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1| A CHANCE QUE NÃO ESPERA

Author: Ana Victória
last update publish date: 2026-01-06 03:19:49

HELOÍSA

ALGUMAS SEMANAS ATRÁS... 

Eu acordei com o coração disparado e o celular vibrando em cima da mesa de cabeceira.

Não precisei olhar as horas para saber que eu tinha dormido demais.

Levantei num pulo , o corpo ainda pesado do sono interrompido, senti o chão frio sob os pés. Minha cabeça latejava enquanto eu tentava organizar os pensamentos em meio ao pânico crescente. Entrevista. Mansão. Babá. Única chance real de colocar a vida nos trilhos.

-Droga, Heloísa...-murmurei para mim mesma , correndo para o banheiro.

Sentindo raiva de mim mesmo por ter me atrasado.

O espelho devolveu uma imagem que refletia exatamente como eu me sentia, cansada, olheiras fundas , cabelo preso às pressas num rabo de cavalo baixo.

Não havia tempo para muito mais . Me lavei rapidamente , lavei o rosto , escovei os dentes e tentei , em vão , domar os fios rebeldes dos meus cabelos com as mãos molhadas.

Escolhi uma calça jeans simples , sem rasgos , uma blusa de algodão de manga curta em tom claro – já um pouco gasta , mas limpa, porém um pouco amassada- e uma sapatilha confortável , dessas que não machucam o pé, enquanto chamava o Uber.

Não iria usar nada de maquiagem elaborada . Apenas um pouco de corretivo, rímel e um batom discreto. Eu não estava indo para um concurso de beleza. Eu precisava era de um emprego.

Peguei a bolsa, conferi o currículo pela décima vez e saí praticamente correndo. 

***

O Uber parecia se mover mais  devagar do que o normal , ou era apenas eu que estava muito ansiosa e agoniada , enquanto batia sem parar com os dedos em cima do meu colo, encarando pela janela de segundo em segundo. Na verdade , senti vontade de eu mesma tomar a condução do volante e dirigir até o meu destino - só não o faria porque daria cadeia, já havia lido um caso desses um tempo atrás na internet.

A cada semáforo fechado parecia uma provocação do universo para testar a minha paciência.

Quando finalmente cheguei, desci apressada, ajeitando a bolsa no ombro , e o coração martelando no peito.

A mansão surgia à minha frente como algo fora da minha realidade.

Alta, imponente, cercada por muros claros e jardins perfeitamente cuidados.

O portão já estava aberto, dois funcionários impecavelmente alinhados a postos, e eu quase tropecei no próprio pé ao atravessar o caminho de pedras claras que levava até a entrada principal.

Respirei fundo, tentando recuperar o fôlego e a compostura antes de me aproximar.

-Bom dia- disse , um pouco sem ar .- Vim para a entrevista da vaga de babá.

Um deles me olhou com discrição calculada, daqueles olhares treinados para não demonstrar julgamento, mas que ainda assim dizem tudo.

— Pode entrar. As candidatas já estão reunidas no hall – informou e indicou com a mão o interior da casa.

Respirei fundo antes de entrar.

Assim que atravessei a porta, senti como se tivesse passado para outro mundo. O chão de mármore refletia a luz natural que entrava pelas janelas enormes, cortinas claras de tecido pesado emoldurando cada espaço. O cheiro… não era perfume, nem produto de limpeza comum. Era algo sofisticado, um cheiro único que com certeza só se sentia em casa de gente rica , como esta aqui.

Meu olhar recaiu nas candidatas. E ali, naquele exato segundo, tive certeza absoluta de que não tinha a menor chance.

Eram cerca de doze mulheres, todas perfeitamente alinhadas perto da escadaria principal. Usavam uniformes sob medida — vestidos azul-marinho ou cinza claro, cinturas marcadas, barras no comprimento exato do joelho. Os cabelos estavam presos em coques impecáveis, sem um fio para fora do lugar. Maquiagem discreta, mas evidentemente profissional. Postura reta, mãos cruzadas à frente do corpo, expressões serenas e confiantes.

Pareciam aquelas babás que só víamos em revistas e comercial de margarina para milionários.

Olhei para mim mesma, me sentindo envergonhada.

De jeans simples, uma blusa modesta e sapatilha sem salto. Me senti deslocada no mesmo instante.

Eu não estava ali para impressionar. Eu estava ali para trabalhar – tentei me convencer disso- mas naquele ambiente, isso parecia pouco.

