FAZER LOGINEle desliga o telefone e o guarda no bolso. O quarto fica em silêncio por alguns segundos, quebrado apenas pela minha respiração ofegante e pela chuva incessante que b**e nas janelas.
Ainda estou algemada à cama, seminua, meu corpo latejando onde ele me tocou. A culpa me sufoca. Como pude reagir assim? Como pude sentir prazer nas mãos do homem que me sequestrou no dia do meu casamento?
Ronan me encara. Seus olhos azuis são escuros e famintos, mas algo mais suave brilha neles quando ele fala sobre sua filha.
“Ela esperou seis anos por você”, diz ele em voz baixa. “Não vou fazê-la esperar mais.”
Ele solta as algemas com um estalo suave. Antes que eu possa me mexer, ele me puxa pela cintura e me coloca de pé. Minhas pernas tremem. O vestido rasgado mal me cobre. Ele pega seu paletó úmido e o coloca sobre meus ombros, me cobrindo o melhor que pode.
“Use isso por enquanto. Não quero que ela te veja assim.”
Como se isso ainda importasse.
Ele me guia para fora do quarto, com a mão firme na minha nuca. Descemos as escadas. Meu coração dispara a cada passo.
No hall de entrada, uma menininha loira está ao lado de Luka — o loiro mais calmo que estava com o laptop no jato. No instante em que ela me vê, seus olhos azuis — idênticos aos de Ronan — se arregalam.
“Mamãe…?”
Sua voz é suave, repleta de uma esperança que me divide em duas.
Aoife.
Ela dá um passo hesitante, depois outro, e corre em minha direção. Seus bracinhos me envolvem pela cintura com uma força surpreendente, seu rosto se aninhando em meu peito.
“Mamãe… você voltou… você realmente voltou… Mas por que está vestida de noiva?”
Eu congelo. Meu corpo não sabe como reagir. Mas algo dentro de mim — algo instintivo e profundo — sabe. Minhas mãos tremem ao pousarem em suas costas. O cheiro de xampu infantil e algo doce me envolve. Meu peito dói dolorosamente.
“Eu… eu não…” Minha voz falha. Lágrimas quentes escorrem pelo meu rosto. “Eu não me lembro…”
Aoife levanta o rosto, os olhos brilhando com lágrimas, mas seu sorriso é enorme e radiante.
“Está tudo bem. Eu vou te ajudar a se lembrar. Eu sei todas as nossas músicas favoritas, o lugar secreto no jardim, e—”
Ela continua falando rápido, desesperada, como se tivesse guardado seis anos de palavras. Eu apenas a abraço, sentindo uma onda avassaladora de amor invadir meu peito, embora minha mente ainda esteja em branco.
Ronan nos observa encostado na parede, de braços cruzados. Seus olhos nunca se desviam de nós. Há possessividade. Orgulho. E uma fome sombria que me faz estremecer.
Luka pigarreia.
“Vou levar o Matt para casa. Vou deixar vocês três como uma família.”
Quem é Matt?
Ele vai embora. Ficamos só nós três.
Aoife não me solta. Ela se agarra com mais força, como se tivesse medo de que eu desapareça.
“Você não vai embora de novo, né, mamãe?” Ela pergunta, com a voz fraca e assustada. “Papai disse que você voltou para ficar. Para sempre.”
Não consigo responder. Meu olhar encontra o de Ronan por cima da cabeça dela.
Ele me observa com aquela intensidade sufocante. Seus lábios se movem, quase sem som:
“Diga sim.”
Minha garganta se fecha. Aoife me aperta ainda mais, seu rostinho molhado pressionado contra meu peito.
E eu, presa entre o terror do homem que me sequestrou e o amor inexplicável que sinto por esta criança que não me lembro de ter dado à luz, sussurro com a voz embargada:
“Eu… eu vou ficar.”
Aoife solta um soluço de alegria e me abraça com mais força.
Ronan sorri. Um sorriso lento, sombrio e vitorioso.
Ele se aproxima, nos abraça com um braço e beija o topo da minha cabeça, murmurando contra meus cabelos:
“Boa menina.”
E eu sinto isso no fundo do meu peito — acabei de assinar um contrato que não posso mais rasgar.
Aoife não me solta nem por um segundo.
Sinto o seu pequeno coração batendo forte contra o meu, e algo dentro de mim se quebra um pouco mais.
“Você está tremendo, mamãe”, ela sussurra, erguendo o rosto banhado em lágrimas. Seus olhos azuis me encaram com pura preocupação. “Você está com frio? Papai pode te dar um casaquinho. Ele sempre me dá um quando estou com frio.”
Não consigo falar. Minha garganta está muito apertada. É tudo demais para mim. A casa, as fotos e essa criança me chamando de “mamãe” como se eu fosse a pessoa mais importante do mundo para ela.
Ronan está atrás de mim, seu corpo grande e quente pressionado contra minhas costas. Uma de suas mãos repousa possessivamente em minha cintura, os dedos pressionando levemente — um lembrete silencioso de que não vou a lugar nenhum.
