marcador prateado por baixo do Brooklyn estava a pulsar. Vivo.— O que é que há debaixo da ponte?— Algo que a Aurora encontrou quando estavam a fazer as sondagens para a construção — respondeu Adrian, a voz baixa. — Uma estrutura. Mais antiga que a própria cidade.Sarah abanou a cabeç
Sarah.Ethan pronunciou o nome como se estivesse enterrado algures dentro dele há anos.Lena olhou fixamente para a mulher que estava debaixo da luz intermitente do túnel.Sarah.A mulher de quem Ethan só lhe tinha falado uma vez.A namorada que tivera na universidade.A mulher que, supostamente, morrera num acidente de viação em 2014.Mas ela estava ali, diante deles.Viva.Ethan deu lentamente um passo em frente.— Tu morreste.A expressão de Sarah mal se alterou.— Na tua linha temporal.Ethan parou.— O que significa isso?Sarah lançou um olhar a Adrian.— Significa que ainda não te lembraste de tudo.A marca prateada no pulso de Ethan começou subitamente a brilhar.Lena sentiu o calor espalhar-se pela palma da mão.Então, tudo desapareceu.Durante alguns segundos, Ethan viu outra memória.Chuva.Uma estrada escura.Sarah ao lado de um veículo danificado.Agentes do Projecto Aurora a chegar.Uma carrinha preta.Um laboratório por baixo de um edifício desconhecido.Depois, uma voz
As luzes vermelhas do lado de fora do armazém voltaram a piscar.Lena permaneceu completamente imóvel.Adrian Vale continuava perto da entrada, a observá-la a ela e a Ethan, como se já soubesse o que os dois estavam prestes a fazer.— Quanto tempo? — perguntou Ethan.Adrian olhou para o dispositivo que tinha na mão.— Onze meses.O estômago de Lena afundou-se.— Até ao apocalipse?— Até ao primeiro colapso.— Não foi isso que aconteceu antes.— Eu sei.Ethan aproximou-se.— Então, explique.Os olhos de Adrian deslocaram-se para a marca prateada no pulso de Ethan.— O vosso regresso alterou a sequência.Lena abanou a cabeça.— Nós não provocámos isto.— Não — respondeu Adrian. — Mas alteraram algo que nunca devia ter sido alterado.Virou o dispositivo na direcção deles.Uma linha temporal digital apareceu no ecrã.ACONTECIMENTO ORIGINAL: 9 DE AGOSTO DE 2026Depois, surgiu outra linha por baixo.PROJECÇÃO ACTUAL: 17 DE ABRIL DE 2024Lena ficou a olhar para o ecrã.— Isso é impossível.—
Olá, Lena.A voz do homem era calma.Calma demais.Lena olhou através do para-brisas.Lembrava-se daquela voz.Não da sua primeira vida.Do laboratório.Era a voz que falava dela como se fosse uma experiência.A mão de Ethan apertou o volante.— Quem é você?O homem sorriu.— Você já sabe.— Não — respondeu Lena. — Não sei.— Ainda não.Ele aproximou-se do veículo.Era mais velho do que Ethan, talvez estivesse no final dos quarenta anos. Vestia um fato escuro por baixo de um sobretudo comprido.Não havia raiva no seu rosto.Apenas certeza.E isso assustava Lena ainda mais.Ethan tentou ligar o carro novamente.Nada.O homem soltou uma gargalhada baixa.— Não perca tempo. O veículo foi desactivado.Ethan olhou para Lena.— Fica aqui dentro.Abriu a porta.O homem levantou imediatamente a mão.— Senhor Cross, eu não faria isso.Ethan parou.Vários homens à volta dos SUV apontaram as armas.O estômago de Lena contraiu-se.Ethan recuou lentamente.O homem sorriu.— Boa decisão.— Nome.—