Percorri o ambiente com o olhar , tentando ignorar o constrangimento que subia pela garganta . 

Engoli em seco, pigarreei sem querer e passei a mão pela frente da blusa, como se pudesse magicamente torná-la mais elegante. Caminhei até o grupo e me posicionei um pouco afastada, mantendo minha postura ereta – mesmo com o rosto quente- sentindo os olhares imediatamente recaírem sobre mim.

Eu estava ali por um motivo e precisava me lembrar disso.

Elas me avaliaram sem pudor.

De cima a baixo.

Algumas trocaram cochichos rápidos. Uma cobriu a boca com a mão, disfarçando um sorriso que não tinha nada de gentil. Outra arqueou a sobrancelha como se estivesse pensando consigo mesma: essa não dura cinco minutos.

Meu rosto queimou em constrangimento.

Mantive o olhar baixo, respirando fundo, repetindo mentalmente que eu não precisava competir com ninguém. Só precisava ser eu.

Foi então que uma senhora entrou no hall.

Ela caminhava com passos firmes, parecia estar na casa dos cinquenta, postura impecável, uniforme social em tom grafite, os cabelos grisalhos estavam presos num coque tão firme quanto sua expressão, que não deixava margem para intimidade.

— Bom dia — disse, com um olhar gélido. — Sou Matilde, governanta desta casa.

Todas endireitaram ainda mais a postura.

— Peço que formem uma fila — continuou. — E entreguem seus currículos. Em seguida, façam uma breve apresentação.

Uma a uma, elas obedeceram.

E foi ali que minha esperança começou a morrer oficialmente, conforme escutava a formação de cada uma delas.

— Sou formada em Pedagogia e Psicologia Infantil — disse a primeira. — Sou fluente em inglês e francês.

— Tenho especialização em desenvolvimento cognitivo — falou outra. — Ensino piano, desenho e falo fluentemente espanhol.

— Trabalhei com famílias diplomáticas — acrescentou uma terceira. — Tenho experiência com crianças neurodivergentes.

Babás de alto nível.

Profissionais moldadas para famílias ricas, exigentes e perfeccionistas.

Quando chegou minha vez, minhas mãos estavam frias.

O que eu iria falar se eu não tinha um currículo tão abastado quanto o dessas mulheres?

Serviria de chacota - o diabinho soprou no meu ouvido me incentivando a virar nos meus calcanhares e sair com meu rabinho entre as pernas, antes que bancasse a ridícula.

Entreguei o currículo simples, sentindo o olhar de Matilde me escanear com atenção exacerbada.

— Bom dia , me chamo Heloísa — falei. — Tenho ensino médio completo e não tenho experiência como babá , mas sei lidar muito bem com crianças 

Minha voz pareceu ecoar no vazio.

Matilde assentiu, sem expressão. Me dando uma última avaliação com seu olhar de gelo , do alto da minha cabeça até a planta dos pés.

Meu senhor, a mulher deveria estar me achando um desastre ambulante.

Eu queria desaparecer.

Foi então que o inesperado aconteceu.

Uma empregada surgiu correndo de um corredor lateral, os olhos arregalados, claramente em pânico.

— Senhora Matilde! — disse, quase sem fôlego. — A menina… a Kitana… ela está engasgada!

O ar pareceu ser sugado do ambiente.

Matilde levou a mão à boca em estado de choque.

— Meu Deus…

Um burburinho começou entre as candidatas.

— Alguma de vocês tem experiência prática em primeiros socorros? — perguntou Matilde, olhando diretamente para o grupo.

Silêncio sepulcral se fez no ambiente, adicionados a trocas de olhares nervosos.

— Eu… eu tive aula teórica — disse uma, hesitante.- Mas nunca precisei aplicar 

— Talvez seja melhor chamar um médico — sugeriu uma outra candidata. — É muito arriscado.

— Sim, se algo der errado… - a que estava ao meu lado disse apreensiva.

Matilde franziu o cenho.

— O médico já foi acionado, mas levará algum tempo até chegar aqui — disse, firmemente. — Venham comigo.

Seguimos até a sala de jantar.

Kitana estava ali, pequena, amparada por duas empregadas. O rosto já começava a ficar arroxeado. Os olhos arregalados, visivelmente não conseguia respirar.

Meu coração disparou em agonia.