“Ela está bem, princesa”, diz ele, com uma voz surpreendentemente suave ao falar com ela. “Só está cansada da viagem. Vamos subir para o quarto dela, tá bom?”
Aoife acena com a cabeça, mas continua sem me soltar. Ela pega minha mão com as duas e me puxa escada acima, tagarelando sem parar.
“Meu quarto fica bem ao lado do seu e do papai. Eu desenhei muitos desenhos para você enquanto você estava… dormindo. E o ursinho de pelúcia que você me deu quando eu era bebê ainda está lá. Eu cuidei dele todos os dias.”
Cada palavra é como uma facada doce no meu peito. Subo as escadas como se estivesse num pesadelo, sentindo o olhar penetrante de Ronan na minha nuca o tempo todo.
Quando entramos novamente no quarto, paro na porta.
Dessa vez eu realmente consigo ver.
É lindo. Paredes em um tom creme suave, uma cama grande com lençóis brancos e um telescópio antigo perto da janela. Há fotos minhas grávida, fotos minhas com a bebê Aoife e um violão encostado na parede.
Sinto-me como um intruso na vida de outra pessoa.
Aoife me puxa para a cama e me faz sentar. Depois, ela se senta no meu colo e me abraça novamente.
“Você vai dormir aqui hoje à noite, não é? Comigo e com o papai?”
Olho para Ronan, que está parado na porta, nos observando com aquela mesma mistura de fome e satisfação.
“Eu… eu não sei”, murmurei.
“Sim, ela está”, responde Ronan, entrando e fechando a porta atrás de si. “Ela está dormindo aqui, Aoife. Conosco.”
Aoife sorri, aliviada, e se aconchega mais perto. Eu a abraço quase instintivamente. Meu corpo parece se lembrar do movimento, mesmo que minha mente não.
Depois de um tempo, Ronan se aproxima e acaricia os cabelos da filha.
“Hora de escovar os dentes e vestir o pijama, meu bem. Amanhã teremos o dia todo juntos.”
Aoife resmunga, mas obedece. Antes de sair do quarto, ela me dá mais um abraço apertado e sussurra no meu ouvido:
“Eu te amo, mamãe. Mesmo que você ainda não se lembre. Vou esperar o tempo que for preciso.”
Quando ela sai, o cômodo fica em silêncio.
Ronan tranca a porta.
Levanto-me da cama rapidamente, cruzando os braços sobre o peito.
“Você não pode me obrigar a dormir aqui.”
Ele caminha lentamente em minha direção, tirando o resto da camisa úmida. Os músculos do peito e do abdômen se movem sob a luz fraca. A aliança na corrente balança contra sua pele. Meus olhos percorrem cada tatuagem.
“Eu posso”, diz ele simplesmente. “E eu vou.”
Ele para bem na minha frente, tão perto que consigo sentir o calor irradiando do seu corpo.
“Você pode fingir que não me quer. Pode chorar. Pode se sentir culpada.” A mão dele se ergue e segura meu queixo. “Mas esta noite você vai dormir na nossa cama. E eu vou te abraçar enquanto você dorme. Porque você é minha esposa. E eu esperei anos para fazer isso de novo.”
Engulo em seco, sentindo aquele maldito calor voltar à minha barriga, apesar de tudo.
“Tenho medo de você”, confesso, com a voz quase inaudível.
Ele se inclina para frente, encostando a testa na minha. Sua respiração está quente contra meus lábios.
“Ótimo. O medo é um bom começo.” Ele roça o nariz no meu. “Porque, quando o medo se mistura com o desejo… é aí que você começa a se lembrar de quem você realmente é.”
Ele me beija. Devagar desta vez. Quase gentilmente. Mas ainda possessivo. Ainda dominante.
E eu, contra toda a minha vontade, fecho os olhos e retribuo o beijo.
Só um pouquinho.
O suficiente para me odiar ainda mais.
