로그인O café da manhã termina em um silêncio tenso que só Aoife parece não sentir. Ela tagarela animadamente sobre seus planos para o dia, alheia à tempestade silenciosa que se forma entre mim e Ronan. Cada vez que nossos olhares se cruzam, sinto o peso da promessa que ele sussurrou no escuro.
“Vou te foder até você perder a voz.”
Um arrepio percorre minha espinha. Tento me concentrar na voz melodiosa de Aoife, mas a presença de Ronan ao meu lado é sufocante. Sua mão ainda repousa possessivamente em minha coxa, um lembrete constante de que não há escapatória.
“Posso mostrar meu quarto para a mamãe agora?”, pergunta Aoife, pulando da cadeira com uma energia contagiante.
Ronan limpa a boca com o guardanapo, seus movimentos deliberadamente lentos. “Claro, princesa. Mas depois, sua mãe e eu precisamos conversar.”
A palavra “conversar” parece uma ameaça velada.
Aoife me puxa pela mão e eu me deixo conduzir escada acima. Cada degrau me afasta temporariamente de Ronan, mas consigo sentir o olhar dele queimando em minhas costas.
O quarto de Aoife é um universo à parte do resto da casa sombria. Paredes cobertas de estrelas que brilham no escuro, prateleiras abarrotadas de livros e bichos de pelúcia, e uma parede inteira dedicada a desenhos colados com fita adesiva.
“Este é o mural”, ela anuncia orgulhosamente, puxando-me em direção à parede. “Cada desenho representa um dia em que esperei você voltar.”
Meu coração para.
Há centenas de desenhos. Traços infantis mostrando uma mulher morena, um homem tatuado e uma menininha loira entre eles. Em alguns, estamos na praia; em outros, em um parque; muitos mostram esta mesma casa que mal conheço.
“Este foi quando fiz dez anos.” Ela aponta para um desenho de um bolo com velas tortas. “Eu pedi você de presente. Papai disse que eu era igualzinha a você, que insistia até conseguir o que queria.”
As lágrimas ardem nos meus olhos. Como posso não me lembrar dela?
“Aoife…” minha voz falha. “Não me lembro de nada disso. E isso me dói — não porque você não seja importante, mas porque algo apagou tudo da minha mente.”
Ela me olha com uma seriedade que vai além da sua idade. “Papai explicou que, às vezes, quando sofremos muito, nossa mente esconde coisas para não nos quebrarmos.” Ela pega minha mão. “Mas eu vou te ajudar a lembrar. Eu sei todas as nossas histórias.”
Antes que eu pudesse responder, alguém pigarreou na porta.
“Posso entrar, princesas?”
É o loiro tranquilo do avião — Luka. De perto, ele parece ainda mais perigoso justamente por não aparentar ser ameaçador. Olhos claros, um sorriso fácil e a postura de quem está sempre observando.
“Luka!” Aoife corre até ele, e ele a levanta no ar, fazendo-a rir.
“Como está nossa artista favorita?”, pergunta ele, apertando o nariz dela carinhosamente.
“Mostrando o mural para a mamãe.”
O olhar de Luka se volta para mim. Não é um olhar cru como o de Ronan, mas analítico, como se ele estivesse estudando cada uma das minhas reações.
“É bom finalmente te encontrar acordada, Siobhan”, ele diz com um sorriso que deveria ser reconfortante, mas que me causa arrepios.
“Ela não se lembra”, corrige Aoife imediatamente. “Por enquanto, você precisa chamá-la de Charlotte.”
Luka inclina a cabeça. “Charlotte, então. Ronan pediu para eu avisar que ele precisa sair por algumas horas. Trabalho.” Ele faz uma pausa significativa. “Ele disse que você pode ficar com a Aoife, mas não… dar umas voltas pela cidade.”
A mensagem é clara: não tente fugir.
“Não vou a lugar nenhum”, minto, porque não tenho escolha.
Luka me observa por mais um segundo, como se pudesse ler meus pensamentos. “Boa garota. Se precisar de alguma coisa, estarei no escritório.”
As próximas horas passam num estranho borrão.
Aoife me guia pela casa, mostrando-me cada canto “seguro” — seu ateliê, a biblioteca onde supostamente eu lia para ela, o jardim que ela chama de “nosso universo secreto”. Em cada lugar, há vestígios de uma vida que não reconheço: um livro com anotações nas margens, uma caneca com o nome “Sírius” nela, um casaco esquecido em uma cadeira.
É como caminhar por um museu da minha própria existência perdida.
No final da tarde, Aoife se aconchega no meu colo no sofá da sala, exausta de tanto conversar. “Você costumava acariciar meu cabelo assim até eu dormir”, ela murmura sonolenta. “Sempre.”
Minhas mãos, por instinto, iniciam o movimento — os dedos deslizando suavemente e ritmicamente pelas mechas loiras.
E então acontece.
