LOGINAcordei, no dia seguinte com muita dificuldade devido a noite estranha que tive, afinal de contas, não é todo dia que se dorme com a sua “tal” pessoa te abraçando a noite inteira. Tem gente que adora dormir assim, e não é que eu não goste, mas nem sempre é o melhor dos Mundos esse tipo de noite... ao menos pra mim.
Olhei-a e ela estava dormindo em silêncio, junto a mim, da forma que estávamos quando nos deitamos. Eu me sentia imóvel, pois não queria acordá-la, não queria estragar aquele momento, mas ao mesmo tempo me perguntava se era certo estar naquela posição. Virei pro lado oposto, até porque meu corpo implorava por isso, e ela me acompanhou, me abraçando de conchinha. – Bom dia. – Escutei ao pé do meu ouvido... me arrepiei. Sua voz era rouca, de quem estava acabando de acordar. Bruna me soltou e, por sua respiração e gemido, deduzi que estava se espreguiçando. Me virei de volta, por mais que meu corpo quisesse continuar na posição anterior. Deitamos uma de frente pra outra e lhe respondi, também rouca, dizendo: – Bom dia. – Te atrapalhei a dormir? – Perguntou sorrindo. – Não. – Menti. – Foi de boa. – As meninas já devem ter acordado também, elas acordam mais cedo do que eu, mas por mim, eu nem acordava agora, ta tão gostosinho aqui. Havia uma pequena porção de luz que vazava pelas laterais do blackout da janela e era ela quem nos permitia nos enxergar. Bruna piscava lentamente, nitidamente tentando se manter consciente e aquilo me parecia tão fofo, que meu peito chegou a arder enquanto a olhava. – Vou precisar ir embora logo. – Falei. – Mas por que tão cedo? – Tenho que ajudar minha mãe numas paradas. – Mentira, na verdade era eu quem precisava sair e respirar. – Ah sim, que pena, queria que ficasse mais tempo com a gente. – Seus pais não reclamam, não? – Eu moro sozinha aqui, minha família é de Campos. – Entendi. Não sabia. – Meus pais e meus avós me ajudam a estar aqui estudando. – Legal isso, que bom pra você. – Falei. – Eu devo estar horrível. – Riu, enquanto ajeitava o cabelo. – Ta não, você ta linda... – Falei admirada e só percebi depois. – queria eu acordar assim também. – Nem parece que você acordou agora. – Me elogiou sorrindo. – Ta linda. Me senti constrangida, então me sentei na cama pra me espreguiçar, embora o meu objetivo fosse apenas sair daquela posição, pois estávamos muito próximas, rosto a rosto... enfim. Bruna se sentou, segurou de leve em um dos meus braços, nos olhamos olho no olho e, sorrindo de uma forma estranha, com uma voz suave, me perguntou: – Você precisa mesmo ir? Todo o meu corpo se arrepiou. Eu sentia uma vontade absurda de beijá-la, mas, ao mesmo tempo, não me sentia com autorização de fazê-lo. Fisicamente, ela parecia querer o mesmo que eu, mesmo que essa aparência fosse sutil, mas não sabia se era real, ou se era apenas seu jeito de lidar com as pessoas, e não queria me precipitar pra depois escutar que toda a minha percepção não tinha nada a ver com a realidade. – Falando assim fica até difícil ir embora. – Soltei, sorrindo, lancei o meu verde em busca de qualquer reação mais clara. Ela recuou, mesmo que pouco, e tirou sua mão de sobre meu braço, e percebi que seu sorriso se alterou, não sei explicar bem como, mas parecia que havia um “certo” constrangimento nela, embora ainda estivesse próxima e ainda estivesse sorrindo. O que aquela reação significava? Não faço ideia, mas não me parecia ser algo favorável ao meu sentimento... abaixei a cabeça, confusa. – Enfim... – Soltei enquanto respirava fundo e me movimentava pra levantar. – Vou ajeitar minhas coisas. Esperei por uma reação típica de filme, daquelas que a pessoa te segura pelo braço novamente e te puxa, ou simplesmente segura, vocês se olham, e ela diz algo fofo, ou romântico, ou sei lá o quê, mas não, não houve nada disso, eu me levantei livremente, sem nenhuma interrupção, e entrei no banheiro. Me olhei no espelho e