FAZER LOGINApós voltar para casa naquela sexta feira, Helena se trancou em seu apartamento.
O fim de semana foi de tristeza e solidão, mesmo sabendo e vendo tudo, ela ainda não aceitava o fim de tudo de forma tão trágica. Na segunda-feira de manhã, Helena voltou ao trabalho como se nada tivesse acontecido. E, de certa forma, era exatamente isso. Nada. Não havia mais casamento, nem havia mais ilusões. Não havia mais espaço para fraqueza. O barulho de seus sapatos ecoavam pelo corredor da Mode com precisão quase militar. Seu semblante estava sério, e sua paciência estava esgotada, quase inexistente. Novamente vestida em sua armadura, ela estava em sua sala. Sentada atrás da ampla mesa de madeira escura, ela analisava o cronograma da próxima edição quando ouviu duas batidas suaves na porta. Alice apareceu brevemente na porta. — Helena? — Sim. — O novo fotógrafo chegou. Helena não levantou o olhar imediatamente. Uma nova contratação, que não era escolha sua mas de seu superior desconhecido. Ela havia sido comunicada por e-mail sobre ele. Mais uma responsabilidade, explicar como eram as regras na Mode. — Qual é o nome dele? — Lucas Almeida Ferraz. Algo no nome soou estranho. Familiar, mas distante. Helena ignorou a sensação. — Pode mandar entrar. Ela fechou o arquivo que estava analisando, se acomodou melhor na cadeira e aguardou. E quando a porta se abriu, ele entrou. Helena ergueu o olhar, e por um breve momento, seu ar falhou. Mais jovem do que ela esperava. Alto, postura despojada e desafiadora. Passos calmos e um leve sorriso nos lábios. Camisa preta, mangas levemente dobradas, revelando antebraços fortes e veias salientes. Cabelo negro desalinhado na medida exata do proposital e um olhar tão intenso que parecia observar muito mais do que deveria. Talvez uns vinte e três anos. — Helena Duarte? — perguntou ele. — Sim. Ele sorriu. — Lucas Almeida. O novo fotógrafo. Helena levantou-se para cumprimentá-lo. — Claro. Seja bem-vindo à Mode. Apertaram as mãos, foi um breve toque, mas que fez Helena se arrepiar. A mão de Lucas era quente e firme. Lucas a observava de uma forma que a deixou desconfortável. Não era um olhar invasivo. Era atento e detalhista. Como se estivesse tentando enxergar além da mulher modesta e controlada que ela apresentava ao mundo. — Trouxe meu portfólio — disse ele. Helena indicou a cadeira. — Pode se sentar. Lucas acomodou-se enquanto retirava um tablet da pasta. Durante os minutos seguintes, mostrou campanhas publicitárias, editoriais de moda, ensaios artísticos e retratos. Helena passou as imagens uma a uma. Seu profissionalismo logo falou mais alto. As fotografias eram impressionantes. Cada imagem parecia contar uma história. Ela fechou o tablet. — Seu trabalho é excelente. — Obrigado. — Muito acima do que eu esperava. O sorriso dele aumentou. — Isso é um elogio ou uma crítica? Helena quase sorriu. — Um elogio. — Ótimo. Porque eu estava começando a ficar preocupado. Ela balançou a cabeça, contendo a reação. Lucas tinha um jeito leve e natural. Então percebeu que ele ainda a observava, da mesma forma, atencioso demais. — O que foi? — perguntou ela. — Nada. Ele apoiou um braço na cadeira. — Você parece cansada. Helena parou seus movimentos, a mudança de assunto a pegou desprevenida. — Desculpe? — Você tem o olhar de quem não dorme direito há dias. O silêncio caiu sobre a sala e Helena sentiu o estômago contrair. Ela não entendia o porquê dele dizer aquilo. — Acho que isso não é da sua conta. — Não é. — Então não faça observações desse tipo. É grosseiro de sua parte. Lucas imediatamente endireitou a postura. — Tem razão. Ela voltou o olhar para as fotos dos trabalhos de Lucas. Mas ele não se contentou, continuou. Agora com a voz mais suave. — Peço desculpas. Helena não respondeu. — Foi atrevido da minha parte. Ela respirou fundo. — Foi. Lucas assentiu. — É que... Ela levantou os olhos. — O quê? — Eu trabalho observando pessoas. — novamente seus olhos âmbar fitavam ela — E seus olhos não combinam