LOGINÂmbar.
Sinto minha respiração acelerar, o peito apertar. Uma crise de ansiedade está vindo, eu sei. Tento me levantar e ir ao banheiro. A água fria escorre pelas minhas mãos enquanto lavo o rosto, forçando-me a respirar. Encaro o espelho, mas não gosto do que vejo. Minha mãe está certa: sou feia. Gorda. Um erro.
Entro no quarto e me tranco lá, jogo-me na cama e deixo as lágrimas caírem. É sempre assim, diariamente: humilhações e mais humilhações. Meus pais não perdem a chance de me lembrar de que fui uma filha não planejada, o "erro" deles. Minha irmã sempre ri de mim, e meus irmãos fingem que nada acontece, ignorando a forma como meus pais me tratam.
Meus pais já tinham três filhos quando nasci, e nossa família sempre foi pobre, o que tornava as coisas bem complicadas financeiramente. Só meu pai trabalhava, como contador, em uma empresa pequena no centro da cidade. Minha mãe cuidava da casa e dos filhos, e descontava toda a frustração em mim.
Sou a caçula de quatro irmãos: Adam e Ash são gêmeos (não idênticos) e têm 21 anos; Aysha é a do meio, com 18; e eu tenho 16. Não tenho primos nem amigos. Sou solitária em minha dor e sempre aguento tudo calada. Nunca consigo me impor diante deles, e isso me destrói cada dia mais. Moramos em Portland, Oregon, no noroeste dos Estados Unidos. Não tenho avós vivos, apenas uma tia por parte de mãe que mora em Nova Jersey, mas não temos muito contato. Minha vida toda eu me odiei por ser gorda, nunca me achei bonita, e minha mãe sempre fez questão de reforçar isso. Sou muito branca, ruiva, tenho os cabelos longos, olhos azuis e algumas sardas no rosto, além de ser gorda, é claro.
Sou a mais diferente da família: eles têm cabelos pretos e são magros. Sou a única ruiva, a "diferente". Minha irmã Aysha é uma das mulheres mais belas que já vi. Ela é esbelta, tem olhos de um azul bem forte, é alta, com cabelos loiros, lisos e bem longos. Sua beleza chama a atenção por onde passa, e ela poderia facilmente ser uma modelo famosa se quisesse. Meus irmãos são altos, fortes, com cabelos pretos e olhos castanhos como os do papai. Só minha mãe tem olhos azuis, que eu e minha irmã herdamos.
Tento respirar fundo e me acalmar, pois uma crise de ansiedade está prestes a começar. Forço-me a sair da cama e vou até o banheiro. Lavar o rosto e colocar as mãos sob a água fria sempre me ajuda. Depois de alguns minutos, já me sinto melhor e resolvo sair do quarto. Minha barriga dói de fome e eu me sinto fraca.
Abro a porta devagar e olho ao redor para garantir que não há ninguém em casa, pois preciso comer. Minha mãe saiu para o supermercado, meus irmãos foram para a oficina que abriram e minha irmã sempre vai para a casa da amiga para fofocar sobre suas futilidades. Com a casa vazia, essa é a oportunidade perfeita para matar a minha fome. Saio do quarto de fininho e vou até a cozinha. É uma vergonha ter que "roubar" comida na minha própria casa, mas não há outro jeito. Pego uma travessa e coloco bolo, biscoitos, frutas, uma caixinha de suco e um pote de sorvete de chocolate. Volto para o quarto e como tudo de uma vez.
Assim que termino, sinto uma culpa enorme e corro para o banheiro. Debruço-me sobre o vaso, coloco o dedo na garganta e forço o vômito. As palavras da minha mãe ecoam na minha mente, a voz dela me dizendo o quanto sou feia e nojenta. As risadas da minha irmã também ecoam, como se ela estivesse ao meu lado, me chamando de ridícula. Ouço a voz da minha mãe na minha cabeça, repetindo o quanto sou nojenta. O quanto sou um fardo.
Lamentável, não consegue ser forte, não consegue vencer a fome e assim conseguir ter um corpo bonito e ganhar o amor de todos à sua volta.