me senti uma completa idiota por estar ali, por estar esperando algo de alguém que provavelmente nem gostava de mulher... por desejar qualquer migalha que fosse. Quem nunca, não é mesmo? O mais incrível era começar a assumir pra mim mesma o que estava sentindo. Aquilo era absurdo, mas era real. Senti um nó na garganta e uma grande chateação a meu próprio respeito. Não era choro... talvez gatilho... não sei, até porque não era a primeira vez que sentia algo assim por alguém que, no fim, não sentia o mesmo por mim. Saí do banheiro, já de roupa trocada, e agradeci a gentileza de me convidar. Bruna parecia estranha porque, ao mesmo tempo que soava normal, havia algum tom diferente no seu jeito... ela não estava normal e não acho que as outras meninas perceberam, mas pra mim era gritante, e isso me angustiava, porque sabia a partir de que momento aquela mudança havia acontecido. Zoamos um pouco antes da minha saída, mas eu precisava ir, ainda mais depois do constrangimento que se instalou entre nós. Cheguei a comer algo com elas, até porque as meninas já estavam fazendo isso quando saímos do quarto e, então, me despedi, abraçado-as, deixando Bruna por último. Abracei-a e beijei seu rosto. Meu coração estava angustiado. Em seu ouvido, pedi desculpa por qualquer coisa, sem mencionar nada específico, fiz do jeito que as pessoas costumam fazer, tentando ser o mais natural possível e sua reação foi a tradicional, me dizendo, sorrindo, que não havia pelo quê me desculpar, e então saí. No ônibus, mandei mensagem pra Julia dizendo que tinha muita coisa pra contar, e depois perdi meu olhar pela janela, como é de costume acontecer com grande parte da população. Meu celular vibrou na minha mão. Respirei fundo. Devia ser a resposta da minha amiga, mas tinha medo de ser outra coisa. Olhei.O período finalmente se encerrou e entramos de férias, mais que merecidas. Meu sentimento era de alívio e de dever cumprido, pois consegui manter minhas notas em alta, independente do meu estado emocional, o que foi uma tremenda vitória. Quem faz faculdade sabe como é, ou seja, mesmo estando com o emocional em dia, é uma luta manter as notas... embora ninguém nunca está bem de verdade. Concluí também a parte teórica da auto-escola, fiz minha prova e passei, o que também foi uma tremenda vitória, me restando agora fazer a parte prática, que, pra muitos, é a parte mais difícil do processo... veremos. No mais, aproveitei minhas férias pra descansar, arejar minha cabeça, ficar mais com a minha mãe e meu cachorro, mas também dei umas voltas com a Julia. Não vou ser hipócrita, beijei algumas pessoas numa balada ou outra, mas quem pode me julgar? Não foi nada sério, na verdade me deixaram com mais saudade dela... pelo menos tentei. Eu ainda estava bloqueada e conferia isso quase todos o
Eu continuava bloqueada em todas as redes sociais, o que era muito estranho, já que Bruna havia ido embora e largado o meliante, mas, depois daquelas últimas conversas esse fato não me machucava mais, porque vi que não era algo pessoal comigo, ainda mais porque ela havia dito que me amava.Era estranho ir pra faculdade e saber que não iria vê-la, o próprio banheiro não era mais o mesmo, por mais complexo que seja afirmar tal coisa, mas era assim que as coisas eram. Todos os dias me sentava no mesmo lugar, longe do antigo grupo, porque Leo ainda se fazia presente... pelo menos no começo.Alguns podem se perguntar sobre o que aconteceu com ele, já que era muito injusto que, depois de tudo, Leo saísse impune, mas as únicas informações que tenho a respeito era que ele quis e foi até lá, mas foi escorraçado pelos parentes dela e, parece, inclusive, que levou uma surra... isso segundo a Julia.Algumas coisas são muito complicadas no nosso País e nos tempos em que estamos, porque a agressão