A imagem surge do nada: o mesmo sofá, uma Aoife menor com uma chupeta, meus dedos em seu cabelo enquanto eu cantarolo baixinho uma melodia cuja origem desconheço. O quarto iluminado apenas por um abajur. O cheiro de chuva pela janela entreaberta. É uma grande sombra na porta, observando com devoção.
Ronan.
O vislumbre é tão rápido quanto um relâmpago, mas forte o suficiente para me deixar sem fôlego.
Eu lembro.
Nem tudo. Mas aquele momento. Aquela sensação de pertencimento, de amor, de… lar.
Meu coração dispara, confuso e aterrorizado. Se eu continuar por esse caminho, do que mais me lembrarei? E pior — será que isso destruirá o ódio que preciso sentir por Ronan para ter forças para escapar?
Aoife adormece em poucos minutos. Permaneço imóvel, com a mão perdida em seus cabelos, enquanto a casa respira ao nosso redor.
É nesse momento que eu o sinto.
Não ouço passos. Eu apenas sei.
Quando levanto os olhos, Ronan está na entrada da sala de estar. Terno escuro, gravata frouxa, cabelo úmido da chuva. Ele parece uma tempestade em forma humana.
Seus olhos percorrem a cena: Aoife dormindo em meu colo, minha mão acariciando seus cabelos, exatamente como antes.
Algo se ilumina em seu rosto. Não é o sorriso cruel do triunfo. É algo mais perigoso porque é genuíno.
Esperança.
Ele se aproxima em silêncio e se ajoelha ao lado do sofá, ficando na altura dos meus olhos.
“Você se lembrou de algo”, ele diz suavemente. Não é uma pergunta. É uma afirmação.
Eu poderia negar. Mas o brilho em seus olhos me diz que ele já sabe.
“Um fragmento”, admito em um sussurro. “Nada importante.”
Para ele, parece ser o mundo inteiro.
A mão de Ronan sobe lentamente até tocar meu pulso — o mesmo que repousa na cabeça de Aoife. O contato é quente, firme. Um círculo se fecha: pai, mãe, filha.
“Por hoje é só”, ele responde, e, pela primeira vez, sua voz não soa como uma ordem. Soa como gratidão. “Obrigado por não ter fugido.”
“Eu não fiquei por você”, respondo automaticamente. “Eu fiquei por ela.”
“Eu sei.” O canto da boca dele se ergue num meio sorriso cansado. “Você sempre fez as coisas certas por ela. Mesmo quando me odiava.”
Ele se inclina e beija a testa de Aoife com reverência. Então, seus olhos encontram meus lábios por um segundo que parece durar uma eternidade. Prendo a respiração, esperando por outra investida.
Mas ele não faz nada. Simplesmente fica de pé e desliza os braços por baixo do corpo de Aoife para levantá-la, sem quebrar o contato visual.
“Venham”, diz ele num tom que não admite contestação, mas que também não soa como uma ameaça imediata. “Hora de colocar nossa princesa na cama. Depois…” Seus olhos escurecem. “Nós vamos… conversar.”
Eu sei que “conversar” raramente significa apenas palavras em sua língua.
Mesmo assim, continuo de pé. Porque, pela primeira vez desde que acordei neste pesadelo, uma pequena parte curiosa de mim quer saber o que mais minha mente está escondendo.
E se a memória for a única arma que tenho contra o homem que alega ser meu marido… então talvez eu precise entrar na boca da fera para encontrar a saída.
Mas, enquanto subo as escadas atrás dele, carregando Aoife adormecida, não consigo ignorar a terrível verdade que se forma em meu peito:
Cada lembrança que retorna não me liberta.
Isso me prende ainda mais.