Fraca. É isso que sou. Fraca, uma vergonha.
Depois de colocar toda a comida para fora, sinto-me suja. As lágrimas banham meu rosto, e eu só quero desaparecer. Não aguento mais isso; só queria ser normal e amada. Levanto-me e olho meu reflexo no espelho, que parece rir de mim e da minha fraqueza. Lavo a boca e tiro a roupa para tomar banho, tentando deixar a água levar toda a dor da minha alma. Coloco a cabeça sob o chuveiro e deixo as lágrimas caírem livres, me bato, xingo-me e, depois, deslizo até o chão, abraçando minhas pernas e desejando sumir.
Minutos depois, já estou tremendo de frio, com os dedos enrugados. É hora de sair e, mais uma vez, enfrentar o mundo. Desligo o chuveiro, enrolo-me na toalha e volto para o quarto. Troco de roupa e levo a tigela com o restante da comida para a cozinha, lavo tudo e guardo. Pego minha mochila e sigo para a escola, outro lugar onde sou constantemente humilhada. Ao atravessar a rua, estou distraída, perdida em pensamentos, ouvindo minhas músicas favoritas nos fones de ouvido, e não percebo um carro se aproximando. Ele freia em cima de mim, quase me atropelando. Levo um susto e acabo indo ao chão e ralando o joelho no processo.
Fico confusa e sem reação por alguns minutos. Só saio do torpor quando ouço a voz grave do motorista que quase me atropelou, bem próxima a mim. Olho para ele e percebo o quanto ele é lindo: alto, branco, forte, com ombros largos que se destacam sob a camisa de algodão branca. Cabelos pretos e lisos, olhos de um azul tão intenso que me fazem perder o fôlego. Nunca vi um homem tão bonito como o que está à minha frente. Com certeza, estou parecendo uma boba e uma desastrada por não prestar atenção e quase causar um atropelamento.
— Você está bem? — Fico um pouco desconcertada, mas logo volto à realidade.
— Estou bem, foi só um susto. — Asseguro, embora ele não pareça acreditar.
YanaO sol de Chicago brilhava de uma forma diferente naquele sábado de primavera. O céu estava limpo, em um tom de azul tão intenso que parecia refletir a paz que finalmente havia se instalado em nossas vidas. A cobertura das Indústrias Miller, transformada para a ocasião, exalava uma elegância minimalista: arranjos de orquídeas brancas, velas aromáticas e uma sinfonia suave de cordas que ditava o ritmo do dia.Eu me encarei no espelho do camarim privado. O vestido de noiva, em seda pura e corte sereia, abraçava cada curva do meu corpo. Não havia espaço para inseguranças ou para as sombras do passado. A mulher que me olhava de volta era a CEO de uma das maiores holdings do país, mas, acima de tudo, era uma sobrevivente que havia aprendido o verdadeiro significado de ser amada.Uma batida leve na porta me tirou dos pensamentos. O meu tio entrou, vestindo um terno impecável. Seus olhos marejaram ao me ver.— Você está deslumbrante, querida — ele disse com um sorriso terno, caminhando at
YanaTrês semanas se passaram. O tempo suficiente para que os jornais mudassem de assunto, para que o sangue fosse limpo do mármore da holding e para que o judiciário passasse por uma purga histórica. Com o apoio do meu tio Walter, todos os registros falsificados foram corrigidos em segredo. Eu não precisava mais me esconder. A farsa terminou, e a verdade finalmente nos libertou.O processo de cura era diário, uma cicatriz que parava de sangrar aos poucos, mas nos braços de Brandon, o peso do passado simplesmente evaporava. Nosso amor não era apenas mais maduro; era inquebrável, forjado no fogo de tudo o que sobrevivemos.Para comemorar a minha nomeação definitiva como CEO absoluta das Indústrias Miller e a nossa liberdade conquistada, Brandon organizou uma noite que pertencia exclusivamente ao nosso mundo. O Luxury estava fechado para o público geral, operando apenas para nós, no camarote presidencial de vidro que pairava, como um ninho de voyeurismo e poder, sobre o palco principal