Por mais que estivesse tudo dito e definido, ainda assim não me sentia bem ali sentada com Julia. Minha perna balançava desesperadamente, porque minha ansiedade estava gritando dentro de mim. O que fazer? É isso? Acabou assim? Fico aqui comendo como se nada tivesse acontecido? – Você não ta se agüentando, né? – Me perguntou Julia.– Não to... não sei o que fazer, já fui atrás dela, já conversamos, mesmo que rapidinho, mas sei lá, parece pouco pra mim.– Olha, pelo tempo que a gente ta aqui, ou ela já foi embora, ou ta pra ir... quer ir até lá? Se quiser eu vou contigo.Fechei meus olhos e respirei fundo enquanto minha perna continuava a se sacudir. Realmente não havia mais o que dizer, mas acho que eu precisava ver, como se isso fosse a confirmação do que já estava dito. Acabou? Acabou mesmo? Esse era o nosso fim? Depois de tudo que vivemos e sentimos, era assim que íamos terminar?Me levantei afoita e sai andando com Julia vindo atrás de mim e nem sei que fim deu ao que estávamos co
Sem esperar, Bruna me abraçou com tanta força, que fiquei sem reação. Seus braços me apertavam e ela chorava copiosamente. Aquela parecia uma reação muito mais inconsciente do que consciente. Eu a abracei de volta, queria que se sentisse em um ambiente seguro.– Desculpa... – Soluço. – desculpa. – Disse ela ainda em meus braços.Era tão dolorido vê-la naquele estado, nunca pensei que isso aconteceria, ainda mais comigo envolvida nos motivos. Imagina você ter em seus braços a pessoa que você ama enquanto ela chora de soluçar, mas não havia o que eu pudesse ter feito pra evitar que ela chegasse àquele estado, pois quanto mais me envolvesse, pior poderia ter ficado... acho.– Não precisa me pedir desculpas. – Falei.– Preciso sim. – Rebateu se afastando pra me olhar. – Eu não queria nada disso, não queria ter me afastado de você, não queria ter cedido pra aquele filho da puta, mas eu não tive escolha.– Eu sei disso, por isso to dizendo que não precisa se desculpar.– Eu vou embora. – Su
Aquela era realmente a única aula que Bruna andava faltando, segundo Lara, ou seja, ela ia em todas as demais, menos na única onde era certo de nos encontrarmos. Por que disso? Não sabia, óbvio, e não tinha como perguntar, afinal, eu continuava bloqueada, por isso não tinha como entrar em contato, por mais que quisesse.Por fim, a outra sexta-feira finalmente chegou e entrei na sala de aula ansiosa, queria ver se mais uma vez Bruna iria faltar, ou se finalmente iria aparecer. Me sentei no meu mais novo lugar, que era afastada do grupo, e esperei. Todos foram chegando e se sentando, inclusive Leo, até que, com o professor já presente, ela finalmente apareceu.Bruna se sentou com seus amigos, como no primeiro dia, só que sem olhar na minha direção. Era muito ruim ver aquilo, mas ao mesmo tempo sentia um alívio enorme por vê-la ali. Respirei fundo e troquei olhares com Julia, que parecia compartilhar de algum daqueles mesmos sentimentos que eu estava tendo.– “Nós vamos beber depois daqu
Naquele dia fui embora me sentindo mal pelo que vi, mas não havia o que eu pudesse fazer pra ajudar, afinal, qualquer ação poderia ser má interpretada, então não adiantava tentar ajudar, as coisas eram como eram e não iriam mudar por minha causa, pelo contrário, poderiam até piorar.Sei que já disse isso antes e acabei indo parar no apartamento dela, mas a vida é assim, nem sempre a gente cumpre aquilo que achamos ser o melhor, tanto que, no outro dia que tivemos aula juntos, decidi que não sentaria mais com aquele grupo e Julia me acompanhou, lógico. Todos nos olharam com uma expressão de incompreensão, mas Bruna e Leo se sentaram com seus amigos e esse era o meu objetivo. Ficamos distantes, como teríamos feito desde o começo e quase não interagimos com ninguém de lá.O clima era estranho e pesado, ao menos era o que sentia a respeito, mas era melhor assim, já que Bruna estava em uma situação delicada. Julia me olhava com um olhar de tristeza, mas pela primeira vez evitava falar a re