Paciente compatível com identificação fornecida pela família.A família. Não, a paciente. Não há exames. Não reconhecimento. A família.— Ele nem sequer confirmou quem ela era — murmuro, e a constatação sai mais amarga do que eu pretendia.— Não precisava.Julian fecha os olhos, e vejo os músculos do rosto se contraírem.— Meu Deus.Olho novamente para Eleanor.— Quando Siobhan acordou, quem estava com ela?— Hayes é o pai de Charlotte.— Meu pai estava lá? — Julian pergunta outra vez, mas agora a voz está diferente, mais rouca.Eleanor assente.— Sim.— Ele falou com ela?— Não sei.— Mas estava lá.— Sim.Julian se afasta da mesa, os passos pesados. A raiva em seu rosto é tão evidente que até eu consigo senti-la.— Então meu pai sabia que a mulher que saiu daquele hospital não era Charlotte.— Sim.— Durante seis anos?— Sim.Ele ri uma única vez, sem humor.— Eu passei seis anos acreditando que amava uma mulher chamada Charlotte.Ninguém responde. Julian olha para mim, e há algo em
RONANPor alguns segundos, ninguém fala.A palavra "acordo" permanece na sala como uma sentença, pesada demais para ser ignorada e vaga demais para satisfazer a pergunta que agora exige uma resposta. Observo Julian, que parece ter envelhecido diante dos meus olhos nos últimos minutos. Ele continua olhando para Eleanor como se esperasse que ela desfizesse tudo o que acabou de dizer, como se bastasse uma explicação diferente para que a mulher que ama volte a ser simplesmente Charlotte Beaumont, sua noiva, e nada mais.Eu conheço aquela expressão. É a mesma que vi no meu próprio rosto quando acordei seis anos atrás e perguntei pela minha esposa. A diferença é que, naquele momento, me deram uma mentira pronta. Agora Julian está começando a enxergar a verdade.— Que acordo? — pergunto, e a voz sai mais baixa do que eu pretendia.Eleanor ergue os olhos para mim. Há cansaço em seu rosto, mas também a expressão de alguém que passou tempo demais guardando um segredo e finalmente percebeu que n
Mais uma pessoa morta. Outra peça desaparecida. Outra vida que foi apagada para que o segredo pudesse ser mantido.— Quando morreu?— Pouco depois do nascimento das meninas.— Naturalmente?Eleanor levanta os olhos, e há algo neles que parece desafio.— Não.O silêncio que segue me incomoda, pesado e carregado de possibilidades.— Então como?— Foi um acidente.Ronan percebe a escolha das palavras imediatamente, os olhos se apertando.— Acidente?— É assim que registraram.Minha atenção se concentra, cada nervo do meu corpo em alerta. É a mesma palavra. A palavra que aparece em toda parte desta história. Acidente. Mas cada vez que alguém a usa, existe alguma coisa escondida por trás.— Ela foi assassinada? — Minha voz é baixa, mas firme.Eleanor não responde diretamente, os olhos fixos em algum ponto distante.— Clara descobriu o que o marido pretendia fazer com as meninas. Tentou impedir.— Ele queria separar as duas.— Sim.— E conseguiu.— Conseguiu.Meu olhar cai para as minhas mã
JULIANA notícia chega até mim quando ainda estou no corredor lateral da mansão.— Uma mulher.Apenas isso. Duas palavras que ecoam pelo rádio como um aviso, um prenúncio de algo que ainda não compreendo completamente. Depois de tudo o que descobrimos naquela noite — os registros, as fotografias, os nomes que se acumulam como camadas de uma mentira que parece não ter fim —, aprendi que poucas palavras podem esconder uma quantidade assustadora de informações. Uma mulher desconhecida apareceu no perímetro dos Gallagher, atravessou uma área que deveria estar sob vigilância, e afirmou que veio atrás de Charlotte Beaumont.Meu primeiro pensamento é simples: uma armadilha. Alguém enviado para nos confundir, para plantar mais dúvidas, para nos fazer correr em círculos enquanto o verdadeiro inimigo se aproxima pelas sombras.Meu segundo pensamento é pior. E se ela realmente souber alguma coisa? E se for a primeira pessoa em seis anos capaz de explicar por que a mulher que amo está vivendo com
CAPÍTULO 25CHARLOTTEA mulher está parada no corredor, iluminada pela luz vermelha das emergências, e eu sinto o mundo inteiro inclinar-se sobre seu eixo.Ela não é o que eu esperava. Quando ouvi que alguém tinha vindo me procurar — alguém que conhecia Charlotte Beaumont —, imaginei uma figura ameaçadora, alguém enviado para me confundir ou me machucar. Mas a mulher diante de mim tem olhos cansados e mãos que tremem ligeiramente ao segurar a alça de uma bolsa surrada. Ela parece... humana. Frágil. Como alguém que carrega um peso há muito tempo e finalmente encontrou coragem para colocá-lo no chão.Ronan está na minha frente, o corpo tenso, a arma ainda na mão. Ele não confia nela. Eu também não deveria. Mas há algo nos olhos daquela mulher que me faz querer ouvir o que ela tem a dizer. Algo que parece... arrependimento.— Você disse que conhece Charlotte Beaumont. — Minha voz sai mais firme do que eu esperava.A mulher olha para mim, e seus olhos se enchem de lágrimas.— Conheço. — A
RONANEdward Hayes está dentro da minha casa.A informação atravessa meu corpo como uma corrente elétrica, cada músculo se tensionando ao mesmo tempo. O homem ferido ainda está no chão, o sangue escorrendo entre meus dedos, mas eu já não estou mais ali. Minha mente já voltou para a mansão, para o corredor onde deixei Charlotte, para a promessa que acabei de fazer.Eu volto.A passagem de volta até a casa parece mais longa do que deveria. A fumaça da explosão ainda paira no ar, e os homens correm em todas as direções, armas em punho, rádios crepitando com ordens sobrepostas. Luka está atrás de mim, a voz dele chegando em fragmentos enquanto ele coordena a defesa.— Cerquem o perímetro! Ninguém entra, ninguém sai!Eu não paro. Atravesso o pátio, subo os degraus da entrada lateral, e o corredor que leva à sala de segurança está mergulhado em uma penumbra que parece mais densa do que antes. As luzes de emergência piscam em intervalos irregulares, pintando as paredes de vermelho.— Charlot