com a mulher que todo mundo vê aqui fora. Aquilo a atingiu como uma flecha. Por um instante, Helena não conseguiu responder. Porque ninguém dizia coisas assim. Todos a enxergavam como uma editora impecável. Ninguém percebia o cansaço, a tristeza ou a solidão. Ninguém sabia sobre a traição e seu divórcio, além de Alice. Mas Lucas parecia ter percebido tudo em poucos minutos. E isso a assustava. — Você não sabe nada sobre mim. — Eu sei. — Então não tire conclusões. — Não estou tirando. Ele sorriu de leve. — Só estou dizendo o que meus olhos veem. Helena sentiu o rosto aquecer. Um constrangimento inesperado tomou conta dela. Desviou o olhar imediatamente. — Pare com isso. — Certo. — Estou falando sério. — Eu também. Ela respirou fundo novamente. Precisava retomar o controle daquela conversa. — Bem… — Disse ela apagando a tela do tablet novamente — Você está contratado. Lucas arqueou uma sobrancelha. — Apesar da minha péssima primeira impressão? — Apesar dela. Ele sorriu. — Que alívio. — Hoje à tarde vou mostrar toda a editora. — Perfeito. — Inclusive o estúdio fotográfico. — Estou ansioso para conhecer. Helena levantou-se. A conversa estava encerrada, ou pelo menos deveria estar. Lucas também se levantou. Pegou seu tablet, colocou na sua pasta e caminhou até a porta. Mas antes de sair, voltou-se para ela. — Helena? — Sim? — Espero que você consiga dormir esta noite. Você merece. Ela congelou. E ele simplesmente sorriu, de forma gentil, sem ironia ou malícia. Então saiu. A porta se fechou e o silêncio retornou à sala. Helena permaneceu imóvel por alguns segundos. Depois voltou para sua cadeira. Tentou retomar o trabalho, aos relatórios. Tentou ignorar a sensação estranha que permanecia em seu peito. Mas era impossível. Seu coração estava acelerado demais. Ela apoiou a mão direita sobre o próprio peito, como se pudesse controlar os batimentos e acalmar a sua inquietação. Mas já era tarde demais. Porque Lucas Ferraz acabara de enxergar algo que ninguém via. E Helena não sabia se isso a assustava... Ou se a atraía.A claridade suave da manhã invadia a suíte, desenhando sombras delicadas sobre o lençol. Ao se espreguiçar devagar, Lucas percebeu que Helena já estava desperta, o olhar fixo no teto em uma contemplação silenciosa. Com um movimento lento e envolvente, ele a puxou mais para perto, colando o peito quente às costas dela e depositando um beijo demorado na curva macia de sua nuca.— Bom dia... — murmurou ele, a voz rouca carregada de um carinho manhoso.— Bom dia — respondeu ela, ajustando-se ao abraço. — Dormiu bem?— Eu sim... mas pelo jeito, você não dormiu quase nada — observou ele, desfazendo sutilmente o abraço para que ela pudesse se virar.Helena girou o corpo na cama, ficando de frente para ele, sustentando aquele olhar âmbar que sempre a desarmava.— Dormi sim, mas tive um sono leve. Nada de mais — respondeu de forma calma, esboçando um sorriso contido. — Toma café comigo antes de sair?Lucas a beijou suavemente nos lábios, prolongando o toque antes de se afastar um centímetro.—
A volta para casa transcorreu em um silêncio denso. Lucas mantinha as mãos firmes no volante, lançando olhares de relance para o banco do carona enquanto cruzava as avenidas iluminadas. Dentro do carro, a penumbra suavizava os contornos do rosto dela, mas não conseguia camuflar a melancolia que pesava sobre seus ombros.Ela travava uma batalha interna. Não queria mais se permitir sofrer por aquela história vencida, mas o veneno das palavras de Ricardo ainda a atormentava. Como pôde, um dia, ter amado tanto aquele homem? Como poderia ter se doado com tanta intensidade e admirado alguém que, no fundo, provava não valer nada? A sensação de ter rasgado anos da própria vida diante de tamanha pequenez moral era uma ferida difícil de fechar.No elevador do prédio, o isolamento do espaço pequeno pareceu estreitar a cumplicidade entre os dois. Lucas envolveu-a em um abraço silencioso, acolhendo-a contra seu peito em um gesto de puro conforto.
