INICIAR SESIÓNHelena passou a noite acordada mais tempo do que gostaria de admitir, não por insônia comum, mas por excesso de consciência. Do espaço mínimo entre ela e Arthur na sala, do som da voz dele pronunciando seu nome como se fosse algo delicado demais para ser dito em voz alta. Do quase — que às vezes pesa mais do que o ato em si.
Na manhã seguinte, decidiu ser mais cautelosa. Profissional. Objetiva. Distante o suficiente para não alimentar o que ainda não tinha forma, mas já tinha peso. Arthur percebeu. Percebia tudo, mesmo fingindo o contrário.
— Bom dia! — disse ele, ao entrar na cozinha.
— Bom dia! — Helena respondeu, sem prolongar o olhar.
Sofia estava sentada à mesa, concentrada em colorir um desenho novo. Havia música baixa tocando ao fundo, algo instrumental, quase imperceptível.
— Hoje tem aula de artes! — Sofia anunciou — Posso levar o pincel novo?
— Pode! — Arthur respondeu automaticamente, mas seus olhos estavam em Helena.
Ela organizava a lancheira com eficiência impecável, nenhum gesto em excesso, nenhuma pausa desnecessária. Arthur sentiu um incômodo crescer no peito. O afastamento dela não era frio, era controle e aquilo o desestabilizava mais do que a proximidade.
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Durante o dia, Helena se manteve ocupada. Escola, mercado, tarefas domésticas, uma breve conversa com Cecília sobre a rotina da semana. Tudo fluía, tudo parecia normal. Normal demais.
Quando Sofia voltou da escola, trouxe um papel dobrado com cuidado exagerado.
— É segredo! — disse, entregando a Helena.
Helena abriu com delicadeza. Era um desenho simples: três figuras de mãos dadas. Uma alta, uma média, uma pequena e acima delas, um coração torto.
Helena sentiu o impacto imediato.
— Quer que eu guarde? — perguntou, com cuidado.
— Quero mostrar pro papai! — a menina respondeu, travessa — Mas só quando ele estiver feliz.
Helena engoliu em seco.
— Ele vai gostar! — disse, mesmo sem ter certeza de quando seria esse momento.
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Arthur chegou mais tarde naquela noite. O cansaço estava visível nos ombros tensos, no olhar pesado. Ele largou a pasta perto da porta e soltou o ar devagar.
— Dia difícil? — Helena perguntou, mantendo a voz neutra.
— Um pouco. — respondeu, neutro — Sofia já dormiu?
— Já.
Arthur assentiu e caminhou até a sala, sentando-se no sofá. Passou as mãos pelo rosto, um gesto raro de desgaste explícito. Helena hesitou… mas foi até a cozinha preparar um chá, não perguntou, não ofereceu conselhos; apenas colocou a xícara sobre a mesa baixa, à frente dele.
Arthur levantou o olhar.
— Obrigado.
Os dedos deles se tocaram por um segundo quando ele pegou a xícara. Foi quase nada, mas foi suficiente.
O toque foi breve, acidental, porém carregado de algo que nenhum dos dois conseguiu ignorar. Arthur retirou a mão primeiro, Helena respirou fundo.
— Helena… — ele começou.
— Se for para dizer algo, diga agora. — o encarou, séria.
Arthur se levantou devagar, diminuindo a distância entre eles.
— Eu não sei onde isso vai dar, mas sei que fingir que não existe está ficando… impossível. — disse, com honestidade crua.
— Então estabeleça limites reais, não silenciosos, não implícitos. — disse, firme.
Arthur parou a poucos passos dela.
— Meu maior medo não é ultrapassar uma linha, é perder o controle depois. — confessou.
— Controle não sustenta vínculo, Arthur. Presença sustenta. — disse, aproximando-se.
Eles estavam perto demais agora. Arthur ergueu a mão, como se fosse tocar o rosto dela — e parou no meio do caminho, o gesto suspenso no ar era mais intenso do que qualquer toque.
Helena fechou os olhos por um segundo.
— Se não for agora, vai ser mais difícil depois. — disse, quase num sussurro.
Arthur baixou a mão, dando um passo atrás.
— Boa noite, Helena.
As palavras soaram como uma decisão… e uma renúncia. Helena assentiu, sentindo a mistura de alívio e frustração apertar o peito.
— Boa noite, Arthur.
Quando a porta do quarto dela se fechou, Helena encostou a testa na madeira fria, respirando fundo.
Do outro lado da casa, Arthur permaneceu parado na sala, encarando o próprio reflexo no vidro escuro da janela. Ele não a tocara, mas o limite tinha sido testado e ambos sabiam: na próxima vez, talvez não houvesse espaço para recuar.
