INICIAR SESIÓNEu sabia o que o espelho fazia com ela.Desde a primeira noite, quando Aggy pendurou a moldura antiga na parede ao lado da cama, eu senti a energia dela fluir para mim como um rio invisível. Não era algo que eu controlasse. Era o espelho, a maldição, o vínculo que nos unia. O objeto antigo se alimentava da vitalidade do portador, drenando lentamente, como uma sede que nunca se saciava. E eu, preso ali, era o receptor involuntário daquela energia.Por isso Aggy acordava exausta. Por isso as olheiras se aprofundavam e o cansaço pesava em seus ombros como uma capa invisível. Eu odiava aquilo. Odiava ver o brilho dos olhos dela diminuir, a vivacidade se apagando aos poucos. Mas não podia fazer nada. Não enquanto estivesse preso.Naquela noite, quando ela adormeceu depois do banho, eu fiquei sentado na borda da cama, observando. O rosto dela estava relaxado, os cabelos escuros espalhados no travesseiro, a respiração lenta. Pela primeira vez em dias, ela dormia profundamente, e eu me permi
— Você está quieto de repente. — Aggy murmurou quando a aula terminou e os estudantes começaram a sair. Ela estava guardando o caderno na mochila, os movimentos calmos, como se tivesse todo o tempo do mundo.— Estou pensando. — Respondi, a voz baixa.— Perigoso. — Ela brincou, e o sorriso que se formou em seus lábios fez algo se contrair dentro de mim.— Mais perigoso é você andando com aquele nerd. — Retruquei, levantando-me da mesa.— Ele tem nome, você sabe. — Ela disse, ajeitando a alça da mochila no ombro.— Prefiro o apelido.Ela revirou os olhos, e eu senti uma pontada de satisfação. Aggy saiu da sala andando pelo corredor, os passos firmes, o cabelo escuro balançando. Eu fui atrás, como uma sombra que se recusava a desaparecer.— Você precisa parar de me seguir. — Ela murmurou, sem olhar para trás.— Eu não posso ficar longe de você. — Respondi, e a frase tinha mais verdade do que eu gostaria de admitir.— Isso é cansativo.— Mas você não quer que eu vá embora. — Arrisquei.El
A aula de Projeto de Interiores era entediante na maior parte do tempo.A professora falava sobre proporções, iluminação natural e materiais sustentáveis, enquanto eu observava a sala com uma paciência que séculos de existência me ensinaram a cultivar. Aggy estava na fileira do meio, perto da janela, o caderno aberto sobre a mesa, a caneta girando entre os dedos em um movimento distraído que parecia hipnotizá-la tanto quanto a mim. Eu estava em pé ao lado dela, invisível para todos, as mãos enfiadas nos bolsos da jaqueta. Ninguém podia me ver, a sala inteira me tratava como um móvel, o que era irônico, considerando o quanto eu opinava mentalmente sobre a decoração do lugar. Mas Aggy sabia que eu estava ali. A forma como seus ombros ficavam mais tensos quando eu me aproximava, a maneira como seus olhos se desviavam para o reflexo na janela procurando por mim, o jeito como a respiração dela mudava quase imperceptivelmente. Nada disso me passava despercebido.A professora anunciou o tr
Acordei com o corpo pesado, como se tivesse corrido uma maratona durante a noite.Cada músculo doía, uma dor surda e profunda que parecia vir de dentro dos ossos. Tentei me sentar, mas os braços tremeram com o esforço, e precisei de alguns segundos para conseguir erguer a cabeça do travesseiro. A sensação era estranha, como se alguém tivesse sugado minha energia enquanto eu dormia, deixando apenas o cansaço para trás.— O que... — Murmurei, a voz rouca, mal saindo da garganta.O quarto estava silencioso, apenas o som do meu coração batendo contra as costelas. O espelho, na parede, refletia meu rosto cansado. Olheiras mais fundas, cabelos desalinhados, a expressão de quem não dormia há dias. Mas eu tinha dormido. Pelo menos tentado.O problema é que não parecia ter descansado.Arrastei-me para fora da cama com um esforço que exigiu toda a minha concentração, os pés descalços encontrando o chão frio do dormitório. Cada passo era uma batalha, e eu mal conseguia manter os olhos abertos en
Terminei de me vestir com a porta do banheiro trancada, as mãos ainda tremendo enquanto puxava a calça jeans preta sobre as coxas e ajustava a camiseta. Meu reflexo no espelho embaçado do banheiro parecia tão confuso quanto eu me sentia. Eu tinha acabado de conhecer um cara que saiu de um espelho. Um cara que disse que eu era filha de uma bruxa. Um cara que estava, neste exato momento, sentado na minha cama como se fosse o dono do lugar.Quando voltei para o quarto, ele estava exatamente onde eu o deixei, sentado na cama, uma perna cruzada sobre a outra, os olhos âmbar fixos em mim com uma intensidade que me fazia sentir exposta.— Você ainda tá aqui. — Disse, fechando a porta atrás de mim com um clique suave.— Eu disse que não tinha para onde ir. — Ele respondeu, recostando-se nos cotovelos, a jaqueta de couro rangendo com o movimento. — E você não pareceu muito disposta a me jogar para fora.— Porque você não é físico, lembra? Eu tentei. A caneca atravessou você.— Verdade. — Ele s
Acordei cansada.Não era o cansaço normal de quem dormiu mal ou teve uma noite agitada. Era algo mais profundo, como se alguém tivesse deitado sobre mim durante a noite inteira, sugando minha energia enquanto eu dormia. Meus membros pareciam pesados, minha cabeça latejava e a sensação de exaustão era tão intensa que precisei de alguns segundos para sequer conseguir sentar na cama.O espelho continuava no mesmo lugar.Pendurado na parede ao lado da cama, a moldura escura refletindo a luz fraca da manhã que entrava pela janela. Eu o encarei por um momento, os olhos ainda turvos de sono, e foi então que vi.Meu reflexo estava sorrindo.Não era um sorriso largo, nem ameaçador. Era um sorriso pequeno, quase imperceptível, mas definitivamente não era o meu. Eu não estava sorrindo. Meu rosto cansado, as olheiras profundas, a boca relaxada em uma linha reta.Pisquei. Esfreguei os olhos com as costas das mãos. Olhei novamente.Nada. Apenas meu reflexo normal. Cansado, desalinhado, mas normal.







