INICIAR SESIÓNHelena estava sentada, olhando para o papel à sua frente.
Seu nome já estava ali, só faltava a assinatura. Ricardo estava do outro lado da mesa, impaciente e distante, como se aquilo fosse apenas mais um compromisso inconveniente. — Assina logo, Helena. Disse ele já alterado pela impaciência. Ela ergueu os olhos lentamente, mirando no rosto dele. Por um segundo, quis perguntar por quê. Quis exigir mais explicações. Quis que ele dissesse que tudo aquilo tinha sido um erro. Mas não havia nada ali para sustentar isso. — Não precisamos fazer isso, Ricardo. Nós podemos tentar outros meios, achar outras saídas. — disse ela com a voz baixa. Ricardo soltou um suspiro irritado. — Tentar o quê? Você sabe muito bem qual é o problema. Você é o problema. Mais uma vez a acusação. — Não sou um problema Ricardo! — Eu quero uma família — ele cortou, frio. — Filhos. E com você… isso não vai acontecer. — Nós poderíamos ter adotado uma criança! — Não vou criar uma criança que não seja minha Helena. Helena apertou a caneta. O metal frio entre seus dedos parecia a única coisa real naquele momento. — Há quanto tempo você está me traindo Ricardo? Ele não respondeu, manteve sua postura altiva e esnobe. — Eu não escolhi isso… — sussurrou — Não escolhi terminar assim. — Mas eu escolho não continuar esse casamento fracassado — rebateu ele. E neste momento tudo acabou de vez, qualquer dúvida ou esperança que Helena ainda carregava. Nos papéis estavam escritos que ela havia aberto mão de tudo o que compraram e construíram juntos, por que no fundo de seu coração, ela pensava que ele iria se arrepender. Mas agora já não havia mais esperança. Seu coração já ferido agora estava totalmente quebrado. Seu casamento havia realmente chegado ao fim. E então Helena abaixou o olhar, e assinou o papel. O som da caneta que desenhava seu nome tornava aquilo definitivo e irreversível. Ricardo puxou os papéis imediatamente. Sem olhar para ela. — Era o melhor a se fazer. Ainda que tarde. Helena não respondeu. Não havia mais o que dizer. Ele se levantou e sem olhar para ela disse: — Você vai ficar bem Helena. Você é quase um general. As coisas não serão tão diferentes para você a partir de agora, já que sua vida sempre foi o trabalho. Ela soltou uma risada baixa. — Claro! É tão fácil para você dizer isso, não foi você que foi traído. Antes de sair, ele parou na porta, como se lembrasse de algo relevante. — Eu espero que você entenda quando me ver com outra pessoa na rua. Helena ergueu o olhar. — Você ainda está com ela? Aquela garota? Ele deu de ombros. — Sim. Ela é jovem, bonita e espontânea. Me faz feliz e é isso o que eu quero para mim. E então ele finalmente saiu da sala, deixando Helena totalmente quebrada, travada, ao lado do advogado. No fim do corredor, encostado discretamente próximo à saída, Lucas Ferraz aguardava. Óculos escuros escondendo o olhar que estava atento a tudo. Ele acompanhou cada gesto. Ele viu Ricardo sair. Viu a forma como ele passou direto, sem olhar para trás. Imponente e com um leve sorriso nos lábios. E então olhou para a porta que ainda estava fechada. Para onde Helena estava. Seus dedos que rolavam a tela do celular pararam de se mover. Seu olhar escureceu levemente. E um pensamento silencioso se formou. — Então acabou! Ele guardou o celular em seu bolso, endireitou o corpo e também sorriu, de forma leve, como quem ganha um presente. Helena saiu do escritório com uma postura impecável. Salto firme, cabeça erguida, óculos escuros para que ninguém visse seus olhos vermelhos. Como se não tivesse acabado de enterrar um casamento de oito anos. Ela estava se controlando, controlando as emoções e sua imagem. Ela não era fraca, nunca foi, só estava quebrada. E isso, para ele, era o ponto mais interessante. Porque pessoas quebradas podem ser reconstruídas, do jeito certo, com a pessoa certa. Ele tirou o celular do bolso de sua jaqueta. Digitou uma mensagem rapidamente para o contato já salvo anteriormente. “Acabou. Você fez muito bem o trabalho.” Resposta rápida: “E agora?” Lucas sorriu. “Agora faça o que quiser, seu pagamento já foi feito.” Ele bloqueou o número e saiu do prédio, sem olhar para trás.A claridade suave da manhã invadia a suíte, desenhando sombras delicadas sobre o lençol. Ao se espreguiçar devagar, Lucas percebeu que Helena já estava desperta, o olhar fixo no teto em uma contemplação silenciosa. Com um movimento lento e envolvente, ele a puxou mais para perto, colando o peito quente às costas dela e depositando um beijo demorado na curva macia de sua nuca.— Bom dia... — murmurou ele, a voz rouca carregada de um carinho manhoso.— Bom dia — respondeu ela, ajustando-se ao abraço. — Dormiu bem?— Eu sim... mas pelo jeito, você não dormiu quase nada — observou ele, desfazendo sutilmente o abraço para que ela pudesse se virar.Helena girou o corpo na cama, ficando de frente para ele, sustentando aquele olhar âmbar que sempre a desarmava.— Dormi sim, mas tive um sono leve. Nada de mais — respondeu de forma calma, esboçando um sorriso contido. — Toma café comigo antes de sair?Lucas a beijou suavemente nos lábios, prolongando o toque antes de se afastar um centímetro.—
A volta para casa transcorreu em um silêncio denso. Lucas mantinha as mãos firmes no volante, lançando olhares de relance para o banco do carona enquanto cruzava as avenidas iluminadas. Dentro do carro, a penumbra suavizava os contornos do rosto dela, mas não conseguia camuflar a melancolia que pesava sobre seus ombros.Ela travava uma batalha interna. Não queria mais se permitir sofrer por aquela história vencida, mas o veneno das palavras de Ricardo ainda a atormentava. Como pôde, um dia, ter amado tanto aquele homem? Como poderia ter se doado com tanta intensidade e admirado alguém que, no fundo, provava não valer nada? A sensação de ter rasgado anos da própria vida diante de tamanha pequenez moral era uma ferida difícil de fechar.No elevador do prédio, o isolamento do espaço pequeno pareceu estreitar a cumplicidade entre os dois. Lucas envolveu-a em um abraço silencioso, acolhendo-a contra seu peito em um gesto de puro conforto.