Paciente compatível com identificação fornecida pela família.A família. Não, a paciente. Não há exames. Não reconhecimento. A família.— Ele nem sequer confirmou quem ela era — murmuro, e a constatação sai mais amarga do que eu pretendia.— Não precisava.Julian fecha os olhos, e vejo os músculos do rosto se contraírem.— Meu Deus.Olho novamente para Eleanor.— Quando Siobhan acordou, quem estava com ela?— Hayes é o pai de Charlotte.— Meu pai estava lá? — Julian pergunta outra vez, mas agora a voz está diferente, mais rouca.Eleanor assente.— Sim.— Ele falou com ela?— Não sei.— Mas estava lá.— Sim.Julian se afasta da mesa, os passos pesados. A raiva em seu rosto é tão evidente que até eu consigo senti-la.— Então meu pai sabia que a mulher que saiu daquele hospital não era Charlotte.— Sim.— Durante seis anos?— Sim.Ele ri uma única vez, sem humor.— Eu passei seis anos acreditando que amava uma mulher chamada Charlotte.Ninguém responde. Julian olha para mim, e há algo em
RONANPor alguns segundos, ninguém fala.A palavra "acordo" permanece na sala como uma sentença, pesada demais para ser ignorada e vaga demais para satisfazer a pergunta que agora exige uma resposta. Observo Julian, que parece ter envelhecido diante dos meus olhos nos últimos minutos. Ele continua olhando para Eleanor como se esperasse que ela desfizesse tudo o que acabou de dizer, como se bastasse uma explicação diferente para que a mulher que ama volte a ser simplesmente Charlotte Beaumont, sua noiva, e nada mais.Eu conheço aquela expressão. É a mesma que vi no meu próprio rosto quando acordei seis anos atrás e perguntei pela minha esposa. A diferença é que, naquele momento, me deram uma mentira pronta. Agora Julian está começando a enxergar a verdade.— Que acordo? — pergunto, e a voz sai mais baixa do que eu pretendia.Eleanor ergue os olhos para mim. Há cansaço em seu rosto, mas também a expressão de alguém que passou tempo demais guardando um segredo e finalmente percebeu que n
Mais uma pessoa morta. Outra peça desaparecida. Outra vida que foi apagada para que o segredo pudesse ser mantido.— Quando morreu?— Pouco depois do nascimento das meninas.— Naturalmente?Eleanor levanta os olhos, e há algo neles que parece desafio.— Não.O silêncio que segue me incomoda, pesado e carregado de possibilidades.— Então como?— Foi um acidente.Ronan percebe a escolha das palavras imediatamente, os olhos se apertando.— Acidente?— É assim que registraram.Minha atenção se concentra, cada nervo do meu corpo em alerta. É a mesma palavra. A palavra que aparece em toda parte desta história. Acidente. Mas cada vez que alguém a usa, existe alguma coisa escondida por trás.— Ela foi assassinada? — Minha voz é baixa, mas firme.Eleanor não responde diretamente, os olhos fixos em algum ponto distante.— Clara descobriu o que o marido pretendia fazer com as meninas. Tentou impedir.— Ele queria separar as duas.— Sim.— E conseguiu.— Conseguiu.Meu olhar cai para as minhas mã
JULIANA notícia chega até mim quando ainda estou no corredor lateral da mansão.— Uma mulher.Apenas isso. Duas palavras que ecoam pelo rádio como um aviso, um prenúncio de algo que ainda não compreendo completamente. Depois de tudo o que descobrimos naquela noite — os registros, as fotografias, os nomes que se acumulam como camadas de uma mentira que parece não ter fim —, aprendi que poucas palavras podem esconder uma quantidade assustadora de informações. Uma mulher desconhecida apareceu no perímetro dos Gallagher, atravessou uma área que deveria estar sob vigilância, e afirmou que veio atrás de Charlotte Beaumont.Meu primeiro pensamento é simples: uma armadilha. Alguém enviado para nos confundir, para plantar mais dúvidas, para nos fazer correr em círculos enquanto o verdadeiro inimigo se aproxima pelas sombras.Meu segundo pensamento é pior. E se ela realmente souber alguma coisa? E se for a primeira pessoa em seis anos capaz de explicar por que a mulher que amo está vivendo com
CAPÍTULO 25CHARLOTTEA mulher está parada no corredor, iluminada pela luz vermelha das emergências, e eu sinto o mundo inteiro inclinar-se sobre seu eixo.Ela não é o que eu esperava. Quando ouvi que alguém tinha vindo me procurar — alguém que conhecia Charlotte Beaumont —, imaginei uma figura ameaçadora, alguém enviado para me confundir ou me machucar. Mas a mulher diante de mim tem olhos cansados e mãos que tremem ligeiramente ao segurar a alça de uma bolsa surrada. Ela parece... humana. Frágil. Como alguém que carrega um peso há muito tempo e finalmente encontrou coragem para colocá-lo no chão.Ronan está na minha frente, o corpo tenso, a arma ainda na mão. Ele não confia nela. Eu também não deveria. Mas há algo nos olhos daquela mulher que me faz querer ouvir o que ela tem a dizer. Algo que parece... arrependimento.— Você disse que conhece Charlotte Beaumont. — Minha voz sai mais firme do que eu esperava.A mulher olha para mim, e seus olhos se enchem de lágrimas.— Conheço. — A
RONANEdward Hayes está dentro da minha casa.A informação atravessa meu corpo como uma corrente elétrica, cada músculo se tensionando ao mesmo tempo. O homem ferido ainda está no chão, o sangue escorrendo entre meus dedos, mas eu já não estou mais ali. Minha mente já voltou para a mansão, para o corredor onde deixei Charlotte, para a promessa que acabei de fazer.Eu volto.A passagem de volta até a casa parece mais longa do que deveria. A fumaça da explosão ainda paira no ar, e os homens correm em todas as direções, armas em punho, rádios crepitando com ordens sobrepostas. Luka está atrás de mim, a voz dele chegando em fragmentos enquanto ele coordena a defesa.— Cerquem o perímetro! Ninguém entra, ninguém sai!Eu não paro. Atravesso o pátio, subo os degraus da entrada lateral, e o corredor que leva à sala de segurança está mergulhado em uma penumbra que parece mais densa do que antes. As luzes de emergência piscam em intervalos irregulares, pintando as paredes de vermelho.— Charlot