POV HELENA.Os dias que vieram depois foram estranhamente silenciosos, mas não um silêncio ruim. Não aquele que sufoca, que aperta o peito e faz a gente lembrar de tudo o que perdeu, era um silêncio diferente. Como se a vida estivesse respirando junto com a gente, pela primeira vez sem urgência.Arthur permaneceu no hospital por mais alguns dias, a recuperação foi lenta, cuidadosa, quase meticulosa. Cada movimento era observado, cada reação analisada — e, ainda assim, cada pequeno avanço parecia uma vitória gigantesca.Eu não saía do lado dele, nem por um minuto, não por obrigação mas porque, depois de tudo, eu precisava vê-lo ali. Precisava tocar, sentir, ter certeza de que ele ainda era real, que nós ainda éramos reais. Sofia foi quem trouxe leveza antes de qualquer outra coisa.— Mamãe, o papai já pode voltar pra casa?Todos os dias, sem falhar. Sentada ao lado da cama, com os olhos brilhando e uma esperança que não conhecia limites. Arthur sorria, ainda fraco, mas sorria.— Logo,
POV HELENA.A notícia não chegou como um choque, chegou como um silêncio pesado, profundo e inevitável.Eu estava sentada ao lado da cama de Arthur quando ouvi a porta se abrir devagar, não levantei os olhos de imediato. Meu mundo, naquele momento, cabia ali — no som do monitor, na respiração ainda frágil dele, na mão que eu não soltava por nada, mas algo no ar mudou e eu senti.— Helena…A voz de Isabella veio baixa, diferente. Eu levantei o olhar e, antes mesmo que ela dissesse qualquer coisa, eu soube.Meu peito apertou, mas não como antes, não com medo ou com desespero, era outra coisa. Uma sensação estranha, difícil de explicar.— Ele… não resistiu — ela completou.As palavras ficaram suspensas entre nós e, por alguns segundos eu não reagi. Fiquei ali, parada, olhando para ela, como se meu corpo estivesse tentando entender algo que a minha mente já havia aceitado.Jorge estava morto, meu pai. Aquele homem que, por tanto tempo, foi mais sombra do que presença. Mais dor do que prot
A madrugada parecia suspensa no tempo.No hospital, os corredores ainda carregavam o peso do que havia acontecido. O cheiro de antisséptico, os passos apressados, os sussurros contidos — tudo denunciava que aquela não tinha sido uma noite comum e, de fato, não foi.Em uma ala isolada, longe da sala onde Arthur se recuperava, outro desfecho se desenhava definitivo e irreversível.Jorge não resistiu.O tiro que atravessou seu peito não deu margem para segundas chances, nem tempo para arrependimentos tardios. Os médicos tentaram, a equipe agiu rápido mas havia limites que nem a ciência conseguia ultrapassar e ele havia cruzado todos.O corpo agora repousava coberto por um lençol branco, silencioso, distante de toda a fúria que um dia carregou. Sem voz, sem poder e principalmente sem controle.A notícia precisou ser dada e o nome que surgiu primeiro foi inevitável: Clarice.Do outro lado da cidade, o telefone tocou insistentemente frio.Clarice demorou alguns segundos para atender. O cora
SUBCONSCIENTE DE ARTHUR.Escuridão, não era uma escuridão comum, não era apenas ausência de luz, era um vazio denso, silencioso. Profundo demais para ser explicado.Arthur não sentia o corpo, não havia dor, peso, tampouco tempo. Estava apenas flutuando em algum lugar entre o que era real e o que talvez nunca mais fosse mas, aos poucos, algo começou a surgir. Um som distante e abafado, como vozes atravessando água.— Pressão caindo…— Aumenta a dose…— Vamos, mantém estável…As palavras iam e vinham, sem forma, sem sentido completo e então, uma luz. Fraca no início, quase imperceptível, mas ali, Arthur tentou se mover. Não havia corpo, tentou falar, mas não havia voz. Ainda assim, algo dentro dele reagia, como se aquela luz o chamasse e, junto com ela vieram imagens.Fragmentos de memórias: Sofia correndo pelo jardim, o riso leve, os cabelos ao vento.— Papai, olha!A cena mudou, dessa vez, Helena estava na varanda. O olhar doce, mas firme.— Você não precisa carregar tudo sozinho.A v
O tempo, naquela sala de espera, parecia não seguir as mesmas regras do mundo lá fora, os minutos se arrastavam lentos e até cruéis.Helena estava sentada, o corpo inclinado levemente para frente, as mãos entrelaçadas sobre o ventre, como se aquele gesto fosse a única coisa capaz de mantê-la inteira. O olhar perdido em algum ponto do chão não acompanhava o movimento ao redor, mas ela ouvia tudo, do tilintar das xícaras ao ruído constante dos passos no corredor e, principalmente, o silêncio entre um pensamento e outro.Túlio permanecia por perto, atento, discreto. Em alguns momentos, levantava-se para buscar água e chá, qualquer coisa que pudesse oferecer algum tipo de conforto.— Toma… — disse, entregando uma xícara quente nas mãos de Helena.Ela segurou, mas não bebeu. Observava o vapor subir lentamente, dissipando-se no ar, assim como a pouca calma que ela tentava manter.— Obrigada… — murmurou.Helena tinha a voz fraca, cansada. Enquanto o relógio na parede marcava uma hora que já
O carro avançava pelas ruas com pressa, rápido demais para uma noite comum e lento demais para o desespero que tomava conta de Helena.No banco de trás, ela apertava as mãos uma contra a outra, os dedos trêmulos, enquanto o olhar fixo pela janela mal enxergava o caminho. As luzes da cidade passavam borradas, como se o mundo lá fora não tivesse importância alguma, porque, naquele momento, nada importava além dele Arthur.— Vai ficar tudo bem… — disse Túlio, quebrando o silêncio.A voz dele era firme, controlada, mas carregava um cuidado genuíno. Ele dirigia com precisão, atento a cada movimento da rua, desviando, acelerando quando possível, fazendo o que estava ao alcance para chegar mais rápido. Helena não respondeu de imediato, apenas levou a mão ao ventre, como se precisasse lembrar a si mesma que ainda precisava ser forte.— Ele não pode… — a voz falhou — Ele não pode me deixar.— Ele não vai. — afirmou, sem hesitar.A resposta veio como uma ordem, como uma certeza que ele precisav