YanaO trajeto de volta para a cobertura foi um borrão de silêncio e tremores. O cheiro de pólvora e o estalo do vidro quebrando pareciam impregnados na minha pele, mas, a cada quilômetro que o carro blindado avançava pelas ruas de Chicago, a realidade de que estávamos vivos batia contra o meu peito. Brandon dirigia com as duas mãos coladas ao volante, os nós dos dedos brancos, o maxilar tão travado que a linha de seu rosto parecia esculpida em pedra. Ele não disse uma única palavra desde que saímos da holding. A calmaria gélida que ele vestira diante do corpo inerte de Benjamin ainda o cobria, mas eu conhecia o homem por trás do terno. Sabia que ele estava rachando por dentro.Assim que a porta da cobertura se fechou atrás de nós, trancando o mundo exterior do lado de fora, a armadura dele finalmente ruiu.Brandon encostou a testa contra a madeira escura da porta e seus ombros cederam. O primeiro soluço veio baixo, rasgado, como se machucasse a sua garganta para sair. Virei-me para e
Yana— Eu engravidei a empregada que limpava os meus banheiros. A mulher que, anos depois, virou sua babá. Quando os médicos disseram que Eleonor jamais poderia engravidar novamente e que o filho dela havia morrido, meu pai encontrou a solução perfeita. Pegamos você dos braços daquela mulher miserável e colocamos no berço que deveria ser do meu filho. Eleonor passou a vida inteira acreditando que você era dela. Você roubou o amor da minha esposa. Você ocupou o lugar do meu verdadeiro filho. Sempre senti nojo de olhar para você.Meu peito apertou com tanta força que quase doeu respirar.Eu esperava que Brandon desabasse. Esperava ver a dor da rejeição atingir um homem que já havia passado a vida inteira tentando entender por que nunca fora suficiente para aquele pai. Mas alguma coisa inesperada aconteceu diante dos meus olhos.O choque permaneceu apenas por alguns instantes. Depois, lentamente, como quem encaixa as últimas peças de um quebra-cabeça montado durante décadas, a expressão
YanaBenjamin soltou uma risada estridente, um som insano e agudo que ricocheteou nas paredes de vidro da holding. O cano da arma pressionou ainda mais a minha pele, quase perfurando a minha têmpora. Ele olhou para Brandon com um desprezo que ia além da rivalidade financeira; era um ódio visceral, cultivado por décadas de frustração.— Você acha que sabe de tudo, mas não passa de um idiota que eu conduzi como bem queria — Benjamin cuspiu, o hálito quente colando no meu pescoço. — É verdade que não seguiu o roteiro que planejei, mas fez muita coisa comandada por mim. Você também acabou com a vida de muitas pessoas, filho. Também tem seus próprios demônios para lidar. Talvez, se não tivesse se tornado amigo daquele imbecil, o filho de Davi, teria se tornado meu maior orgulho. Mas Christopher sempre o influenciou. Outro miserável ao qual eu adoraria dar um fim.— Sim, eu fiz coisas das quais me arrependo — Brandon retruquei, a voz gélida, embora seus olhos estivessem fixos nos hematomas
YanaAntes que eu pudesse me recuperar, ele se ajoelhou sobre o meu estômago, prendendo meus movimentos, e ficou diante de mim. A pistola escura e pesada foi pressionada com força impiedosa bem no centro da minha testa. A frieza do cano contra a minha pele contrastava com o calor febril da sua loucura irracional.— Mate-me... — sussurrei entre os dentes, engolindo o choro, encarando o fundo daquele cano de metal. — Mate-me e eles vão atirar em você no instante em que sair por aquela porta.— Exatamente — ele sibilou, e o tom de conformidade psicopática na voz dele me fez congelar. — Mas, antes de eu cair, o Brandon vai assistir ao pior fracasso da vida dele. Ele tirou tudo o que era meu. O dinheiro, as contas na Suíça, os contatos no tribunal... eu vou tirar a única coisa que ele valoriza mais do que o próprio orgulho. Eu vou quebrar o seu herói, princesa — cuspiu com desprezo. — Quero ver o que sobra daquele bastardo quando ele encontrar você sem vida na maldita sala em que ele a col