Ao fim daquela tarde, Helena retornou ao seu apartamento ainda absorvendo os resquícios da resposta ríspida recebida da diretoria sobre o Grupo Ferraz. O que provava que o novo dono não queria ninguém de fora em sua empresa. Não demorou para que a notificação de seu celular acendesse com uma breve mensagem de Lucas: "A noite está bonita demais para ficarmos trancados. Janta comigo hoje?". O convite simples, carregado de um romantismo sutil, trouxe um sorriso instantâneo aos seus lábios. Helena aceitou sem hesitar. O restaurante escolhido por ele ficava no topo de um edifício elegante no coração da cidade. O ambiente era sofisticado, à meia-luz, decorado com arranjos discretos e embalado pelo som suave de um piano ao fundo. Helena já não estranhava estar em um local tão elitizado ao lado dele; desde que Lucas revelara sua origem como filho de alguém influente da elite, sua postura aristocrática e a naturalidade com que tra
Helena compreendeu, com uma clareza quase avassaladora, que já não possuía qualquer defesa contra o charme e a intensidade de Lucas. Naquela madrugada, a reconciliação dos dois se fez através de uma entrega profunda, envolvente e visceral. No calor daqueles lençóis, na penumbra que escondia seus medos e revelava suas fragilidades, renderam-se mais uma vez à luxúria crua, desacelerando os batimentos cardíacos apenas quando o cansaço e a satisfação absoluta finalmente os dominaram. Helena se sentia como uma jovem com os hormônios em alta e sem pudor de se entregar a Lucas. Quanto mais ela tinha dele, mais ela o queria. Quando o dia amanheceu, Lucas despertou e evitou qualquer movimento brusco na cama. Manteve-se imóvel para não despertar Helena, que dormia de forma plena e serena aninhada em seu peito, com a respiração suave roçando sua pele. Ele a contemplou por longos minutos, o olhar tomad
Na penumbra acolhedora da cobertura, o silêncio era interrompido apenas pela respiração ritmada dos dois e pelo atrito suave dos dedos de Lucas acariciando as costas de Helena. No entanto, a mente dele trabalhava em ritmo acelerado. Lucas sabia que aquele abraço, por mais quente e seguro que parecesse, ainda era frágil. A sombra da dúvida continuaria a assombrá-los a menos que ele abrisse as portas do seu passado; Helena jamais confiaria nele de forma plena se continuasse no escuro.Com a voz baixinha e carregada de uma gravidade incomum, ele quebrou o silêncio:— Existem algumas coisas sobre mim que você precisa saber... coisas que eu nunca disse a ninguém.Ao ouvir o tom dele, Helena afastou-se ligeiramente, erguendo o corpo no colo dele para olhar diretamente em seus olhos âmbar.— Muitas coisas, Lucas — corrigiu ela com suavidade, mas firmeza. — Você sabe praticamente tudo sobre a minha vida, os meus erros e dores, mas eu n
— Que jogo, Lucas? — a voz de Helena falhou, o tremor denunciando a tempestade interna que a corroía. — Eu não estou te entendendo!Lucas deu mais um passo, sustentando o olhar com uma firmeza soberana. A intensidade que emanava dele não era de confronto, mas de alguém que domina absolutamente cada peça do tabuleiro.— A sua mente está criando um jogo muito perigoso para te dar respostas que simplesmente não existem — rebateu ele, a voz descendo a um tom grave, aveludado e visceral. — Eu não quero o seu cargo, Helena. Eu definitivamente não preciso dele.— Então me diz! — As lágrimas finalmente transbordaram, descendo quentes pelas bochechas de Helena. A vulnerabilidade de quem já fora traída antes por Ricardo vinha à tona, crua e desarmada. — Por que você sumiu ontem? Por que fez aquilo pelas minhas costas?Os olhos de Helena brilhavam, marejados pelo acúmulo de ansiedade e pavor. Ela ansiava por respostas; precisava desesperadamente resgata