O pânico tomou conta do ambiente.

- Coloque-a de pé - ouvi minha própria voz ecoar, antes mesmo de pensar.

As candidatas me olharam horrorizadas, como se eu estivesse sendo imprudente.

-Você ao menos tem formação em primeiros socorros, como pensa que vai conseguir ajudar? Vai matar a criança – Uma das candidatas de cabelos negros me olha acusadoramente.

-Ela vai morrer é se ninguém ajudar- me irrito jogando contra a sua cara o óbvio

Volto-me para as empregadas

- Agora - insisti.

Elas olharam para a governanta em busca de aprovação e então Matilde lhes deu um aceno de cabeça e tão logo obedeceram.

Ajoelhei-me atrás da menina, tentando ignorar o tremor violento das minhas pernas.

 Posicionei o corpo dela corretamente, fechei o punho direito e o envolvi com a outra mão.

Eu lembrava.

De um texto aleatório na internet.

De uma imagem com instruções simples.

Pressões rápidas, para cima e para dentro.

— Vai ficar tudo bem — murmurei, mais para mim do que para ela.

Uma pressão.

Duas.

O corpo dela sacudiu.

Na terceira, o pedaço de maçã foi expelido, voando e caindo sobre o tapete claro.

Kitana puxou o ar com força e começou a chorar.

Eu soltei o ar que nem sabia que estava prendendo, fechando os olhos por um segundo.

— Graças a Deus — ouvi Matilde dizer, claramente aliviada.

Acariciei o rosto da menina.

— Shhh… agora está tudo bem — falei, suavemente.

Ela me olhou ainda chorosa, e de repente pulou nos meus braços.

— Obrigada, moça — disse apertando meu pescoço, me surpreendendo

Meu coração quase se partiu.

Abrancei-a de volta, com cuidado.

Ela acenou para mim quando foi levada.

— Tchau…

— Tchau, Kitana — respondi, sorrindo.

O silêncio que se seguiu foi pesado.

Matilde pigarreou.

— A entrevista está encerrada — anunciou. — Heloísa foi contratada.

O choque foi imediato.

— Isso é um absurdo — murmurou uma das candidatas com um olhar colérico.

— Ela fez cena — disse outra, gesticulando em minha direção.

— Não comemora muito — sussurrou alguém. — Você não vai aguentar ficar nem uma semana aqui. Não faz ideia de quem é o patrão.

Algumas riram, frustradas.

— A gente sabe muito bem por que estamos aqui — disse uma delas, em tom ácido. — Ou melhor… estávamos. Eu queria tanto conquistar aquele homem, seria minha chance de ouro e essa mulher sem experiência alguma tirou de mim. - me olhou indignada.

Desviei meu olhar delas me sentindo incomodada.

Matilde dispensou todas com um gesto firme.

Depois, voltou-se para mim.

— Venha — disse. — Vou lhe mostrar a casa.

Enquanto caminhávamos pelos corredores intermináveis, ela explicava tudo com precisão quase militar.

— Kitana tem seis anos. Possuí uma rotina rígida. Seu café da manhã é servido às sete com o pai. A refeição ao meio-dia e o jantar ela faz sozinha, porque o patrão chega tarde do trabalho.

— E depois das vinte — continuou — O patrão não deseja ver empregados circulando pela casa.

Nossa...esse homem deve ser um porre - eu penso ,já começando a me lamentar antes mesmo de começar . Entretanto não podia reclamar , só o fato de ter passado nesse teste diante de currículos de tão alto nível, era para levantar as mãos para os céus e agradecer a Deus , porque com certeza foi um milagre.

Observei  Matilde parando diante de uma porta trancada.

— Este quarto jamais deve ser aberto - ela alerta - É contra as regras. As chaves ficam comigo e outra com o patrão , o senhor Luiz Fernando.

Assenti, sentindo um arrepio estranho atravessando a minha pele .

— E os finais de semana são de folga.

Assenti empolgada e aliviada ao mesmo tempo.

Mas, no fundo… inquieta.

Aquela casa era linda.

Luxuosa.

Em contrapartida, era silenciosa demais.

Por mais bizarro que fosse, eu tinha a sensação nítida de que havia acabado de entrar em algo muito maior do que um simples emprego.

E que, cedo ou tarde, a conta viria.

Mas uma coisa me deixava com as pulgas atrás das orelhas.

O que será que tinha por detrás daquela porta?

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