Ao fim daquela tarde, Helena retornou ao seu apartamento ainda absorvendo os resquícios da resposta ríspida recebida da diretoria sobre o Grupo Ferraz. O que provava que o novo dono não queria ninguém de fora em sua empresa. Não demorou para que a notificação de seu celular acendesse com uma breve mensagem de Lucas: "A noite está bonita demais para ficarmos trancados. Janta comigo hoje?". O convite simples, carregado de um romantismo sutil, trouxe um sorriso instantâneo aos seus lábios. Helena aceitou sem hesitar. O restaurante escolhido por ele ficava no topo de um edifício elegante no coração da cidade. O ambiente era sofisticado, à meia-luz, decorado com arranjos discretos e embalado pelo som suave de um piano ao fundo. Helena já não estranhava estar em um local tão elitizado ao lado dele; desde que Lucas revelara sua origem como filho de alguém influente da elite, sua postura aristocrática e a naturalidade com que tra
Helena compreendeu, com uma clareza quase avassaladora, que já não possuía qualquer defesa contra o charme e a intensidade de Lucas. Naquela madrugada, a reconciliação dos dois se fez através de uma entrega profunda, envolvente e visceral. No calor daqueles lençóis, na penumbra que escondia seus medos e revelava suas fragilidades, renderam-se mais uma vez à luxúria crua, desacelerando os batimentos cardíacos apenas quando o cansaço e a satisfação absoluta finalmente os dominaram. Helena se sentia como uma jovem com os hormônios em alta e sem pudor de se entregar a Lucas. Quanto mais ela tinha dele, mais ela o queria. Quando o dia amanheceu, Lucas despertou e evitou qualquer movimento brusco na cama. Manteve-se imóvel para não despertar Helena, que dormia de forma plena e serena aninhada em seu peito, com a respiração suave roçando sua pele. Ele a contemplou por longos minutos, o olhar tomad
Na penumbra acolhedora da cobertura, o silêncio era interrompido apenas pela respiração ritmada dos dois e pelo atrito suave dos dedos de Lucas acariciando as costas de Helena. No entanto, a mente dele trabalhava em ritmo acelerado. Lucas sabia que aquele abraço, por mais quente e seguro que parecesse, ainda era frágil. A sombra da dúvida continuaria a assombrá-los a menos que ele abrisse as portas do seu passado; Helena jamais confiaria nele de forma plena se continuasse no escuro.Com a voz baixinha e carregada de uma gravidade incomum, ele quebrou o silêncio:— Existem algumas coisas sobre mim que você precisa saber... coisas que eu nunca disse a ninguém.Ao ouvir o tom dele, Helena afastou-se ligeiramente, erguendo o corpo no colo dele para olhar diretamente em seus olhos âmbar.— Muitas coisas, Lucas — corrigiu ela com suavidade, mas firmeza. — Você sabe praticamente tudo sobre a minha vida, os meus erros e dores, mas eu n
— Que jogo, Lucas? — a voz de Helena falhou, o tremor denunciando a tempestade interna que a corroía. — Eu não estou te entendendo!Lucas deu mais um passo, sustentando o olhar com uma firmeza soberana. A intensidade que emanava dele não era de confronto, mas de alguém que domina absolutamente cada peça do tabuleiro.— A sua mente está criando um jogo muito perigoso para te dar respostas que simplesmente não existem — rebateu ele, a voz descendo a um tom grave, aveludado e visceral. — Eu não quero o seu cargo, Helena. Eu definitivamente não preciso dele.— Então me diz! — As lágrimas finalmente transbordaram, descendo quentes pelas bochechas de Helena. A vulnerabilidade de quem já fora traída antes por Ricardo vinha à tona, crua e desarmada. — Por que você sumiu ontem? Por que fez aquilo pelas minhas costas?Os olhos de Helena brilhavam, marejados pelo acúmulo de ansiedade e pavor. Ela ansiava por respostas; precisava desesperadamente resgata







