Masuk– “Não me pergunte muito, só sei que to indo com as meninas pra casa da Bruna.” – Mandei pra Julia, depois de avisar minha mãe.
Falando assim até me sinto uma adolescente, mas é lógico que precisava avisar, por mais que já seja maior de idade, até porque ainda moramos juntas, então não poderia simplesmente sumir e foda-se, de forma alguma, eu precisava avisar que provavelmente não voltaria pra casa... era estranho afirmar isso. Pelo caminho não conversamos, pois nossa prioridade era fugir da chuva, mas assim que entramos em seu apartamento as meninas zombavam de Leo e do quanto ele era afim de Bruna. Olhei ao redor e percebi que não havia ninguém, ao menos nenhum outro ser humano, já que um pedacinho lindo de totó surgiu alvoroçado fazendo festa pra gente. – Já falei pro Leo que não tem mais nada entre a gente, mas ele parece que não acredita. – Disse Bruna enquanto avançava quarto adentro e nós ficávamos pela sala. – Lógico! Não foi a primeira vez que vocês terminaram. – Afirmou Lara. – Primeiro que nunca tivemos realmente nada demais, a gente namorou por muito pouco tempo, mas ok, de qualquer forma já tem mais de três meses isso. – Respondeu lá de dentro. – Verdade. – Concordou Lívia. – Já ta mais do que na hora dele começar a superar. Aposto que ele já ficou com outras pessoas e ainda fica tentando te prender. – Sim, e eu também já fiquei, sem ele saber, claro. – Disse Bruna surgindo e parando sorridente pelo corredor. Pra mim, perguntou. – Mas e você, você namora, fica, ou tem rolo com alguém? Balancei a cabeça em negativa enquanto lutava pra absorver tudo o que estava acontecendo sem que isso me provocasse uma crise de ansiedade. Quinhentas informações surgindo do nada, isso sem dizer que estava sentada no sofá da casa dela enquanto a ouvia falar de homem... bem típico e desagradável, mas faz parte. Não sei pras demais “irmãs”, mas uma coisa que me incomoda é quando a pessoa em quem tenho interesse não para de falar de homem. Outro dia uma garota Bi se queixou que as mulheres quase não davam em cima dela e eu respondi, de boa mesmo, dizendo “talvez seja porque você só fala de homem o tempo inteiro, equilibra a balança pra ver se muda”. Não falo numa ideia de preconceito, falo porque talvez seja uma informação importante pras Bi, isso, é claro, se o sentimento a respeito for compartilhado pela maioria das Sapas. Pra quem é homo, se eu to afim de uma garota que só fala de homem, sinceramente, eu brocho. O que eu fazia ali então? Já falei, eu precisava entender o que estava acontecendo e o porquê de tamanha simpatia da parte, única e exclusivamente, da Bruna. As demais meninas pareciam normais, não eram nem contra e nem a favor da minha presença, ou seja, nada daquilo fazia o menor sentido. – Vamos beber. – Disse Lara, enquanto se levantava e ia até a cozinha. – Você é sempre assim, quietinha? – Me perguntou Lívia. – Nem sou, mas é que mal conheço vocês, então eu ainda to meio que conhecendo o terreno. – Sorri. – Toma. – Lara me entregou uma lata de cerveja. – Agora você vai relaxar e nos contar todos os seus segredos. – Riram. – Perigoso esse negócio de contar todos os segredos. – Zoei, falando e encerrando com os olhos nos de Bruna, que sorria levemente pra mim enquanto me encarava. – Relaxa. – Disse Bruna. – Nenhum segredo sai daqui. – O que acontece em Vegas, fica em Vegas! – Gritou Lívia e todas riram. – Vocês nem beberam e já estão assim? – Brinquei. – Não viu nada. – Me respondeu Lara enquanto ria. Bruna saiu de onde estava, caminhou em minha direção e se sentou ao meu lado. Que sensação estranha era aquela, até porque sentia seu corpo bem ali, esbarrando em mim, de vez em vez, enquanto ela se inclinava pra pegar uma cerveja sobre a mesa de centro da sala. – Relaxa, hoje é sexta. – Me disse ela, agora tão próxima, que senti todo meu corpo se arrepiar. Meus olhos percorreram cada centímetro de seu rosto. Seus olhos eram lindos e sua boca era extremamente apetitosa. Me sentia excitada, não havia palavra melhor para descrever o que estava sentindo, até porque me pegava hipnotizada em seus lábios com um enorme desejo de beijá-los, mas me continha, tentando não transparecer nem metade do que estava realmente sentindo... espero ter conseguido. – Vou relaxar. – Respondi, colocando minha mão sobre a dela, e sorrindo. – “Sextou.” – Disse Lívia. Nós brindamos com nossas latas e continuamos nossa noite com várias histórias. Tentei ser o mais discreta possível, pois realmente ainda não me sentia à vontade pra demonstrar quem eu realmente era, ou o que pensava a respeito das coisas, então, por sorte, consegui desviar de perguntas muito íntimas, dando sempre ênfase nas demais garotas... principalmente na Bruna, que era o maior mistério. A conversa havia sido muito boa e, já pela madrugada, além de bêbada, eu me sentia realmente mais tranquila, mais entrosada... sei lá. A questão é que chegou o grande momento sobre o qual ainda não havíamos falado a respeito... dormir. Como seria isso? Quem dormiria aonde? Com quem? De que forma? Com que roupa? Enfim. Não havia pensado a respeito até Lara tocar no assunto, pois estava com sono, largada pelo chão da sala, junto com o cachorrinho lindo. Bruna, que também parecia estar bêbada, então, sugeriu: – Tenho dois quartos com camas de casal e somos quatro, então é isso, duas ficam num quarto e as outras duas no outro. Ou vocês querem dormir todas juntas aqui na sala? – Aqui não, acho que não precisa e, por mim, pode ser eu e Lara num quarto e vocês duas no da Bruna. – Disse Lívia. – Por mim, tudo bem. – Disse Lara. Bruna olhou pra mim e perguntou: – Tudo bem pra você, também? – Tranquilo. – Respondi, tentando passar a maior tranquilidade, sendo que não havia nada de tranquilo... né.O período finalmente se encerrou e entramos de férias, mais que merecidas. Meu sentimento era de alívio e de dever cumprido, pois consegui manter minhas notas em alta, independente do meu estado emocional, o que foi uma tremenda vitória. Quem faz faculdade sabe como é, ou seja, mesmo estando com o emocional em dia, é uma luta manter as notas... embora ninguém nunca está bem de verdade. Concluí também a parte teórica da auto-escola, fiz minha prova e passei, o que também foi uma tremenda vitória, me restando agora fazer a parte prática, que, pra muitos, é a parte mais difícil do processo... veremos. No mais, aproveitei minhas férias pra descansar, arejar minha cabeça, ficar mais com a minha mãe e meu cachorro, mas também dei umas voltas com a Julia. Não vou ser hipócrita, beijei algumas pessoas numa balada ou outra, mas quem pode me julgar? Não foi nada sério, na verdade me deixaram com mais saudade dela... pelo menos tentei. Eu ainda estava bloqueada e conferia isso quase todos o
Eu continuava bloqueada em todas as redes sociais, o que era muito estranho, já que Bruna havia ido embora e largado o meliante, mas, depois daquelas últimas conversas esse fato não me machucava mais, porque vi que não era algo pessoal comigo, ainda mais porque ela havia dito que me amava.Era estranho ir pra faculdade e saber que não iria vê-la, o próprio banheiro não era mais o mesmo, por mais complexo que seja afirmar tal coisa, mas era assim que as coisas eram. Todos os dias me sentava no mesmo lugar, longe do antigo grupo, porque Leo ainda se fazia presente... pelo menos no começo.Alguns podem se perguntar sobre o que aconteceu com ele, já que era muito injusto que, depois de tudo, Leo saísse impune, mas as únicas informações que tenho a respeito era que ele quis e foi até lá, mas foi escorraçado pelos parentes dela e, parece, inclusive, que levou uma surra... isso segundo a Julia.Algumas coisas são muito complicadas no nosso País e nos tempos em que estamos, porque a agressão
Por mais que estivesse tudo dito e definido, ainda assim não me sentia bem ali sentada com Julia. Minha perna balançava desesperadamente, porque minha ansiedade estava gritando dentro de mim. O que fazer? É isso? Acabou assim? Fico aqui comendo como se nada tivesse acontecido? – Você não ta se agüentando, né? – Me perguntou Julia.– Não to... não sei o que fazer, já fui atrás dela, já conversamos, mesmo que rapidinho, mas sei lá, parece pouco pra mim.– Olha, pelo tempo que a gente ta aqui, ou ela já foi embora, ou ta pra ir... quer ir até lá? Se quiser eu vou contigo.Fechei meus olhos e respirei fundo enquanto minha perna continuava a se sacudir. Realmente não havia mais o que dizer, mas acho que eu precisava ver, como se isso fosse a confirmação do que já estava dito. Acabou? Acabou mesmo? Esse era o nosso fim? Depois de tudo que vivemos e sentimos, era assim que íamos terminar?Me levantei afoita e sai andando com Julia vindo atrás de mim e nem sei que fim deu ao que estávamos co
Sem esperar, Bruna me abraçou com tanta força, que fiquei sem reação. Seus braços me apertavam e ela chorava copiosamente. Aquela parecia uma reação muito mais inconsciente do que consciente. Eu a abracei de volta, queria que se sentisse em um ambiente seguro.– Desculpa... – Soluço. – desculpa. – Disse ela ainda em meus braços.Era tão dolorido vê-la naquele estado, nunca pensei que isso aconteceria, ainda mais comigo envolvida nos motivos. Imagina você ter em seus braços a pessoa que você ama enquanto ela chora de soluçar, mas não havia o que eu pudesse ter feito pra evitar que ela chegasse àquele estado, pois quanto mais me envolvesse, pior poderia ter ficado... acho.– Não precisa me pedir desculpas. – Falei.– Preciso sim. – Rebateu se afastando pra me olhar. – Eu não queria nada disso, não queria ter me afastado de você, não queria ter cedido pra aquele filho da puta, mas eu não tive escolha.– Eu sei disso, por isso to dizendo que não precisa se desculpar.– Eu vou embora. – Su
Aquela era realmente a única aula que Bruna andava faltando, segundo Lara, ou seja, ela ia em todas as demais, menos na única onde era certo de nos encontrarmos. Por que disso? Não sabia, óbvio, e não tinha como perguntar, afinal, eu continuava bloqueada, por isso não tinha como entrar em contato, por mais que quisesse.Por fim, a outra sexta-feira finalmente chegou e entrei na sala de aula ansiosa, queria ver se mais uma vez Bruna iria faltar, ou se finalmente iria aparecer. Me sentei no meu mais novo lugar, que era afastada do grupo, e esperei. Todos foram chegando e se sentando, inclusive Leo, até que, com o professor já presente, ela finalmente apareceu.Bruna se sentou com seus amigos, como no primeiro dia, só que sem olhar na minha direção. Era muito ruim ver aquilo, mas ao mesmo tempo sentia um alívio enorme por vê-la ali. Respirei fundo e troquei olhares com Julia, que parecia compartilhar de algum daqueles mesmos sentimentos que eu estava tendo.– “Nós vamos beber depois daqu
Naquele dia fui embora me sentindo mal pelo que vi, mas não havia o que eu pudesse fazer pra ajudar, afinal, qualquer ação poderia ser má interpretada, então não adiantava tentar ajudar, as coisas eram como eram e não iriam mudar por minha causa, pelo contrário, poderiam até piorar.Sei que já disse isso antes e acabei indo parar no apartamento dela, mas a vida é assim, nem sempre a gente cumpre aquilo que achamos ser o melhor, tanto que, no outro dia que tivemos aula juntos, decidi que não sentaria mais com aquele grupo e Julia me acompanhou, lógico. Todos nos olharam com uma expressão de incompreensão, mas Bruna e Leo se sentaram com seus amigos e esse era o meu objetivo. Ficamos distantes, como teríamos feito desde o começo e quase não interagimos com ninguém de lá.O clima era estranho e pesado, ao menos era o que sentia a respeito, mas era melhor assim, já que Bruna estava em uma situação delicada. Julia me olhava com um olhar de tristeza, mas pela primeira vez evitava falar a re







